O construto fontes de tensão do indivíduo e do papel gerencial é explicado por quatro construtos de segunda ordem: responsabilidades acima dos limites, estilo e qualidade de vida, trabalho dos gerentes e desmotivação. Estes, por sua vez, são explicados por seus indicadores. Para facilitar a análise deste construto, ele foi desmembrado em dois: fontes de tensão do
indivíduo e fontes de tensão do papel gerencial.
A Tabela 32 apresenta a frequência dos indicadores do construto fontes de tensão do
indivíduo no grupo de gestores sem estresse e no grupo de gestores com estresse. Os
indicadores mais importantes, que se apresentaram em mais da metade dos gestores diagnosticados com estresse, foram: “Pensar e/ou realizar frequentemente duas ou mais coisas ao mesmo tempo, com dificuldade de concluí-las, mesmo quando não há exigências para tal” (54,8%), “Levar a vida de forma muito corrida, realizando cada vez mais trabalho em menos tempo, mesmo quando não há exigências para tal” (48,8%), “Não conseguir desligar-se do trabalho” (45,2%) e “Ter o dia muito tomado com uma série de compromissos assumidos, com pouco ou nenhum tempo livre” (39,3%).
O grupo de gestoras com estresse apresentou frequência significativamente maior em todos os indicadores do construto quando comparados ao grupo sem estresse. Portanto, percebe-se que o construto em referência mostra-se como muito importante para a explicação dos casos de estresse identificados nas gestoras pesquisadas.
Tabela 32-Frequência dos indicadores do construto „fontes de tensão do indivíduo‟
Fontes de tensão do indivíduo
Gestores sem Estresse Gestores com Estresse N % N %
Pensar e/ou realizar frequentemente duas ou mais coisas ao mesmo tempo, com
dificuldade de concluí-las, mesmo quando não há exigências para tal. 7 9,5 46 54,8 Levar a vida de forma muito corrida, realizando cada vez mais trabalho em menos tempo,
mesmo quando não há exigências para tal. 6 8,1 41 48,8
Não conseguir desligar-se do trabalho. 4 5,4 38 45,2
Ter o dia muito tomado com uma série de compromissos assumidos, com pouco ou
nenhum tempo livre. 9 12,2 33 39,3
Ter que fazer atividades de trabalho bem acima da capacidade técnica e/ou atividades de
aprendizado recente, das quais ainda não tem domínio pleno. 13 17,6 27 32,1 Assumir, no contexto do trabalho, compromissos muito desafiadores, além dos limites. 5 6,8 24 28,6
Ter os horários de descanso tomados pelo trabalho. 8 10,8 13 15,5
Fonte: Dados da pesquisa
A frequência dos indicadores referentes às fontes de tensão específicas do trabalho do gerente é apresentada na Tabela 33. “Ser mulher e gestora e ter que conciliar as demandas da casa potencializa o nível de tensão” (63,1%), “Não receber apoio da família em relação ao trabalho” (60,7%) e “Ser mulher e gestora e ter demandas em relação à educação dos filhos potencializa o nível de tensão” (54,8%) foram os indicadores presentes em mais da metade das gestoras com estresse. “Ser mulher e gestora gera maior nível de exigências e cobranças por parte dos superiores/organização” (40,5%) também foi indicado com alta frequência no grupo de gestoras identificadas com estresse.
O fato é que, além da carga no local de trabalho, há mulheres que recebem demandas substanciais de seus vários papéis no lar. Considerando que muitos papéis de gênero são culturalmente definidos, isto dá origem à necessidade de algumas mulheres terem que gerenciar conflitos familiares de diferentes graus e com variadas consequências (CHINCHOLKAR e KRISHNA, 2012).
O grupo de gestores com estresse apresentou frequência significativamente superior ao grupo sem estresse em todos os indicadores do construto fontes de tensão específicas do trabalho do
gerente. Percebe-se que o construto em referência mostra-se como muito importante para a
explicação dos casos de estresse nos gestores pesquisados.
Tabela 33-Frequência dos indicadores do construto fontes de tensão específicas do trabalho da gerente
Indicadores de Fontes de tensão específicas de gestores
Gestores sem Estresse Gestores com Estresse N % N %
Ser mulher e gestora e ter que conciliar as demandas da casa potencializa o nível de
tensão. 25 33,8 53 63,1
Não receber apoio da família em relação ao trabalho. 52 70,3 51 60,7 Ser mulher e gestora e ter demandas em relação à educação dos filhos potencializam o
nível de tensão. 26 35,1 46 54,8
Ser mulher e gestora gera maior nível de exigências e cobranças por parte dos
superiores na organização. 20 27,0 34 40,5
Ser mulher e gestora potencializa os conflitos de relacionamento com o
marido/companheiro. 13 17,6 29 34,5
Ter dificuldades de compatibilizar os compromissos de trabalho com os compromissos
de família, sociais, entre outros. 13 17,6 26 31,0
As questões de ordem orgânica, como a tensão pré-menstrual (TPM), potencializam o
nível de tensão no trabalho. 17 23,0 25 29,8
Conhecer o que é qualidade de vida e sua importância e não ter tempo de praticar esses
conceitos, devido à absorção pelo trabalho. 9 12,2 24 28,6 Vivenciar conflitos por ter que, ao mesmo tempo, ser inovador e dotado de autonomia e
estar sujeito às normas da organização. 9 12,2 22 26,2
Conviver com situações de tensão excessiva inerentes às relações humanas no trabalho. 9 12,2 18 21,4 Vivenciar conflitos por perceber-se em sobrecarga e não ter como questionar a mesma,
por exercer função de gestão. 9 12,2 17 20,2
Ter dificuldade de conciliar a necessidade de trabalhar em modelo participativo e a
necessidade de isolamento, em função da competitividade estabelecida na organização. 10 13,5 16 19,0 Sentir que os resultados estão “de bom tamanho”, mas não poder manifestar essa
percepção para o grupo/organização, tendo que solicitar à equipe resultados ainda mais desafiadores.
8 10,8 15 17,9 Não poder agir de forma autoritária e ter que ser autoritária em determinadas ocasiões. 7 9,5 13 15,5
Fonte: Dados da pesquisa
Gonçalves (2011), ao realizar um estudo com gestoras portuguesas, identificou que as mesmas consideram a articulação trabalho-família como fonte indutora de estresse ocupacional. Quando inquiridas pelas fontes de estresse no local de trabalho, além da articulação trabalho-família, as gestoras referiram também outras fontes de estresse: o cumprimento de prazos, a sobrecarga de trabalho, e a estrutura e o clima organizacional.