De modo a complementar as informações sobre as tendências regionais observadas para as atividades científica e tecnológica no Brasil entre 2000 e 2010, esta seção apresenta a evolução da estrutura de ensino e pesquisa nas microrregiões do país. Para isso é utilizada uma variável proxy que é o número de professores de pós-graduação por microrregião, dado este que é disponibilizado pelo sistema GeoCapes, do Ministério da Educação.
Figura 5: Distribuição microrregional dos docentes de pós-graduação por milhão de habitantes no Brasil - 2000
Fonte: Elaboração própria a partir de GeoCapes e Ipeadata.
A Figura 5 mostra a disposição territorial dos docentes de pós-graduação nas microrregiões brasileiras em 2000. Novamente é perceptível uma grande concentração, especialmente no Sudeste. Fica claro que nas regiões Centro-oeste, Norte e Nordeste a existência de estrutura de ensino e pesquisa universitária se baseava apenas em pontos específicos, na maioria das vezes nas microrregiões lideradas pelas capitais estaduais. Cabe ressaltar que em 2000 apenas 22, entre as 27 unidades da federação, apresentaram cursos de pós-graduação. Estados como o Acre e o Tocantins não apresentavam tais estruturas,
essenciais para a realização de pesquisa universitária, tomando-se como referência o número de docentes lecionando em cursos de pós-graduação27.
O cenário apresentado pela Figura 5 mostra a região Norte como a mais fragilizada em termos de pesquisa universitária em 2000, embora as regiões interioranas do Centro-oeste e do Nordeste também se apresentassem carentes de estruturas nesse sentido. Como já salientado, o Sudeste concentrava a maior parcela das microrregiões com estruturas de pesquisa universitárias, especialmente em São Paulo. Nesse estado havia, àquela época, uma representativa densidade da estrutura científica, o que condiz com a sua situação econômica, historicamente mais avançada que no restante do país.
Tabela 45: Grupos de microrregiões segundo a existência de instituições de ensino em nível de pós-graduação e sua representatividade no total de localidades, na população e
no PIB nacionais - 2000
Número de
Microrregiões % Brasil % POP % PIB Nenhuma Instituição de ensino 2000 490 87,8 52,4 35,3 Pelo menos uma instituição de Ensino
2010 68 12,2 47,6 64,7
Total 558 100,0 100,0 100,0
Fonte: Elaboração própria a partir de GeoCapes e Ipeadata.
De uma forma geral, foi observada a existência de docentes de pós-graduação em apenas 68 das 558 microrregiões brasileiras, valor esse que representava pouco mais de 12% das observações. Apesar de constituírem um pequeno número de localidades frente ao total nacional, este grupo concentrava a maior parte da renda nacional. Por outro lado, em 2000 um conjunto de microrregiões que concentravam mais de 50% da população do país não apresentava estruturas de ensino em nível de pós-graduação. Esse cenário reforça que apenas uma pequena parcela do território nacional se integrava ao sistema de pesquisa e ensino em nível de pós-graduação em 2000. Tal aspecto é condizente com as situações verificáveis para a produção tecnológica brasileira e para a produção científica naquele ano. Como é possível verificar adiante, esse cenário se altera bastante para o ano de 2010.
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Os outros estados nos quais não havia cursos de pós-graduação no ano de 2000 foram Amapá, Rondônia e Roraima.
Figura 6: Distribuição microrregional dos docentes de pós-graduação por milhão de habitantes no Brasil - 2010
Fonte: Elaboração própria a partir de GeoCapes e Ipeadata.
A Figura 6 mostra a distribuição das estruturas de pesquisa universitária no território nacional no ano de 2010. Como é possível observar, houve um espraiamento das estruturas de ensino e pesquisa universitária no Brasil. O número de microrregiões nas quais se verificou a existência de profissionais dedicados ao ensino em nível de pós-graduação foi de 115, em 2010, valor esse 70% maior que o verificado em 2000, como se vê pela Tabela 46. Nesse sentido, a média de docentes engajados em atividades de pós-graduação por microrregião subiu consideravelmente, passando de 52 docentes por micro para 104,5. Trata-se de um aumento que reflete a expansão do ensino universitário, ocorrida ao longo dos anos 2000. Desta forma, quase 60% da população nacional se encontrava, em 2010, em microrregiões com estruturas de ensino e pesquisa universitária. Nesse sentido, observa-se que além de ter sido aumentado o número de docentes em pós-graduação, o que indica uma ampliação da oferta de cursos de alta qualificação profissional, esse processo ocorreu de forma a integrar uma parcela maior do território e da população nacional. Contudo, os dados indicam que ainda há muito o que avançar nesse sentido.
Tabela 46: Grupos de microrregiões segundo a existência de instituições de ensino em nível de pós-graduação e sua representatividade no total de localidades, na população e
no PIB nacionais - 2010
Número de
Microrregiões % Brasil % POP % PIB Nenhuma Instituição de ensino 2010 443 79,4 40,2 24,5 Pelo menos uma instituição de
Ensino 2010 115 20,6 59,8 75,5
Total 2010 558 100,0 100,0 100,0
Fonte: Elaboração própria a partir de GeoCapes e Ipeadata.
Uma alteração que deve ser levada em conta, a partir desse processo, diz respeito ao fato de em 2010 todas as unidades da federação contarem com cursos de pós-graduação. Os estados que não apresentavam estruturas de pós-graduação em 2000 apresentaram suas estruturas, verificadas em 2010, concentradas nas microrregiões lideradas pelas capitais estaduais, onde certamente já se encontrava uma estrutura universitária prévia. Outro ponto a se destacar é referente ao fato de o avanço do número de professores de pós-graduação por milhão de habitantes ter se dado de forma mais intensa no Sul e no Sudeste do país. Também é possível verificar que o Centro-oeste e o Nordeste ganharam participação na estrutura científica nacional.
A comparação entre as Figuras 4 e 6 mostra que o espalhamento da produção científica foi mais intenso em 2010 do que o das estruturas de pós-graduação pelo território nacional. Ou seja, é possível verificar que um conjunto maior de microrregiões apresentou artigos científicos publicados (352) em relação àquelas que apresentaram docentes de pós- graduação (115). Este aspecto pode ser uma evidência dos spillovers regionais originários da criação de uma estrutura de ensino e pesquisa numa determinada região. Nesse sentido, os efeitos desta estrutura de ensino e pesquisa não se restringiriam a tal região alcançando, portanto, localidades em seu entorno e até fora dele. Deste modo, é possível considerar a possibilidade de acesso ao sistema de ensino superior por parte de trabalhadores residentes e atuantes em localidades vizinhas à microrregião onde se encontra tal estrutura de ensino e pesquisa. Outro ponto que se deve levar em conta diz respeito aos fluxos de informações, que permitiriam a troca de conhecimentos entre universidades, empresas e os mais diversos agentes localizados em regiões distintas.
O mesmo quadro pode ser considerado para a produção tecnológica, a qual também se apresentou mais espalhada ao longo do território que as estruturas de ensino de alta
qualificação e pesquisa28. Em outros termos, o sistema de ensino e pesquisa também poderia gerar efeitos positivos sobre a atividade tecnológica nas regiões do entorno de onde se localiza.