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No início do trabalho prático da pesquisa-ação a entrada no sistema cliente tem a intenção de negociar algo que seja benéfico para o pesquisador e para o cliente (DICK, 1993). Devem ser negociados o papel do pesquisador e a sua flexibilidade no que fazer, importante para garantir algumas vantagens da PA. Também é importante, nesse momento, definir a estrutura e o nível de participação dos interessados no projeto. Questões como quem será envolvido, como eles serão envolvidos e no que eles serão envolvidos devem ser definidas buscando-se criar um grupo com o máximo de diversidade para conseguir melhores informações (DICK, 1993, 2002). Na articulação da ação com a pesquisa, esses e outros atores devem ser identificados e o alcance e os critérios de seus atos devem ser constantemente redefinidos à luz das informações e do conhecimento obtidos no processo de pesquisa (THIOLLENT, 1997).

Para o caso da dissertação, foram feitas algumas visitas à organização para realizar um levantamento prévio das possíveis demandas da empresa e uma avaliação da relevância dessas demandas para a área de estudo do aluno. Verificou-se uma disposição por parte da direção da Embrapa em colaborar com o desenvolvimento do projeto de pesquisa e utilizar os conhecimentos do aluno sobre a área de estudo no mestrado durante o desenvolvimento de um trabalho relevante para a organização. O autor foi contratado pela instituição para trabalhar em tempo integral, se incorporando como participante do sistema cliente, ao mesmo tempo em que desempenhava o papel de pesquisador. Com isso, o pesquisador assumiu responsabilidades por algumas decisões da própria organização, mas desempenharia esse papel, em um período inicial, sob avaliação da direção. A equipe de trabalho foi sendo formada, então, à medida que o autor conhecia a situação, a partir do seu próprio julgamento sobre a importância de cada ator em participar do grupo e levando em conta a visão dos envolvidos sobre o papel dos demais.

Para alcançar ambos os objetivos de resolver um problema para a organização e gerar conhecimento para a dissertação, Zuber-Skerritt & Perry (2002) propõem que deve haver dois

tipos distintos de projetos de pesquisa-ação. O projeto principal envolve o pesquisador no grupo de trabalho de praticantes na organização, com a ênfase no alcance dos resultados práticos. O projeto de tese envolve o pesquisador em um grupo de trabalho de pesquisadores e é suportado por seminários buscando atender aos requisitos convencionais de teses. Com a existência desses dois projetos, o trabalho prático, guiado por um objetivo distinto em relação ao problema de pesquisa, pode ser utilizado para a reflexão e a geração de conhecimentos sobre situações nele envolvidas, mesmo que essas não tenham tanta relevância para a organização. A figura 13 mostra a relação entre os dois tipos de projetos.

Figura 13 - Relação entre pesquisa da tese, pesquisa-ação principal e redação da tese Fonte: Zuber-Skerritt & Perry (2002)

Ao iniciar a intervenção na Embrapa Milho e Sorgo, foram estabelecidos prazos e critérios para o cumprimento da demanda da organização. Em um período de três meses era necessário que fossem apresentadas propostas de melhoria para o Processo de Desenvolvimento de Cultivares da empresa, objeto de estudo do projeto. Esse era o projeto principal, do qual o pesquisador deveria prestar contas à organização. Todavia, o trabalho desenvolvido para o alcance dos resultados para a Embrapa também era utilizado para a geração de conhecimento acadêmico, caracterizando um projeto paralelo, o projeto de pesquisa da dissertação. Diferente do projeto principal, o objetivo primário da pesquisa não era o alcance dos resultados de melhoria do processo, mas a análise da abordagem adotada e da aplicação de métodos e práticas de gestão de desenvolvimento de produtos. Assim, além de propor soluções à direção da empresa, novos conhecimentos, relevantes para a engenharia de produção, deveriam ser gerados.

A construção do arcabouço teórico pela pesquisa-ação é feita por um processo cíclico ou espiral que envolve planejamento, ação e revisão. Nesse processo, idéias particulares são usadas em uma metodologia para investigar uma área de interesse (CHECKLAND & HOLWELL, 1998), conforme mostra a figura 14. Cada metodologia apresenta uma forma de operacionalizar esse processo cíclico, com variações em relação às etapas da espiral e à forma de utilização das técnicas de coleta e análise de dados. A construção de uma estrutura teórica, todavia, não depende apenas da informação colhida por intermédio de técnicas empíricas. A alternância entre ação e reflexão crítica tem um papel crucial nesse processo (DICK, 2002).

Figura 14 - Elementos relevantes na condução de uma pesquisa Fonte: Checkland & Holwell (1998)

Ao entrar na situação problema, o pesquisador toma parte na ação e, constantemente, deve refletir sobre o trabalho desenvolvido, incluindo questões relativas ao conteúdo estudado e à metodologia adotada. A reflexão refina o tema da pesquisa levando a novas situações para intervenção. Essa dinâmica se desenvolve de forma cíclica durante todo o período da pesquisa. Nos ciclos posteriores pode-se desafiar a informação e a interpretação dos ciclos anteriores (DICK, 1993). A informação trazida à discussão no grupo de pesquisadores e atores é interpretada à luz de uma teoria. Se a informação chegar a por em dúvida certos elementos da teoria conhecida, o problema deverá ser objeto de estudos aprofundados (THIOLLENT, 1986). Dessa forma, a estrutura de idéias e a própria metodologia são susceptíveis a mudanças ao longo do percurso (CHECKLAND & HOLWELL, 1998). A reflexão crítica contínua, além de refinar o tema, gera os conhecimentos relevantes para a ciência, alimentando os achados para a dissertação. A figura 15 ilustra esse processo. Ele não segue uma série de fases rigidamente ordenadas. Entre o ponto de partida e o ponto de chegada, há uma multiplicidade de caminhos a serem escolhidos em função das circunstâncias (THIOLLENT, 1986). Percebe-

se, assim, que a pesquisa-ação é adequada quando o pesquisador tem a postura de engajar-se em uma pesquisa não para aprender uma abordagem de pesquisa em particular, a partir da literatura, mas em busca de um aprendizado pela investigação, questionando as suposições sobre a natureza do conhecimento e das metodologias (DICK, 2002).

Figura 15 - O ciclo da pesquisa-ação em situações sociais Fonte: Checkland & Holwell (1998)

O estudo realizado foi proposto inicialmente tendo as teorias de gestão de desenvolvimento de produtos e de sistemas como estrutura de idéias, a ser aplicada através da Soft Systems Methodology, como metodologia, para investigar a área de desenvolvimento de cultivares da Embrapa. O trabalho foi iniciado a partir de um conhecimento mínimo do autor sobre as teorias a respeito de desenvolvimento de cultivares e da própria SSM. Com o desenrolar gradual do projeto, entretanto, cresceu o interesse na análise de aspectos metodológicos, e a própria teoria da SSM, na forma apresentada no capítulo 2, passou a constituir também a estrutura de idéias, utilizada como referência na reflexão sobre o fluxo de eventos do dia a dia do projeto, própria dos ciclos da pesquisa-ação. A área de interesse, nesse caso, era o aprendizado do autor sobre o uso da SSM. Ao longo do tempo, à medida que as proposições da pesquisa se tornaram mais explícitas, o estudo bibliográfico foi aprofundado e passou a contribuir tanto para a análise crítica dos resultados alcançados quanto para a própria orientação da prática, enriquecendo o conhecimento gerado e o planejamento para a continuidade do projeto. Isso configurou um ciclo de aprendizagem, com alternância entre momentos de prática e de reflexão teórica. Assim, tanto a exploração da teoria quanto as próprias contingências da organização foram moldando, a cada novo evento da investigação, a

forma como a situação era abordada e resultaram no processo de intervenção apresentado no próximo capítulo.

Ao final do prazo estabelecido inicialmente para o projeto principal, com as proposições de melhoria no PDC aceitas pela direção da empresa, decidiu-se por dar continuidade no trabalho, institucionalizando-se um novo projeto principal, com objetivo de alcançar as melhorias propostas para o processo. O projeto de pesquisa passou, então, a focar a geração de conhecimento não apenas metodológico, sobre a SSM, mas também substantivo, sobre a gestão de desenvolvimento de produtos, cujos resultados são apresentados no capítulo 6.

4.4 Conclusão

O projeto de pesquisa foi conduzido utilizando a estratégia da pesquisa-ação devido às características da situação e da própria metodologia que era objeto de estudo. O pesquisador, como funcionário da empresa, buscava obter tanto resultados práticos para a organização quanto geração de conhecimento. Com isso, foi operacionalizado um ciclo de aprendizagem, que utilizava e alimentava o trabalho realizado com o grupo de atores da Embrapa, definindo os rumos da intervenção a partir das reflexões feitas sobre a própria prática. O papel assumido pelo pesquisador na organização demandou uma articulação cuidadosa do projeto profissional com a investigação acadêmica. O tema da pesquisa foi se moldando com a evolução da investigação e se consolidou de acordo com as demandas e as contingências da situação, suportado pela revisão teórica e por momentos de reflexão fora do fluxo de trabalho, que direcionavam a geração de conhecimento para um foco de maior relevância acadêmica.

Os resultados da pesquisa foram gerados ao longo de todo o processo de investigação e ajudavam no direcionamento da continuidade do estudo e, conseqüentemente, na organização dos ciclos posteriores de pesquisa. O conhecimento obtido diz respeito à situação estudada e foi fortemente influenciado pelas características da organização e da própria forma de condução da pesquisa. Contudo, podem servir de referência para a condução e a reflexão de estudos e práticas posteriores, tanto na própria instituição onde foram gerados quanto em situações e contextos bastante diversos.