3. Material and methods
3.8 Cloning of amplified fragments of cod Pan I and Sypl2
Tadeu Lira cria imagens do sagrado, como as cenas da paixão de Cristo, as passagens bíblicas ou a sacralização do índio de forma sincrética, utilizando imagens clássicas, como a crucificação, para representar simbolicamente a situação da comunidade indígena na contemporaneidade.
Em suas obras sacras, as figuras centrais estilizam as cenas bíblicas. A dramaticidade da composição se estrutura principalmente na paixão e no sofrimento do Cristo, personagem central da maioria dos seus trabalhos, destacado pela desproporção em relação às figuras secundárias. A cruz, símbolo da paixão, também aparece em destaque em suas obras, assim como as chagas. A cena da crucificação retratada pelo artista, em ambientes abertos ou fechados, está sempre rodeada de fileiras de personagens femininas. O contraste entre os corpos alongados e os inúmeros detalhes cria a tensão necessária para destacar a figura central
da composição. O artista costuma estilizar as imagens alongando as figuras e criando mãos desproporcionais ao corpo, traço característico do seu trabalho, como afirma o artista: “(...) foi uma forma de identificar meu trabalho, qualquer pessoa que olhar vai dizer é de Tadeu Lira.” (LIRA, 2006). (Ver figura 76)
Figura 77 – Tadeu Lira. Crucificação. Acrílica s/tela, década de 1980, coleção particular.
Tadeu foi influenciado pelas interpretações das imagens da “via crucis”, inspiradas nas cenas impressas em bíblias ilustradas, em painéis ou pequenas cenas presentes nas igrejas católicas. Seu trabalho é uma interpretação livre dessas imagens, que fazem parte de sua formação religiosa. Para Araújo (1984), “ao contemplarmos as telas de Tadeu Lira, temos a impressão de que as tintas e pincéis, instrumentos de seu trabalho, unem-se num sentimento mais elevado, quase imperceptível. [...] parece um artista bastante livre para imprimir a transitoriedade das aparências”. Sua série de pinturas sobre a “Via Sacra”49 foi vista por Galvão (1986) como:
49 Tema de uma exposição organizada pelo artista, no Conjunto Cultural da Caixa Econômica Federal, agência
(...) Acontecimento artístico que revela mais uma forma de encantamento com o transe místico. Este fervor que se irradia das telas de Tadeu Lira, que apresenta uma visão da Via Sacra saturada dos arquétipos mitológicos que asseguram o vigor do cristianismo por nossas terras (...) (Op. Cit. 1986).
Apontando a presença dos arquétipos na obra sacra de Tadeu Lira, Galvão nos leva a pensar sobre essa mitologia dos símbolos cristãos na cultura brasileira, país com a maior concentração de católicos do mundo. Os símbolos que se repetem nas telas do pintor paraibano são partes do imaginário popular, sintetizado pelo artista como imagens religiosas. Dos seus pincéis emergem grupos de figuras que recriam passo a passo a paixão em cores quentes, com sugestão de volumes, com predomínio das cores primárias, refletindo a presença da dualidade da Anima e do Animus50, imagens recorrentes em seus trabalhos (ver figuras 77 e 78).
Figura 78 – Tadeu Lira. Crucificação. Óleo S/tela. 1986. Coleção particular.
50 Para Jung (2000, p. 177 e 189), Anima é o elemento feminino da psique masculina. É, muitas vezes,
personificada pela figura de uma mulher, que representa quase sempre o inconsciente. O Animus é o lado masculino da psique feminina, que toma a forma de uma convicção sagrada.
Figura 79 – Tadeu Lira. Verônica enxuga o rosto de Cristo. Óleo S/tela. 1986.
Entre a sua produção sacra, destaca-se a “Crucificação do índio”, pintada na década de 1990. Esse trabalho reúne todos os símbolos recorrentes do conjunto de sua obra em um mesmo espaço pictórico. A figura central é um índio jovem, crucificado em uma cruz amarela, com o corpo coberto de pinturas avermelhadas e detalhes brancos, usando tanga e cocar de penas azuis e um colar de contas. A figura apresenta uma expressão facial serena, apesar das lágrimas que escorrem dos seus olhos, acompanhando o trajeto do sangue que escorre dos seus pulsos. Postam-se aos seus pés três índios; os da esquerda louvam a cena, o da direita chora. Toda a composição é ambientada em um espaço com vegetação densa, pintada de forma decorativa por sucessivas sucessões de folhagens largas que terminam em contornos verdes sobre um fundo vermelho, criando densidade dramática para a composição da cena, a direita da figura central, sobrevoam quatro pombas brancas. A composição é dinâmica, densamente decorada com inúmeros pontos coloridos.
Figura 80 – Tadeu Lira. Índio Crucificado. Acrílica s/tela. Déc. de 1990. Col. particular.
O índio, como analogia ao Cristo crucificado, é o inocente que sofre as agruras de ser, o depositário dos males coletivos da civilização. Sua cultura devastada pelos brancos é venerada pelos irmãos que lamentam a perda. Ao incorporar o índio às tradições católicas na cena máxima da “Via crucis”, Tadeu demonstra sua compreensão sobre as questões relativas à cultura indígena e à religião.
Para ele o índio foi crucificado pela civilização ocidental, e apenas os seus pares sofrem e choram com isso. Essa e outras obras de sua autoria trazem implícitas o discurso em defesa da conservação da natureza. O índio é representado como a personificação do primitivo, do natural, do puro, do ingênuo dos esquecidos pela civilização, dizimados pelo avanço das cidades e pela tecnologia. (Ver figura 80)51.
51 Pode-se fazer uma relação da “Crucificação do índio”, de Tadeu Lira, com a obra “o Cristo Amarelo”, de Paul
Gauguin de 1889. Nesse quadro, Gauguin, inspirado no Cristo da Igreja de Trêmalo, uma vila em Port-Aven, recria a cena, colocando-se no local do Cristo crucificado. A obra é considerada o ponto máximo do seu estilo
O misticismo, na obra de Tadeu Lira, está vinculado a todo um legado da pintura moderna, que se estruturou no trabalho dos simbolistas e Nabis. A iconografia cristã tem sido utilizada por Tadeu, como uma representação de símbolos para transmitir sua mensagem ao mundo, como declara durante a entrevista: “(...) eu tô mostrando às pessoas a minha mensagem (...)” (LIRA, 2006).