Trataremos, aqui, das situações-problema revelando que alunos vendem drogas na escola. È importante considerar que, em nossa categorização de situações-problema desta natureza e conteúdo, nossa posição é de que as mesmas constituem, acima de tudo, uma das estratégias de assédio de alunos pela rede do tráfico de drogas. Mesmo se isto pode vir da própria família, como vimos na categoria anterior, se trata de um exploração do trabalho infanto-juvenil e que merece um olhar das políticas de proteção pelas condições de exposição do mais alto risco.
Examinemos dois episódios de relatos que incluem o adolescente em situação de envolvimento com o tráfico de drogas
“Um adolescente estava no portão da Escola, quando da abordagem por estar em atitude suspeita, foi encontrado dentro do guarda-chuva que estava com ele um saco plástico contendo 74 (setenta e quatro) pedras de "crack". (SP 25)
No relato acima, identifica-se que o adolescente, usado para o tráfico, se coloca em prontidão para exercer a sua atividade. O aluno se posiciona num lugar estratégico de acesso à escola, entrada e saída de alunos, que oportuniza a “possível” venda. Toda a sua ação, pelo ilícito que ela constitui, é registrada pelo policial como estando “em atitude suspeita”.
Vejamos um segundo relato:
“Fui chamado pela orientadora de uma certa escola a atender uma ocorrência na qual, um dos alunos estava vendendo drogas no interior do colégio, ao ser abordado constatamos ser verídico as informações, foram chamados os pais do menor infrator comparecendo a mãe (como de praxe), sendo encaminhado a DCA da área onde foram tomadas as medidas cabíveis”.(SP 26)
Conforme já observamos em outra análise, é recorrente das escolas acionar o policial, nesse caso, pela clareza do ilícito que foi confirmado na narrativa “ um dos alunos estavam vendendo drogas no interior do colégio”. Neste relato, chama a atenção a linguagem utilizada pelo policial, tratando o adolescente de “menor infrator”.
A concepção dos policiais se revela mais atenta aos delitos do que à exposição a situações de risco que implicam em políticas protetivas, acionando prioritariamente a rede de segurança pública, ao invés de encaminhamento às instâncias de tratamento.
Como poderia a escola cuidar da proteção, sem deixar de proteger seus alunos em risco pelo envolvimento com o tráfico de drogas?
Quais ações educativas poderiam ser disponibilizadas aos alunos para que se conscientizassem dos riscos do envolvimento com o tráfico?
Qual seria a postura realmente educativa mais adequada? Quem responsabilizar?
Segundo Menandro & Souza (2004), “Os adolescentes que não conseguem ver como viáveis a sua inserção em projetos dentro da legalidade, que não se submetem às exigências morais, religiosas, familiares, éticas ou comunitárias que lhes foram apresentadas, são os que mais se envolvem com o tráfico de drogas (apesar de não serem apenas eles os recrutados)” (Citados por Pereira, 2009, p. 253).
Para esses jovens, o tráfico representa a possibilidade de atingir status social e obter respeito da sociedade.
“O traficante é visto como um indivíduo respeitado, que possui poder e dinheiro, algo quase inatingível em uma comunidade de baixa renda. No imaginário de vários jovens é o traficante quem zela pelo bem-estar da comunidade, na medida em que faz benfeitorias (muitas vezes substituindo o papel do Estado). Acima de tudo, é quem os respeita enquanto cidadãos” (Abramovay, 2002, p. 58).
Na adolescência podem surgir necessidades que favorecem o ingresso no tráfico de drogas, como o próprio custeio do consumo, bem como, a fonte de prestígio pela masculinidade guerreira que se manifesta pela disposição por brigas (Zaluar, 2003, citada por Pereira, 2009, p.251), quando em sua participação em gangues do tráfico. À necessidade de fazer parte de grupos de traficantes e o envolvimento em grupos sociais de riscos são apontados na literatura científica como fatores que contribuem para a suscetibilidade aos ilícitos.
No que tange as precárias condições financeiras que resulta na exclusão da sociedade de consumo, muitos desses adolescentes que se sentem excluídos, por vezes se inserem no mundo do crime que é o caminho mais fácil e mais rápido consumando essa necessidade de ascensão funcional (de se tornar visível) (Sudbrack & Conceição, 2005; Sales, 2007, citados por Pereira, 2009).
Se pensarmos em preparo para o mercado de trabalho, a educação, em seu papel teórico, oferece a qualidade do ensino e, bons índices de níveis educacionais favorecem as
perspectivas de colocação de empregabilidade, favorecendo a diminuição de adolescentes migrarem para o mercado que envolve o cometimento de atos ilícitos. Sobretudo, os valores éticos e morais assimilados na escola, ao transmitidos pela família, poderiam diminuir sensivelmente, a probabilidade de opção de ingresso ao universo do tráfico de drogas ou outro tipo de ações infracionais, por parte do adolescente.
Outro fator preponderante é a adesão às exigências morais, religiosas, familiares, éticas ou comunitárias. E ainda, a ausência de referências na família que torna o adolescente vulnerável, por vezes, há uma distância entre a família idealizada e a família vivida (Szymnaski (2001). A ausência de vínculos com a família fragiliza o adolescente e acaba constituindo potencialidades que se desdobram na inserção de atividades de tráfico. “Não se reconhecem na família, não se reconhecem na escola mas tentam, nem que o preço seja a própria vida, ser reconhecidos como jovens signatários do estilo global” (Diogénes, 1998, p. 112). Enfim, surgem múltiplos elementos que favorecem a incursão no tráfico de drogas.
Como hipótese de aprofundamento desta questão envolvendo o tráfico infiltrado na escola, por meio dos próprios alunos, cabe discutir o quanto esta situação deixa a escola vulnerável à ação de traficantes, que representam uma interferência de fora que afeta o interior da escola. Ao mesmo tempo, a escola está na função educativa e faz parte da rede de proteção de seus alunos menores de idade e que ela descobre inseridos na distribuição de drogas.