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É possível perceber a relação que Freud estabeleceu, na fundação da psicanálise, entre a cultura, a subjetividade e as manifestações corporais. Na contemporaneidade, a cultura do imediatismo e individualismo proporcionados pela desenvolvimento tecnológico mudou a maneira de subjetivar do indivíduo.

Herrman (2011) observa que os efeitos dos acontecimentos históricos da contemporaneidade promoveram uma relação artificial do indivíduo com sua forma corporal. Esta artificialidade consiste em negar os limites do corpo e este movimento encontra respaldo numa cultura em que os discursos de ascetismo, beleza e força física são priorizados. O autor afirma que o corpo passou a ser visto, exposto e modelado de acordo com as normas estéticas vigentes sendo neste meio crítico que a obesidade e os transtornos alimentares como anorexia e bulimia se encontram. Segundo Coupry (1989/1990) esta crise diz respeito a um ataque constante contra o próprio corpo revelando um movimento de ódio a este e é por este ódio que o indivíduo permite e implora que o outro crave uma faca e tire a gordura, corte as cartilagens, trinche o que passa dos limites. Desta maneira, o corpo obeso cheio de excessos e de sobras passa a ser mais atacado pelos julgamentos, pois traz em si a prova de que há excessos que precisam ser eliminados e extintos.

A perspectiva da psicanálise sobre a obesidade está para além de um corpo obeso e com fatores de risco para outras doenças crônicas, como sugerem Lazzarini, Batista e Viana (2013). A autoras observam que a perspectiva psicanalítica sobre a obesidade refere-se “à estrutura destes sujeitos, às suas diferentes posições subjetivas” (p. 82) sendo o funcionamento psíquico o foco de atenção. Acreditamos que a narrativa de cada indivíduo sobre seu sofrimento tem grande relevância, já que a partir de Freud, para a psicanálise o discurso de cada sujeito revela a sua subjetividade e o lugar que o sintoma ocupa em sua vida.

Vilhena, Novaes e Rosa (2012) observam, atualmente, um deslocamento total entre paciente e seus sintomas físicos. As autoras afirmam que o corpo é tratado como um organismo vivo, como parte da natureza, e que a medicina cuidará com maestria; assim os significados mais profundos de cada órgão são silenciados, como se os pacientes estivessem habitando corpos sem qualquer narrativa e até mesmo desconhecidos. As autoras ainda afirmam que o estudo das transformações do corpo não pode ser dissociado das narrativas associadas a ele. Escutar a narrativa do sujeito obeso sobre a representação que ele tem de si e de seu corpo é fundamental para possibilitar um diálogo entre o sujeito e a sua subjetividade.

Vilhena, Novaes e Rosa (2012) acreditam que a proposta da psicanálise para a obesidade é articular cada sintoma com o discurso produzido pelo corpo. Segundo as autoras a proposta é a de ajudar o sujeito a não mais sentir que habita um corpo estranho por meio da busca de um significado e de uma narrativa para as diferentes experiências subjetivas. As autoras ainda destacam as diferentes perspectivas da medicina e os pontos de vista psicanalíticos do mesmo paciente: “um médico pode ver um paciente que mente, ao passo que um psiquiatra pode ver um paciente que está

delirando e um psicanalista pode tentar entender o que o corpo está tentando dizer” (p. 721, tradução nossa).

De acordo com Andrada e Freire (2012) a obesidade é caracterizada pela incapacidade de se separar do alimento e refere-se a uma “modalidade de existir” (p. 35), isto é, surge como uma marca no corpo que expressa algo que não pode ser dito. As autoras observam que a obesidade está inserida em uma lógica do concreto, ou seja, o sujeito vivencia a falta de uma comida que o preencha, mas não de uma palavra que o defina sinalizando um tipo de patologia da contemporaneidade. As autoras observam que atualmente não há espaço para o acolhimento e para a sustentação da falta possibilitando assim o encontro do sujeito com um objeto que lhe seja anestésico para tamponar a frustração de uma insatisfação imediatista e de uma realidade que lhe causa desconforto. Muitas vezes o vínculo criado pelo sujeito obeso, na falta de algo simbólico, é realizado com algo concreto, a comida.

Para Miranda (2011) a obesidade é uma manifestação típica da contemporaneidade, pois o sofrimento psíquico manifestado é da ordem da concretude e o imediatismo dos atos substituem o pensar ponderado. A autora observa que o comer depressa, com as mãos, facilita o não pensar, pois o talher serviria de interventor entre o alimento e a boca favorecendo o pensar por oferecer mais tempo e espaço a ele. Uma das pacientes atendidas por nós na clínica psicanalítica, certa vez, relatou “sentir é muito ruim... eu não gosto.. daí eu como, comer é fácil” mostrando que para ela às vezes a interrupção que o alimento proporciona vem antes mesmo do pensar; parece que a interrupção é feita antes do sentir as emoções, o ato de pensar para esta paciente já se torna algo mais complexo e difícil.

Acreditamos que o foco da clínica psicanalítica com pacientes obesos deve ser a escuta do sujeito, de sua história e de seu corpo e não sobre a obesidade somente. Se

assim não o fizermos corremos o risco de seguir o mesmo caminho traçado pela contextualização histórica e cultural: supor que a obesidade é um mal que deve ser extinguido ou uma doença que deve ser curada.

A investigação da constituição psíquica e do ambiente no qual o indivíduo obeso encontra-se torna-se indispensável associada ao entendimento da significação da obesidade para ele. Esta investigação remete ao estudo de uma estrutura psíquica em seus primórdios, já que as relações entre o sujeito, seu eu e seu corpo não são dadas ao nascer, mas sim construídas e concebidas durante a constituição psíquica do bebê e na sua relação precoce com suas figuras parentais. Desta forma o capítulo dois tem o objetivo de refletir sobre o bebê, sua constituição psíquica e as diversas fontes de alimento proporcionadas por seu ambiente.

CAPÍTULO 2

O BEBÊ E SUAS FONTES DE ALIMENTO A PARTIR DE UM OLHAR WINNICOTTIANO

Compreender a obesidade de um paciente a partir de uma perspectiva psicanalítica requer a compreensão do processo de constituição psíquica onde encontram-se as primeiras trocas do sujeito com o alimento. A mãe, ou o substituto materno, possibilita esses primeiros encontros do bebê com o alimento e provê o ambiente necessário para a constituição do eu e do corpo do infante. Desta forma, o estudo da obesidade de um paciente indica a importância da descrição do bebê e do ambiente no qual ele nasceu e foi recebido e, para tanto, a teoria winnicottiana é utilizada por oferecer esse aporte teórico.