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3. Thematic background

3.4 Climate services in support of CCA and DRR

A princípio, pode-se associar a expressão Jornal Literário ao nome do jornalista, escritor e crítico literário alagoano Valdemar Cavalcanti, que parece ter fixado seu uso no jornal brasileiro por volta de 1937, pondo-se a escrever a primeira coluna diária de informações sobre fatos e fenômenos da vida literária, como redator da Folha Carioca [19--] e diretor do suplemento literário de O Jornal (1924), de Assis Chateaubriand, no Rio de Janeiro, lugar onde exerceu intensa atividade literária, escrevendo crônicas e artigos de crítica para jornais (como os já citados) e revistas brasileiras, a exemplo da Revista do Brasil (1926), O Cruzeiro (1928), Vamos ler (1935), Revista Bancária (1933) e Carioca (1922).

A coluna de Valdemar, que trazia o título de “Jornal Literário” e que se manteve por duas décadas em O Jornal (1924), compunha-se de anotações desenvolvidas sob a forma de comentários leves sobre livros, fatos e acontecimentos literários, como se observa nesta nota, em que o jornalista anuncia o lançamento e tece considerações sobre o primeiro “diário” de Ascendino Leite – Durações, de 1963, publicado pela editora Vozes:

Jornal Literário

Valdemar Cavalcanti

1 – Ascendino Leite: notas de um diário 2 – Guia prático para aprendiz de orador 3 – Crítico ganhou o caminho de um romance

Já em provas um novo livro de Ascendino Leite, “Durações”, cujo lançamento a editora Vozes marcou para fins de abril ou começo de maio. Não é romance: é uma espécie de diário, notas de cunho pessoal sobre pessoas, coisa, leitura, viagens; observações e reflexões de um escritor, levadas ao papel desde 1940, durante certa crise espiritual do autor – crise que só veio a cristalizar-se na maturidade, quando AL se orientou para o romance. Nesses papéis íntimos, pelo que se vê, a nota que predomina é a de deslumbramento ante as forças naturais que cercam os seres vivos e os transformam em projeções humanas importantes. Inúmeros escritores e artistas estão na alça de mira do romancista de “O brasileiro”: José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Augusto Frederico Schmidt, Marques Rebelo, Guimarães Rosa, Josué Montelo, Gilberto Freire, Carlos Drummond de Andrade, Lúcio Cardoso, Santa Rosa, Goeldi Guignard, etc. Talvez saia ainda este ano outro volume do diário – o “Novas durações”, cujos originais Ascendino Leite já está revendo, enquanto dá andamento a outro romance, “O anel”[...].

(O Jornal, 01 mar. 1963. Acervo: Fundação Casa de José Américo, João Pessoa, PB)

A função de colunista e observador, que assumiu Valdemar Cavalcanti, contribuiu para o preparo das notas para O Jornal (1924) e, por conseguinte, para utilização desse material na elaboração de um livro de crônicas, publicado pela livraria e Editora José Olympio, também intitulado de Jornal Literário (1960) –, que, segundo o autor, se justificava “pela própria natureza e espírito da matéria que contém”. Ou, como definiu, mais detalhadamente: “[...] As páginas ora reunidas são parte de anotações feitas, quase dia a dia, à margem dos fatos, fenômenos e episódios da vida literária, focalizadas ainda ideias e tendências, bem como evocadas figuras humanas em trânsito pelo mundo das letras [...]”. No decorrer dessa Nota do Autor, Valdemar acrescenta a motivação que o levou a considerar a matéria importante, a ponto de decidir pela sua publicação em livro:

[...] Foi por verificar que esse material poderia, de certo modo, representar um depoimento talvez útil ao estudioso das condições peculiares da atualidade literária no Brasil, que o autor se decidiu a reuni-lo em volume, vencendo mesmo resistências que formara ao longo de sua carreira de aprendiz de escritor. [...]

O que chama a atenção nessas rápidas observações sobre esse livro de crônicas de Valdemar Cavalcanti é a natureza do conteúdo dessa obra, voltada para o comentário de livros e fatos literários, atividade para a qual, segundo Aurélio Buarque de Holanda28, o autor parece não ter tido predecessores, a não ser, posteriormente, na relação que se verifica entre esse livro e o Jornal Literário de Ascendino Leite. A proximidade entre os dois escritores está, inicialmente, no fato de Ascendino Leite ter sido contemporâneo do escritor alagoano, tendo sido leitor de sua coluna em O Jornal, propondo-lhe, inclusive, algumas notas sobre o

desenvolvimento do Jornal que ele (Ascendino) escrevia, visando a eventuais editores no futuro: “certos pormenores de estrutura, indiscrições etc., que eu gostaria de ver difundidos em sua coluna, coisa que ele [Valdemar] acolhe com pronta deferência.” (LEITE, 1982, p.258). Veja-se, acima, o exemplo da nota sobre Durações (1963).

De leitor a “colaborador” da coluna de Valdemar Cavalcanti, Ascendino também fez do Jornal Literário desse jornalista objeto de leitura, em virtude do acentuado interesse pelos fatos literários, registrando esta nota no livro As Durações (1963, p.255):

– O Jornal Literário, de Valdemar Cavalcanti, é minha leitura deste domingo. Não tem ele a envergadura de um depoimento uniforme sobre livros e as gerações que configuram o mundo das letras no Brasil. O autor, por seu lado, não teve tal propósito. Ele o declara.

Mas é, em geral, uma notícia crítica das peculiaridades da estruturação quotidiana desse panorama literário, traçada com uma perspicácia que obriga a admiração.

O que quero destacar, ao dar relevo a estas informações, é o fato de Ascendino ter publicado Durações (seu primeiro Jornal Literário) três anos depois da publicação do Jornal Literário, de Valdemar Cavalcanti, que data de 1960, já ambientado com o autor e com os aspectos literários abordados na coluna que mantinha o jornalista. Ao comentar sobre o livro de Valdemar Cavalcanti, Ascendino como que indicia a possibilidade de cumprir um objetivo maior, propagado, mas não ambicionado pelo jornalista: “Não tem ele a envergadura de um depoimento uniforme sobre livros e as gerações que configuram o mundo das letras no Brasil...”, como se anunciasse: “o meu Jornal Literário tem”. É oportuno lembrar os contatos que Ascendino estabeleceu com Valdemar Cavalcanti, através da conversa que mantinha com o jornalista ao telefone, dando-lhe informações sobre o andamento de seus livros, ou por meio do encontro com o escritor em alguma livraria29.

Esse tipo de relação, que tinha como tópico da conversa assuntos literários, era muito comum entre os escritores da época, transformando-se muitas vezes em amizades literárias (tema que discuto no terceiro capítulo), e que o próprio Cavalcanti definiu, em seu livro Jornal Literário, como “Amizades que se fazem sólidas entre os vivos, pelo mútuo conhecimento e admiração recíproca, pelo constante intercâmbio de ideias ou emoções, mas também entre vivos e mortos, por um misterioso comércio da inteligência e da sensibilidade” (CAVALCANTI, 1960, p.8).

29 Em A Velha Chama (1974, p.54-55), Ascendino registra o encontro com Valdemar Cavalcanti e outros

escritores (Grieco, Antônio Houaiss) na livraria São José, em que Valdemar Cavalcanti, buscando material para sua coluna literária, realiza um inquérito entre eles, interrogando-lhes sobre os dez livros que “haviam no correr dos séculos, desta ou daquela forma, abalado o mundo”.

O contato que Ascendino Leite estabelecera com Valdemar Cavalcanti, seja como leitor de sua coluna literária, seja por meio da participação das redes de sociabilidade junto ao escritor e, particularmente, da leitura que fizera do seu livro, permitiu identificar algumas afinidades, do ponto de vista do conteúdo, entre o Jornal Literário de Ascendido Leite e o livro do escritor alagoano. Neste, a matéria se acha concentrada numa série de temas que vão desde a crítica à “feira das vaidades literárias”, expressa em seus vários ângulos (esnobismo, igrejinhas literárias, brigas nos meios literários, orelhas de livros, influências, dedicatórias, o que se vê nos sebos e a soberba literária), às confissões, aos trechos evocativos, aos comentários parciais de obras, à construção de perfis, entre outros aspectos relativos à vida literária.

Tudo dosado por meio de uma expressão pessoal ora contemplativa, ora observadora (como no caso dos perfis), ora mais incisiva (como se observa na maioria das crônicas), sendo os textos conduzidos pelo toque da ironia e, por vezes, do humor, dando um tratamento diferenciado à matéria literária. A título de exemplo, veja-se o que Valdemar Cavalcanti registrou a respeito do Diário Secreto, de Humberto de Campos, sob o título de Confissões, no seu Jornal Literário (1960, p.197):

Diante do Diário Secreto, de Humberto de Campos, volto a experimentar ainda viva aquela penosa impressão que me deixaram muitas de suas páginas.

O que o homem tinha de podre estava à mostra em suas confissões. Mesmo no fim da vida, entre os sofrimentos de uma doença implacável, quando o natural é que ele se voltasse para o patético, o escritor maranhense ainda conseguia dar vez ao seu espírito de maledicência. E era como se uma frase ferina ou um ato de maldade lhe aliviasse as dores.

Nunca vi, assim, tanta incapacidade de amar, tamanho desrespeito à amizade, tanto desalinho de compostura humana. Nele a acromegalia não se limitou às deformações do corpo: foi até o espírito – e deu-lhe um aspecto mais monstruoso ainda.

“Há em mim a volúpia da perfídia” – ele escreveu com todas as letras. Claro: a peçonha da ruindade secara-lhe as nascentes da ternura. E do resto se sucumbiu a vaidade, que inchara, no fim, mais que a cara, as mãos e os pés.

Além desse texto, que mais se configura como um diário de leituras – haja vista tratar- se do registro das impressões de leitura e do diálogo reflexivo do leitor com o autor do Diário Secreto – outros flagrantes do Jornal Literário (1960) de Valdemar Cavalcanti vão, mais tarde, encontrar eco nos fragmentos que compõem a antologia Sementes no Espaço (1938- 1988) I e II, de Ascendino Leite: particularmente no momento em que o leitor se defronta com a presença de confissões, das evocações memorialísticas, das notas críticas sobre a matéria do romance, dos perfis e retratos de escritores ou, melhor dizendo, da matéria literária de que o

escritor se utilizou para compor seu Jornal Literário, reempregando, para isso, uma expressão literária e conteúdo bem mais “elaborados” que os do seu antecessor, que atribuiu ao conjunto de suas anotações o título de crônicas.30

São essas operações de reemprego que chamam a atenção no Jornal Literário de Ascendino Leite e permitem dizer que essa expressão esteve, pelo menos num momento inicial, associada à matéria literária do livro de Valdemar Cavalcanti, expandindo-se para as maneiras de fazer próprias do leitor Ascendino em seu Jornal Literário. Segundo De Certeau (2009, p.87), “[...] nesses „usos‟, trata-se de reconhecer „ações‟ (no sentido militar da palavra) que são sua formalidade e sua inventividade próprias e que organizam em surdina o trabalho de formigas do consumo”, isto é, o uso que se faz do produto cultural, como se consome tal produto, que ações são empregadas para usá-lo.

Embora o livro de Valdemar Cavalcanti tenha se apresentado como um ponto de apoio para Ascendino Leite pensar a formação do seu Jornal Literário – representado aqui pela antologia Sementes no Espaço (1983-1988) I e II –, foi no papel de leitor do journal de escritores estrangeiros (Henri-Frédéric Amiel, Katherine Mansfield, Benjamin Constant, Edmond de Goncourt, Jules de Goncourt, André Gide) que o escritor encontrou de fato motivação para elaboração desse Jornal, tomando, à luz da fórmula francesa, ciência de que escrevia um diário (mas não sob o rigor cronológico típico do diário íntimo). De acordo com o DICTIONNAIRES Le Robert de Poche 2008 (2007, p.400), o verbete journal compreende os seguintes significados:

Journal (aux): 1 – Registre de comptes. 2 – a – Récit quotidien des événements: écrit portant ce récit. Journal intime. Journal de bord (sur um navire). b – Publication périodique: revue. Publication quotidiènne consacrée à l‟actualité: quotidien. L‟administration, la direction, les bureaux d‟un journal. Écrire au journal. 3 – Bulletin quotidien d‟information. Journal parlé (radiodiffusé), télévisé.31

Note-se que dentre os sentidos atribuídos ao termo journal está o de Journal intime, escrito portando a narração cotidiana dos acontecimentos, de que o diário íntimo é um exemplar, modelo que Ascendino tomou para si, admitindo-o, em nossa literatura, como Jornal Literário, isento praticamente de datas, marcado pela mescla de passagens de

30 Não há aqui qualquer preconceito quanto a este tipo de narrativa curta, apenas quero frisar a dimensão que

adquiriu as ações empregadas no conteúdo do Jornal Literário do escritor Ascendino Leite – questão que o leitor terá oportunidade de observar no terceiro capítulo.

31 Jornal (ais): 1 – Registro de contas. 2 – a – Narração cotidiana dos acontecimentos: escrito portando(que traz,

relativo a) esta narração. Diário. Diário de bordo (sobre um navio). b – Publicação periódica: revista. Publicação cotidiana destinada à atualidade: cotidiano. A administração, a direção, as instalações (redações) de um jornal. Escrever para um jornal. 3 – Boletim diário de informação. Jornal falado (de radiodifusão), televisionado. (tradução minha)

diferentes épocas ou pela supressão de trechos de vários anos – novidades que Martins (1995) denominou de antidiarísticas, ao fazer alusão ao livro A Velha Chama (1974). A palavra “jornal” refere-se, segundo Martins, a um galicismo enraizado no nosso idioma, servindo para designar ora o jornal propriamente dito, ora o “jornal” literário, salvaguardando, neste último caso, do diário íntimo apenas o gosto pela autoanálise, o olhar despojado em relação às pessoas e também a força da sinceridade (BARBOSA FILHO, 2008a).

Para Ascendino, a justificativa do diário estava em ser o registro dos dias significativos, notificados ao sabor do que “é essencial e tenha interesse tanto ao sentimento quanto à memória”, constituindo-se, dessa forma, mais um jornal que um diário íntimo, como lhe pareceu o significado que dera Alfred Fabre-Luce ao seu Journal Secret, que ele tomou como divisa para si, através desta citação, transcrita em Sementes no Espaço (1938-1988) II:

– La vie se compose d‟heures essentielles, qui existent puissamment, et d‟aures heures, qui les servent, les prolongent ou les expient. Etablir une égalité artificielle entre ces heures, c‟est trahir notre vie interieure em supprimant ses proportions et perspectives.32 (LEITE, 1989, p. 158).

No fragmento a seguir de Sementes no Espaço (1938-1988) I, Ascendino Leite registrou claramente o insight que teve ao deparar com a leitura do diário de escritores estrangeiros, num confronto com suas anotações íntimas anteriores, especialmente com a leitura do Journal de André Gide, que passou a exercer forte influência na construção do seu Jornal Literário, porque apontava para o caráter intimista, confessional dos seus registros – para o exame e expressão do eu – o “euísmo”, como nomeou, conduzido pelo trabalho literário: “Pelo eu posso alcançar a densidade do infinito; o eu é necessariamente o seu ponto de partida.” (LEITE, 1989, p.401) –, ao mesmo tempo em que não se distanciava da observação e da análise da realidade:

[...] Alguns fragmentos de minhas anotações íntimas dessa época [refere- se à fase 1936-40], que me passaram pelas mãos quando me decidi compor o jornal literário, continham tais liberdades que fiz bem, vejo agora, em os esquecer, em os desprezar, em os relegar ao mais completo olvido.

Até então eu jamais lera qualquer diário íntimo, nem mesmo o de Amiel, o primeiro que li, seguindo-se o Journal Intime, de Constant, o dos Goncourt, a Mansfield, até o encontro decisivo – o Journal de Gide.

A partir desse instante, o registro íntimo, a conversação comigo mesmo, criaram-me a sensação do trabalho, a atmosfera da confissão: compunha sem saber um esboço da minha fisionomia, mas não esquecia o mundo que estava ligado à minha subsistência.

Hoje, direi como Amiel que o diário é minha pátria, minha ciência e minha arte. (LEITE, 1988, p.137-138)

32“– A vida compõe-se de horas essenciais, que existem poderosamente, e de outras horas que as auxiliam,

prolongam ou esgotam. Estabelecer uma igualdade artificial entre essas horas é trair nossa vida interior, suprimindo-lhe as proporções e perspectivas.” (tradução do autor).

Ao qualificar, nesse fragmento, o Journal de Gide como “o encontro decisivo” para o exercício do seu Jornal Literário, Ascendino me chamou a atenção para aquele escrito. Nesse sentido, achei oportuno considerar a leitura do ensaio de Antonio Olinto (1960) sobre o journal de André Gide, visto que me conduziu a algumas percepções sobre o tipo de relação (ou de influência) que provavelmente exercera a leitura desse journal para a escrita do Jornal Literário de Ascendino Leite, até no seu comportamento como leitor, nas suas preferências de leitura.

De acordo com Olinto (1960), o Journal de Gide, datado de 1889 a 1949, teve início quando o autor tinha 20 anos de idade. Nesse texto se acham as impressões dos momentos importantes de sua vida, num escritor preocupado com problemas de consciência, com o aspecto ético do mundo, com o bem e o mal, permanecendo em contínuos debates consigo mesmo, o que se mostra profundamente presente em seu journal. Para este atribuiu uma forma, transformando esses aspectos em elementos de comunicação, tomando para si a “luta permanente do artista pelo aperfeiçoamento de sua arte e de seu espírito”, tanto na vida como na arte. Como considerou Olinto (1960, p.13), o fato de Gide não ter cedido a uma lei moral, preferindo o uso da inteligência e dos sentidos, mostra que:

[...] Não é apenas com obras passivamente exemplares, com neutralidade de certas virtudes ou com o orgulho monopolista de algumas posições definidas, que um homem leva avante a sua batalha pessoal contra a maldade. É principalmente com a turbação cheia de esperança (de um Pascal) e com a turbação desesperada (de um Gide) [...].

Acrescenta ainda que “é principalmente através de um exame de consciência de cada pessoa, exame que, como no caso de André Gide, pode não purificar a vida daquele que o faz, mas é capaz de esclarecer muita gente que venha a tomar conhecimento” (OLINTO, p.13) de suas obras, particularmente do Journal, onde esse exame se encontra de forma mais clara. Gide dizia que escrevia para não se matar, Ascendino, tomando as palavras do diarista, buscava refúgio na escrita, dizendo: “Escrevo porque vivo. Vivo porque escrevo.” (LEITE, 1989, p. 349). A relação entre literatura e vida, presente no Journal de Gide, aparece aqui com a mesma força, a ponto de, noutro momento do Jornal Literário, Ascendino esquecer do foco que dava a si mesmo nesse escrito, admitindo que não escrevia para ser lembrado, mas contra o esquecimento, contra a vida que passa – dormia pouco para a ter a sensação de viver mais. Já noutro fragmento acrescentava: “[...] viver fora destes registros é como viver fora de mim, social ou individualmente destinado a desaparecer. [...]” (LEITE, 1988, p.181). A escrita é concebida como a descoberta de um modo para servir ao

espírito, que não tangencia a prática da leitura, antes a envolve, num processo similar ao desejo de aperfeiçoamento de si que buscava Gide, e que Ascendino assim resumiu para si: “Lendo e escrevendo não faço mais que empreender uma singular e misteriosa viagem à procura do meu eu.” (LEITE, 1989, p.368).

Outro traço importante da obra de André Gide e que se reflete no Jornal Literário de Ascendino Leite é a sinceridade que o escritor francês colocava em suas “confissões”: a fidelidade a si mesmo constituía um princípio sobre o qual se firmava. De acordo com Olinto (1960, p.18), “ninguém pode duvidar da autenticidade de suas palavras e de seus sentimentos, tal a precisão e a constância das preocupações que o seu “Journal” revela.” Um dos aspectos que justifica esse apego à sinceridade refere-se à própria vida conjugal do escritor, que era marcada pelo silêncio, pela abstenção de diálogos entre Gide e sua mulher Madeleine, sem que aí houvesse uma hostilidade mútua, nem ressentimento. O reconhecimento de ter fracassado como macho e companheiro junto à mulher não invalidaria o fato de que a amava, silêncio que só vem a ser quebrado no journal: “É o sentimento de que meu amor agoniza neste silêncio que me faz confiar ao menos a este diário, nestas páginas que transcrevo, o que não cheguei a lhe dizer” (p.19).

Outras situações que demonstravam a sinceridade e a coerência do autor nesse tipo de escrito íntimo consistiam, por exemplo, em não desmentir publicamente um artigo contendo declarações equivocadas a seu respeito, mas registrar o fato em seu diário, ou reservar para este escrito o que deixava de dizer nas conversas que mantinha com algum amigo ou conhecido, ou ainda na defesa que fazia de questões como o homossexualismo, o que levou, sem êxito, alguns amigos a impedir a publicação de um dos seus livros (Corydon), ou a sugerir a omissão do seu nome nessa publicação. Para Olinto (1960, p.20), “essa fidelidade a si mesmo, esse apego à sinceridade, ainda que desligados de um princípio moral, é que dão a Gide o que poderia chamar de dignidade de ato.”