A seguir, destacamos a circunstância temporal na Rd de condenado:
(L285-289) Deve haver motivos particulares, e até particularíssimos, muitos dos quais moralmente inconfessáveis, para justificar o tratamento de condenado por antecipação que recebo desde o início
do rumoroso caso.
A circunstância de tempo “desde o início do rumoroso caso” corresponde ao início do
período em que ACM foi notícia da mídia. A partir desse momento, ACM se considerou condenado em sua história política e pessoal.
Nesse contexto, a localização temporal oferece uma significativa contribuição para a Rd de ACM como condenado porque demarca na linha do tempo como ficou o Senador no instante em que o caso de violação do painel foi divulgado.
5.20.4 Conexão
A conexão no conjunto da Rd
(L285-289) Deve haver motivos particulares, e até particularíssimos, muitos dos quais moralmente inconfessáveis, para justificar o tratamento de condenado por antecipação que recebo desde o início do rumoroso caso. Fui submetido, repito, a um tratamento injusto, mas sobretudo covarde, que rejeito como Senador, mas que rejeito, acima de tudo, como cidadão de largos serviços prestados ao meu País e, por isso mesmo, merecedor do respeito dos meus concidadãos.
Com o uso dos conectores “e até”, “mas”, “sobretudo”, “mas que”, “e”, “por isso
mesmo”, o locutor estabelece orientação global do conjunto das proposições. Alguns
acompanham a conjunção “e” (e até, e, por isso mesmo), podendo ser interpretados como os que marcam a sequência e a inclusão de fatos positivos sobre ACM.
Os mecanismos adversativos “mas sobretudo”, “mas que” vêm em uma proposição
que o referencia “como Senador e como cidadão”, construindo uma definição contrária a de
senador condenado.
Diante da análise, podemos notar que ACM forma uma série de nomeações: vítima de injustiças; adversário; político; presidente do Senado; condenado, que criam outras mais específicas, dentre elas a de homem ético, a de pai, a de avô. Em todas elas, o Senador se
apresenta como defensor de sua história de vida e de sua história política, as quais se confundem em grande parte do seu discurso. Com base nesse percurso discursivo, o locutor objetiva mostrar fatos, decrevê-los, jutificaticá-los e explicá-los para poder livrar de sua história a imagem de político corrupto e traidor dos seus eleitores.
Nesse sentido, compreendemos que as categorias em análise permitem chegar ao nível semântico do texto e, ao mesmo tempo, nos possibilitam analisar e interpretar a materialidade linguístico-discursiva que perfaz o campo de forças centrípetas, o qual proporciona ao texto construir a sua unidade de sentido (ADAM, 2011 [2008]).
CAPÍTULO VI
ANÁLISE DO DISCURSO DE RENÚNCIA DE ACM: AS REPRESENTAÇÕES DISCURSIVAS DOS ALOCUTÁRIOS
Nesta seção, analisaremos como o locutor constrói as representações discursivas dos seus alocutários em seu discurso de renúncia. Os alocutários são participantes do texto para quem ACM se dirige e desempenham um papel essencial na construção da situação comunicativa, direcionando o conteúdo discursivo do texto para outro sujeito que compartilha das mesmas atividades sociais. Nesse sentido, ACM se relaciona de forma imperativa com os senhores e senhoras Senadores(as), os Juízes do Conselho de Ética, o Senador Jáder Barbalho e o Presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC). Por meio das operações semânticas, procederemos à análise das representações discursivas.
6.1 SENHORES E SENHORAS
6.2 CATEGORIAS SEMÂNTICAS DE ANÁLISE
6.2.1 A referenciação e os modificadores Referenciação Número de ocorrências Modificadores do referente “senhoras” “senhores”
“juízes do Conselho de Ética” “moralistas”
“os movidos pelo ódio” “os aprendizes” “rábulas” “travestidos” 03 09 03 01 01 01 01 01
“respeitáveis, do Conselho de Ética; falsos; pelo ódio, pelo despeito e pelas frustrações de pigmeus, deslustrados, do Pantanal, em bacharéis especializados no direito do linchamento”
Tabela 10 – A referenciação e os modificadores dos alocutários
ACM utiliza uma cadeia de nomes que designam os seus alocutários em 3ª pessoa:
“senhoras e senhores, juízes do Conselho de Ética, moralistas, os movidos pelo ódio, pelo
despeito e pelas frustrações de pigmeus, de aprendizes deslustrados, de rábulas do pantanal, travestidos em bacharéis”. Inicialmente, os alocutários são categorizados pelo pronome de
tratamento respeitoso “senhoras e senhores”, sendo, em seguida, recategorizados como
“Juízes do conselho de Ética”. Por essa nomeação sabemos quem são os “senhores” e as “senhoras”.
(L167-169) [...] senhoras e senhores, respeitáveis juízes do Conselho de Ética, Nabuco disse: se dos moderados não se podem esperar decisões supremas, dos exaltados não se podem esperar decisões seguras.
(L270-274) Não! Não serão esses falsos moralistas que traçarão, daqui para a frente, o meu destino. Não serão os movidos pelo ódio, pelo despeito e pelas frustrações de pigmeus, de aprendizes
deslustrados, de rábulas, rábulas do Pantanal, travestidos em bacharéis, especializados no direito do linchamento, que se projetarão à minha sombra! Rábula é rábula. Bacharel é bacharel.
Analisamos que na primeira designação há uma referenciação cerimoniosa e respeitosa do protagonista ao se dirigir aos seus colegas. Na segunda, os referentes são recategorizados negativamente por “falsos moralistas”, “os movidos pelo ódio”, “pelo despeito e pelas frustrações de pigmeus, de aprendizes deslustrados, de rábulas do pantanal”, “travestidos em bacharéis”. Nesse contexto, apresenta-se um cenário de acirramento político, em que os alocutários são entidades desrespeitosas e inimigas do locutor-protagonista do texto.
Da designação respeitosa “senhoras e senhores” até a designação final “travestidos de
bacharéis”, constrói-se um quadro nominal típico dos que não merecem a credibilidade do locutor, o qual se torna dependente de ações criadas por seus alocutários no processo de esquematização textual.
Podemos notar que os referentes são modificados por adjetivos e expressões adjetivas que, em sua maioria, os qualificam de forma negativa. Por essa seleção lexical, percebemos que há por trás dessa sequência nominal um contexto enunciativo relativo ao político agressivo pelo estilo de linguagem, o qual o possibilita esclarecer ao público que sofreu acusações sem provas dos “especializados no direito do linchamento”.
6.2.2 A predicação e os modificadores
Destacamos os verbos das predicações na construção das Rds dos alocutários:
Verbos Ocorrências Linha do texto
“serão” 02 271, 272
“traçarão” 01 271
“projetarão” 01 274
Destacamos os verbos na 3ª pessoa do plural, do futuro do presente, para expressar processos a serem realizados após a renúncia de ACM. O verbo “ser”, em duas ocorrências, expressa a relação predicativa entre um eles (sujeito) e um conjunto de predicativos (falsos moralistas; movidos pelo ódio) formando um bloco de significações que nos ajuda a entender o papel de rivalidade que esses outros mantêm com o locutor. O uso do verbo de estado contribui para a formação da cadeia de atributos dada aos participantes (eles) que constituem os alocutários de ACM.
Observemos os excertos:
(L167-169) [...] senhoras e senhores, respeitáveis juízes do Conselho de Ética, Nabuco disse: se dos moderados não se podem esperar decisões supremas, dos exaltados não se podem esperar decisões seguras.
(L171-175) Foram os exaltados, os que fingem defender a ética, mas não a praticam, foram eles, através de um Relator que cada dia opinava de uma maneira, a ponto de desconhecer - ele próprio confessa - os fundamentos jurídicos que lhe foram entregues e que os considerou valiosos, mas não citou sequer em qualquer página do seu faccioso relatório.
(L270-274) Não! Não serão esses falsos moralistas que traçarão, daqui para a frente, o meu destino. Não serão os movidos pelo ódio, pelo despeito e pelas frustrações de pigmeus, de aprendizes deslustrados, de rábulas, rábulas do Pantanal, travestidos em bacharéis, especializados no direito do linchamento, que se projetarão à minha sombra! Rábula é rábula. Bacharel é bacharel.
(L276-279) Este será, sim, um momento histórico, mas não escrito com o sangue que pensaram arrancar de mim. Estará marcado, mais uma vez, pela soberania do povo baiano que, em breve, dará a resposta a esses poucos que tentaram cassar-lhe a vontade manifestada soberamente nas urnas.
Merece destaque o advérbio de negação que antecede o verbo “ser” e que pontua a percepção do locutor no contexto de seu destino. Ao utilizar o advérvio “não” acompanhado do sinal de exclamação, o locutor marca, discursivamente, a sua resistência ao enfrentar os severos adversários políticos que possui. Nesse sentido, ele pretende convencer o público que foi vítima de armação projetada por esses alocutários para tirá-lo do cenário da política brasileira.
O verbo “traçar e projetar” devem ser interpretados pelo mesmo campo semântico,
significando “determinar, decidir, resolver”, o que perspectiva a relação política adversa entre ACM e seus opositores. Nesse caso, há um percurso geográfico, pós renúncia, que ACM interrompe, bruscamente, ao negar as duas ações. O destino do locutor deve ser outro, não permite ser julgado pelos seus pares, portanto, não permite as denúncias de corrupção contra ele.
6.2.3 Localização espacial e temporal
Há dois exemplos no excerto que marcam a localização espacial e temporal:
(L270-274) Não! Não serão esses falsos moralistas que traçarão, daqui para a frente, o meu destino. Não serão os movidos pelo ódio, pelo despeito e pelas frustrações de pigmeus, de aprendizes deslustrados, de rábulas, rábulas do Pantanal, travestidos em bacharéis, especializados no direito do linchamento, que se projetarão à minha sombra! Rábula é rábula. Bacharel é bacharel.
A expressão “à minha sombra” abrange a dimensão espacial e está ligada à predicação do verbo “traçar”. Notamos que esse locativo não diz respeito ao espaço físico, mas contribui para ACM esclarecer, metaforicamente, que o seu destino político não deverá ser aquele planejado por seus opositores. Nesse caso, ele considera que o seu destino "estará marcado, mais uma vez, pela soberania do povo baiano que, em breve, dará a resposta a esses poucos que tentaram cassar-lhe a vontade manifestada soberamente nas urnas”. Assim sendo, o ACM reconhece que o seu locativo espacial no futuro será, novamente, o senado.
A expressão temporal “daqui pra frente” é utilizada por ACM para relacionar presente e futuro, tornar clara, no exato momento em que pronuncia a renúncia, “a soberania do povo
baiano” e colocar o seu destino nas mãos desse povo. A expressão temporal “daqui pra frente”
reforça o retorno do homem público ao cargo de senador pelo voto direto, o que considera histórico “Este será, sim, um momento histórico (...)”.