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3. MATERIALES Y MÉTODOS

3.6. MODELIZACIÓN

3.6.3. Cinética de secado

A violência usada como forma de conseguir ou manter o poder continua sendo um dos grandes males enfrentados pela sociedade contemporânea. Entretanto, não podemos deixar de destacar que apesar de ser um problema a ser combatido, a violência, tanto a simbólica quanto a física, são fenômenos que trazem ferramentas importantes para entender questões sociais e culturais das sociedades.

Nessas construções, constatamos que a violência passa a ser o ponto de partida para alimentar os medos contemporâneos, isto é, em que são conduzidos os olhares e comportamento dos indivíduos em sociedade (COSTA, 2015; 2016). Ou seja, onde devo ir? Quais lugares? Que pessoas devo temer? Onde é seguro? O que devo e quem devo evitar?

Bauman (2008a) associa o medo às incertezas e ignorâncias. Ele explica que este é um sentimento típico de toda criatura que luta pela própria vida, ou seja, trata-se de uma característica comum a homens e animais. Todo o ser que se sente ameaçado tem duas alternativas: a fuga ou a agressão. Porém, o autor vai além da explicação biológica e afirma que o homem, diferente dos seres irracionais, experimenta em seu cotidiano outro tipo de reação, que seria o “medo derivado”, visto como um fator que orienta o comportamento humano e ajuda na percepção de mundo e tomada de decisões:

O medo secundário [ou medo derivado] pode ser visto como um rastro de uma experiência passada de enfrentamento de ameaça direta – um resquício que sobrevive ao encontro e se torna um fator importante na modelagem da conduta humana mesmo que não haja mais uma ameaça direta à vida ou à integridade. (BAUMAN, 2008a, p. 9).

O medo derivado descrito por Bauman (2008a) fala exatamente sobre o temor de estar suscetível a qualquer perigo, a constante sensação de insegurança, pois já não há lugares completamente seguros, além de a dúvida sobre as opções de defesa despertar a desconfiança e superar tudo e todos. Segundo ele,

Uma pessoa que tenha interiorizado uma visão de mundo que inclua a insegurança e a vulnerabilidade recorrerá rotineiramente, mesmo na ausência da ameaça genuína, às reações adequadas a um encontro imediato com o perigo; o “medo derivado” adquire a capacidade da autopropulsão. (BAUMAN, 2008a, p. 9).

No geral, os medos típicos da pós-modernidade, segundo Bauman, são classificados como sendo de três tipos: 1) aqueles que ameaçam o corpo e as propriedades; 2) os medos que ameaçam a durabilidade e a confiabilidade na ordem social; 3) os medos que ameaçam o lugar

do indivíduo no mundo, ou seja, a posição em relação à hierarquia social e a identidade (BAUMAN, 2008a).

A grande dificuldade para entender o medo que sentimos acontece por não sabermos de onde ele vem. Os medos podem ter origens concretas, mas também podem ser abstratos e difíceis de serem identificados:

Os medos são muito diferentes, mas eles alimentam uns aos outros. A combinação desses medos cria um estado na mente e nos sentimentos que só pode ser descrito como ambiente de insegurança. Nós nos sentimos inseguros, ameaçados, e não sabemos exatamente de onde vem esta ansiedade nem como proceder. (BAUMAN, 2010, p. 74).

Logo, percebemos que o medo é “aproveitado” pela mídia, que o usa como combustível. Partimos aqui do pressuposto que os veículos de comunicação de massa se aproveitam da violência cotidiana para criar o ‘pânico geral’ e assim ter mais elementos para alimentar seu próprio conteúdo. Os veículos de massa direcionam sua lupa para a violência que lhe convém retratar, daí estes casos ganham mais visibilidade e o público busca nestas atrações cada vez mais informações, ou seja, formas de se proteger da violência que os veículos retratam.

A violência é retratada de forma grotesca, banalizada e m formato de espetáculo, segundo Costa (2005), pela mídia, alimentando os medos contemporâneos retratados por Bauman (2001; 2007a; 2008a; 2011), e que geram cada vez mais insegurança e incertezas. O conteúdo mostrado ao público reforça os medos pessoais e coletivos, típicos da atualidade. Bauman (2008a) explica que no ambiente líquido-moderno lutar contra os próprios medos é uma tarefa diária, pois estes são companhias constantes.

Nossa vida está longe de ser livre do medo, e o ambiente líquido-moderno em que tende a ser conduzida está longe de ser livre de perigos e ameaças. A vida inteira é agora uma longa luta, e provavelmente impossível de vencer, contra o impacto potencialmente incapacitante dos medos e contra os perigos, genuínos ou supostos, que nos tornam temerosos. (BAUMAN, 2008a, p. 15).

Alimentados pelo medo de origem natural ou que é induzido, essas atrações tratam a violência não como uma questão social e coletiva, mas sim como um problema particular causado por uma questão econômico-social: pobres e moradores das periferias. Costa (2011) afirma que:

As matérias quase sempre são embaladas por contextos de espetáculo e de sensacionalismo, descaracterizando a seriedade do problema ou desprezando

o respeito à dignidade humana dos envolvidos ou daqueles que assistem diariamente a esses programas em busca de informação que, supostamente, eles veiculam. (COSTA, 2011, p. 179).

O medo passa a ter um lugar de destaque em nossa sociedade, pois se nos transformamos em seres cada vez mais individuais, os outros nos parecem cada vez mais estranhos. Ao refletir sobre a insegurança nas grandes cidades, Bauman (2007) vai enfatizar que o aumento das metrópoles, os efeitos da globalização e a fragilidade dos instrumentos de proteção tornaram estes locais mais inseguros e por isso geram cada vez mais ansiedade em seus moradores. Para ele a insegurança e o medo são angústias da vida líquida na modernidade:

O medo é o reconhecimento mais sinistro dos demônios que se alinham na sociedade nas sociedades abertas da nossa época. Mas é a insegurança do presente e a incerteza do futuro que produzem e alimentam o medo mais apavorante e menos tolerável. Essa insegurança e essa incerteza, por sua vez, nascem de um sentimento de impotência: parecemos não estar mais no controle, seja individual, separada ou coletivamente, e, para piorar ainda mais as coisas, faltam-nos as ferramentas que possibilitariam alçar a política num nível em que o poder já se estabeleceu, capacitando-nos assim a recuperar e reaver o controle sobre as forças que dão forma à condição que compartilhamos, enquanto estabelecem o âmbito de nossas possibilidades e os limites à nossa liberdade de escolha: um controle que agora escapou ou foi arrancado de nossas mãos. O demônio do medo não será exorcizado até encontrarmos (ou, mais precisamente, construirmos) tais ferramentas. (BAUMAN, 2007, p. 32).

Na concepção baumaniana, a sociedade está fragmentada e dividida. Trata-se de uma sociedade na qual nos protegemos sem entender muitas vezes exatamente do que ou de quem. Para o autor, os medos típicos da modernidade nascem junto com o processo de individualização. Se em outros momentos os indivíduos mantiveram laços próximos de parentesco ou vizinhança, construindo comunidades que priorizavam o bem-estar comum, agora estes vínculos se tornaram mais frouxos e se romperam.

As novas formas de relação e relacionamento4

colocam em risco, inclusive o sentimento de solidariedade. O resultado disso, segundo ele, é a substituição de laços naturais

4 Bauman faz distinção entre relação e relacionamento. O autor pensa nos relacionamentos humanos quase como

jogos, nos quais homens e mulheres encontram-se desesperados, temerosos pelo abandono, com sentimentos cada vez mais descartáveis e, mesmo que digam o contrário, ansiosos pela segurança e estabilidade do convívio afetivo. Entretanto, apesar da busca constante por relacionar-se, o autor indica uma contradição latente que seria a desconfiança e o receio de estar ligado de maneira permanente, pois todas as responsabilidades e amargores das relações representam um peso árduo de ser carregado em longo prazo e ainda limitam a tão sonhada – e difícil de ser alcançada na plenitude – liberdade, que traz consigo uma série de possibilidades que deixam de ser experimentadas (BAUMAN, 2004). A busca maior nas relações atuais é pelo prazer e a satisfação imediata. Acreditamos, segundo o autor, que há uma fórmula possível de ser aplicada em todas as relações e que vai nos

por equivalentes artificiais, nos quais os sujeitos estão unidos por interesses compartilhados ou rotinas diárias (BAUMAN, 2007a). A ausência de laços fraternais mais fortes faz Bauman acreditar que:

Os medos nos estimulam a assumir uma ação defensiva. Quando isso ocorre, a ação defensiva confere proximidade e tangibilidade ao medo. São nossas respostas que reclassificam as premonições sombrias como realidade diária, dando corpo à palavra. O medo agora se estabeleceu, saturando nossas rotinas cotidianas; praticamente não precisa de outros estímulos exteriores, já que as ações que estimula, dia após dia, fornecem toda a motivação e toda a energia de que ele necessita para se reproduzir. Entre os mecanismos que buscam aproximar-se do modelo de sonhos do moto-perpétuo, a autorreprodução do emaranhado do medo e das ações inspiradas por esse sentimento está perto de reclamar uma posição de destaque. (BAUMAN, 2007a, p. 15).

Os medos da sociedade líquida colocam em risco nossa capacidade de acreditar e interagir com os outros, pois estamos constantemente criando zonas de conforto que priorizam a defesa pessoal. As rotinas da vida cotidiana, por exemplo, passaram a ser construídas a partir das angústias e das experiências tidas que geraram medo, o que dá a este sentimento uma posição de destaque.

Aliás, o lugar do medo na sociedade líquida é algo que precisa ser refletido, pois esse é o “mais sinistro dos demônios que se aninham nas sociedades abertas de nossa época” (BAUMAN, 2007a, p. 32). O medo surge da impotência e sem instrumentos para derrotá-lo ele se torna um inimigo silencioso e mortal.

Os medos contemporâneos estão sempre se alimentando de estímulos externos, para então tornarem-se reais e concretos dentro de nós. A mídia pode colaborar nesse processo ao buscar subsídios no medo para construir uma realidade pautada no terror. Os conteúdos reproduzidos nos meios de comunicação que abusam da violência, dos discursos de ódio e da intolerância, são exemplos de fatores externos que acentuam os medos, afinal eles se valem das sensações de pânico e insegurança para vender a violência como produto.

ajudar a evitar o sofrimento e o luto dos términos. Bauman afirma que buscamos os chamados “relacionamentos de bolso”, ou seja, aqueles que procuramos quando nos convêm e da mesma forma que os queremos com toda a nossa vontade, os descartamos, pois as relações mais profundas são pesadas e “é preciso diluir as relações para que possamos consumi-las” (2004, p. 10). Logo, é preciso controlar as relações, no sentido de racionalizá-las, para então aceitar fazer parte de uma.