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3. Materials and Methods

3.1 Closed Chamber at Håkonshallen

Todavia, entre abordar questões contemporâneas e pautar uma conduta em relação a produção literária, há uma certa distância. Essa discussão ganha concordos mais evidentes na carta enviada para Emediato em março de 1977:

Sobre o ―Manifesto Neo-Realista‖, vou ser bem franco: eu realmente não sei. Sou cético, pessimista – acho que somos todos bons escritores, mas acho também meio megalômano nos supormos a nata das natas, saca? Acho inclusive

49 Não se quer ratificar o mito do sincretismo tupiniquim, mas apenas exemplificar que a diversidade de

capitais culturais e sociais enunciados do mesmo locus não é estranho à história da literatura e da música no Brasil.

87 uma atitude elitista. Somos bons, mas somos jovens e só o tempo é que pode dizer se a gente vai conseguir, pelo menos, continuar escrevendo. E, às vezes, confesso, até mesmo isso me parece muito difícil. Então não sei, companheiro. Também tenho uma dificuldade incrível para me definir. A primeira frase, ―contra o individualismo‖, de cara já me grila. Eu não sei MESMO se sou contra o individualismo. Em processo terapêutico, e com uma formação literária onde as influências maiores creio que foram Lispector, Virginia Woolf, Proust, Drummond, Pessoa, por aí – não sei se posso afirmar isso, me entende? Pelo menos agora, eu não me sinto seguro. Por outro lado, há itens inteligentíssimos: ―... literatura nacional, mas não xenófoba, populista ou demagógica. Assimilar e deglutir de forma crítica o que, não sendo nacional, for universalmente necessário‖ – por exemplo, acho perfeito. Quem sabe uma reformulação, não sei. Se vocês acharem que não é possível reformular, vamos supor, e que discorde de muitas outras coisas, vai sem o meu nome, por mim tudo bem (MORICONI, 2002, p. 485).

A ideia de que são bons, mas que só o tempo (do campo literário, eu complementaria) poderia indicar caso continuariam escrevendo, reforça dois pontos trilhados neste estudo: a busca por espaço no campo e a falta de unidade de uma geração – por mais que houvesse o diálogo. Para consolidar-se no cenário literário nacional, necessitava-se de condições: crescimento do mercado, liberdade de expressão, pagamento de direitos autorais, etc. Nos enunciados da carta, mais do que falsa humildade, trata-se da germinação de um mercado, amarrado pelas teias da ditadura e que explode em protuberâncias, como a imprensa nanica.

Uma entevista foi publicada com os integrantes da antologia Histórias de um novo

tempo (PASQUIM, 1977), lançado pela editora Codecri, a mesma do Pasquim. Na

antologia, constavam contos assinados por Emediato, Antonio Barreto, Julio Cesar, Domingos Pellegrini Jr., Monteiro Martins e Jeferson Ribeiro de Andrade. A partir do lançamento da antologia, criou-se a ideia de uma legião de escritores com um mesmo pensamento, uma mesma proposta. Hollanda, talvez, tenha sido a principal responsável pela institucionalização desse raciocínio em análises como a comparação entre a prosa e a poesia dos anos 1970:

Mesmo em relação à representação de mundo que expressam, as diferenças são sensíveis: aqui, uma ficção de gosto realista, preocupada mais diretamente com o dia-a-dia das classes desfavorecidas e dos marginais. A publicação pela Codecri da antologia História de um Novo Tempo (77) explicita na introdução que se trata da ―arte a se aproximar do cumprimento de sua função social‖ (GONÇALVES; HOLLANDA, 1979, P. 73).

Como já comentado, estes autores seriam aglutinados numa massa amorfa, a ―geração do sufoco‖ (GONÇALVES; HOLLANDA, 1979, p. 73), por abordarem temas e personagens como ―Angústia, impotência, travestis, surfistas, a mulher, sexo e política.

88 Marginais, malditos‖ (GONÇALVES; HOLLANDA, 1979, P. 73). A confecção de um manifesto, por sua vez, corrobora esta leitura. Basicamente, o ―Manifesto neo-realista‖50 propunha uma literatura que fosse:

o retrato do povo brasileiro, da sua tragetória e de suas aspirações; que buscasse uma linguagem direta e acessível a todas as faixas sociais, culturais e econômicas; pela denúncia, contra o silêncio; pela verdade, contra o superficial; livre e libertária, que não se intimidasse diante de pressões estéticas, nacionalistas mas não fascista, xenófoba, populista ou demagógica; pela comunhão dos povos das culturas; contra o colonialismo e o imperialismo (BOAS, 2003, p. 133).

Uma concepção de literatura fechada, com fins tão imediatistas, foi, mais do que uma corrente, um filão mercadológico, do qual muitos escritores beneficiaram-se. No ensaio de 1977 ―Malditos marginais hereges‖, Ana Cristina César, com precisão cirúrgica, antecipa os trabalhos de Flora Süssekind sobre o naturalismo no Brasil ao denunciar o caráter pedagógico de uma produção que ambicionava dizer às classes abastadas sobre a sua exploração (CÉSAR, 1999, p. 206).

Dessa maldição, Caio pede, polidamente, para desvincular-se. Percorre um caminho próprio, tateando o terreno (vide o cuidado na hora de opor-se: ―Sobre o ‗Manifesto Neo-Realista‘, vou ser bem franco: eu realmente não sei.‖). Os cumprimentos e despedidas entre os agentes-amigos necessitam de luvas de pelíca. Por mais performático que seja tal postura, os enunciados a favor do individualismo desmancham a ideia de uma unidade ideológica ou de uma estética geracional. A única epígrafe de Hilda Hilst no primeiro livro de Caio, Limite branco, aponta este caminho:

Este é um tempo de silêncio. Tocam-te apenas. E no gesto te empobrecem de afeto. No gesto te consomem.

Tocaram-te, nas tardes, assim como tocaste, adolescente, a superfície parada de umas águas? Tens ainda nas mãos a pequena raiz,

A fibra delicada que a si se construía em solidão? (HILST apud ABREU, 2007, p.13)

De certo modo, o poema de Hilst, de tom intimista, nada referencial, antecipa o traço do individualismo que acompanharia o agente, em maior ou menor grau, durante toda a vida literária. Este traço enfraquece a concepção de que haveria um combate, pelas letras, a todo o custo, contra a ditadura, em prol de um país melhor. Debilita a representação,

50 Em vão, tentei encontrar o manifesto referido na carta de março de 1977. Tendo fracassado, contentei-me

89 vinculada pelo próprio Moriconi, de uma imprensa nanica de resistência ao regime militar (2002, p. 431). Isso constrastava com uma proposta de literatura intimista. Os capitais culturais de escritores como Clarice Lispector, Virginia Woolf e Marcel Proust dificilmente eram relacionados a agentes ligados à ―geração do sufoco‖, uma vez que esta produziria, provavelmente, uma literária de ―realismo feroz‖, um ―romance-reportagem‖ ou uma ―literatura verdade‖.