3. Forklaringene på svekket konsensus
3.7. Clintons lederstil og prioriteringer
Especificados objeto de estudo e período histórico, a análise empírica – bibliográfica e qualitativa, fruto de leitura e interpretação – vem da coleção dos jornais BP no período de 1994 a 2000, em tudo aquilo que artigos e articulistas, reportagens, matérias, editoriais têm de relevante para o escopo desta tese. Juntam-se a esse material outras publicações referentes à IPB quando necessárias e relevantes, além do mesmo jornal em outro anos. O encontro e con- fronto de idéias e sentimentos internos à denominação apontam um caminho de ações e rea- ções a evidenciar a dinâmica do movimento.
Duas explicações são pertinentes ou razoáveis pelo menos. A primeira é fazer notar que a análise dá-se no calor da hora, no mínimo, antes de as coisas terem se esfriado. Os des- dobramentos dos oito anos analisados aqui, como de resto quase tudo em história, hão de in- vadir as próximas gestões e gerações de presbiterianos no Brasil, bem como as discussões internas à denominação. Mais do que isso: esses desdobramentos teológicos e éticos invadirão a vida de cada fiel da IPB e de todos, quer tenham consciência ou não.
A segunda é que a opção pela leitura do jornal BP, como fonte primeira de informação, é justificada pelo fato de se tratar do periódico oficial da IPB, responsável pela criação ou re- produção daquilo que pode ser a imagem oficial da instituição. Se há um discurso oficial a construir a realidade dos fiéis presbiterianos do Brasil, e a hipótese é a de que ele existe, está presente no BP. A análise não se organiza segundo a simples seqüência cronológica, como se fosse uma coleção de acontecimentos dentro do tempo. Dá-se por blocos temáticos e, dentro deles, preserva-se sempre que possível a cronologia dos fatos e, dentro dela, a dinâmica das ações e reações, avanços e retrocessos, aberturas e trancamentos.
O mapa não é o território e nem pode ser confundido com ele. Serve como orientação para o caminhante que se dispõe a trilhar determinados caminhos. Caminhos conhecidos, di- ga-se, pois o mapa permite apenas o retorno, uma vez que o passo seguinte, se pode ser pre- visto, não pode ser afirmado. Caminho mapeado é caminho conhecido. O mapa é póstumo, ou
seja, vem à luz depois da morte do caminho que se faz ao caminhar. É estático, pois congela o dinamismo da história e da geografia, e a ação do ser humano em seu interior. Se o caminho não pára, pois o caminhante está sempre em busca de novas trilhas, o mapa vem depois, em atraso, e retrata o passado, próximo ou distante, mas passado. Quem o desenha já não está a caminho, parou por um instante ou definitivamente. Por fim, o mapa é também parcial, pois esconde e revela o que lhe interessa. Na verdade, o que interessa a quem o criou, que pode ter refletido ou não a respeito do caminho.
O BP é um mapa, não mais do que isso, não pode ser tomado como o território, não pode ser confundido com a IPB: é póstumo, estático e parcial. Além disso, é ultrapassado, pois o caminho e seus caminhantes estarão sempre à sua frente. Como todo mapa, é fonte de orientação e informação para andar do presente para o passado. O jornal oficial da denomina- ção oferece seu desvelamento e seu encobrimento dos anos da passagem do século XX para o XXI, do que aconteceu dentro do período, e sua voz será interpretada pelo sociólogo na práti- ca de sua sociologia.
Armando Araújo Silvestre apresenta a história dos jornais da IPB de 1864 a 1986, com o objetivo de apreender seu papel formativo e informativo dentro da denominação.
Ler a história dos protestantes brasileiros, através de seus jornais, é algo fascinante. Cada página descortina aspectos significativos dos precursores, dos missionários que implantaram os diversos protestantismos no Brasil. Há como recuperar suas lutas, in- teresses, ideais e compromissos. A Imprensa Protestante brasileira constitui-se em farto manancial para o conhecimento do passado, possibilitando o acompanhamento do crescimento das igrejas até os tempos atuais (SILVESTRE,1996, p. 8).
Um jornal pode possibilitar a construção do conhecimento a respeito de uma comuni- dade ou sociedade quando se analisam períodos significativos da história. Há casos em que a intenção do jornal pode ser a própria construção social do conhecimento e realidade, que não precisa estar necessariamente de acordo com a verdade, sendo alcançada ou não de acordo com a força política, penetração e influência da publicação e de seus mantenedores. Em con- trapartida ao poder genésico de um jornal, pode-se também construir conhecimento a seu res- peito – que será da mesma maneira condicionado pelo observador que o fizer, ainda que pro- cure trilhar os caminhos das propaladas isenção e neutralidade científicas, ainda que o faça tendo como guia um asséptico método científico.
Um quadro cronológico pode ser pintado sobre a história dos jornais das igrejas presbi- terianas no Brasil. São múltiplos os artistas, cores, técnicas que compõem a obra – é arte cole- tiva, não foi feita de uma vez só, nem livre de controvérsias. Em sua moldura, tomada como
essência dos quadros a impor a fronteira e os limites entre eles e o mundo real, está revelada a intenção dos jornais e de sua existência, pelo menos segundo a versão oficialmente declarada e assumida: a evangelização, palavra dirigida aos de fora da igreja, e a comunicação interna. Esse duplo objetivo é o que os iguala na intenção. O conteúdo, ideologia, teologia, práxis, ênfases, ou seja, as tintas, as cores, a intensidade, as formas, os desenhos variam de acordo com os artistas, escolas a que estão filiados, períodos da história da arte. A pintura, portanto, não resulta coerente em todas as suas partes: sejam elas originais, sobreposições, palimpses- tos, plágios e mesmo naquelas porções em que a tela ficou em branco a esconder e revelar temas e assuntos pautados ou não que não chegaram às páginas dos jornais da denominação, ainda que sua relevância impusesse a publicação. É em sua incoerência surreal ou real que residem a beleza e o desafio da investigação desse quadro.
Fundado por Simonton,1 o primeiro jornal presbiteriano foi a Imprensa Evangélica, cu- jo primeiro número data de 5 de novembro de 1864. Seus claros objetivos religiosos eram mostrar à sociedade que as almas estão aflitas para reconciliar-se com Deus, que há possibili- dades de conversações santas e que a vida do ser humano não se destina somente à experiên- cia terrena, mas que se abre para um novo mundo, inexorável, depois da passagem transfor- madora pela morte. "[Desde sua chegada ao Brasil,] Havia vários meses que [os missionários protestantes no Brasil] projetavam fundar um periódico evangélico; poderia transformar-se em tribuna (ou púlpito) de âmbito nacional, e apoiar a catequese dos recém-convertidos e seus filhos" (RIBEIRO,1981, p. 96).2
A Imprensa Evangélica foi publicada por quase três décadas, até aos 2 de julho de 1892:
Durante 28 anos, nesses dias em que se implantava o protestantismo brasileiro, a Im-
prensa foi seu órgão, e até hoje é o mais completo documento das mudanças sociais propostas pela nova denominação e de seu relacionamento com os movimentos re- formistas seculares que nessa época agitaram nossa história (RIBEIRO, 1981, p. 97- 98).
1
"Santos Neves, taquígrafo do Senado, e Domingos Manoel Quintana, 'freqüentadores dos cultos', foram os primeiros auxiliares de Simonton" (SERRA,abr./maio/jun. 2003, p. 16).
2
Outras iniciativas a se destacar: (1) "Em 1874, o Rev. Emanuel Vanorden, judeu holandês de Haia, que havia chegado ao Brasil em 1872, tendo sido co-pastor de Chamberlain, em São Paulo, iniciou a publicação de Púlpito
Evangélico. Foi um jornal de vida efêmera, com apenas 24 números, de janeiro de 1874 a dezembro de 1875. Em forma de revista, publicava sermões, além de notícias das igrejas e pequenos estudos" e (2) "A primícia do jorna- lismo evangelístico no Nordeste foi Salvação de Graça. Esse jornal veio à luz em Recife. Seu primeiro número circulou em outubro de 1875. Jornal de cunho doutrinário, sob a orientação do Rev. John R. Smith, contou com a colaboração do Rev. Le Conte. A vida desse periódico foi passageira, contando apenas com 12 números. Era impresso em Lisboa" (SERRA,abr./maio/jun. 2003, p. 17).
Após a morte de Simonton em 1867, "seu cunhado, rev. Alexander Blackford, sucedeu-o na direção do jornal. A última edição circulou no dia 2 de julho de 1892" (MACEDO,p. 2, maio 2000).3
Em 1893, a Igreja Presbiteriana volta a ter um órgão oficial de imprensa: Revista das Missões Nacionais – publicação que tem o primeiro número datado de 31 de janeiro de 1887 e que chegou a circular junto com a Imprensa Evangélica. Seu diretor era o pastor, professor, gramático e escritor Eduardo Carlos Pereira, principal personagem do cisma que originou a IPIB em 1903. "Quando, em 1892, o órgão oficial presbiteriano [Imprensa Evangélica] foi extinto, a direção da Igreja afastou da direção da Revista os seus redatores e o diretor" (SILVESTRE, 1996, p. 24) e abriu caminho para que a Revista fosse transformada em órgão oficial de imprensa da igreja, passando a publicar decisões de concílios e outros assuntos de interesse da diretoria da denominação. O motivo para o afastamento referido dos responsáveis pela revista foi a sua ligação com o movimento antimaçonaria dentro do presbiterianismo na- cional, uma das causas do cisma de 1903.4
Os ex-responsáveis pela Revista das Missões Nacionais não ficaram sem veículo de imprensa para divulgar suas idéias. Ainda quando dirigiam a Revista, publicavam em todos os números um encarte intitulado: "O Estandarte". Exonerados da Revista transformaram-no em novo jornal O Estandarte, cujo primeiro número independente foi publicado aos 7 de janeiro de 1893. O Estandarte veio a ser, e até hoje o é, "o jornal oficial da Igreja Presbiteriana Inde- pendente do Brasil, possivelmente um dos mais antigos jornais da América Latina, ainda em circulação" (SILVESTRE, 1996, p. 24). São dois, portanto, os herdeiros diretos da Imprensa Evangélica.
No meio do fogo cruzado entre favoráveis às missões estadunidenses – financiamentos delas advindos e sua ingerência nas decisões e destinos eclesiásticos e educacionais da deno- minação no Brasil – e à maçonaria, representados pela Revista das Missões Nacionais, e seus adversários, contra-atacando com O Estandarte, surgiu outra publicação de relevo para o en-
3
O título do artigo de Euclides Cavalcante Macedo, então editor responsável do BP, "Mudar de forma é a lei natural da vida", é uma frase originalmente escrita pelo Rev. José Borges dos Santos Júnior, eleito presidente do SC/IPB em 1958, no primeiro editorial da primeira edição do BP: "Mudar de forma, continuamente, é a lei da vida. O que não se transforma é porque, afinal, já morreu" (MACEDO,p. 2, maio 2000).
4
"Infelizmente, os três problemas conjugados: a questão missionária, a questão maçônica e a questão educativa não puderam ter solução pacífica [no interior da IPB]. Em 1903, a 31 de julho, noite de tristeza para nós, 7 mi- nistros, acompanhados pelo dobro de presbíteros, se declararam desligados do Sínodo Presbiteriano do Brasil e constituíram o 'Presbitério Independente'" (FERREIRA,1952, p. 26), que depois com crescimento e desenvolvi- mento veio a ser a IPIB.
tendimento do caso. "Tendo como redator chefe o Rev. Antonio Trajano, sob os auspícios da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, o primeiro número de O PURITANO foi publicado no dia 8/6/1899, no Rio de Janeiro" (SILVESTRE, 1996, p. 27). Os objetivos declarados desse jor- nal eram os de proclamar Jesus Cristo à nação brasileira, tão influenciada negativamente pelo catolicismo romano, sem levar em conta interesses pessoais ou questões de disputas entre de- nominações ou internas a elas.
O Puritano só deixou de ser publicado aos 25 de julho de 1958 por decisão do SC/IPB e contra a vontade do próprio jornal expressa na de seus redatores. Silvestre interpreta o últi- mo editorial do jornal como uma opinião negativa face à decisão do SC/IPB, que deveria ser entendida religiosamente à luz da soberania de Deus que dirige todas as coisas para o seu me- lhor, a revelar-se no futuro. No calor dos acontecimentos, o sentimento e a racionalidade pare- ciam não encontrar explicações para o fim das publicações.
Àquela altura da história, seu diretor era o Rev. Domício Pereira de Mattos e o diretor- redator, o Rev. Zaqueu Ribeiro, responsáveis pelo editorial "O Puritano despede-se da Igreja":
Após servir a Igreja Presbiteriana do Brasil durante 60 anos, O PURITANO se vê cons- trangido a encerrar, neste número, a sua carreira. Velho batalhador, defensor dos i- deais presbiterianos, doutrinador esclarecido e inabalavelmente alicerçado no Evan- gelho de Jesus, refletindo nas suas páginas sempre o estado real da igreja que repre- sentava, foi sempre esperado nos lares presbiterianos, aos quais sempre levou uma mensagem de paz, de consolo, de ânimo e de instrução cristã. Até o presente, não nos foi possível, por mais que queiramos, compreender a sabedoria dessa medida tornada pelo mais alto concílio da Igreja. Sabemos, contudo, que acima dos homens, quem dirige a Igreja é o Espírito de Deus. E temos certeza de que Deus não nos a- bandonou, e de que, no futuro, teremos uma melhor visão dos fatos que hoje aconte- cem. E é com fé no Senhor a quem serviu que O PURITANO se despede da Igreja Presbiteriana do Brasil, saudando o BRASIL PRESBITERIANO, com votos de uma vida abençoada (apud SILVESTRE,1996, p. 28-29).
O Puritano no Rio de Janeiro e O Estandarte em São Paulo (nos limites do presbiteri- anismo unificado no Brasil e também depois do cisma de 1903) eram jornais de forte penetra- ção nos espaços protestantes e na sociedade, por tratar de assuntos de interesse geral ligados a liberalismo, educação, filosofia, religião, política, contribuindo para formação e esclarecimen- to da opinião pública sobre vários assuntos pelo viés da fé reformada. No Nordeste, especifi- camente na cidade de Natal, "o Rev. Willian Calvin Porter, no dia 11/5/1895, lançou o primei- ro número do jornal O SÉCULO" (SILVESTRE, 1996, p. 28), favorável à causa republicana, que publicava textos de política em meio a textos de religião e de assuntos mais eclesiásticos e teológicos.
Por que O Século entra na história? Porque a partir de 1902 "Jerônimo Gueiros ficara responsável pelo jornal e, em 1909, mudou o nome da publicação [para] O NORTE EVAN- GÉLICO" (SILVESTRE, 1996, p. 28), cuja distribuição alcançou todo o Brasil e países do exte- rior (Portugal e Espanha). "Em 1958, a IPB pediu à Missão Presbiteriana no Brasil [responsá- vel pela publicação e distribuição do jornal] que considerasse a idéia de fundir O NORTE E- VANGÉLICO, e o órgão oficial da IPB, O PURITANO" (SILVESTRE, 1996, p. 29).
Aí está a decisão do SC/IPB sobre seus jornais, tomada em sua 23ª reunião, hospedada pelo Instituto Gammon em Lavras-MG: a criação de um único e mais abrangente jornal na- cional unificado, órgão oficial de imprensa, o BP, que trouxe por décadas em sua primeira página ou nos dados técnicos as inscrições: "Sucessor de O Puritano e Norte Evangélico".
Em setembro de 1958 foi lançado nacionalmente o novo jornal da Igreja Presbiteria- na do Brasil. Na capa do jornal veio: "ÓRGÃO OFICIAL DA I.P.B. – ANO I –
RECIFE, SETEMBRO DE 1958 – NÚMERO 1". Trazia no cabeçalho o calendário presbiteriano para setembro, o pensamento do mês, a logomarca Brasil Presbiteriano com o mapa do Brasil entre as duas palavras e sobre o mapa a sarça ardente, símbolo da igreja, com as inscrições latinas NEC TAMEN CONSUMEBATUR – "e (A SAR-
ÇA) não se consumia". Também a transcrição de Atos 4.32: "Da multidão dos que
creram era um o coração e a alma" (SILVESTRE,1996, p. 29-30).
Não se pode dizer que a decisão pela unificação tenha sido bem recebida ou aceita por todos, o editorial já citado de O Puritano revela bem o sentimento de dúvida e até de descon- fiança em alguns. Embora tenha sido tomada pelo alto, ou justamente por isso, a decisão per- durou e o Brasil Presbiteriano é o órgão oficial de imprensa da IPB desde 1958.5
Do período que já se aproxima de meio século de existência do BP, foram seleciona- dos oito anos para leitura e interpretação, segundo escopo já anunciado. Antes de sintetizar as ações e reações do encontro e confronto entre as vozes oficiais e suas adversárias nas páginas das edições do BP de 1994 a 2002, é bom que se definam, ainda que de passagem, quais fo- ram as vozes oficiais e quais as oposicionistas no período.
5
"(...) observa-se que até 1964 o periódico [BP], na participação de muitos de seus articulistas, apresentava uma proposta que retratava uma teologia preocupada profundamente com os problemas sociais e a situação político- econômica brasileira; a partir, no entanto, de maio do mesmo ano, com a mudança do diretor-redator do jornal, grande parte dos articulistas tem seus artigos substituídos por artigos de linha teológica mais conservadora e fundamentalista" (PAIXÃO JUNIOR, 2000, p. 131). 1964 foi o ano em que o Rev. Boanerges Ribeiro assumiu a direção e a redação do jornal, como instrumento humano escolhido pela parte conservadora da igreja para colo- car o pensamento teológico oficial da IPB novamente nos trilhos da tradição reformada, segundo hermenêutica própria daquela ala da denominação. Paixão Junior (2000) caracteriza a transição de fases como a passagem da "democracia da idéias" para a "articulação fundamentalista".