Ao passar do cultivo da terra para a dimensão humana, o termo “cultura” ganha
uma infinidade de interpretações. Deixando de lado a premissa de que sua definição
está relacionada ao cultivo do intelecto ou a lógicas deterministas e biológicas, cultura
está no plano social e, portanto das ações e não da natureza. Talvez ela não se faça
quando nascemos, mas é construída conforme passamos a fazer parte de um contexto
e território social.
Ao longo da história, a ideia de cultura sempre transitou entre dualidades - o
sagrado e o profano, o popular e o erudito, o urbano e o rural, masculino e feminino,
velha e jovem, forte e fraca - categorizações que justificam a proposta do homem
civilizado. Quanto mais forte for sua cultura, mais civilizado o homem se faz.
Mas Elias (1939, p. 13) comenta que o homem ocidental nem sempre se
comportou da maneira à qual atribuímos a ideia de “civilizado”. Se o transportássemos
para outras épocas no tempo, mesmo estando no mesmo território, descobríamos nele
o que julgamos incivilizado.
Na verdade, nossos termos "civilizado" e ''incivil" não constituem uma antítese do tipo existente entre o "bem” e o "mal”, mas representam, sim, fases em desenvolvimento. É bem possível que nosso estágio de civilização, nosso comportamento, venham despertar em nossos descendentes um embaraço. (...) O comportamento social e a expressão de emoções passaram de uma forma padrão, que não podiam em sentido absoluto e indiferenciado ser designados de "incivil", para o nosso, que denotamos com a palavra "civilizado". E para compreender este último temos que recuar no tempo até aquilo de onde emergiu. A "civilização" que estamos acostumados a considerar como uma posse que aparentemente nos chega pronta e acabada, sem que perguntemos como viemos a possuí-la, é um processo ou parte de um processo em que nós mesmos estamos envolvidos. (ELIAS, 1939, p.73)
Com o tempo e o passar da história, refinamos e racionalizamos nosso
comportamento e nossas emoções, a um custo muitas vezes alto, colocando cada
ação em um ambiente que elegemos como legítimo na vida cotidiana, civilizando, por
vezes, a própria emoção. Logo, não ter emoção controlada e padrões mínimos de um
comportamento reconhecidamente civilizado (diz- se de quem possui civilização; que é
educado ou cortês) é motivo suficiente para o título de não civilizado.
Santos (1989), por sua vez, nos traz que cultura e território são componentes
essenciais para o modelo cívico que constituímos. Para o pesquisador, o componente
cívico supõe a definição prévia de uma civilização, isto é, a civilização que se quer, o
modo de vida que se deseja para todos, uma visão comum do mundo e da sociedade,
do indivíduo como ser social, e das suas regras de convivência. Para Santos, a plena
realização do homem não depende da economia, como hoje tão fortemente
entendemos, mas de um quadro de vida, material e não-material, que inclua economia
e cultura em diálogo com o território, e este não tem apenas um papel passivo, mas
constitui um papel ativo, devendo ser considerado como um fator, e não
exclusivamente como reflexo da sociedade.
Levando em conta essas reflexões sobre cultura, civilidade e território, fomos
entender, segundo o ponto de vista de quem mora na favela, como esses elementos se
manifestam em suas vidas. Qual nome dão ao seu território e aos locais onde moram?
Como entendem as relações e redes de solidariedade da favela? Como se dá a relação
com a prefeitura da cidade? Gostariam de sair da favela e morar em outro lugar?
Questões como estas nortearam as falas que traduzem parte deste tecido
urbano que compõe a cidade manifestando sentimentos, incômodos e ingruências
estabelecidos. Um espaço que fala pelos seus moradores e traz características e
impressões específicas enquanto manifestam parte do que são e como pensam.
Os sentidos da cultura
Al, 32 anos, nascida e criada em favela, diz que as pessoas que nunca moraram
ou pisaram em uma favela têm uma visão muito diferente em relação a quem conhece
o ambiente por dentro. E ela diz saber que cada morador de favela é visto como
marginal e sem cultura pela sociedade. Só que acredita que quem tem que
desmarginalizar essa imagem são os próprios moradores da favela. “A cultura não
chega na favela, mas as pessoas da favela chegam na cultura”, afirma ela. Al diz que
quem olha de fora pode acreditar que “é um monte de vagabundo que não quer fazer
nada, gosta de viver às custas da pobreza e não tem nada à oferecer de conhecimento
39
para a sociedade”, mas ela afirma não ser bem assim. Muitas pessoas, segundo ela,
vêm parar em uma favela porque não têm condições de pagar aluguel para criar cinco
ou seis filhos, ainda mais se essa família perder o emprego. “O estado de morar em
favela é muito diferente de morar em uma casa, vila ou prédio. Geralmente não se
conhece o vizinho da frente ou o porteiro. Aqui todo mundo conhece todo mundo e a
gente aprende com isso”.
R, 34 anos, diz que não conhece muito sobre cultura. Ela acredita que cultura é
uma pintura diferente, quando alguém faz um quadro. “A gente deve ter cultura, mas
quem tá la fora diz qualquer coisa porque não sabe o que se passa aqui. Precisa
conhecer primeiro pra saber como a gente vive. Só criticar não vale, né?”, afirma R.
Para B, 18 anos, cultura é arte, mas ela diz que não sabe explicar. “É arte tipo
capoeira, música, pessoas que pintam cultura. Fazer coisas que você gosta e inventa”,
afirma.
A, 16 anos, por sua vez, compartilha conosco sua sensibilidade em relação ao
que acredita ser cutltura de forma espontânea: “Cultura é cultivar a terra, a essência e
a origem das coisas que trazem sentindo a vida. Só isso que veio na cabeça!”.
Favela ou Comunidade?
Para o jovem A, 16 anos, “favela é uma família que não se dá muito bem, mas
se dá bem sim. Mas tem uma certa agressividade e tem gente muito louca. Todo
mundo briga, mas se dá bem”. Ele exemplifica que se houver um churrasco
naturalmente todos se juntam e participam. Para ele, favela é como uma família, “só
que tem favelas que você chega e metem a arma na sua cara”. Ele sabe sobre isso
porque seu tio mora no Rio de Janeiro e ele já foi visitá-lo. No Moinho, ele afirma ser
diferente. Até pode não parecer, mas o Moinho é uma favela tranquila porque qualquer
pessoa pode entrar sem identificação e é acolhido, diferentemente das favelas do Rio
de Janeiro. Para ele, tanto faz como chamamos – favela ou comunidade, mas declara
que depende da intimidade que se tem com as pessoas de fora. Se for um contato
próximo ele fala “vamo lá na favela memo”.
A jovem B, 18 anos, que se diz uma favelada chic e não tem vergonha de morar
onde mora. Diz que quem mora lá dentro costuma dar o nome de favela ou quebrada e
isso significa um ajudar o outro, reconhecendo que, de fato, são mais as mães que se
ajudam. “As pessoas não conheceram a comunidade do que jeito que ela é. Elas
pensam uma coisa, mas nunca puseram o pé aqui, então elas não sabem como é a
realidade daqui. Por isso elas ficam impressionadas”, afirma B. Ela acredita que na
favela há pessoas humildes, que são o que são, diferentes das pessoas que
encontramos fora dela. “Lá fora as pessoas querem estar acima dos outros. Querem
ser uma coisa que elas não são. Mas na favela só Deus sabe pelo que passam e, por
isso, só Ele pode julgar”, comenta.
Para F, 35 anos, moradora há oito anos do Moinho, favela é coisa bagunçada,
desorganizada. Ela gosta de chamar de favela mesmo - ou favelinha - porque já se
acostumou assim. Comunidade é um “nome bonitinho que falam lá fora pra não falar
favela”. Comunidade, para F, não retrata o que uma favela é e revela. Para ela,
comunidade pode ser um prédio chique ou uma família.
Já para M, 29 anos, o Moinho tem que ser chamado de favela porque não tem
nada de comunidade. E favela, para ela, é da sua porta para dentro, o resto não lhe
interessa. Ela acredita que até se deve falar um “oi” e conversar alguma notícia rápida
pelas vielas, mas ficar de “tititi, nhénhénhé, leva a confusão, sai fofoca, é muito disse-
me-disse”, e ela já se envolveu em vários problemas por conta disso.
Para Al, 32 anos, umas das moradoras mais antigas do Moinho, o local é uma
favela, o que denota ser bem mais acolhedor do que chamar de comunidade. Segundo
Al, “na favela você conhece seus vizinhos e todo mundo e todos vivem num estado de
favela porque tá ali, no mesmo barco. Comunidade é diferente pra quem entende.”. Ela
comenta que se fala em comunidade do samba, mas não tem interligação com todo
mundo. Em uma favela essa interligação existe, já que todo mundo sabe onde o outro
mora.
A professora Eliane, educadora social que convive quase diariamente com as
crianças, entende que favela é o lugar onde convivem pessoas que sobrevivem graças
a sua criatividade, suas forças, e elas mostram para o resto da sociedade que dá para
ser diferente e que não precisa ser institucionalizado para que funcione. “É só a partir
daquilo que você tem, do que você é, você é seu verdadeiro, o indivíduo que é capaz
41
de tocar sua vida pra frente. A favela é isso. Lugar onde você pode ser a sua verdade”,
segundo Eliane.
Casa ou barraco?
Na favela do Moinho, os barracos, como chamam suas moradias, por fora,
parecem espaços pequenos e mal construídos com pedaços de madeira, lonas,
banners usados ou qualquer material que dê cobrimento ao espaço. A fiação
desemcapada, ou gato, como dizem, para as ligações ilegais de eletricidade e água
dos barracos, é visível a olho nu, e fica na altura de qualquer criança, fora e dentro dos
ambientes. Internet quase todo barraco tem. Uma das empresas do ramo é a única que
chega lá.
As portas dos barracos são fechadas com tramelas (espécie de tranca moldada
em madeira, com um furo no centro, que é pregada no batente das portas, de tal forma
que possa ser girada, mantendo a porta travada quando necessário) ou fios e arames.
Por dentro, muitos barracos têm piso vermelhão encerrado ou tapetes que revestem
concreto batido e dão conforto para uma sala ou um quarto. Alguns têm pisos
cimentados com rodapé, mas são poucas as casas de alvenaria. Algumas famílias
começaram a construir suas casas de alvenaria (ou parte delas) somente a partir de
2015, depois das ondas de incêndio que assustaram os moradores.
Mas, para construir com tijolos, é necessário um alto investimento, por isso, são
poucas as famílias que conseguiram levantar algumas paredes pela favela. Boa parte
dos barracos ainda é de madeira ou restos de materiais, e para que o esgoto corra por
baixo, mesmo a céu aberto, alguns barracos são feitos no estilo de palafitas
(construções sobre estacas de madeira que deixam o barraco um pouco acima do
solo).
As paredes dos barracos, como em geral são de madeira, ganham cobertores
ou panos coloridos para dar cor e vida ao barraco. Boa parte dos barracos tem dois ou
até três andares, projetados e construídos pelos próprios moradores, onde ficam os
quartos e o banheiro adicional.
O encanamento e esgoto de cada barraco é feito por eles mesmos e vai tudo ser
despejado por um cano largo (o que dificulta entupimento) na linha do trem, onde há
ratos, cobras e até escorpiões. As crianças, às vezes, até brincam com algumas
cobrinhas que nascem por lá. Na hora de construir as caixas de esgoto de cada
barraco, os moradores se reúnem para ajudar um ao outro. Os moradores acreditam
que a prefeitura quer tirá-los do local. A prefeitura diz que não há como urbanizar a
área. Segundo eles, como há alguns anos havia uma fábrica no local e muitos produtos
químicos foram utilizados para fabricação de ração animal, o solo ficou contaminado.
Por conta disso, a prefeitura diz que não pode viabilizar encanamento de gás, por
exemplo, correndo o risco de boa parte daquele terreno ser explosivo. Para os
moradores, se a prefeitura investisse um pouquinho em infraestrutura, o local se
tornaria uma favela muito organizada.
Para entrar na casa de F, 35 anos, ela pede: “Se importa de tirar o sapato? Pra
conservar limpo, sabe. Eu gosto de tudo arrumado. A gente já mora num barraco,
então se não arruma, né, o que é que vira?”.
F, 35 anos, diz que na favela todos chamam de barraco suas casas, mesmo se
for de alvenaria, porque “é mania de quem mora lá, se bem que casa é casa e barraco
é barraco, né.”. F tinha acabado de construir seu “quintalzinho”, como se refere a um
pequeno espaço na entrada do seu barraco para colocar as roupas para secar. E teve
que construí-lo depois de comprar sua primeira máquina de lavar roupas por 100 reais.
Estava feliz demais por não ter que lavar as roupas no tanquinho “que não lava direito”.
Mesmo que as “casas” da favela sejam barracos de madeira, os moradores, em
geral, têm eletrodomésticos básicos como geladeiras, fogão, tanquinhos e televisores
pela casa. Celulares e tablets igualmente são eletroeletrônicos facilmente encontrados
na mão de cada morador. “Quem vive sem hoje, né?!”, comenta M, 29 anos.
43
Figura 19 - Cortina da sala de um dos moradores, foto da pesquisadora
Figura 21 - Um dos banheiros do barraco, foto da pesquisadora
45
Figura 23 - Escada que leva aos quartos em outro barraco, foto da pesquisadora
Figura 25 - Banheiro de outro barraco com piso vermelhão, foto da pesquisadora
47
Figura 27 - O local em comum a céu aberto para secar as roupas do varal, foto da pesquisadora
Figura 28 - A cozinha de um dos barracos, foto da pesquisadora
Figura 29 - Lavanderia fechada de um dos barracos, foto da pesquisadora
49
Figura 31 - Interior de uma das casas visitadas, foto da pesquisadora
Figura 33 - A entrada de um dos barracos, foto da pesquisadora