4.6 Evaluation of alternative measures under uncertainty
4.6.1 Classification of uncertainties by their impact
―Mandu sarará‖98 canção de Mário de Andrade que está tanto no livro Macunaíma
quanto na posterior peça de teatro, Malazarte, é puxada pelo personagem para lembrar o espectador a reverência feita pelo Cinema Novo ao modernismo. Mário diria que:
É realmente no melodrama que está concentrada a manifestação musical erudita do império. O país que se dava o luxo de distrair verbas graves para sustento e herança duma casa imperial, se dava também o luxo de sustentar a mais rica e brilhante estação de ópera da América de então. 99
Sendo o melodrama a base narrativa de um universo burguês, tanto Mário quanto Joaquim Pedro burlam o que o primeiro chamou de ―internacionalismo‖ na música e, por conseguinte, o que viria a ser isso no cinema e na cultura moderna.100 A ausência de drama sério também retira a presença de qualquer discurso sobre a indisciplina moral do texto fílmico, a não ser na carga irônica aqui levantada. Sendo que Mário, em sua defesa nacionalista, que hoje traduzimos numa justificação de sua nação e sua cultura, provocaria o debate acerca do ―universal‖ e ―regional‖ – nos termos modernistas:
98 ANDRADE, Mário. Macunaíma. Belo Horizonte: Vila Rica, 2004.
99 ANDRADE, Mário. Aspectos da música brasileira. Rio de Janeiro : Vila Rica, 1991. p. 19.
100 Cf. BERNARDET, Jean-Claude. Cinema Brasileiro: propostas para uma história. Rio de Janeiro: Paz e
O colono ainda tinha a justificação de sublinhar com isso o estado de subalternidade em que queria conservar a possessão deste atlântico, e era sempre a troca de quinquilharia, fitas e contas coloridas da indústria européia que ele trocava aqui pelo pau-brasil, o açúcar, o ouro. E era com essas fitas e continhas que os nossos compositores se enfeitavam, para bancar de ótimos técnicos e aspirar à celebridade.101
O ponto de vista que vem do modernismo a respeito da colonização é o mais violento possível, transformado em estética antropofágica desde o canibalismo do bispo Sardinha.102 Infere-se que não houve troca entre colonizados e colonizadores, mas sim um conflito de almas103 e uma tentativa de dilaceramento de um gestual próprio do ambiente tropical, por
parte do império mercantilista. O não entendimento é recíproco, ainda na chave que seguimos da malandragem citada por Cândido, aqui entre o chamado arcaico e o chamado moderno – num vacilo entre um universo e outro. Sendo, sobretudo, o melodrama um dos modos burgueses de se confirmar uma narrativa a ser propagada a um grande número de leitores, ouvintes, e espectadores, no jogo do espetáculo, é também o jogo proposto pela cultura oficial. O modernismo, como movimento de vanguarda, foge desse caminho formal, tentando observar um tipo de alma concreta brasileira como proposta ao futuro – é também uma proposição dentro da história da literatura, pintura, teatro brasileiro, artes em geral.
A discussão mais crítica e sobre essa revisão do modernismo numa cisão com o internacionalismo, com as propagandas do pop, foi proposta, ainda na época dessas mobilizações culturais na sociedade, por Roberto Schwarz104. O Cinema Novo tivera sua crítica ainda em época, e de maneira indireta, na perspectiva midiática que acumulava:
101 ANDRADE, Mário. Op. Cit. p. 21.
102 Manifesto Antropófago: ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha. IN. TELES, Gilberto Mendonça.
Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1985. p. 353-360.
103 Cf. GAMBINI, Roberto. O Espelho Índio – os jesuítas e a destruição da alma indígena. Rio de Janeiro:
Espaço e Tempo, 1988. Nesta obra, Gambini analisa cartas de jesuítas à coroa portuguesa.
104 Cf. ARANTES, Paulo. O Sentimento de Dialética na Experiência Intelectual Brasileira: dialética e
Houve um momento, pouco antes e pouco depois do golpe, em que ao menos para o cinema valia uma palavra de ordem cunhada por Glauber Rocha (que parece evoluir para longe dela): ―por uma estética da fome‖. A ela ligam-se alguns dos melhores filmes brasileiros, Vidas Secas, Deus e o Diabo e Os Fuzis, em particular. Reduzindo ao extremo, pode-se dizer que o impulso desta estética é revolucionário. O artista buscaria a sua força e modernidade na etapa presente da vida nacional, e guardaria quanta independência fosse possível em face ao aparelho tecnológico e econômico, em última análise sempre orientado pelo inimigo. A direção tropicalista é inversa: registra, do ponto de vista da vanguarda e da moda internacionais, com seus pressupostos econômicos, como coisa aberrante, o atraso do país. No primeiro caso, a técnica é politicamente dimensionada. No segundo, o seu estágio internacional é parâmetro aceito da infelicidade nacional: nós, os atualizados, os articulados com o circuito do capital, falhada a tentativa de modernização social feita de cine, reconhecemos que o absurdo é a alma do país e a nossa. 105
O artigo é escrito em 69 e 70, época em que o filme aqui era exibido em salas de cinema. Mais tarde, em 78, Schwarz reconhece que Cultura e Política, 1964-1969 continha um ―prognóstico errado‖. Isso porque o artigo relaciona o movimento Tropicalista não a qualquer pujança, ou revisitação do modernismo, mas a um modelo decalcado direto de uma cultura internacional – o olhar a modelos estrangeiros que se repetem na história. Relacionamos seu conteúdo com outro artigo, mais recente, e sobre o ―assunto Brecht‖ associado a uma fase bem posterior, mas não deslocada da ―filosofia‖ tropicalista de Caetano Veloso. ―A impregnação das artes do espetáculo pela tarefa histórica de dar voz às desigualdades nacionais teve importância imensa‖, diria Schwarz,106 entrando em debate a
segunda metade da década de 60 como a reformulação desse espetáculo, tendo como base, num âmbito mundial, a organização de ideais modernistas de vanguarda à exposição na dimensão midiática. Brecht, então, usado como autor do distanciamento entre obra, personagem, e no novo didatismo, contrário à debilidade compassiva de certos setores ainda militantes, revigora a crítica ao status de ―atraso‖ do país – ainda que o movimento modernista pelo mundo tivesse um olhar estético fora de limites nacionalistas. Brecht desconstruía, tal como era a palavra de ordem da época, a percepção e o jogo clássico entre espectador e filme, no caso do cinema. Era ele um dos princípios motores de Jean-Luc Godard, Glauber, e, também de Joaquim Pedro, aqui observado.
Sendo assim o herói aqui analisado, sob ironia, é sim moderno, decomposto, distante de identificação, causa estranhamento e critica a homogeneidade de personalidades protagonistas. É um herói alienado, da maneira que a cultura pop incentiva, mas como um
105 SCHWARZ, Roberto. Cultura e Política: 1964-1969. In: O Pai de Família e Outros Estudos. São Paulo: Paz
e Terra, 1978. pp. 76-77.
106 Id. Altos e Baixos da atualidade de Brecht. In: Seqüências Brasileiras. São Paulo: Companhia das Letras,
herói popular, que cola muitas histórias de conflitos sociais. A alienação de Macunaíma, tal como entende Joaquim Pedro, pode ser vista, portanto, como um dos pontos de uma provocação ética – tal é o resultado do parâmetro irônico na narrativa. Ironia popular, a sujeição desse debate ao já polêmico tema do dualismo entre o arcaico e o moderno complementares, conflituosos ou dialéticos – ponto de inflexão do cenário que ia ser revisto na imposição dos esquemas industrialistas nos anos 70.