I. Introduction
1.4. Climate change and impacts on agriculture and rice production
Em se tratando do objeto de estudo da ciência, detalharemos agora o argumento anti-metafísico de Mach. A crítica aos elementos que não são passíveis de reprodutibilidade experiencial e que têm existência independente é a base da argumentação de Mach contra os conceitos de espaço e tempo absolutos na física newtoniana.
Ele [Newton] acredita haver um tempo que permeia nossa realidade e que é independente dela. Se fôssemos capazes de fazer com que a Terra parasse de girar ao redor do Sol, na visão newtoniana, ainda assim o tempo continuaria a passar. Esse tempo, independente das coisas, é que Newton chama de tempo absoluto. (LOURES, 2011, p.84)
Newton propõe que haja um espaço e tempo que existam independente de qualquer elemento da natureza. Cria a distinção de espaço e tempo relativos e absoluto. Loures (2011) disserta sobre a crítica de Mach aos absolutos newtonianos. Nesta, o autor expõe o posicionamento de Newton:
O tempo absoluto, verdadeiro e matemático, por si mesmo e da sua própria natureza, flui uniformemente sem relação com qualquer coisa externa, e é também chamado de duração; o tempo relativo, aparente e comum, é alguma medida da duração perceptível e externa [seja ela exata ou não uniforme] que é obtida através do movimento e que é normalmente usada no lugar do tempo verdadeiro, tal como uma hora, um dia, um mês, um ano. (NEWTON, 1990, p.07 apud LOURES, 2011, p.83).
Acrescentamos: “ao definir tempo absoluto e relativo, evidencia-se o caráter eterno e estático de seu conceito de absoluto, não estando este sujeito a modificações de qualquer natureza (ele chama de verdadeiro)” (LOURES, 2011, p.83). Em Science of
Mechanics, Mach comenta: “Esse tempo absoluto não possui valor científico ou prático.
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Mesmo estando exposto no decorrer do texto, consideramos importante destacar que o termo metafísico utilizado por Mach, se refere a um determinismo metafísico. “Quando Mach (1905/1976) declara-se um antimetafísico estamos entendendo que esse posicionamento está relacionado a um tipo especifico de compromisso metafísico (...) Podemos interpretar de modo mais específico, que a crítica machiana à noção de
explicação causal também está relacionada aos compromissos que este termo parece assumir com uma
Trata-se de uma concepção metafísica sem fundamento” (MACH, 1989/1893, p. 273, tradução nossa).
A assunção de um conceito científico que se propõe a explicar a natureza, mas que não faz parte desta, para Mach, leva ao erro na ciência. A ciência deve partir dos fatos e propor conceitos e leis capazes de reproduzi-los. “Ninguém é competente para predicar coisas sobre espaço e movimentos absolutos: eles são puras criações da mente, construções puramente mentais, que não podem ser produzidas na experiência” (MACH, 1989/1893, p.280, tradução nossa).
Newton, na tentativa de validação empírica dos seus absolutos, propõe um experimento (conhecido como o experimento do balde) e alega ter encontrado evidência empírica para os absolutos. Essa postura foi bastante criticada por outros autores, como Berkeley e Leibniz. Os conceitos de absoluto de Newton seriam ontológicos e com fins de explicação teológicas. A esse respeito:
No século XVII, Newton publica sua obra mais conhecida, Princípios Matemáticos
da Filosofia Natural e nela, no primeiro Escólio, apresenta suas concepções de espaço e tempo absolutos. [...] cabe mencionar que um dos pontos que suscitou debate intenso à época, envolvendo filósofos como Berkeley e Leibniz, entre outros, foi o desdobramento que sua adoção da tese do absoluto teria para a compreensão de uma filosofia natural que se esforçava para se assentar em bases mais solidamente estabelecidas, livres de especulações metafísicas. Newton postulava que tempo e espaço, na forma em que dispomos deles, são entidades relativas, mas existe uma medida absoluta, um espaço e um tempo, que ele chama de verdadeiros, e que independem de qualquer relação com um referencial ou observador especifico. (LOURES, 2011, p.16-7).
Leibniz se voltou prontamente contra a posição newtoniana, atribuindo ao espaço um caráter nada mais que matemático, diferente de Newton, que via o espaço como possibilidade para a existência da divindade. (VAILATI, 1997, p.109 apud LOURES, 2011, p.82).
Newton tinha consciência das dificuldades impostas por seu absoluto, mas mesmo assim o tomou por referência na medida em que o espaço absoluto comportava sua noção de um Deus atuando diretamente em sua criação (LOURES, 2011 ,p.111). Para Mach (1989/1893), havia nesse caso uma extrapolação dos fatos. A experimentação aqui não teria os fatos como ponto de partida: “Mesmo em se tratando de assuntos aos quais somos levados a crer como válidos, não poderiam ser admitidos como tal sem previamente serem submetidos aos testes experimentais. Ninguém está autorizado a estender esses princípios além das fronteiras da experiência” (MACH, 1989/1893, p.280, tradução nossa). Sobre esse aspecto, Loures comenta:
Dos fatos devem emergir hipóteses com relação a novas entidades, jamais submeter novas entidades, sem qualquer fundamentação, aos fatos, esperando que eles as validem. Newton não procedeu assim: partiu de uma ficção (o absoluto) e tentou
encontrar, na experiência, uma evidência da realidade de sua concepção (LOURES, 2011, p.110).
Nas palavras de Mach (1989/1893):
Ninguém é competente para dizer como o experimento do balde dar-se-ia se seus lados aumentassem progressivamente de espessura e massa, até que fosse, por fim, várias léguas mais espesso. O único experimento se assenta diante de nós e nosso trabalho é fazê-lo entrar em acordo com fatos conhecidos por nós e não com ficções arbitrárias conhecidas por nossa imaginação (MACH, 1989/1893, p. 284, tradução nossa).
Percebemos o caráter fundamental da experiência, dos fatos na produção de conhecimento científico. Então nos perguntamos, como Mach concebe o papel dos conceitos e hipóteses em ciência? Boa parte da resposta a esta pergunta se encontra na sessão acima, mas é importante destacar que Mach não é avesso a conceitos teóricos na explicação científica, desde que estas não tenham um status ontológico e que sejam conceitos que representem um conjunto de fatos relacionados da natureza, a exemplo do conceito de relações funcionais.
Essa postura foi pouco compreendida quando Mach criticou o conceito de massa e de átomo na ciência. À época, a física não dispunha de instrumentos metodológicos que pudessem captar partículas tão pequenas como prótons e elétrons. Por conseguinte, o conceito de átomo era considerado por Mach como uma ficção. Alguns filósofos relatam que Mach era anti-atomista (REALE; ANTISERI, 2005). Entretanto, podemos perceber que Mach teve o cuidado epistemológico de não pressupor a entidade (átomo) como real, a mesma deveria ser compreendida como um conceito temporário na ciência.
Mach considera que as hipóteses e os conceitos em ciência são primordiais. A capacidade intelectual e econômica do cientista, quando este se atém aos aspectos metodológicos, é um empreendimento científico. Mach considera a hipótese como uma espécie de tentativa de completar, provisoriamente, em pensamento os fatos observados. A partir da formulação de hipóteses e da experimentação mental e física poderemos compreender como os elementos da natureza se configuram em sua relação de interdependência. “Chamamos hipótese uma explicação provisória que tem o objetivo de compreender os fatos mais facilmente” (MACH, 1948/1905, p.193, grifo do autor, tradução nossa). Assim, a hipótese seria uma experimentação mental prévia sobre um fenômeno, mas que só poderia ser considerada válida, quando houvesse a possibilidade de reprodução dessa hipótese na experiência. “Quando completamos um fato em pensamento, fazemos uma
experimentação mental, que exige ser controlado pela experiência física” (MACH,
1948/1905, p.192-193, grifos do autor, tradução nossa). Para finalizar este ponto:
Fica claro que uma hipótese é uma tentativa de estender um fato, como se crêssemos na existência de uma regularidade na natureza, sendo a hipótese uma extensão natural dessa observação. Mach não é, portanto, como se poderia crer, um fenomenalista estrito, contrário à postulação de hipóteses que vão além da experiência. Porém, essa postulação deve, de alguma forma, manter-se permanentemente conectada com os fatos, a fim de que retorne a eles e elimine os elementos supérfluos. A desconexão com os fatos poderia ser fatal e introduzir na ciência elementos estranhos, a saber, metafísicos, o que seria muito danoso para sua tentativa de unificação terminológica das ciências, objetivo maior da epistemologia machiana (LOURES, 2011, p.54).