2. Introduction
2.1 Approaching eating disorders
2.1.2 Classification of eating disorders
No final da seção anterior, sugeri que o empreendimento científico articula-se intencionalmente com outros empreendimentos sociais. A articulação mais óbvia se dá entre as ciências e as tecnologias, mas não devemos restringir a idéia de que as ciências pressupõem Empreendimento
Coletivo à questão das relações e possíveis diferenças entre as ciências e as tecnologias.
Em primeiro lugar, pode-se justificar o adjetivo coletivo que aparece ao lado do substantivo
empreendimento, resgatando a idéia de que a produção e a validação dos conhecimentos se faz
no interior de comunidades de especialistas41. Mas, é aí que surgem as questões: Quem define as metas e objetos de estudo da investigação científica? Quem financia ou mantém as ciências?
AS CIÊNCIAS PRESSUPÕEM Empreendi- mento Coletivo Argumento e Persuasão Imaginação e Modelização Provisoriedade e Devir Autoridade, Reificação e Fatos Múltiplas Linguagens Múltiplas Estratégias Coordenação entre Teorias e Evidências Diagrama III.9
De modo geral, o empreendimento científico tem três grandes objetivos: (a) responder a necessidades práticas, ajudando a gerar soluções tecnológicas; (b) atender à curiosidade humana; (c) sofisticar as teorias que são os instrumentos a partir dos quais todo o conhecimento científico é gerado.
Atualmente, a maioria das demandas sociais que mobilizam as comunidades de cientistas surge das áreas econômica e militar. As guerras sempre foram uma fonte de “inspiração” e financiamento da atividade científico-tecnológica (ZIMAN, 1981). Mas, também há questões e
41 Essas comunidades não estão restritas àqueles indivíduos que tiveram a oportunidade de viver em uma mesma geração. Afinal, os cientistas nutrem-se da cultura e do conhecimento acumulado pelas gerações que os antecederam.
focos de interesse derivados de demandas culturais sem impacto econômico imediato, como as questões existenciais ou cosmogônicas que movem ciências como a paleontologia e a astrofísica, por exemplo. Por fim, muitas das investigações associadas às ciências básicas têm motivações “internas”, isto é, têm por objetivo ampliar ou articular as teorias vigentes, derivar novas conseqüências delas, definir seu domínio de validade ou, excepcionalmente, modificá-las.
O domínio e o controle que o homem tornou-se capaz de exercer sobre a natureza dependem desta última motivação “interna”, visto que tal controle pode ser considerado um subproduto da capacidade humana de compreender o mundo natural. Em outras palavras, podemos dizer que o controle é o resultado da semelhança - que existe em muitos aspectos importantes - entre os mundos possíveis criados pelas teorias científicas e o mundo natural no interior do qual nossa espécie surgiu e evoluiu.
Como sugere a interdependência entre as motivações “internas” das ciências e a utilidade que costuma ser atribuída posteriormente ao conhecimento científico, a linha que separa os três grandes objetivos do empreendimento científico esboçados acima não é nítida, mas tênue e, em algumas vezes invisível.
Bronowski (1979) me alertou para isso quando disse que as descobertas práticas ou aquelas que, posteriormente, dão origem a coisas práticas, não são feitas apenas por homens práticos. Para sustentar esse argumento, este autor resgata a história de dois grandes cientistas: Newton e Faraday.
Segundo Bronowski, a atenção dada por Newton à astronomia não pode ser atribuída ao acaso ou a algum gesto despretensioso. Afinal, na época de Newton, a astronomia era um tema dotado de grande interesse prático, visto que havia sido responsável pelo aperfeiçoamento dos calendários e pela extensão da capacidade humana de empreender grandes viagens sobre a superfície da Terra. Por outro lado, havia um interesse teórico genuíno em explicar a estrutura do mundo e os movimentos dos corpos celestes, motivado pelos trabalhos de Galileu e Kepler em prol do sistema de Copérnico ou da enorme quantidade de novidades observacionais advindas da invenção e aperfeiçoamento de lunetas e telescópios. De modo semelhante, a dedicação de Faraday à investigação das relações existentes entre os fenômenos elétricos e magnéticos também
pode ser explicada pelo fato de que esse era um dos problemas centrais das ciências físicas de seu tempo, a ponto de tornar-se o tema central das pesquisas de vários cientistas naturais da época. Sabemos hoje que a mecânica Newtoniana foi usada como base dos cálculos que permitiram ao homem ir até a Lua e que o trabalho de Faraday o levou a observar e a explicar o fenômeno da indução eletromagnética, atualmente responsável por toda a geração de energia elétrica em larga escala. Pode-se concluir, portanto, que tanto o trabalho de Newton, quanto o de Faraday têm relação com as necessidades sociais de suas épocas e geraram aplicações práticas de grande utilidade para a posteridade.
Bronowski sugere que a utilidade e a fruição se misturam, tanto no caso da relação entre comunicação e poesia, quanto no caso da relação entre os desdobramentos tecnológicos das ciências e sua característica como exercício da vontade e do prazer humano em conhecer. Mas, os exemplos que Bronowski escolheu levaram-no a considerar o cientista como um indivíduo aparentemente isolado, embora influenciado pelos interesses de sua época. Se isso já foi parcialmente verdadeiro, no tempo em que as ciências ainda eram conduzidas por membros da elite e seus apadrinhados, deixou de sê-lo depois da transformação das ciências em uma grande e cara máquina de produção de conhecimentos.
As informações apresentadas no trabalho de Ziman (1981), até pelo fato de estarem hoje desatualizadas, nos dão uma idéia de quão gigantesco, complexo e oneroso passou a ser o empreendimento científico ao longo do século XX. Mais do que nunca, as ciências são empreendimentos coletivos e instituições sociais. Assim como Ziman (ibidem), Latour (2000) nos mostra que os cientistas individuais submetem-se a formas de organização do processo de trabalho semelhantes aos existentes em outras empresas. Existem, assim, os chefes de laboratório, cuja imagem se aproxima um pouco mais daquela idealizada por Bronowski, mas também os cientistas “técnicos” encarregados de trabalhos mais monótonos e rotineiros.
Enquanto instituição social, as ciências desenvolveram relações complexas com o estado e com certos setores específicos da iniciativa privada que investem no desenvolvimento de pesquisa aplicada e até mesmo de pesquisa básica. Segundo Mayor (1998), os métodos de decisão política dependem cada vez mais de conhecimento técnico especializado. É essa a razão pela qual esse
autor chega a lamentar que a complexidade das questões geradas pelo desenvolvimento científico-tecnológico leve os “conselheiros técnicos” a discordarem entre si, quando são forçados a sair do reino abstrato da ciência dura e enxergar as relações que as ciências necessariamente estabelecem com áreas que estão além das próprias ciências, como a ética, por exemplo. A conseqüência dessa falta de consenso entre cientistas, de acordo com esse autor é que:
“Isso concede um poder excessivo aos dirigentes, que então fazem escolhas baseadas em seus interesses e preconceitos, usando uma evidência pretensamente científica como apoio do que é, na verdade, uma decisão previamente tomada” (MAYOR, ibidem, p. 123).
A complexidade que emerge deste quadro não é difícil de imaginar. A ciência trata de questões cujo controle está fora dos limites da competência dos cientistas, enquanto “consultores técnicos”. Tais questões estão fora da competência da própria ciência, enquanto teoria abstrata e incompleta da realidade. Por outro lado, o conhecimento científico é cada vez mais especializado, o que dificulta a concepção de formas de controle social sobre a atividade científica que extrapolem o simples gerenciamento das verbas que financiam as pesquisas, sejam elas oriundas do estado ou da iniciativa privada.
A complexidade deste quadro me faz acreditar que posições ingênuas em nada contribuem para o tratamento do problema que eu acabo de esboçar. O próprio Mayor (ibidem, p. 142) nos dá um exemplo de ingenuidade ao afirmar que o conhecimento, em si mesmo, é sempre positivo e que o problema está sempre com sua aplicação que pode ser negativa ou até mesmo perversa. A intenção de reservar ao plano da pesquisa aplicada, tanto os mecanismos de controle, quanto a discussão do impacto social das ciências, contradiz uma posição encontrada no próprio texto de Mayor (ibidem, p. 125) que usa as palavras de outro autor para nos dizer que não há ciências aplicadas se não houver ciências para aplicar.
Antes de terminar esta seção e, sob pena de parecer ingênuo, devo frisar que o empreendimento científico-tecnológico não gera apenas “soluções tecnológicas”, como mencionei ao discorrer sinteticamente sobre os três grandes objetivos das ciências, mas também problemas sociais e ambientais. Na sociedade atual, nem o controle da atividade científica, nem a apropriação do
saber gerado por tal atividade são democráticos. Segundo Mayor (ibidem, p. 136), apesar de ter 80% da população mundial, os países em desenvolvimento são responsáveis por apenas 4% dos gastos com pesquisa e desenvolvimento no mundo. Além disso, apenas recentemente começou-se a despertar para os enormes prejuízos que a fragmentação da atividade científica ajudou a estabelecer nas relações entre a espécie humana e o ambiente. Esse despertar emerge da consciência de que são cada vez mais globais os problemas gerados pelo empreendimento científico-tecnológico ou aqueles para cuja solução tal empreendimento poderia contribuir. Entre eles situam-se as alterações climáticas decorrentes do efeito estufa e os riscos que o crescimento demográfico tem trazido para a biodiversidade.
O empreendimento científico esteve, em grande parte, orientado para resolver aquilo que Kuhn (1998) chamou “minúsculos enigmas” que permitiram que as teorias fossem “se adaptando” ao mundo natural. O resultado disso foi um conhecimento ajustado ao mundo natural sob vários critérios, mas extremamente fragmentado quando considerado como um todo. Bohm e Peat (1989) nos apontam diversas conseqüências negativas e imprevistas oriundas desse modus operanti do empreendimento científico-tecnológico. Ele gerou problemas simultaneamente econômicos, ecológicos e sociais para cujo enfrentamento são necessárias novas respostas políticas embasadas em uma compreensão menos fragmentada da realidade.
Quadro III.8- Os três conteúdos do currículo e as ciências como empreendimento coletivo
A ciência é fruto de um trabalho coletivo. Os cientistas criam conceitos e teorias para compreender os fenômenos naturais, para “controlá-los” ou, ainda, para produzir novos fenômenos (natural-artificiais). A função da ciência escolar é permitir o acesso dos estudantes aos conhecimentos e recursos cognitivos produzidos pelas ciências ao lidar com esses três grandes objetivos. Para isso, eles mesmos têm de se envolver em projetos coletivos de investigação vinculados a problemas cujo valor e interesse eles possam reconhecer.
Aprender
as idéias das
ciências
Empreendimento Coletivo
APECTOS OU DIMEN- SÕES DAS CIÊNCIAS
CONTEÚDOS DA EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS
As questões que geram as investigações científicas têm várias origens. Tais investigações, muitas vezes de alto custo econômico, podem surgir de demandas econômicas e
militares (as guerras sempre foram uma fonte de “inspiração” e financiamento da atividade científico- tecnológica). Há questões e focos de interesse derivados da curiosidade humana ou de demandas culturais (questões existenciais e cosmogônicas, por exemplo). Muitas das investigações associadas às ciências básicas têm por objetivo ampliar ou articular as teorias vigentes, derivar novas conseqüências delas, definir seu domínio de validade ou, excepcionalmente, modificar tais teorias.
Aprender sobre
ciências
A aplicação das idéias genéricas e abstratas das ciências aos contextos de vida e de significação dos estudantes é sempre um ato de criação e produção de novos conhecimentos. Aprender a produzir questões, a conduzir processos de investigação e a produzir novos modos de compreender ou intervir na própria realidade é aprender a fazer ciências. Tudo isso implica na necessidade de interagir com outros sujeitos, de modo a empreender projetos coletivos.