Carla tem 30 anos e há três está se submetendo à psicoterapia. Carla é a caçula, possui dois irmãos e relata um ambiente familiar bastante conflituoso. Afirma que seus pais não haviam planejado um terceiro filho e, em consenso, resolveram tentar um aborto. Para tal, a
mãe de Carla tomou remédios, porém o aborto não ocorreu. Durante a gestação, a mãe de Carla desejava ter uma menina que servisse de companheira. Talvez pela tentativa de aborto, Carla nasceu bastante debilitada e teve uma infância marcada por muitas doenças e internações em hospitais. Vivia “grudada” na mãe que a levava para todos os lugares, inclusive para o banheiro, e, mesmo já crescida, continuava sentando no colo.
Carla relata sentir-se feminina desde a infância, gostava de bonecas, mas era reprimida pelo pai. Na adolescência, Carla foi levada, pelos pais, ao médico para tentar “corrigir” seu comportamento feminino. Nessa época, submeteu-se a um tratamento com hormônios masculinos, o que, segundo Carla, só serviu para “ativar” sua sexualidade. Até à idade adulta, Carla não sabia da existência do transexualismo e, portanto, acreditava ser homossexual. Chegou a freqüentar círculos homossexuais, mas sentia-se deslocada, pois, segundo ela, o universo feminino era tratado com irreverência e ironia. Somente quando fazia faculdade descobriu, através da internet, a existência do transexualismo e logo se identificou com essa condição. Ainda na faculdade, Carla conheceu um transexual, ainda com aparência masculina, com quem criou um grande vínculo. Esse transexual se submeteu à cirurgia de redesignação sexual e Carla teve a oportunidade de ver o resultado. Logo percebeu que era isso que faltava para se sentir bem consigo mesma.
A vida afetiva e sexual de Carla não é satisfatória, tendo em vista a dificuldade de conseguir um parceiro ou namorado. Seus contatos sexuais, em geral, eram com homossexuais, no entanto Carla não queria ficar nua e recusava que o parceiro tocasse seus genitais. Tinha dificuldade, também, com as cobranças de seus parceiros para que tivesse uma “postura de homem” no meio social. Em uma dessas relações, Carla conta que teve uma espécie de crise, onde sentiu “como que uma facada no peito” e afastou o parceiro. Para ela foi como se algo estivesse lhe dizendo que não era mais possível viver daquela maneira. Carla relata que se masturba, mas, de maneira “diferente” dos homens. Segundo conta, ela
não pode olhar para o pênis durante a masturbação, pois, perde o desejo. Carla tem consciência de que a cirurgia não melhorará sua vida afetiva, uma vez que não fará com que homens heterossexuais se interessem por ela, mas considera que este não é o ponto mais importante, uma vez que sua problemática é mais ampla do que o campo sexual, pois envolve seu sentimento de identidade.
Carla sempre se vestiu com roupas que não ressaltassem as características masculinas. Por volta dos 23 anos, resolveu começar a se vestir de mulher. Pouco tempo depois, seu pai saiu de casa, alegando que, se continuasse ali, acabaria por matá-la. A ausência do pai trás para a paciente um sentimento de liberdade. A mãe de Carla não aceita a condição da filha e se recusa a falar com ela sobre essa situação. Ainda que conflituosa, Carla considera que a relação com a mãe permanece “simbiótica”. O nome feminino que adotou é o mesmo que sua mãe daria à filha que desejava.
O pai de Carla sempre procurou reprimir a feminilidade da mesma, chegando a mandá-la para viver na casa da avó paterna, em outra cidade, para “endireitá-la”. Seu pai era muito agressivo e, algumas vezes, agrediu fisicamente a mãe de Carla. A própria paciente foi ameaçada pelo pai, principalmente em razão de seus comportamentos femininos.
O irmão do meio de Carla sofreu grande rejeição por parte da mãe. Levava surras violentas, enquanto os demais levavam apenas “uns tapinhas”. Ainda bem novo tinha sua higiene negligenciada e até mesmo o leite, preparado para todos os filhos, era mais ralo para ele. Na época em que servia ao exército, esse rapaz teve um surto psicótico. Todos os filhos, até à adolescência eram impedidos de freqüentar a casa de colegas ou de receber visitas. Os pais nunca foram afetuosos e carinhosos entre si e em relação aos filhos.
A mãe de Carla era, na infância, a filha predileta. Segundo a paciente, sua avó tinha uma personalidade dominante, era o “homem” da casa. Os pais de Carla casaram-se três meses após se conhecerem, o que, de acordo com Carla, deveu-se à vontade de sua mãe de
sair de casa. Os maus tratos que sofria levaram a mãe de Carla a abandonar o marido e voltar para a casa de sua mãe, após o nascimento do primeiro filho. Posteriormente, voltou a se comunicar com o marido e acabou por retornar para o convívio com este.
Carla se queixa de conflitos relacionados ao seu corpo, fazendo, há cerca de três anos, tratamento hormonal por conta própria, visando adquirir uma aparência feminina. Relata não ter dinheiro para realizar o tratamento como deveria, mas sente-se aliviada com as mudanças já ocorridas em seu corpo. Apesar de fazer parte de um grupo de transexuais ligado à rede pública de saúde, não pretende esperar os trâmites oficiais para a realização da cirurgia de redesignação sexual, pois alega ser muito demorada a obtenção de uma autorização. Desse modo, pretende conseguir um bom emprego para poder custear a cirurgia. Atualmente, Carla vive com a mãe e com a avó materna na casa desta última. O ambiente é bastante conflituoso e Carla quase não sai de casa. Sua avó aceita a condição da neta, mas proíbe que ela leve homens para casa.