Movimentos de vanguarda do início do século XX provocam uma revolução no panorama artístico. Os cubistas transcendem os impressionistas com a nova forma de representar o espaço, Picasso ultrapassa tudo e todos quando simultaneamente representa tempo e espaço num único quadro, Les demoiselles d’ Avignon, em que representa a mulher ao mesmo tempo de perfil e de frente. O cubismo do período analítico é uma referência, pois Georges Braque e Pablo Picasso descobriram o meio de alternar a profundidade na pintura. Através da análise exaustiva dos objetos, as figuras aparecem-nos desmultiplicadas numa infinidade de planos geométricos, totalmente achatados, confundindo-se com os fundos, ou seja, decompondo-as e reduzindo-as à bidimensionalidade. O processo de representação encontrado, resultante da análise rigorosa e objetiva do objeto, do motivo, faz com que o que está representado se afaste da imagem real que lhe deu origem, tornando-se irreconhecível, abstrato.
Os cubistas criaram uma nova definição de representação pictórica, interessados em apresentar a pintura como um trabalho intelectual, que resulta da observação da realidade através da sua apreciação crítica.
Picasso e ao mesmo tempo Braque desenvolvem uma nova forma de expressão, representando vários pontos de vista simultaneamente, sendo os objetos desmontados nos seus componentes. O principal é a geometrização das formas “o cubismo tornara-se um estilo abstrato no sentido puramente ocidental”119 longe da conceção euclidiana do espaço, criam
um objeto artístico autónomo, ao produzir uma imagem conceptual de um objeto em vez da imagem visual, em vez da imagem percecionada por nós, revolucionando por completo a expressão artística, suprimindo a perspectiva linear estabelecida pelos renascentistas. Em vez de representar o que é pretendido, tal como vemos na realidade, sob um determinado ângulo, representam-no sob vários pontos de vista diferentes ao mesmo tempo, levando à fragmentação da imagem criando imagens fascinantes e complexas.
As convulsões e consequentes transformações que ocorreram nas artes e na forma como os artistas se passaram a expressar, tomaram de assalto a crítica, os públicos e a sensibilidade estética do mundo ocidental, surge então uma nova geração de jovens arquitetos, os quais dão resposta a novas e crescentes aspirações da sociedade, conseguem interpretar os anseios que fervilham e crescem nos vários meios, lançam mãos à obra, rejeitando o decorativismo, projetando novas formas que irão ao encontro das novas ideias. Este novo gosto é resultante, em parte, da influência cubista. Podemos referir que ao longo da pintura ocidental, o cubismo representou o corte perentório com a espacialidade renascentista já antes iniciado pelos impressionistas. “(…)não há dúvida de que o cubismo realiza uma conceção do espaço e da visão afins às que, nos mesmo anos, são formuladas pela
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ciência(…)”120 Produzindo uma rutura libertadora no espaço, o representado deixa de ser o
que se vê estaticamente e passa a ser a totalidade de todos os ângulos possíveis a partir de diversos pontos de vista, primeiro pela análise e depois pela síntese. O cubismo foi um dos movimentos mais importantes da arte moderna “pela primeira vez a arte moderna pôde sentir-se segura de que possuía um modelo interno, fruto apenas de sua história, no qual se basear. (…) Nenhum foi a matriz de tantos outros movimentos”121.
O cubismo teve um importante contributo ao nível da história na sua conceção do espaço. E a partir desse momento o espaço começou a ser compreendido e representado de outra forma. Os arquitetos tomaram conhecimento das inovações pictóricas do cubismo analítico de Picasso e Braque, com o uso da sobreposição, procurando a integração do pensamento pictórico na arquitetura, tentando comutar a ideia de ângulo reto com a ideia do oblíquo e prismático onde a quarta dimensão dos cubistas muito contribui para a nova forma de os arquitetos projetarem. Assim, a ideia da pintura cubista era aplicada nas fachadas e em toda a conceção arquitetónica, dando origem a uma arquitetura nova, modernista, que tinha começado a emergir no final do século XIX e deixava o seu estado embrionário no início do século XX. “Sem a quarta dimensão do cubismo, Le Corbusier nunca teria pensado em suspender a Villa Savoie sobre estacas nem igualar as quatro fachadas, rompendo assim a distinção entre fachada principal, laterais e posterior que estava implícita na representação prospéctica (…)”122
A exploração do espaço, na obra de Picasso ou de Braque, ultrapassa as meras questões da representação, mais do que representar o espaço, eles ampliam a ideia de espaço, a própria referência à existência da uma quarta dimensão introduz uma dimensão sobretudo mental.
A influência das transformações artísticas está patente na arquitetura e os arquitetos projetam e estão intimamente ligados a essa influência. Miguel Saraiva não é exceção e na sua obra encontramos influências do século XVII e da célebre tela de Diego Velázquez Las Meninas, onde o utilizador é colocado numa posição de destaque. Miguel Saraiva ao criar uma arquitetura aberta e de sentimentos evoca uma cena cujos protagonistas/utilizadores principais estão fora da sua habitação, mas ao mesmo tempo encontram-se no seu interior, vivenciando-a, estão fora do quadro, ocupando o lugar do espetador e ao mesmo tempo de figurante. Segundo, Foucault,123 sempre que se contempla Las Meninas, o espetador encarna
o papel dos monarcas representados por supressão e experimenta o gozo desse lugar privilegiado. O mesmo acontece na arquitetura de Miguel Saraiva, onde este coloca o utilizador num lugar privilegiado para usufruir plenamente do envolvente, sendo o próprio sujeito da figuração como quem ocupa o lugar do “Procurador” na tela de Velasquez. A
120 Argan, Guilio Carlo, Arte e Crítica de Arte, 2ª edição, trad. Helena Gubernatis, Editorial Estampa,
Lisboa, 1995, p. 61
121 TASSINARI, Alberto, O espaço moderno, Cosac Naify Edições, São Paulo, 2001, p.34
122ZEVI, Bruno, Saber ver a Arquitetura, tradução de Mª Isabel Gaspar e Martins de Oliveira, Dinalivros,
Lisboa, 1989, p.104
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perceção moderna do espaço que nasceu no mundo da pintura, resultante da técnica da perspetiva, do ponto de fuga e da geometrização, assim como os indissociáveis avanços científicos, estéticos e tecnológicos estão patentes em toda a obra de Miguel Saraiva.