Na realidade, durante o regime Tokugawa, a punição nipónica aproximou-se consideravelmente dos padrões punitivos da Europa. Com os Tokugawa assitiu-se a uma sistematização penal. A punição física deixou de ser aleatória e passou a respeitar uma tabela gradativa de crueldade consoante a gravidade do crime cometido, terminando em execução final200. Até ao final do século XVIII, na Europa e no Japão,
manteve-se este princípio da proporcionalidade, em que os crimes graves envolviam sempre a tortura, ao passo que a execução sumária raramente era entendida como castigo suficiente201. Porém, desde finais do século XVIII, a Europa começou a
abandonar a ideia de eficácia das «execuções públicas, da mutilação e da tortura, anteriormente aceites como ferramentas essenciais à manutenção adequada da ordem social e moral»202 e passou a desenvolver a concepção do sistema prisional enquanto
espaço de reabilitação. Como demonstra Foucault, esta evolução foi apresentada pelos iluministas como um marco de progresso para uma civilização mais avançada203. Por
isso, quando no século XIX as potências ocidentais começaram a olhar para os mercados e para as matérias-primas da Ásia, o Japão foi tido por um país de bárbaros204.
Neste território mantinha-se, pelo menos formalmente, um sistema penal assente na violência física, e uma nova concepção de prisão enquanto espaço de reabilitação do indivíduo apenas começava a dar os primeiros passos. A sociedade nipónica foi acusada de alimentar a brutalidade, sendo considerada selvagem; o Japão era reduzido a um país oriental num «lugar bem atrás das nações do Ocidente no … progresso humano»205.
199 Sobre esta questão vide Herman Ooms, op.cit., p.109. Entre os trabalhos centrados nesta questão
destacam-se George Elison, Deus Destroyed..., e Kiri Paramore, Ideology and Christianity in Japan, Nova York, Routledge, 2009.
200 Daniel V. Botsman, «Politics and Power in the Tokugawa Period»…, p.2.
201 Foucault em Discipline and Punish fala da relação entre a punição e o entendimento que cada época e
sociedade tinham e têm, do valor do corpo e da vida. Sobre esta questão veja-se Michel Foucault, op. cit., p.7-8; Daniel V. Botsman, op. cit., p.131, e Timothy Brook, Jérôme Bourgon e Gregory Blue, Death by a
Thousand Cuts, Camb Ma-Londres, Harvard University Press, 2008, p.10.
202 Daniel V. Botsman, op. cit., p.130.
203 Michel Foucault, op. cit., pp.11 e ss.; e Daniel V. Botsman, op. cit., pp.129 e ss. 204 Daniel V. Botsman, op. cit., pp.129-130.
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Botsman demonstra como esta imagem sustentou a posição dos Estados Unidos da América na imposição de tratados desiguais, quando forçaram os japoneses a abrirem-se ao exterior206. Segundo a lógica imperialista ocidental, o suposto atraso e barbaridade
dos nipónicos impunha a necessidade de o Japão ser civilizado.
De onde provinha a informação que conduziu a essa imagem do Japão? Terão os textos impressos pelos missionários constituído a fonte documental por excelência para a representação do povo nipónico enquanto um povo bárbaro tal como foi veiculado na década de Oitocentos? De facto, o reportório bibliográfico que constitui a base documental da presente dissertação aponta para a impressão de 433 títulos, no período entre 1601 e 1652, redigidos por religiosos que, por dizerem respeito ao período em que se iniciaram as perseguições, abordam ou estão centrados na punição dos cristãos. Considerando que os textos publicados estavam repletos de descrições de suplícios arrepiantes que eram infligidos aos cristãos sob a aparente indiferença do carrasco japonês, levanta-se a questão de saber qual o seu impacto ao longo dos tempos.
Depois da expulsão dos portugueses em 1639 e do fim da presença missionária no território, as notícias sobre o Japão passaram a estar limitadas a informações de holandeses. Alguns funcionários da Companhia das Índias Orientais (Verenigde Oost
Indische Compagnie– VOC) viveram e retrataram essa experiência nipónica. Todavia, como em 1641 foram forçados a deslocar-se da feitoria de Hirado para Deshima, uma ilha artificial no porto de Nagasaki, os seus relatos foram muito mais parciais do que os dos religiosos. Ao contrário destes, os homens ao serviço da VOC encontravam-se confinados a Deshima e apenas percorriam o arquipélago na visita anual que eram obrigados a prestar a Edo (quadrienal a partir de 1790). Dessas visitas resultaram alguns relatos que tiveram uma divulgação significativa. Destacam-se os textos escritos, em momentos diferenciados, por François Caron (ca. 1600-1674) e Engelbert Kaempfer (1651-1716), ambos objecto de várias publicações207.
206 Botsman defende que a associação aos japoneses do epipeto de povo bárbaro e incivilizado foi
aproveitada para a exigência do estatuto de extraterritorialidade. Ibidem, p.131.
207 Sobre outras obras publicadas por holandeses que viajaram ao Japão veja-se Reinier H. Hesselink
«Japan through Dutch Eyes» in Briding the Divide. 400 Years. The Netherlands – Japan, Leonard Blussé,
Willem Remmelink e Ivo Smits (dirg.), Hotei Publishing, 2000, p.52. Uma versão detalhada do material encontra-se em Donald Lach e Edwin J. Van Kley, Asia in the Making of Europe, vol. III, A Century in
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François Caron teve uma longa vivência no arquipélago208. Desembarcou em
Hirado em 1619 e pouco tempo depois estaria ao serviço da VOC, acabando por progredir na carreira até ascender ao cargo de director da feitoria holandesa. Até ao ano de 1641, Caron residiu de modo quase permanente no arquipélago. Possuindo o domínio da língua, foi por diversas vezes intérprete em embaixadas holandesas de homenagem ao xogum. O seu texto sobre o Japão resultou de um pedido formulado pelo então recém-nomeado director geral da companhia em Batávia, Philips Lucasz, que, em 1636, requisitara informações sobre a feitoria de Deshima. Apesar de responder a uma exigência administrativa da VOC, o seu relato denota um profundo conhecimento da realidade nipónica. Talvez por isso se explique a ampla divulgação de que foi objecto: primeiro, integrou a história da VOC da autoria de Isaac Commelin (1645); depois foi publicado autonomamente (1648); por fim passou a ser impresso numa edição revista pelo próprio Caron após o seu regresso à Europa (1661)209.
Caron dedica todo um capítulo ao sistema penal nipónico, onde enuncia os crimes punidos de forma mais severa, diferencia a punição em função dos grupos sociais, destacando o privilégio dos guerreiros associado ao seppuku (morte por esventramento), refere a tendência geral para se punir com a morte todo e qualquer tipo de crime, mesmo o roubo mais insignificante, e cita a prática da responsabilização colectiva. Porém, é a propósito da punição dos cristãos, tratada num capítulo específico, que Caron traça a imagem de desumanidade dos nipónicos. Quando comparado com a escrita missionária, o discurso de Caron sobre estas punições é bastante mais detalhado, na descrição das atrocidades nos métodos aplicados. A classificação de «sangrento e selvagem»210 são um mero eufemismo em face do conteúdo descrito.
Ainda assim, Caron terá considerado a sua informação pouco extensa, pois um outro texto foi anexado a todas as impressões da sua obra. Trata-se do texto Historie der
Martelaren / History of the Martyrs, que foi redigido pelo seu conterrâneo Reyer
208 Sobre a vida de François Caron veja-se “Introdução” de C. R. Boxer na edição de A True Description
of the Mighty Kingdoms of Japan and Siam, C. R. Boxer (publ), Londres, The Argonaut Press, 1953, 50pp.
209 A primeira edição enquanto obra independente data de 1648, Beschrijvinghe van het machtigh
coninckrijck Iapan. Foi traduzida em várias línguas (francês, inglês e latim) e em todas, no prazo de uma década foi editada mais de que uma vez, no prazo de uma década. Donald Lach e Edwin J. Van Kley,
Asia in the Making of Europe, vol. III, A Century in Advance, Livro 1, Trade, Missions, Literature, Chicago, University of Chicago Press, 1993, p.458. Para um registo completo das várias edições do texto de Caron veja-se C. R. Boxer «Introduction» in François Caron e Joost Schouten, op. cit., p.cxxix. e pp.169-180.
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Gysbertsz a propósito das execuções ocorridas entre 1622-1629211. Gysbertsz, mercador
protestante, faz uma abordagem mais factual da questão, tratando sobretudo dos procedimentos que antecediam a execução e focando-se na evolução dos números relativos à perseguição – quando e quem foi executado em cada ano.
Perante as atrocidades vividas, o autor chega a afirmar «tenho vergonha em relatar, nem a minha caneta consegue descrevê-lo, por isso omito-o»212. Estes textos
redigidos por laicos distanciam-se claramente dos de autoria missionária, pelo interesse no detalhe realista e, nesse sentido, bastante mais prolixos e detalhados nos aspectos sanguinários.
O contributo do alemão Engelbert Kaempfer é em tudo contrastante com o de Caron. Em primeiro lugar, esteve no Japão apenas dois anos, entre 1690-1692, na qualidade de cirurgião da VOC em Deshima, tendo integrado por duas vezes a embaixada a que os holandeses estavam obrigados a Edo. Em segundo lugar, neste pequeno intervalo de tempo os sinais de vivência cristã eram inexistentes, embora à época governasse o xogum Tokugawa Tsunayoshi, que ficaria conhecido pelas suas políticas humanitárias213.
Apesar da sua estadia no Japão ter sido mais limitada no tempo, a obra de Kaempfer é bastante mais abrangente do que a de Caron. O texto foi redigido após a sua estadia no arquipélago, usando de documentação diversa incluindo nipónica214.
Apresenta-se como um livro centrado na história e na cultura nipónicas, embora não faça referência ao seu sistema penal. Kaempfer ocupa-se das tradições religiosas, mas não se alarga no problema da perseguição aos cristãos nem desenvolve a questão do trato dos portugueses no Japão. Reitera, contudo, insistentemente o modo como a
211 Reyer Gysbertsz, Historie der Martelaren die in Jappan om de Roomsche Catholijcke Religie,
schrickelijcke, ende onverdraghelijcke pynen geleden hebben, ofte ghedoodt syn, beschreven door Reyer Gysbertsz / History of Martyrs who have been killed, or endured fearful and insufferable torments, for the
sake of the Roman Catholic Religion in Jappan (1ª ed, Amesterdão, 1637). A partir de 1637 o texto foi incluído em várias edições holandesas do texto de Fraçois Caron. Para a versão completa inglesa do texto veja-se François Caron e Joost Schouten, op. cit.…, pp.73-89.
212 Ibidem, p. 83.
213 Na vastíssima legislação emitida por Tsunayoshi destaca-se a proibição do infanticídio, o
estabelecimento de centros de acolhimento para os prescritos, doentes, e sem abrigo, e até para cães, sob a justificação do elevado número de animais abandonados em Edo durante a estadia à qual os dáimios se encontravam obrigados no âmbito do sankin kotai (residência alteranada em Edo). Conrad Totman, op.
cit., p.133-134.
214 O tradutor francês da obra de Kaempfer, Jean-Gaspar Scheuchzer, enuncia as obras nipónicas trazidas
para a Europa por Kaempfer, e especifica aquelas que constituíram fonte para o seu trabalho. Histoire
Naturelle, Civile et Ecclesiastique de l’ Empire du Japon, Jean-Gaspar Scheuchzer (trad.), Haia, Pierre
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associação entre mercadores e missionários contribuiu para decisão final de expulsão dos portugueses. Este seu texto só viria a ser publicado no século XVIII, mas o sucesso foi imediato. Publicado em versão inglesa em 1727, foi objecto de um total de dez edições, entre traduções e reimpressões215.
Muito mais tarde, quando o Comodoro Mathew Perry partiu em 1853 dos EUA, com vista a forçar os nipónicos a reatarem as relações com as potências ocidentais, levava consigo um exemplar da obra de Kaepmfer. Mas transportava também uma outra obra recém-publicada à época (1852). Tratava-se de The Japan and the Japanese redigida por Talbot Watts, um antigo funcionário da Companhia das Índias Orientais britânica216. O facto de ter sido transportada por Perry significa que era tida como uma
fonte fidedigna. Aliás, o livro era assumido como uma novidade, na medida em que tinha a pretensão de facultar ao público «toda a informação digna de confiança ou válida passível de ser obtida sobre o assunto», isto é, o Japão e o seu povo, recolhida de obras com que poucos estariam familiarizados e de difícil acesso217. De facto, a obra de Watts
transcreve fontes diversas, muito embora não reproduza nem escritos dos missionários nem dos mercadores sediados nas feitorias de Hirado e Nagasaki, uns e outros publicados na Europa ao longo do século XVII.
A obra de Watts inicia-se com uma síntese realizada pelo autor onde, apesar do discurso bastante desorganizado e nem sempre isento de erros, discorre sobre a organização administrativa, social e religiosa e sobre vários hábitos culturais nipónicos. Apesar de não citar Caron, Watts teve acesso à sua obra, fazendo uso exactamente dos exemplos descritos por aquele oficial. Tal como Caron, o autor assinala que no arquipélago nipónico «não existe ofensa, ainda que menor, que não seja punida com a morte», e regista que aí os «castigos não são proporcionáveis aos crimes cometidos; mas são tão cruéis que não é fácil expressar a barbárie exibida»218. O grau de barbárie é
ainda reforçado pelo detalhe com que é descrita a tradição da punição colectiva, designadamente dos familiares do punido, o uso da tortura na punição, a violência das penas aplicadas, e a associação de costumes exóticos para apuramento da inocência do
215 Beatrice Bodard-Bailey «Translator’s Introduction» in Kaempfer’s Japan. Tokugawa Culture
Observed, Beatrice M. Bodart-Bailey (dirg.), Hawai, Honolulu University, 1999, p.7.
216 Talbot Watts, The Japan and the Japanese, Nova York, J. P. Neagle, 1852. 217 Ibidem, p.iii.
218 Watts menciona como os crimes mais gravosos e punidos com a morte o roubo (independentemente do
valor) a cunhagem de moeda falsa, o fogo posto, a violação e o mau governo. Talbot Watts, op. cit., p.10. Cf. François Caron e Joost Schorten, op. cit., pp.36-41.
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acusado. Watts omite, contudo, os detalhes mais brutais e sanguinários que constavam dos relatos de Caron e de Gysbertsz, e não refere especificamente a perseguição dos cristãos.
Deste modo, não restam dúvidas de que para a imagem de um Japão num estádio civilizacional inferior contribuiu a leitura de textos redigidos em tempos de perseguição aos cristãos. A realidade persecutória proporcionou uma base factual e a ampla divulgação de uma extensa prática discursiva sobre o tema facilitou o julgamento preconceituoso dos nipónicos. O isolamento a que o Japão se impôs a partir de 1640 contribuiu para a cimentação daquela imagem. A temática da perseguição não suscitou, contudo, interesse no momento em que se preparava uma nova aproximação ao Extremo-Oriente no século XIX. Quanto ao texto impresso missionário, esse apenas contribuiu de forma indirecta para a representação brutal do Japão.
De facto, da avaliação do texto de Watts apenas se infere o cruzamento pontual de informações veiculadas pela imprensa missionária. Disso é exemplo a referência a uma prática exótica de «juramento gentílico». O costume, reproduzido em Watts, tem como fonte textos missionários:
«o juramento de fogo ao modo gentílico, como em Iapão se vsa, o qual se faz desta maneira. O que há de jurar, escreue em hum papel assinado por ele, dizendo que tal não fez, & inuocando sobre si a ira dos Camijs, & Fotoques, se tal fez. Nisto poenlhe o papel na palma da mão, & metemlhe sobre elle hum pedaço de ferro todo abrasado em fogo fazendolhe apertar na mão: & persuadense os Iapões, & dizem o achão por experiencia, que quando a pessoa tem culpa, fica logo o papel, & a mão abrasada, & não a tendo fica assi a mão, como o papel sem se queimar»219.
Esta informação foi posteriormente reproduzida num outro texto, de Arnoldus Montanus (1625?-1683). Montanus nunca viajara ao Japão, mas na sua obra, que demorou 20 anos a ser redigida, compilou informação missionária com relatos dos
219 Compendio de algvas cartas qve este anno de 97. vierão dos Padres da Companhia de Iesv, que
residem na India & corte do grão Mogor, & nos Reynos da China, & Iapão, & no Brasil em que se contem varias cousas. Collegiadas por o padre Amador Rebello de mesma companhia, Alexandre Siqueira, Lisboa, 1598, fl.86.
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empregados ao serviço da VOC220. À semelhança do texto de Caron e Kaempfer, a obra
de Montanus foi traduzida em diversas línguas, nomeadamente em inglês logo em 1670, ano imediatamente posterior ao da primeira edição em holandês221.
Assim, a compilação de notícias por Watts sobre o Japão espelha dois aspectos sobre a história do conhecimento do Japão. Em primeiro lugar vai ao encontro da ideia desenvolvida por Burke da importância da «distribuição espacial do conhecimento»222.
Kaempfer e Montanus fundamentaram os seus textos nos relatos impressos por missionários, consultados ou adquiridos em espaços de conhecimento da época, fossem eles a oficina do impressor, a biblioteca, a universidade ou o mosteiro. No caso de Kaempfer sabe-se que a sua biblioteca particular era composta por uma extensa lista de textos sobre o Japão impressos por missionários: citando apenas alguns, desde cartas anuas dos jesuítas, aos relatos franciscanos de Juan de Santa Maria e de Marcelo Ribadeneira sobre o primeiro martírio de cristãos impressos em Madrid em 1599 e em Barcelona em 1601 respectivamente; à história da Companhia de Jesus de Luis de Gusmán impressa em Alcalá em 1601; à obra congénere redigida pelo dominicano Jacinto Orfanel com edição em Madrid em 1633; ou relação dos mártires de Frei Diego de San Francisco, publicada em Manila em 1625223. Watts teve acesso a outros espaços
de conhecimento que lhe proporcionaram a leitura de textos laicos, sem dúvida, o de Caron, o de Kaempfer e o de Montanus.
Em segundo lugar, as escolhas de Watts remetem para a importância da língua enquanto factor primordial no acesso e selecção do conhecimento. De facto, as obras Caron, Kaempfer ou de Montanus distinguem-se por terem conhecido edições sucessivas em inglês para lá de Seiscentos. Já dos textos missionários impressos, conhecem-se apenas três traduções, todas restritas ao século XVII, realizadas no colégio
220 No presente estudo fez-se uso da versão francesa publicada em Amesterdão em 1680. Arnoldus
Montanus, Ambassades Mémorables de la Compagnie de Indes Orientales des Provinces Unies vers les
Empereurs du Japon, Amesterdão, Jacob Meurs, 1680, pp.178-204.
221 A primeira edição em holandês foi publicada em Amesterdão em 1669. Gedenkwaerdige
gesantschappen der Oost-Indische maatschappy in’t Vereenigde Nederland, aen de Kaisaren van Japan…, Amesterdão, 1669. A primeira edição inglesa é do ano seguinte: Atlas Japannensis: Being Remarkable Addresses by Way of Embassey from East Índia Company of the United Provinces to the Emperor of Japan, Londres, Tho. Johnson, 1670.
222 Peter Burke, A Social History of Knowledge. From Gutemberg to Diderot, Cambridge, Polity Press,
2000, p.55.
223 Para uma lista completa das obras que constavam na biblioteca de Kaempfer veja-se a nota do tradutor
da edição francesa (Haia, 1729) de Jean-Gaspar Scheuchzer. Engelbert Kaempger, Histoire Naturelle,
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da Companhia de Jesus em St. Omer, no litoral francês, com vista a serem escoadas para Inglaterra via canal da Mancha224.
Assim, a imagem de Oitocentos veiculada na Europa sobre o Japão ficou-se a dever à leitura dos textos laicos, onde predominam, aliás, como se afirmou, as descrições mais sanguinárias. Ora esta constatação abre caminho para o entendimento dos textos missionários impressos sobre o Japão. Se as ordens missionárias publicaram 433 títulos sobre o Japão, este manancial de informação parece destinar-se a um mercado específico. Isto explica o predomínio da impressão nas línguas dos estados envolvidos na missionação do Japão. Tratam-se sobretudo de textos em italiano e castelhano. Apenas 18 títulos foram publicados em português, número explicável, em parte, por Portugal integrar a Monarquia Ibérica e também porque, mesmo antes disso, o bilinguismo era uma prática habitual. Além do mais, a divulgação da realidade vivida pelos cristãos nipónicos, cujas execuções eram apresentadas como martírios, servia uma determinada política, nomeadamente a das respectivas ordens missionárias na Europa, nem sempre directamente relacionáveis com a sua presença no arquipélago, o que levava os missionários a valorizar a retórica em detrimento dos detalhes das execuções.
224 São estas três obras: uma tradução da obra de Pedro Morejon, A Briefe Relation Of The Persecvtion
Lately Made Against the Catholike Christians, in the Kingdome of Iaponia, Deuided into two Bookes. Taken out of the Annuall Letters of the Fathers of the Society of Iesvs, and other Authenticall