O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, considerado um dos maiores estudiosos da personalidade humana (Lessa, 2002), desenvolveu uma teoria no início do Século XX para descrever as preferências básicas e explicar similaridades e diferenças no comportamento das pessoas. Conhecida como Teoria dos Tipos Psicológicos (Jung, 1971), um de seus principais postulados considera que as pessoas têm tendências comportamentais e preferências que definem sua resposta natural a situações cotidianas.
Em seu ensaio sobre os fatores que determinam o comportamento humano, Jung (2000) destaca que são os instintos as principais forças motivadoras do processo psíquico e que tem na compulsividade uma de suas mais fortes características extrapsíquicas, sendo essencial como determinante do comportamento humano. A interação entre o instinto e a situação do
momento forma uma estrutura que mostra o instinto como um fator determinante variável, influenciando a formação da personalidade e do comportamento humano.
No contexto da Psicologia Analítica, a personalidade é conhecida como psique e abrange todos os pensamentos, sentimentos e comportamentos conscientes e inconscientes (Casado, 1998). A origem da palavra psique vem do grego e tem seu significado associado à alma, ao todo humano. Para Jung (1971), as pessoas nascem como um todo essencial e cabe ao longo da existência o desenvolvimento desse todo. Buscando conhecer como a consciência atua na prática e explicar o modo de agir das diferentes pessoas, Jung formulou uma teoria geral dos tipos psicológicos, originalmente publicada em 1921 (Samuels, 1988).
A formação da personalidade não é algo simples, vez que passa por relações que se constroem nos âmbitos da consciência e da inconsciência, de modo a gerar diferenças relevantes entre os indivíduos. O interesse de Jung pelos tipos de personalidade surgiu de suas observações dessas diferenças consistentes entre as pessoas, que não eram atribuídas a fatores psicopatológicos (Quenk, 2009). Seus estudos envolveram os tipos de atitudes, as funções mentais e as funções de julgamento dos indivíduos, permitindo identificar pares de opostos para cada uma dessas categorias.
O tipo psicológico de um indivíduo, na visão de Jung (1971), é determinado, além da dicotomia entre extroversão e introversão, que diz respeito à forma como as pessoas focam sua atenção aos objetos e conseguem energia para ação, por quatro funções conscientes ou psíquicas: Sensação, Intuição, Sentimento e Pensamento. Essas quatro funções se apresentam em dois pares de polos opostos, representando parâmetros dicotômicos de preferências dos indivíduos, a saber: Sensação (Sensing – S) x Intuição (Intuition – N); Pensamento (Thinking – T) x Sentimento (Feeling – F). Esses pares complementam o par: Extrovertido (Extraverted – E) x Introvertido (Introverted – I), permitindo compor até 08 combinações de perfis.
A relação E x I demonstra como as pessoas focam sua atenção e conseguem energia para agir e, segundo Myers e Myers (2010), é independente das preferências por S x N e T x F. A maioria das pessoas que prefere a extroversão se apresenta como sendo mais afeita à ação que a reflexão, ou age mais facilmente do que pensa, é mais sintonizada com o ambiente externo, prefere se comunicar pela fala, aprende melhor através do fazer ou da discussão, mostra-se mais sociável e expressiva e se sente bem em trabalhar em grupo (Prem, 2007).
Por outro lado, de acordo com Prem (2007), as pessoas introvertidas majoritariamente preferem a reflexão à ação, são mais sintonizadas com o mundo interior, preferem se comunicar por meio da escrita e aprendem melhor por meio do esforço mental e reflexão. Ademais, costumam ser mais privadas e contidas, além de preferirem trabalhar sozinhas ou em pares. Para Myers e Myers (2010), enquanto os extrovertidos tendem a agir mais rapidamente, os introvertidos buscam obter mais tempo para refletir antes de tomar uma decisão.
Sobre as funções psíquicas, Jung (1971) destaca dois pares de relações dicotômicas: entre S x N (sensação e intuição), que mostra como as pessoas preferem obter informações; e a relação entre T x F (pensamento e sentimento), que apresenta a dicotomia que define como as pessoas preferem tomar decisões. Myers e Myers (2010) destacam que essas combinações de pares dicotômicos formam preferências que produzem certos valores, necessidades, hábitos e traços, podendo ser encontrados quatro tipos de perfis, a saber:
ST – Sensação (Sensing – S) mais Pensamento (Thinking – T) SF – Sensação (Sensing – S) mais Sentimento (Feeling – F) NF – Intuição (Intuition – N) mais Sentimento (Feeling – F) NT – Intuição (Intuition – N) mais Pensamento (Thinking – T)
Segundo Lessa (2002), Jung ao analisar as quatro funções durante o desenvolvimento psíquico constatou que uma das funções se diferencia e se torna a função dominante ou a principal, enquanto a outra função se desenvolverá com menos intensidade, tornando-se a função auxiliar da primeira. “As outras duas funções, a terciária e a inferior não se desenvolverão na consciência, permanecendo, assim, inconscientes” (Lessa, 2002, p. 6). É fundamental, segundo Jung (1971), que haja certo equilíbrio entre essas funções, de modo a que não haja demonstração de distúrbios psíquicos por parte das pessoas que tenham alguma dessas funções desempregada.
Para Jung (1971), a função dominante é aquela preferida pelo indivíduo e que se torna superior às demais ao longo do tempo, por conta do seu maior exercício por parte do sujeito, que a considera como mais relevante no processo de obtenção de resultados melhores em seu contexto existencial. Para ele, a libido é dirigida majoritariamente para a função principal,
fazendo com que a função secundária evolua regressivamente, tornando-se incompatível com a principal e apoio dessa última (Lessa, 2002).
Existem ainda as funções terciária e inferior. A função terciária, por sua vez, é menos desenvolvida, apresentando-se como oposta à função auxiliar na escala de preferências, tendo importância de complementação da dinâmica da relação consciência – inconsciência atribuída aos quatro elementos da tipologia (Lessa, 2002). Enquanto a função inferior se apresenta como a menos desenvolvida e se contrapõe à função dominante. Lessa (2002) exemplifica destacando que alguém que tenha a Intuição como função dominante terá a Sensação como sua função inferior, complementando que as funções inferiores apresentam grande carga emocional e concentração vital, além de um enorme campo potencial.
Samuels (1988) afirma que os opostos apresentados por Jung sofrem variações ao longo do tempo, dada a maturação e individuação do sujeito ao longo da vida, desde sua infância. As funções teriam uma base fisiológica com um componente psíquico, sendo que o indivíduo até certo ponto pode escolher como atuar, resguardados os limites que são provavelmente inatos. Por razões sociais, educacionais ou familiares, uma função pode tornar-se unilateralmente dominante (Samuels, 1988).
Em complemento a esses três pares dicotômicos, E x I, S x N e T x F, Myers e Myers (2010) apresentam o par dicotômico Julgar (Judging – J) e Perceber (Perceiving – P), incluído por Isabel Myers, com o intuito de identificar como as pessoas lidam com o mundo externo. Prem (2007) destaca que na relação dicotômica da preferência entre J x P, pessoas que preferem Julgar a Perceber tendem a gostar mais de organização e de ordem, enquanto que ao contrário estão pessoas que se adaptam mais às mudanças, mostrando-se mais flexíveis e espontâneas.
Myers e Myers (2010) destacam que o objetivo da tipificação da personalidade é a aquisição de maior poder de percepção e julgamento. Myers e Myers (2010) observam que existe uma relação de complementaridade entre os processos e destacam que a percepção sem o julgamento fica frágil e o julgamento sem a percepção se apresenta cego; a introversão sem a extroversão é impraticável e a extroversão sem a introversão é superficial.
Considerando a prevalência da função principal e auxiliar, tome-se o exemplo trazido por Myers e Myers (2010), que apresentam o caso de um perfil NT (Intuição mais Pensamento). Embora possua preferências para a intuição e o pensamento, se houver mais atração para o pensamento, esse se torna o seu processo dominante. Com isso, por mais que se possa intuir algo como certo, mas isso deve ser confirmado pelo pensamento objetivo. Como o pensamento é um processo de julgamento, o elemento final no tipo dessa pessoa será "julgamento".
Myers e Myers (2010) apresentam detalhes que caracterizam e prevalecem nas pessoas de cada um desses perfis. Prem (2007) apresenta, ao considerar certos equívocos que são cometidos em relação aos significados das palavras usadas para descrever preferências, algumas distinções, como: extrovertido não significa conversador ou barulhento; introvertido não quer dizer tímido ou inibido; sentimento não significa emocional; julgamento não significa julgador; percebendo não significa perceptivo.
Essas distinções apresentadas por Prem (2007) são importantes, pois evita avaliações apressadas e estereotipadas que podem acontecer em virtude de leituras equivocadas que se pode cometer, como se percebem em matérias jornalísticas, como a que foi apresentada por Uller (2013), cujo conteúdo utilizava os termos “tímido” e “quieto” para se referir às pessoas introvertidas. Por mais que essas características possam estar presentes em sujeitos introvertidos, elas não são exclusivas de pessoas com esse tipo de personalidade, não sendo, pois, esses os fatores que determinarão a sua preferência de personalidade.
Por isso, podem ocorrer equívocos quando da tentativa de se identificar o tipo de personalidade preferido de uma pessoa a partir de critérios meramente intuitivos ou por simples observação. Aplicações de testes psicológicos e escalas psicométricas, desenvolvidos por pesquisadores e estudiosos, sustentados nas teorias subjascentes, têm sido as opções mais adequadas para tal fim.