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Habilidades sociais são constructos que enfatizam a funcionalidade do comportamento (adequação ao contexto ou consequências obtidas) e o conteúdo do comportamento (topografia de classes de comportamento) (Del Prette & Del Prette, 1999). Assim, as habilidades sociais podem ser definidas como “o conjunto dos desempenhos apresentados pelo indivíduo diante das demandas de uma situação interpessoal, considerando-se a situação em sentido amplo” (Del Prette & Del Prette, 1999, p. 47). Por outro lado, possuir habilidades sociais não garante que as relações interpessoais sejam bem sucedidas porque, não necessariamente, o indivíduo utiliza o repertório que possui, seja por questões de ansiedade, de crenças equivocadas ou de dificuldades na leitura dos sinais do ambiente (Del Prette & Del Prette, 2007). Portanto, diante de uma situação de cuidado, o indivíduo pode comporta-se de maneira assertiva, não assertiva ou agressiva, a despeito do repertório ou dos déficits em habilidades sociais que possui.

A assertividade “envolve a afirmação dos próprios direitos e expressão de pensamentos, sentimentos e crenças de maneira direta, honesta e apropriada, que não viole o direito das outras pessoas” (Lange & Jakubowski, 1976, p. 7, citado por Del Prette & Del Prette, 1999). Dos inúmeros exemplos de contraposição entre comportamento assertivo, não assertivo e agressivo, pode-se citar a questão da valorização de si próprio. Neste caso, um indivíduo com comportamento assertivo é capaz de valorizar-se, mas sem ferir o outro; se o comportamento for não assertivo, este indivíduo irá desvaloriza-se; e se o comportamento for agressivo, a pessoa irá valorizar- se, mas irá ferir os demais (Del Prette & Del Prette, 1999).

Dentre os vários componentes das habilidades sociais, destacam-se os componentes comportamentais: verbais de conteúdo, verbais de forma e não verbais (Del Prette & Del Prette, 1999 e 2007). Estes componentes são relevantes para o contexto da avaliação de uma intervenção psicoeducativa com cuidadores, como é o caso da pesquisa ora relatada, porque são elementos que podem ser diretamente observados e comparados, por meio de medidas obtidas antes do início e após a conclusão de um treinamento de habilidades sociais.

36 Os comportamentos verbais de conteúdo, segundo Del Prette e Del Prette (1999), dizem respeito à comunicação verbal, que é composta por signos reguladores do intercâmbio verbal, facilitando assim, a compreensão do que se fala. São exemplos de componentes verbais de conteúdo: fazer/responder perguntas, solicitar mudança de comportamento, lidar com críticas, pedir/dar feedback, opinar/concordar/discordar, elogiar/recompensar/gratificar, agradecer, fazer pedidos, recusar, justificar-se, autorevelar-se/usar o pronome EU, usar conteúdo de humor.

A topografia da fala é representada por Del Prette e Del Prette (1999) por meio dos componentes verbais de forma, tais como latência e duração, regulação (bradilalia, taquilalia, volume, modulação) e transtornos da fala. Os componentes verbais de forma são elementos imprescindíveis para relações interpessoais, porque, embora não estejam relacionados ao conteúdo do que se quer transmitir, permitem melhorar “como” se quer transmitir tal conteúdo. Em situações estressantes que o cuidador de um parente com demência enfrenta, especialmente em interações com a pessoa doente, um bom desempenho em relação aos componentes verbais de forma é de suma importância, porque é preciso tratar o outro sempre com respeito, buscando acalmar e demonstrar carinho, quando possível, para que o parente idoso e outros familiares ouçam o cuidador e não construam obstáculos psicológicos que dificultem as interações.

Os componentes não verbais também influenciam significativamente as relações interpessoais, já que podem chegar a representar 65% da comunicação (Del Prette & Del Prette, 1999). A linguagem não verbal precede a linguagem verbal desde os primórdios, até o desenvolvimento das habilidades comunicativas das crianças e, curiosamente, não desaparece quando a fala se instala nas pessoas. As emoções são muito mais facilmente expressadas de forma não verbal do que verbalmente. Isto se deve ao fato de que para muitos sentimentos não há palavras que possam traduzir com fidedignidade o que se está sentindo (Del Prette & Del Prette, 2005).

A comunicação não verbal, segundo Argyle (1967/1994), citado por Del Prette e Del Prette (1999), tem três funções: comunicar atitudes e emoções, apoiar de forma não verbal a comunicação verbal e substituir a comunicação verbal pela não verbal. Em alguns momentos, a comunicação não verbal pode contradizer a verbal. É o caso quando se pergunta a alguém que está visivelmente bravo se está tudo bem e, então, esta pessoa diz: “sim, está tudo bem”. Ou seja, pode-se observar que aquela pessoa não está bem, mas por alguma razão, ela diz que sim. O interlocutor neste caso, mesmo ouvindo a comunicação verbal não acredita que está tudo bem, porque a comunicação não verbal é

37 uma informação crível. O fato que a pessoa disse que está, sim, tudo bem, no entanto, cria uma demanda interpessoal diferente do que se tivesse falado que estava bravo, porque o ouvinte precisa, primeiramente, avaliar se deve e como deve abordar sua percepção de braveza do seu interlocutor.

Para Caballo (1993), a comunicação não verbal é algo inevitável na presença de outras pessoas. Mesmo que o indivíduo seja incapaz de comunicar-se verbalmente ou não queira falar, ele emite mensagens sobre si mesmo aos demais por meio de seu rosto e de seu corpo, e as mensagens não verbais são recebidas de forma não consciente. As pessoas têm impressões sobre os demais a partir da conduta não verbal, mesmo sem saber identificar o que agrada ou o que irrita no outro. Para ilustrar melhor este fenômeno, segue uma tabela que Argyle elaborou em 1975, citada por Caballo (1993), e que aponta o grau de consciência que um indivíduo mantém quando se encontra imerso no terreno da comunicação não verbal.

Tabela 1 – Grau de consciência da pessoa envolvida na comunicação não verbal

Emissor Receptor Resultados

Se dá conta Se dá conta Comunicação verbal, alguns gestos (ex: apontar)

Não se dá conta da maior parte

Não se dá conta da maior parte

A maioria da comunicação é não verbal Não se dá conta Não se dá conta, mas

tem efeito Dilatação pupilar, mudança de olhar e outros pequenos sinais não verbais Se dá conta Não se dá conta O emissor é treinado para o uso

(ex: conduta espacial) Não se dá conta Se dá conta O receptor é treinado para a

interpretação, ex: postura corporal

Fonte:Argyle, 1975

Alguns componentes da comunicação não verbal são citados abaixo (Del Prette & Del Prette, 1999):

 Olhar e contato visual  Sorriso

 Expressão facial  Gestualidade  Postura corporal

 Movimentos com a cabeça  Contato físico

38 Voltando à consideração deste conjunto de componentes, de acordo com Murta (2005), a aquisição de um repertório socialmente competente, em geral, acontece sem treinamento formal e em interações em contextos naturais, como por exemplo, no relacionamento entre familiares, colegas de escola e amigos. No entanto, é comum que, durante este processo de aprendizagem, ocorram falhas, resultando assim, em déficits importantes em habilidades sociais. Há evidências que apontam que os déficits em habilidades sociais estão associados com o fraco desempenho acadêmico, entre crianças (Cia, 2009) e, entre adultos, com conflitos conjugais e transtornos de ansiedade, entre outros (Machado, 2009; Murta 2005). Com base num número cada vez maior de estudos confirmando estas evidências, derivou-se a compreensão de que as habilidades sociais podem atuar como um fator de proteção no curso do desenvolvimento humano, contribuindo para o surgimento de intervenções para o aprimoramento destas habilidades com diferentes populações e em diferentes contextos (Murta, 2005).

Os pesquisadores neste campo alertam, porém, que é preciso desenvolver habilidades sociais adequadas para cada contexto, porque o que se espera do indivíduo em cada contexto varia. Ou seja, para ajudar cuidadores de idosos com demência a melhorarem suas habilidades sociais para melhor lidar com este papel, é preciso trabalhar com situações hipotéticas ou reais ligadas a estas demandas específicas. Por exemplo, os comportamentos aceitos durante uma refeição em casa podem ser diferentes do que os que são aceitos num contexto de um restaurante. Por isso, no presente momento, pode ser difícil levar um idoso com doença de Alzheimer para comer fora, se este tem um problema de deglutição e acaba regurgitando um pouco de comida, entre outros comportamentos desconhecidos pelo público geral, que geram constrangimento para todos os envolvidos.

Focando este contexto do cuidador do idoso com demência, Faleiros (2009) acredita que um repertório adequado de habilidades sociais poderia contribuir para o ajustamento das relações interpessoais inadequadas e para a manutenção das relações adequadas no contexto dos cuidados no convívio familiar. Assim, Faleiros (2009) sustenta que a saúde do cuidador poderia se beneficiar com um treino de habilidades sociais envolvendo elementos básicos destas habilidades, como por exemplo, entender a diferença entre comportamentos assertivos, agressivos e passivos, neste contexto, além de treinar o uso do elogio com o idoso e com outros familiares que ofereçam ajuda, ou uso adequado de críticas e preparar cuidadores para pedirem ajuda de forma adequada, junto a outros familiares e profissionais. Numa intervenção a ser oferecida num período

39 de tempo limitado, é necessário fazer escolhas em relação aos temas considerados como os mais críticos e úteis para a população em questão. Para o treino de habilidades sociais junto a cuidadores de idosos com demência, optou-se para dar continuidade ao trabalho iniciado por Faleiros (2009), mantendo o treino destes quesitos.