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Apesar do desenvolvimento científico atual, ainda não se conseguiu compreender completamente como o cérebro reconhece palavras escritas. Por essa razão, a forma como as informações visuais e ortográficas são integradas no processo de leitura pode ser explicada por diferentes modelos. O interesse pela aquisição da leitura só começou a desenvolver-se a partir dos finais dos anos 50, sendo que alguns modelos explicativos só surgem a partir dos anos 80 (Cruz, 2007).

A identificação dos modelos assume, neste contexto, uma importância primordial, dado que os modelos e métodos de aprendizagem da leitura existentes são influenciados pelas diferentes conceções do processo de leitura, mas a sua base resulta de dois componentes essenciais: a descodificação e a compreensão. De acordo com Cruz (2007), nenhum dos modelos existentes consegue explicar totalmente o processo de leitura, pelo que este é um assunto debatido amplamente na comunidade de investigadores que estuda o processo de leitura.

Não é objetivo deste trabalho fazer uma revisão exaustiva dos modelos de leitura. Assim, será utilizada a abordagem dos modelos agrupados em três grandes grupos (Rebelo, 1993; Cruz, 2007; Carvalho, 2011). O primeiro grupo defende que ler é um processo de descodificação e o segundo grupo defende que ler é um processo de construção de significados. Os primeiros modelos lineares do processo de leitura, influenciados pelo behaviourismo, consideram que a informação circula num sentido, sendo fundamental a associação de estímulos e o reconhecimento de palavras (Rebelo, 1993). Em meados dos anos 70 do século XX, começaram a emergir os modelos, também lineares, que realçam os aspetos da compreensão. Um terceiro grupo pode ainda ser identificado pela combinação de ambos os processos. É, assim, possível diferenciar três grupos de modelos do processo de leitura: ascendentes, descendentes e interativos (Quadro 2).

Quadro 2 – Modelos do processo de leitura (adaptado de Rebelo,1993)

Ascendentes (bottom-up)

• O processo de leitura é concebido como uma série de fases lineares. A informação passa de uma fase para a outra de acordo com um sistema aditivo e de recodificação.

• O processo inicia-se com a visão das letras, de seguida ocorre transformação das letras nos sons correspondentes, depois a junção de palavras, o reconhecimento de palavras e por fim a sua integração em frases.

Descendentes (top-down)

• Princípio base: ler é compreender. • Apreensão global das formas escritas. Interativos • Combinação dos modelos anteriores.

• Identificação, reconhecimento e compreensão.

Os modelos ascendentes são defendidos por um conjunto de autores

(Paap et al. em 1984, Besner em 1989, Mayall e Humpreys em 1996, Mayall et al. em 1997 e Perea e Rosa em 2002) que defendem que o processo de leitura se processa com base na ativação da entidade abstrata das letras que compõem a palavra. Neste modelo podem ser identificadas três fases fundamentais: movimento dos olhos para captação da informação, padrão de reconhecimento visual das letras, conhecimento sintático e dos vocábulos para acesso à compreensão (Cruz, 2007). Assim, os investigadores defendem que a leitura se inicia percetivamente e só de seguida semanticamente, num processo ascendente das operações simples para as mais complexas

(Carvalho, 2011).

Diversas críticas têm sido efetuadas aos modelos ascendentes (Cruz, 2007):

(1) Consideram que existe apenas uma via de acesso ao significado, o que não pode explicar o facto de os leitores alterarem as estratégias de leitura, por exemplo, quando leem uma coluna social ou um artigo científico.

(2) Não explicam a compreensão das palavras homófonas, dado que se pronunciam da mesma maneira, se escrevem de maneira diferente e têm significado diferente (exemplo: “coser” e “cozer”). (3) Não explicam a leitura em pessoas surdas.

(4) As letras não são todas processadas porque um leitor lê em média 300 palavras por minuto.

(5) Não explicam porquê é que é mais fácil reconhecer uma sequência de letras quando elas formam uma palavra do que uma não-palavra (exemplo: “chave” e “vehac”).

(6) Não explicam a influência do contexto (exemplo: a palavra “manteiga” é mais facilmente reconhecida se for apresentada depois da palavra “pão” do que após a palavra “cão”).

Os defensores dos modelos descendentes fundamentam que a leitura se apoia nos conhecimentos anteriores do sujeito e na compreensão, acreditando que o leitor apreende as palavras tendo em conta a sua forma global (Cruz, 2007). De acordo com Ferrand (2007), a forma global foi definida por Bouma, no ano de 1971, e corresponde a um conjunto de letras ascendentes («b»,«d»,«f»,«h»,«k»,«l»,«t»), de letras descendentes («g»,«j», «p», «q» e «y») e de letras neutras («a», «c», «e», «m», «n», «o», «r», «s», «u», «v», «w», «x» e «z»). Neste âmbito, a forma global apenas é válida quando o texto é apresentado em minúsculas. Com base no trabalho desenvolvido por autores como Woodworth em 1938, Smith em 1969, Fisher em 1975 e Rudnick e Kolers em 1984, é possível apontar argumentos que apoiem a teoria da forma global, uma vez que quando as palavras de um texto são apresentadas em maiúsculas a velocidade de leitura diminui.

Diversas críticas têm sido efetuadas aos modelos descendentes (Cruz, 2007):

(1) A leitura não se pode basear apenas num processo de amostragem das palavras mais relevantes. Cerca de 80% das palavras funcionais de um texto são alvo de fixação.

(2) A predição não pode ser a estratégia fundamental da leitura porque uma das causas das dificuldades de leitura e erros de compreensão relaciona-se com o desprezo da informação contida no texto.

(3) Estes modelos não se podem aplicar às fases iniciais da aprendizagem.

(4) Não explicam como é que os leitores conseguem ler palavras desconhecidas ou não familiares.

Os modelos interativos, por sua vez, defendem que o processo de leitura é híbrido, dado que o modelo ascendente pode explicar a descodificação e o reconhecimento de palavras e o modelo descendente pode explicar a compreensão do texto (Carvalho, 2011). Embora estes modelos se apresentem como alternativas mais adequadas para explicar o processo de leitura, ainda subsistem algumas críticas (Cruz, 2007):

• Fornecem pouca informação sobre o uso da via fonológica;

• Só podem ser aplicados a bons leitores, não explicando as fases iniciais da aprendizagem da leitura.

Com a evolução dos conhecimentos científicos, novos modelos têm sido desenvolvidos. Com base nos modelos interativos, desenvolveu-se uma nova corrente que designa os modelos como modelos interativos compensatórios. Estes modelos apresentam uma menor rigidez, na medida

em que qualquer um dos níveis pode comunicar com o anterior independentemente das suas posições e compensar défices existentes, considerando o texto a ser lido (Cruz, 2007).

Como referido, de acordo com os diferentes modelos apresentados desenvolveram-se diferentes métodos de ensino da leitura: o método analítico-sintético corresponde ao modelo ascendente, o método global corresponde ao modelo descendente e o método estrutural corresponde ao modelo interativo (Rebelo, 1993). O método sintético também pode ser

designado de método fónico e o ensino da leitura parte da perceção das letras para as palavras e das palavras para a frase, enquanto no método global é enfatizada a compreensão do significado do texto (Cruz, 2007). Existem outros métodos, como, por exemplo, a metodologia de João de Deus designada de

Cartilha Maternal. Esta metodologia baseia-se nos modelos interacionistas,