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Desenvolvimento de Mentes para o Futuro- Empreendedora e Criativa

Resumo

No mundo do trabalho valoriza-se cada vez mais o profissional com uma mente empreendedora e criativa. Exige-se que ele ou ela sejam competentes para lidar com os desafios e as ameaças que se colocam na sociedade competitiva, que dominem estratégias eficientes para a abordagem do imprevisto e que encontrem soluções viáveis para a resolução dos novos problemas.

A compreensão da criatividade como um processo dinâmico entre os sistemas sociais e o indivíduo e a relevância de estimular e reforçar a capacidade criativa dos estudantes dos distintos graus de ensino tem vindo a conquistar cada vez mais adeptos. Nos anos 90 Sternberg e Lubart chamaram a atenção para o fato do comportamento criativo se encontrar relacionado com uma convergências de fatores individuais, como a inteligência, estilo de pensamento, personalidade e motivação, características ambientais e conhecimento.

Curiosamente, não tem sido dada a devida importância ao desenvolvimento das mentes do futuro apresentadas por Gardner (2006). Se foram identificadas capacidades cognitivas que podem ser conquistadas e desenvolvidas para obter sucesso, então é preciso promover o pensamento empreendedor e criativo em contexto escolar, em particular, no ensino superior. O presente estudo pretende compreender as relações entre estes dois pensamentos para melhor planear e implementar práticas que favoreçam o empreendedorismo e a criatividade. Apresentamos os resultados e implicações da aplicação do Questionário de

Competências Empreendedoras (Faria, 2011) e da Escala de Personalidade Criativa

(Jesus e col., 2011) a 150 alunos do Instituto Politécnico de Beja.

Palavras chave: Estudantes do Ensino Superior; Personalidade Criativa; Desenvolvimento; Mente Empreendedora; Mente Criativa

6 Faria, M. (2013). Desenvolvimento de Mentes para o Futuro- - Empreendedora e Criativa, . Silva, B., Almeida, L., Barca, A., Peralbo, M., Franco, A. & Monginho, R. (Org.) Livro de Atas do XII Congresso Internacional Galego- Português de Psicopedagogia. Braga: CIEd – Centro de Investigação em Educação, Instituto de Educação, Universidade do Minho. (3357-3369) ISBN: 978-989-8525-22-2

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Developing Minds for the Future- Entrepreneurial and Creative

Abstract

In the world of work the professional is increasingly valued with an entrepreneurial and creative mind. He or she is required to be competent to deal with the challenges and threats posed by competitive society, to master effective strategies for dealing with the unforeseen, and to find viable solutions to solve new problems.

The understanding of creativity as a dynamic process between social systems and the individual and the relevance of stimulating and reinforcing the creative capacity of students of different educational levels has been gaining more and more followers. In the 1990s Sternberg and Lubart drew attention to the fact that creative behavior is related to a convergence of individual factors such as intelligence, thinking style, personality and motivation, environmental characteristics and knowledge.

Curiously, the development of the minds of the future presented by Gardner (2006) has not been given due importance. If cognitive abilities have been identified that can be conquered and developed to be successful, then it is necessary to promote entrepreneurial and creative thinking in a school context, particularly in higher education. The present study intends to understand the relations between these two thoughts to better plan and implement practices that favor entrepreneurship and creativity.

We present the results and implications of applying the Entrepreneurial Skills Questionnaire (Faria, 2011) and the Creative Personality Scale (Jesus et al., 2011) to 150 students of the Beja Polytechnic Institute.

Key words: Higher Education Students; Creative Personality; Development; Entrepreneurial Mind; Creative Mind

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Introdução

Nas sociedades humanas as pessoas competentes têm mais possibilidade de fazer face às adversidades da vida. Estamos a falar de inteligência e de características da personalidade que viabilizam a resolução de problemas, atitudes visionárias, ultrapassagem de fracassos e persistência em trilhar caminhos que conduzem ao êxito. Uma mente empreendedora e uma mente criativa podem fazer a diferença entre vidas de sucesso ou de mais ou menos fracasso. Mas, como promover uma inteligência empreendedora e criativa em ambientes que nem sempre são favoráveis à sua promoção e recompensa? Quando a criatividade foi aceite como uma mais valia no mundo dos negócios o pensar sobre o pensamento empreendedor e o pensamento criativo foram compreendidos como potencialidades de relevância para a inovação, produtividade e riqueza.

A psicologia do empreendedorismo tem contribuído para explicar o processo de empreender. Através da sua investigação sobre o estudo das acções decisivas (comportamento), das percepções e implementações de oportunidades (percepção, cognição, emoções, motivação) mostra como se chega a um empreendedorismo de sucesso (Frese, 2010). Observou-se que, o processo de empreender encontra-se relacionado com vários factores psicológicos, como a motivação, atitudes e comportamentos (McClelland, 1961; Moore & Buttner, 1997; Hisrich & Peters, 2002; cit. Jonathan, 2005). Assim, de acordo com vários autores, a personalidade desempenha um papel determinante no empreendedorismo e nas acções empreendedoras para se iniciar um negócio ou para obter êxito.

Na época de 60, David McClelland, um professor de Psicologia da Universidade de Harvard, escreveu um livro intitulado “The Achieving Society”, (1967), que se tornou numa referência para os psicólogos no estudo do empreendedorismo, em particular, na “associação de necessidades de realização” dos indivíduos com o empreendedorismo e com o desenvolvimento económico. McClelland (1987) identificou três tipos de necessidades motivacionais: (1) necessidade de realização (n-

achievement), (a pessoa é motivada pela realização e procura-a, apresenta-se realista

e com objectivos de desafio e de promoção do seu trabalho, sente uma grande necessidade de feedback para a sua realização e progressão, bem como a necessidade

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de se sentir realizado); (2) necessidade de autoridade e poder (n-power), (a pessoa é motivada pela autoridade, que produz uma necessidade de swer influente, efectivo e de ter impacto, existe uma grande necessidade de liderar e, em particular, que as suas ideias prevalecerem, observa-se uma grande motivação e necessidade de aumentar o seu status pessoal e o seu prestígio); e (3) necessidade de afiliação (n-affiliation) (a pessoa tem necessidades de relações de amizade e é motivada pela interacção com as outras pessoas, efectivamente, a afiliação produz motivação e necessidade dos outros gostarem da pessoa, tornando-a popular, pelo que, estas pessoas são boas em equipa).

Nos anos 90 surge o livro de Miner com o tema “A Psychological Typology of

Successful Entrepreneurs” que é mais uma referência para a continuidade dos estudos

dos psicólogos sobre o empreendedorismo e o empreendedor de sucesso. Miner (1997; 2000) desenvolveu uma tipologia de empreendedores, destacando os seguintes tipos de empreendedores: Empreendedor Real Manager (desejo de exercer poder; elevadas capacidades de comunicação; forte necessidade de promoção e actualização; desejo de executar tarefas de gestão rotineiras; atitude positiva em direcção à autoridade); Empreendedor Idea Generator (ser inovador; resolver os problemas; muito inteligente; avesso ao risco); Empreendedor Empathic Super-salesperson (tem empatia e estilo cognitivo; tem habilidade de construir estratégias de aliança facilmente; tem o desejo de ajudar os outros; valoriza o processo social e tem uma forte necessidade de relações de harmonia, acredita que a força das vendas é uma chave de estratégia); Empreendedor Personal Achiever (preocupam-se mais em alcançar o sucesso do que com a possibilidade de falharem, e não se preocupam com as adversidades; preferem situações em que eles próprios podem influenciar e controlar os resultados; são motivados para alcançarem os seus próprios objectivos; preferem situações envolvendo responsabilidade individual claramente definida de tal forma que se há sucesso, isso pode ser atribuído ao seu próprio esforço).

Podemos dizer que a acção de empreender é uma maneira de enfrentar o mundo real, de compreender a vida e saber lidar com a incerteza e a insegurança do quotidiano e do futuro (Bes,2008). Por conseguinte, o empreendedor é um indivíduo que possui uma inteligência empreendedora, um conjunto de características específicas da Personalidade que lhe permitem ser mais apto e competente para

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pensar, decidir e agir de forma produtiva e com êxito sobre o real empresarial e na tomada de atitudes na sua vida quotidiana. Gardner (2006) contribuiu para o melhor conhecimento desta inteligência ao defender a existência de cinco mentes que permitem delinear um futuro com êxito: a mente disciplinada (o domínio das principais correntes de pensamento (incluindo ciências, matemática e história) e de pelo menos um ofício); a mente sintetizadora (capacidade de integrar ideias de diferentes disciplinas ou esferas num todo coerente e comunicar essa integração a outras pessoas); a mente criadora (capacidade de descobrir e esclarecer novos problemas, questões e fenómenos); a mente respeitadora (consciência e compreensão das diferenças entre seres humanos); e a mente ética (cumprimento das responsabilidades de cada um enquanto trabalhador e cidadão). Segundo o autor, as competências empreendedoras podem ser desenvolvidas capacitando a personalidade para escolhas de percursos de sucesso. Duening (2008) considerou que o desenvolvimento das cinco mentes de Gardner podem ser uma oportunidade de capacitar o individuo através de um ensino de empreendedorismo. No seu entender, as cinco mentes do futuro empreendedor são: mente identificadora de oportunidades; mente criadora; mente gestora do risco; mente resiliente; e mente orientada para a acção. As cinco mentes providenciam um fundamento intelectual para a educação para o empreendedorismo e para o desenho e o desenvolvimento do currículo.

A investigação tem mostrado que a variável género interfere na compreensão do empreendedorismo e na acção de empreender, A construção cognitiva de uma realidade empresarial por parte de mulheres e homens diferencia-se pela sua preferência pelos valores adotados e, por conseguinte, reflecte-se nos seus comportamentos empreendedores, que se diferenciam em termos de género. Assim, a investigação tem evidenciado que o contexto socioeconómico (estrutura económica local, cultura) parece interferir na determinação de estilos de empreender e do tipo de gestão realizada por homens e mulheres (Pelisson, Aligleri, Gimenez, Machado, Gomes, & Aligleri, 2001).

Uma das mentes para o futuro colocada em destaque por Gardner (2006) e por Duening (2008) foi a mente criadora, que se evidencia pela manifestação de competências de descoberta, esclarecimento e resolução de novos problemas, questões e fenómenos. Assim, uma das questões que surgiu neste estudo foi a de

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saber de que forma a Mente Empreendedora se encontra relacionada com a Mente

Criativa. Gardner (2006) baseando-se na compreensão da criatividade proposta por

Csikszentmihalyi, salienta que a criatividade não é simplesmente uma conquista de um único indivíduo ou de um pequeno grupo de pessoas, mas, o resultado ocasional que surge de três elementos autónomos: o indivíduo (que domina uma disciplina ou área);

o domínio cultural (trabalho que tem em mãos, com os seus modelos, receitas e

proibições); e a área social (os indivíduos e instituições proporcionam o acesso a experiências educacionais relevantes e oportunidades únicas para o desempenho com êxito). Assim, de acordo com o autor analisado, a criatividade acontece quando um indivíduo ou um grupo criado num domínio especifico é reconhecido pela área relevante como inovador, e é só uma questão de tempo, para observar a sua influência nos trabalhos desse domínio. Por conseguinte, ao contrário dos indivíduos com estilos adaptadores, que apreciam a precisão e soluções já comprovadas, os indivíduos com estilos inovadores, procuram redefinir e resolver problemas, questionando as estruturas existentes, apresentando-se mais indisciplinados e procurando obter mudanças no seu ambiente.

O estudo da criatividade é sem dúvida um desafio interessante, mas, também uma tarefa que exige algum grau de dificuldade, dado que os autores apresentam divergências face à conceptualização e avaliação desta dimensão psicológica da personalidade e recorrem a vários modelos teóricos para a fundamentação da sua origem, funcionamento e manutenção. Na Psicologia, o estudo da criatividade surge essencialmente a partir da publicação do artigo “Creativity” de Guilford nos anos 50 (Guilford, 1960), que na altura assumia a Presidência da APA. Este autor apresenta a distinção entre produção convergente e divergente, hoje conhecida como pensamento convergente e divergente, e considera ainda, a criatividade como uma parte da inteligência, tendo nos anos 60 investido ao nível da avaliação deste constructo. Segundo Torrance (1982) a relação entre criatividade e estilos de pensar é dada em função da predominância dos hemisférios e da sua integração; pois, de acordo com o autor, o pensamento criativo implicaria os dois hemisférios em distintas fazes do processo de resolução de problemas. Num primeiro momento, o hemisfério direito desempenhava um papel principal no sentido de perceber o problema de forma global e não linear e, depois, num segundo momento, o hemisfério esquerdo tomava a

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dianteira para analisar, avaliar e colocar em ação as ideias encontradas, bem como adaptá-las a uma proposta final. Por outro lado, para Torrance a criatividade é um conceito autónomo pelo que apresenta o “Torrance Tests of Creativity Thinking” (Torrance, 1966, 1974, cit. Jesus, Morais, Pocinho, Imaginário, Duarte, Matos, Garcês, Gil & Sousa, 2011, 1885) que é um dos instrumentos bastante utilizado na avaliação da criatividade, mas, que em nada impede que paralelamente prolifere a criação de várias definições e instrumentos para avaliar a especificidade deste constructo. Por exemplo, nos anos 60, Rhodes define o conceito a partir do que ele designa de os “4 Ps” da criatividade: “Process, Product, Person and Place” ou seja, “o Processo” (ligação entre a pessoa e o produto através de fases: preparação, incubação, insight e verificação),”o

Produto” (resultado da produção criativa: peça de arte, novas ideias ou soluções para

os problemas), “a Pessoa”(sujeito criativo) e “o Ambiente”(condições essenciais para a criatividade) (Rhodes,1961; Kaufman & Stemberg, 2010).

Nos últimos tempos, têm-se destacado os estudos Solange Wechsler que é uma investigadora que se tem dedicado aos modelos (Figura I) e à avaliação da criatividade. Considerando que os estilos de personalidade decorriam da aprendizagem desenvolvida em contextos familiares, educacionais e do ambiente (Millon, 1994), a autora procurou compreender os estilos de personalidade através das metas motivacionais, dos modos cognitivos e das condutas interpessoais. Os “estilos” são compreendidos como uma combinação entre os processos cognitivos e emocionais do individuo, que funcionam como uma ligação entre o cognitivo e a personalidade 8Wechsler, 2008). Esta investigadora é também a autora da “Escala dos Estilos de

Pensar e Criar” (Wechsler, 2006). Nos seus estudos iniciais com este instrumento

(Wechsler, 1999) encontrou sete estilos: Confiança Motivadora; Inconformismo Inovador; Sensibilidade Interna e Externa; Fluência Flexível e Original; Investimento Intuitivo; Síntese Humorística; e Ousadia Intuitiva. Posteriormente. Os resultados apresentaram correlações significativas entre produtividade criativa e os sete estilos, que poderiam ser compreendidos como estilos de criar. Num outro estudo que procurava a identificação dos estilos de pensar e dos estilos de criar Wechsler (2006) observou cinco estilos, quatro deles configurados como estilos de criar e um como estilo de pensar: Cauteloso-Reflexivo; Inconformista-Transformador; Emocional- Intuitivo; Relacional Divergente (estilos de criar); e Lógico-Objetivo (estilo de pensar).

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Neste estudo, observou também a interferência da variável género, sendo os homens mais cautelosos e inconformistas do que as mulheres, e o facto de mulheres e homens possuírem estilos diferentes ao longo da vida.

Figura I: Modelo teórico integrador de criatividade

Fonte: Wechsler (2008, 212)

Na investigação em Portugal sobre a criatividade e a Personalidade Criativa podemos destacar um estudo realizado por nove investigadores portugueses que se têm dedicado nos últimos tempos à investigação neste domínio, procurando avaliar a criatividade enquanto pessoa, e não só como processo ou produto. Neste sentido, elaboraram a partir do instrumento de Wechsler e de características da personalidade consideradas por especialistas a “Escala de Personalidade Criativa” (Jesus, Morais, Pocinho, Imaginário, Duarte, Matos, Garcês, Gil & Sousa, 2011). Estudos realizados com estudantes do ensino superior sobre criatividade, verificaram que os seus diversos tipos (Inteligência Criativa- CREA, Descoberta de Problemas e Resolução de Problemas)

Ambiente