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Nem foi tempo perdido Somos tão jovens...87

Legião Urbana

Quem nunca ouviu a frase: “pára de perder tempo nesse computador!”? A epígrafe escolhida dialoga com esta máxima, recorrentemente dirigida aos jovens internautas que passam horas a io conectados à internet. A oposição Real X Vir- tual que permeia o olhar dos que não nasceram sob a égide da informática e da Internet insiste em caracterizar o tempo on line como tempo perdido, em especial quando se trata de jovens navegando em jogos e redes sociais. Mas seria, de fato, esse um tempo perdido?

Para grande parte da juventude contemporânea estar no mundo é estar co- nectado. Porém, de que juventude estamos falando? O que aproxima e/ou afasta um jovem do Leblon que, apesar de possuir um computador de última geração e Internet de alta velocidade em casa, ainda assim, frequenta espaços de usos coletivos da rede, como de um jovem da favela de Acari? Podemos falar do ser jovem como algo bem delimitado e deinido?

Essas foram algumas das indagações que estimularam nossas relexões sobre juventude, pensando-a como um conjunto de práticas e não como uma categoria fechada. De início destacamos que o debate sobre identidade é bastante delicado, visto que parece sempre andar à beira de um penhasco, correndo o grande risco de cair em categorizações simplistas que não dão conta da realidade social, ou mesmo produzir um generalismo sem tamanho que em nada contribui para as análises dos processos históricos. Para evitar tais extremos partimos da airmação de Philippe Ariès (1981:30) para quem “O nome pertence ao mundo da fantasia,

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enquanto o sobrenome pertence ao mundo da tradição. A idade, quantidade mensurável com uma precisão quase que de horas, é produto de um outro mundo, o da exatidão e do número”. Estes diversos mundos alteráveis e modiicados ao longo da história

das sociedades comprovam que as categorias não são estáticas, mas, sim, histori- camente criadas e situadas.

De forma pioneira, os estudos de Ariès indicam que: a criança, o jovem, o idoso, a família, precisam ser compreendidos dentro de sua sociedade e de seu tempo. Assim, cada época e cada sociedade deinem de maneira diferenciada o que é ser jovem. Ao pensarmos a realidade brasileira, sobretudo a carioca, devemos evitar o equívoco de tomar uma parte da juventude como sendo seu todo, imaginando que esta constitui uma unidade social que compartilha naturalmente dos mesmos anseios e objetivos. Pois, como airma Regina Novaes (1998), tal movimentação incorre no risco de pasteurização das juventudes ignorando as diferenças de cunho econômico, racial, étnico, de gênero entre outras. Constata-se com isto uma plu- ralidade do que se conigurou chamar de juventude.

O aspecto plural a ser destacado indica a heterogeneidade da categoria juven- tude, sendo inclusive mais interessante seu uso no plural, juventudes, ressaltando assim a imensa diversidade econômica, social e cultural presente nesse segmento em geral deinido pela faixa etária. Assim, uma investigação acerca das culturas jovens implica, como aponta Gilberto Velho:

Mapear e analisar os multipertencimentos de indivíduos e grupos caracterís- ticos, embora não exclusivos, da vida na sociedade moderno-contemporânea. Ou seja, a construção da identidade é um processo que decorre no tempo, transforma-se e dá em múltiplos contextos sócio-culturais e níveis de realidade. (VELHO, 2006: 193)

Logo, mesmo marcado por signiicativa luidez, o conceito de idade inluencia nas relexões sobre as juventudes, permitindo-nos falar de uma experiência gera- cional comum que apresenta múltiplos desdobramentos. Se pensarmos nos jovens das favelas por nós estudadas, identiicamos desdobramentos/práticas: evangélicas, funkeiras, traicantes, rappers, pagodeiras, de militância social dentre outras. Ou seja, uma experiência geracional compartilhada que se desdobra em práticas dis- tintas que não estão apartadas, ao contrário, no geral se misturam, produzindo diferentes formas de ser jovem na favela. Porém, a nosso ver, frente à sociedade exterior à favela, para o poder público essas juventudes são pasteurizadas, julgadas e condenadas a um mesmo tratamento, que se alterna entre a extrema violência e a piedade.

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Juventudes na lan house: a experiência de (re)invenção de usos em duas favelas cariocas

Tal homogeneização pode ser percebida com destaque quando abordamos a criminalização dos jovens moradores das periferias cariocas. Como aponta Novaes:

(...) via de regra quando se fala em delitos entre os jovens abastados busca-se explicações psicológicas, médicas ou -no máximo- no âmbito da “delinqüência juvenil”. Já os jovens pobres -em situações semelhantes- são imediatamente “emancipados”, retirados da juventude e jogados no mundo adulto, no “ mundo do crime”. (NOVAES,1998:07)

Assim, percebemos um conceito de juventude tendenciosamente elástico que é recorrentemente utilizado pelo senso comum e pelo poder público, alternando entre ampliação e redução da faixa etária de acordo com a origem social do seg- mento juvenil em questão. Porém, se é possível identiicar tal distinção, na visão de Novaes, as juventudes cariocas vêm compartilhando uma experiência comum marcada em dois aspectos: a) insegurança em relação ao trabalho e b) crescimento da violência urbana. A nosso ver, tais aspectos atingem de forma e intensidade diferenciadas as juventudes cariocas, especialmente em função de serem ou não moradores de favelas e periferias do Rio de Janeiro. Em nossa hipótese, a autora também compartilha de tal ideia, pois é bastante crítica ao questionar o mito da igualdade de oportunidades, principalmente no que tange às avaliações de políticas públicas, o que ganha suma importância em nossa pesquisa.

Podemos citar como exemplo o próprio acesso à Internet, que foi anunciado em rede nacional como sendo livre e gratuito para todos os moradores do Morro Santa Marta, em Botafogo. As reportagens e as entrevistas do período ressaltam uma igualdade de condições e de oportunidade de emancipação para os moradores desta comunidade. No entanto, nas entrevistas realizadas no local, constatamos a ineiciência do serviço, que não se adequou à realidade geográica do Santa Marta, inviabilizando o acesso em vários pontos do morro. Além disso, destaca-se a lenti- dão da conexão, a demanda por possuir computador com tecnologia wireless e, em alguns casos, a instalação de uma antena para conseguir captar o sinal da rede.

O que se conigura é que as juventudes cariocas possuem demandas e práticas que as aproximam e as afastam, o que obriga o pesquisador que assume tal segmen- to como objeto de estudo a adotar teorias que contemplem tal heterogeneidade. Rossana Cruz (s/d) em suas pesquisas propõe uma dupla perspectiva de análise: uma “história cultural da juventude” e uma “análise empírica das identidades juvenis”. Com esta bifurcação teórica, Cruz rompe com as divisões essencialistas, captando as relações de forças presentes nos processos histórico-sociais. Assim, foca nas interações e conigurações que vão assumindo os grupos juvenis, escapando

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das simpliicações que colocam a juventude como algo dado e não constantemente constituído por um conjunto de práticas.

Compartilhamos, assim, da ideia de que as identidades não são monocausais, e sim complexas e multidimensionalmente articuladas aos aspectos políticos, so- ciais, econômicos e culturais. Nesse sentido, nossas investigações buscarão captar a heterogeneidade e diversidade das juventudes que frequentam as lan houses por nós estudadas. Pretendemos com isto compreender o “tempo perdido” que as ju- ventudes dedicam à Internet, atualmente conigurada como primordial catalisador dos desejos juvenis.

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