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O jornalismo é um tipo de comunicação baseado na circulação e interpretação de fatos e informações da realidade que dizem respeito à sociedade de forma ampla e heterogênea. Não se trata, entretanto, de uma transcrição da realidade. É uma representação dos fatos, uma leitura sobre o mundo (CRUZ, 2007).

França (1998) apud Arce (2007) distingue três características importantes desta atividade a partir de quando: 1) ele deixa de reproduzir o senso comum para buscar um lugar próprio marcado pela prática especializada; 2) ganha destaque frente a outras instituições como igreja e universidades nas quais a posse da informação representa o poder enquanto no jornalismo ele justamente se encontra na divulgação dela; e 3) o discurso jornalístico é uma produção em que o jornalista é o responsável pela mediação entre o acontecimento e o público.

Numa visão já consolidada junto à sociedade, os meios de comunicação são aqueles que auxiliam no fortalecimento da democracia na medida em que dão visibilidade aos fatos sociais e permitem que, munidos de informações e considerações a respeito delas, os cidadãos se orientem na sociedade e atuem de maneira mais consciente e aberta ao conhecimento das razões do outro e ao debate de ideias (ARCE, 2007, p. 617).

Kovach e Rosentiel (2003) apud Ribeiro (2005, p. 81) afirmam que “a principal finalidade do jornalismo é fornecer aos cidadãos as informações de que necessitam para serem livres e se autogovernar”. Segundo eles, é o jornalismo que auxilia na identificação das comunidades, na criação de linguagens e conhecimentos com base na realidade. Na

apuração diária dos fatos, a atividade jornalística também ajuda a identificar os objetivos das comunidades.

Ao mesmo tempo em que os meios de comunicação têm papel importante por tornar público temas relevantes para a sociedade - além de colocá-los em discussão para o cidadão refletir e tomar posição em um espaço cidadão -, o desenvolvimento das tecnologias da comunicação ampliou significativamente o volume das informações, porém inibiu a capacidade das pessoas de converterem essas informações em conhecimentos. O indivíduo vê mais e interage menos (RIBEIRO, 2005, p. 89).

Ao mesmo tempo, categorizar o jornalismo como cívico, público ou cidadão pode fazer supor que as especializações e gêneros jornalísticos não tenham compromisso com a sociedade, o que não é, ou pelo menos não deveria ser, verdade absoluta. O que aconteceu ao longo da história – desde o século XVIII, época do pensamento iluminista, passando pelo século XIX, quando o jornal foi criado aos moldes do que conhecemos hoje, até o século XXI – é que os veículos de comunicação, elevados à potência de empresas e, muitas vezes, grandes conglomerados multinacionais, precisam apresentar um bom desempenho financeiro. E essa exigência mercadológica modifica comportamentos profissionais desde a época de Balzac36.

Ele mesmo tentou, por duas vezes, ser proprietário de jornais na França e fracassou por não conseguir agregar sua ideologia às condições de mercado. Segundo esse romancista francês, os jornalistas – fossem eles donos dos jornais e/ou críticos da sociedade – não tinham nenhum caráter. É dele o axioma: “se a imprensa não existisse, seria preciso não inventá-la” citado por Carlos Heitor Cony no prefácio da obra Os Jornalistas (2004, p. 12)

Sobre estes profissionais, o autor de A Comédia Humana era enfático. Para ele, todas as pessoas que atuavam nessa área eram onipotentes e muito versáteis nos seus julgamentos; possuíam vaidade venal, e exerciam uma influência abusiva sobre os governos. Segundo Balzac, os jornalistas tinham má consciência, eram criadores natimortos que desperdiçavam talento e prostituíam suas penas (hoje computadores), e renunciavam à grandeza de uma obra em favor de pequenas vaidades. O escritor afirmou que os jornalistas produziam o mal e matavam e devoravam os verdadeiros talentos. Eram reizinhos adulados que transformavam suas influências em vantagens materiais para si. Em um ataque de desprezo, chamou-os de “nadólogos”.

Situação que – em muitos veículos espalhados pelo mundo - não mudou muito no último século, comparadas às devidas proporções de mercado e tecnologia, além da profissionalização do jornalista. Há, entretanto, uma mudança de postura especialmente da

sociedade diante dos veículos de comunicação. São eles que agora plantam o conhecimento e a cultura da sociedade. O jornal se transformou em um espaço público de debates, uma verdadeira plataforma cívica que não é possível desprezar nem desconsiderar.

Em meio a ideias tão distintas, precisamos estabelecer o que constituiria então o jornalismo de qualidade e qual a sua relação com o jornalismo cidadão. Sabe-se que não basta os jornalistas acreditarem que fazem um bom trabalho para que o jornalismo seja bom. Fosse isso, a revista Veja37 não estaria sofrendo os ataques de profissionais renomados como Luís Nassif38 contestando a maneira daquele semanário entender e fazer atualmente o jornalismo. O mesmo acontecendo com estudos nas graduações e pós-graduações das academias de todo o país39.

Para fazer um jornalismo que desempenhe papel essencial na construção de uma sociedade democrática, algo cada vez mais raro de perceber no país uma vez que já virou consenso repetir que no Brasil a mídia é parcial, imprecisa e sensacionalista, Abreu (ibidem) é enfática ao relacionar o trabalho jornalístico com a construção da cidadania:

É evidente que a informação é um dos elementos fundamentais para que o indivíduo possa exercer plenamente os seus direitos. A imprensa é um veículo que fornece informações aos cidadãos e, simultaneamente, lhes dá a possibilidade de levar suas demandas até os responsáveis pelas decisões que afetam a vida da sociedade. A imprensa tem por função dar visibilidade à “coisa pública”, e a visibilidade é uma condição da democracia. Não por acaso as primeiras medidas dos regimes autoritários geralmente visam a restringir a liberdade de informação, e a censura é imediatamente imposta [...] Por outro lado, a informação é decisiva para os movimentos de libertação contra a opressão. E é a imprensa que permite ao cidadão alargar o seu conhecimento sobre as questões públicas, evidentemente, não sobre o todo, e sim sobre parte do que se passa na sociedade (ABREU, 2003, p. 2).

Para que o jornalista seja capaz de desempenhar tarefa tão árdua, mas importante, é preciso que ele (re)conheça os tipos de jornalismo que os estudiosos sobre o civic journalism conseguiram tipificar.

37A maior revista jornalística em circulação hoje no país com tiragem semanal de 1 milhão de exemplares segundo

a revista Fórum, de março de 2008.

38 Jornalista que lançou uma campanha contra a revista denominada “O caso de Veja”, uma série de textos publicados

em seu blog pessoal, mas que repercutiram em veículos do país ao longo de 2008.

39 Ver, por exemplo, a crítica da mídia semanal no projeto “A invenção do Mesmo e do Outro na mídia semanal”, em

<www://pucspbr/pos/cos/umdiasetedias>, realizada pelo Grupo de Pesquisas em Mídia Impressa, do Programa de Estudos de Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP).