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Se considerarmos que a principal característica do naturalismo em Nietzsche é o comprometimento com uma filosofia em continuidade com alguns resultados das ciências naturais, os argumentos apresentados nos capítulos anteriores são suficientes para caracterizar esse tipo de naturalismo aberto. No entanto, conhecendo as principais divergências de Nietzsche em relação à normatividade evolutiva, devemos afirmar que qualquer forma de modelo explicativo causal e mesmo monocausal não é admitida em sua filosofia108. Assim, em primeiro lugar, a noção de um naturalismo liberal associado

ao programa filosófico de Nietzsche compreende a disposição nietzschiana para afirmar que a prática científica temporária e a submissão a uma disciplina empírica produz condições excelentes para o desenvolvimento e aquisição de virtudes epistêmicas necessárias para a reflexão filosófica, anulando os vícios epistêmicos incompatíveis com a responsabilidade do filósofo. Para Nietzsche, o valor de se praticar com rigor, por algum tempo, uma ciência rigorosa não está propriamente em seus resultados: pois eles sempre serão uma gota ínfima, ante o mar das coisas dignas de saber . No entanto, essa prática produz um aumento de energia, de capacidade dedutiva, de tenacidade; aprende-se a alcançar um fim de modo pertinente. Nesse sentido é valioso, em vista de tudo o que se fará depois, ter sido homem de ciência (MAI/HDH §256).

Da mesma forma, precisamos considerar se o comprometimento de Nietzsche com um naturalismo metodológico fraco não implica em um tipo fraco de reducionismo. Mesmo como estratégia para moldar o tipo de comprometimento com a pesquisa filosófica que Nietzsche espera dos filósofos, exercitando um ceticismo em relação a qualquer forma de causalidade entre eventos e a modelos explicativos causais, é possível compreender o pensamento de Nietzsche como um elogio à competência descritiva das ciências naturais, o qual é resultante da sobriedade e economia das hipóteses exigidas pelo método científico. Essa competência descritiva deve ser utilizada também nos

107 LOPES, Rogério. A ambicionada assimilação do materialismo: Nietzsche e o debate naturalista na

filosofia alemã da segunda metade do século X)X . )n: Cadernos Nietzsche 29, p. 309-352, 2011, p. 345-347.

momentos em que o filósofo está propondo genealogias e normatividades, no entanto, o filósofo formado nessas virtudes deve sustentar o alerta de não se comprometer com nenhum tipo de ontologia particular, fisicalismos e mentalismos. Além disso, Nietzsche propõe a procura pela terminologia mais econômica em relação aos termos escolhidos na descrição – a qual pode estar relacionada com a hipótese da vontade de poder 109 -, ou

seja, o filósofo deve ter cuidado com os princípios teleológicos supérfluos [...]. Assim pede o método, que deve ser essencialmente economia de princípios (JGB/BM §13).

Em uma primeira análise, parece adequado pensar a filosofia de Nietzsche em relação a um Naturalismo Metodológico Fraco (NM Fraco), considerando a compatibilidade entre a filosofia e os métodos e resultados das ciências naturais com o projeto nietzschiano para retraduzir o homem de volta na natureza JGB/BM § . Além disso, intérpretes contemporâneos110 da filosofia de Nietzsche acreditam que a

relação de sua filosofia com um Naturalismo Ontológico Fraco (NO Fraco) também está clara, negando a existência do sobrenatural sem reduzir a uma explicação fisicalista o vital, o mental e o social, mas procurando demonstrar a homogeneidade entre acontecimentos físicos e mentais. A partir desses pressupostos, Nietzsche poderia estar filosoficamente sustentando um tipo de monismo – regido pela vontade de poder111 -,

109 A vontade de poder se torna uma noção importante para a investigação moral entre 1885 e 1886,

época da publicação de Para além do bem e mal e da elaboração dos diversos projetos de uma obra nunca publicada, intitulada Vontade de poder. Nesse período, Nietzsche amplia a significação do conceito de vontade de poder, estendendo-o ao mundo inorgânico (JGB/BM §36), compreendendo-o como o caráter geral do mundo e como uma teoria a respeito da multiplicidade de forças atuantes em um antagonismo constante; em Além do bem e do mal Nietzsche introduz também o conceito de fisiopsicologia (JGB/BM §23) (ARALDI, Clademir. A vontade de potência e a naturalização da moral . )n: Cadernos Nietzsche, 30, 2012, p. 101-102).

110 COX, Christoph. Nietzsche: Naturalism and Interpretation. Berkeley: University of California Press,

1999; MOORE, Gregory. Nietzsche, Biology and Metaphor. Cambridge: Cambridge University Press, 2002; RICHARDSON, John. Nietzsche s New Darwinism. Oxford: Oxford University Press, 2004; HATAB, Lawrence J. Nietzsche s Life Sentence. London: Routledge, 2004; LEITER, Brian. Nietzsche on Morality. London: Routledge, 2002.

111 Müller-Lauter afirma que a vontade de poder pode ser entendida como um conceito profícuo para

compreender o pensamento de Nietzsche, desde que signifique um antagonismo de forças . Assim, recusa a interpretação heideggeriana, a qual sustenta que a expressão da vontade de poder é a designação do que perfaz o caráter fundamental de todo o ente (E)DEGGER, Martin. Nietzsche. Volume I. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007, p. 6). Para Müller-Lauter, a vontade de poder é um conceito desenvolvido por Nietzsche em perspectivas imanentes, fisiológicas, psicológicas e até relacionada a questões morais; em afastamento da metafísica considerada por Heidegger a respeito do pensamento de Nietzsche. Além disso, não acredita que a obra Vontade de poder representa a obra principal de Nietzsche. Em primeiro lugar, essa não é uma obra escrita por Nietzsche. Em segundo lugar, as notas, projetos e fragmentos que constituem essa obra devem ser lidos cronologicamente e associados às publicações desse período: Além

do bem e mal e Genealogia da Moral. Todo o esforço de Müller-Lauter pretende afastar da vontade de

poder a tese heideggeriana de que ela seria um princípio metafísico ou um fundamento último. Por esse motivo, considera decisivo para a compreensão da vontade de poder o seu caráter plural, tanto no aspecto quantitativo como no aspecto qualitativo, possuindo sempre um caráter relacional, expressando-se no

mas mesmo assim não poderia ser compreendido como um filósofo fisicalista ou mecanicista. O próprio Nietzsche alertou a respeito dos perigos do mecanicismo. Para ele, o mecanicismo nega a existência de razão e propósito sempre que for possível, demonstrando que na duração de tempo conveniente, tudo pode decorrer de tudo. Por exemplo, podemos pensar a vida em termos de pressão e estresse, mas não se pode explicar pressão e estresse em si mesmos e, assim, não podemos evitar nesses casos sempre agir à distância. A partir da análise dos escritos de Nietzsche, parece coerente aceitar que seu pensamento é compatível com um NM Fraco (aceitar alguma compatibilidade entre os resultados e métodos da ciência e a intenção nietzschiana de retraduzir o ser humano de volta à natureza) e com um NO Fraco (negar a existência do sobrenatural e aceitar alguma relação entre estados mentais e estados físicos, sem reduzir essa relação ao mecanicismo e ao fisicalismo). No entanto, acredito que compreender Nietzsche como um materialista monista em virtude da noção de vontade de poder produz implicações hermenêuticas que devem ser analisadas com rigor.

Uma hipótese que relaciona a vontade de poder com uma fundamentação materialista monista em Nietzsche precisa ser revisitada à luz de outras considerações. Se na obra tardia de Nietzsche existe um projeto de naturalizar a moral a partir da vontade de poder sugerindo uma transvaloração de todos os valores, esse projeto pode estar conectado com um NM Fraco e com um NO Fraco como projeto de naturalização, desde que isso seja compreendido nos termos naturalistas da época de Nietzsche, de acordo com as necessidades propostas pelo próprio pensador, e evitando modelar o pensamento nietzschiano às necessidades da filosofia analítica contemporânea. Se a vontade de poder fundamenta os estados físicos, isso só pode ser possível em uma perspectiva não-reducionista – Nietzsche não afirma (ontologicamente) que tudo o que existe é natural. Nesse sentido, em relação à moral e aos valores, seria preciso esclarecer quais são as propriedades que não são redutíveis às propriedades físicas de base – ou seja, redutíveis à vontade de poder na natureza, e por quais motivos – e isso não parece ser possível a partir dos escritos de Nietzsche.

confronto e no arranjo com outras vontades de poder; a vontade de poder é uma filosofia dos antagonismos a partir da qual a moral, a natureza, a história, a posição e a desvalorização dos valores podem ser interpretados. É nesse sentido que podemos vincular os apontamentos e projetos da Vontade de poder com a tentativa de naturalização da moral ARALD), Clademir. A vontade de potência e a naturalização da moral . )n: Cadernos Nietzsche, 30, 2012, p. 103). Em relação à vontade de poder, só se pode afirmar uma unidade se ela significar uma organização dos múltiplos impulsos que lutam incessantemente por poder (MÜLLER-LAUTER, Wolfgang. Nietzsche: sua filosofia dos antagonismos e os

Uma possibilidade naturalista liberal em Nietzsche deve incluir112: (i) o

distanciamento de qualquer tipo de concepção essencialista de natureza; (ii) não deve opor ciências naturais às ciências históricas; (iii) não pressupõe um método científico único; (iv) não defende um fisicalismo e explicações causais do mundo físico; (v) a filosofia não possui um tipo específico de metodologia e possui como tarefa tanto ser normativa como explicativa genealógica – e não apenas elucidativa de conceitos; (vi) recusa explicitamente elementos apriorísticos; (vii) as teorias filosóficas devem possuir um reducionismo fraco orientado pela economia (normativa ou explicativa genealógica); (viii) não é antagônico à especulação filosófica; (ix) aprende a partir do rigor do método científico a moderação de princípios e o comedimento na utilização do vocabulário; (x) promove o elogio da suspeita como a principal característica do filósofo, o qual compreende a necessidade de reagir à tendência humana que se dirige ao conforto do dogmatismo. Esse tipo de naturalismo em Nietzsche deve reconhecer, a partir de uma perspectiva liberal, que existem outros valores além dos exclusivamente cognitivos ou epistêmicos que podem e devem ser suscitados113.

Assim, é necessário perguntar pela relação entre naturalismo e normatividade moral na filosofia nietzschiana, considerando as críticas de Nietzsche às teorias que propuseram uma solução moral , por exemplo, as propostas de Kant e Schopenhauer114. Se Nietzsche está interessado em explicar através da investigação

filosófica como as pessoas funcionam moralmente e, além disso, pretende de alguma forma apresentar um projeto para retraduzir o homem de volta na natureza (JGB/BM §230), é importante reconhecer como cada forma de naturalismo produz implicações diferentes para a relação entre moral e normatividade, temáticas importantes para Nietzsche. Da mesma forma, precisamos perguntar pelo embasamento que sustenta a hipótese explicativa da genealogia nietzschiana sem comprometê-la com um tipo de explicação causal. Parece possível afirmar que a sustentação da genealogia nietzschiana envolve procedimentos narrativos e ficcionais115, com a intenção de encontrar formas de

expressão na linguagem adequadas ao tipo de pensamento filosófico que espera construir.

112 Ibid.

113 Ibid., p. 348-349. 114 Ibid., p. 348.

115 Ibid., p. 348; (Ver: WILL)AMS, Bernard. A psicologia moral minimalista de Nietzsche . )n: Cadernos Nietzsche , e KE)L, Peter. Nietzsche e (ume: naturalismo e explicação . )n: Cadernos Nietzsche 29,