JOINT DISSENTING OPINION OF JUDGES GROZEV, O’LEARY AND HÜSEYNOV
II. Circumstances of the case
drop’.
É consenso entre os lingüistas que, quanto mais reduzido o paradigma flexional número-pessoal do verbo, mais necessário se faz o preenchimento do sujeito pronominal. Por este motivo o PB está perdendo progressivamente o chamado parâmetro pro-drop13, possível no português europeu.
13 O termo ‘pro-drop’ foi proposto por Chomsky (1981). A criação deste parâmetro foi o primeiro passo no intento de explicar as diferenças entre línguas em relação à possibilidade de apresentarem ou não um sujeito nulo. De acordo com Duarte (1993), o ponto crucial para distinguir as línguas com relação ao pro-drop é o
Alguns pesquisadores (Duarte (1993), Tarallo (1993), Cyrino (1990), Pagotto (1993) mostram que o PB prefere o emprego dos pronomes pessoais sujeitos ao não-emprego, ou seja, aos sujeitos nulos. Segundo esses autores, o PB já não pode ser classificado como uma língua de sujeito nulo, mas como estando a caminho para transformar-se numa <non-pro- drop-language>. Deste modo, o emprego dos pronomes pessoais sujeito poderia tornar-se obrigatório. Em uma pesquisa sobre a trajetória do sujeito nulo no português do Brasil, Duarte (1993) atesta que é evidente “o fato de que a redução no quadro de desinências verbais alterou as características de língua ‘pro-drop’ que o português do Brasil apresentava antes de 1937”. (Duarte, 1993: 137).
Barme (1998) argumenta com relação ao mesmo assunto que, nos estudos diacrônicos seguindo o modelo dos Princípios e Parâmetros de Chomsky chega-se à conclusão de que o freqüente emprego dos pronomes pessoais sujeitos na variedade brasileira do português representa uma profunda mudança sintática do PB, como, por exemplo, a perda da inversão e a tendência de não realizar o objeto direto, o que segundo o autor não são meras variações ao nível da norma, mas sim mudanças no sistema, documentando uma transformação tipológica do PB.
Uma das considerações do autor com relação ao preenchimento ou duplo preenchimento do sujeito é que o suposto enfraquecimento da flexão verbal14 é compensado pelo emprego sistemático dos pronomes pessoais sujeitos para determinar a categoria de pessoa. O português europeu não possui esse tipo de construção, visto que ainda tem uma forte flexão verbal, oposto ao que verificamos na observação de Duarte (1993): “De fato, a mudança que se observa no português do Brasil, que parece estar evoluindo de uma marcação positiva para uma negativa dentro do parâmetro “pro-drop”, coincide com significativa redução ou simplificação nos paradigmas flexionais”. Duarte (1993:107).
Em uma pesquisa mais recente Duarte (2003) reafirma sua posição com relação à evolução na representação do sujeito pronominal no PB atual:
elemento de concordância (AGR). Ele é capaz de, ao mesmo tempo, licenciar e permitir a recuperação do sujeito nulo em línguas com o sistema flexional mais rico, como por exemplo, o italiano e o espanhol.
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Com a expansão do uso de você e de a gente como pronomes pessoais a redução do uso de tu e de vos, a 3ª pessoa verbal se generaliza, pode-se dizer que convivem no Brasil atualmente um paradigma verbal de quatro posições:
• Eu falo / ele, você, a gente fala / mos falamos / eles, vocês falam.
Em algumas áreas geodialectais brasileiras, usa-se o tu, na fala corrente com o verbo na 3ª pessoa (tu fala) e, em reduzidas áreas (o litoral catarinense e sul riograndense talvez sejam as áreas mais expressivas) ao tu ainda se segue a flexão histórica (tu falas).
... o português do Brasil apresenta índices de preenchimento do sujeito pronominal bem superiores aos apresentados pelas chamadas línguas românicas de sujeito nulo, como o espanhol, o italiano e a variedade européia do português. De modo geral, o fenômeno tem sido associado à simplificação ocorrida em nossos paradigmas flexionais verbais, que contam com a mesma forma para a segunda e a terceira pessoas do singular e, com freqüência cada vez maior, para a primeira do plural, graças ao crescente uso da forma ‘a gente’ em detrimento de ‘nós’. Duarte (2003: 115)
Para ilustrar a situação atual do PB com relação à evolução na representação do sujeito pronominal em duas amostras separadas por um intervalo de cerca de dezenove anos, Duarte (2003) faz uso dos seguintes exemplos que ilustram bem a referida evolução:
→ ‘Vocês são muito jovens. Vocês acham que vocês podem mudar o mundo. Acham que tudo é fácil’. (grifo nosso).
→ ‘Meu marido conhece o Brasil quase todo, porque ele trabalhava no Instituto Nacional de Migração. Então ele viajava muito. Aí, depois que ele se aposentou, nunca mais viajou. Tanto que ele ainda não foi lá na casa do meu filho. Ele ainda não foi lá. Ele conhece, que ele já esteve lá quando ele trabalhava. Ele conhece as Sete Quedas, ele conhece Foz, conhece tudo, mas ele nunca foi na casa do meu filho. Acho que ele viajou tanto que agora não liga. ’ (grifo nosso)
Os exemplos mostram casos em que a gramática tradicional não recomendaria o uso do pronome pessoal, pois o mesmo deveria ser usado com valor enfático, já que as desinências verbais bastariam para fazer a distinção do sujeito.
Com o desenvolvimento das pesquisas nesta área, Duarte (2003) verificou que a mudança paramétrica no uso de sujeito nulo para um preferente uso do sujeito pronominal ou de uma categoria vazia (não-realização), trouxe algumas conseqüências, uma delas é a “tendência à realização dos sujeitos de referência indeterminada com formas pronominais nominativas, preferencialmente plenas, em detrimento do uso de ‘se’ indeterminador / apassivador, ao contrário do que ocorre no português europeu”. (Duarte, 2003: 124). Os exemplos a seguir ilustram esta preferência:
→ ‘A gente tem que seguir o que a gente sabe, e da forma que a gente foi criado’. (grifo nosso)
→ ‘__ Põe um pouquinho de “Só Alho”, aí __ põe óleo e __ põe um pouquinho de cebola, __ pica a cebola, __ faz uma macarronada”.
→ ‘Às vezes pelo fato da pessoa ter nascido e criado em morro, eles acham que é tudo mau elemento’.
De acordo com a autora a forma “você” aparece como a estratégia preferida para a indeterminação, seguida por “a gente” e as formas com a categoria vazia e a terceira pessoa do plural. As formas “se”, “tu” e “nós” apresentam percentuais pouco expressivos.
Ainda com relação ao duplo preenchimento de sujeito, se reconhece que no PB existe, em certas construções sintáticas, esse duplo uso de sujeito em forma de um pronome pessoal sujeito, chamado de pronome pessoal sujeito anafórico ou ‘cópia’, ‘pronome sombra’ ou ainda de ‘pronome lembrete’; como exemplo podemos citar Mollica (apud Barme, 1998): “Eu tenho uma amiga que ela é muito inteligente”.