2.1- Do castelo para uma nova Abadia: Claraval. A fuga mundi de Bernardo de Claraval.
“Tudo quando sou lhes entrego, e me parece muito pouco para corresponder com a metade da benevolência que, como dizem, dispensais a mim. Gozo certamente por esse favor; mas confesso que a alegria por esta graça diminui muito ao pensar que não a hei merecido por minhas obras, senão pelo que pensam de mim as pessoas. Envergonho-me sobremaneira que isto possa envaidecer, quando caio em conta que veneram ou amam a minha pessoa não pelo que sou, sim pelo que se imaginam de mim1”.
Transcorria o ano de 1112, e Bernardo, com pouco mais de 23 anos de idade2, opta por fazer uma nova experiência religiosa num mosteiro que se propunha ser uma abadia mais conservadora, frente aos avanços do monasticismo de então. Eram os primeiros anos do século XII, eBernardo se fez acompanhar por um grupo de jovens desejosos da experiência no novo monasticismo. Cister, a Ordem, era tão somente uma Abadia, que acabara de ser fundada nos arredores do ducado da Borgonha, ficando a pouca distância da casa de Bernardo. Sua fundação acontecera no final do século XI, em l098, feita por Roberto de Molesme (1027- 1111), que, fugindo de sua antiga Abadia de Molesme, inicia com um grupo de monges essa nova experiência religiosa onde outras tinham falhado.
Enquanto abaciado, Molesme descendia, por sua vez, de outro mosteiro pertencente ao ramo dos cluniacenses. Trata-se do mosteiro de Saint-Michel de Tonerre que, ao seu tempo, apresentava, segundo S. Roberto, excessos de relaxamento que inviabilizava a permanência de religiosos em seus domínios. Assim, a constituição de Cister é fruto de duas novas tentativas de renovação, todas seguindo o exemplo de Cluny. Como não conseguiu muitos avanços, com
1 SÃO BERNRDO DE CLARAVAL,. EpB. 18, BERNARDO DE CLARAVAL. Obras Completas de San Bernardo. Op. cit. p. 153. Bernardo nesta Epístola continua a discussão sobre a produção de um corpus documental, bem como reflete a grandeza que os homens demonstram por ele. Por fim, termina a sua Epístola, apresentando os documentos que já compôs.
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GILBERTO, P. Introdução à Teologia Medieval. Trad. Dion Davi Macedo. São Paulo: Ed. Loyola, 1999, p. 99.
Molesme, um grupo de monges mais conservadores, seguindo a S. Roberto, optaram por fazer uma experiência mais conservadora, voltando aos preceitos da Regra de São Bento, instituindo a comunidade de Cister. De sua fundação em 1098 a 1112 quando recebe Bernardo e seu grupo, segundo alguns pesquisadores, a Abadia sofria com a volta de vocações. Com a entrada de Bernardo e seu grupo, num total de 30 jovens, entre eles os seus irmãos mais velhos, um tio e amigos3, Cister se renovou espiritualmente e agora tem fôlego e número de monges para iniciar logo depois a expansão com a criação de novas Abadias cistercienses.
Num primeiro momento, Bernardo desenvolve, segundo vemos nas fontes, uma experiência espiritual em sua residência na companhia de seu grupo. Esta, ao que tudo indica, aconteceu por volta do ano de 1111, no castelo de Châtillon-sur-Seine. Essa primeira experiência é considerada, ainda no âmbito familiar, como um prenúncio de despojamento de Bernardo, que opta por deixar as coisas materiais em prol dos ditames do Evangelho e da Regra de São Bento4, ainda que Bernardo tenha excluído dela o seu irmão mais moço, a quem o abade atribuiu o encargo de cuidar do velho pai. Aqui aparece o primeiro sintoma da experiência religiosa: seu irmão mais novo se revolta contra Bernardo, alegando que este escolhia a melhor parte, a vida religiosa, deixando ao irmão, a parte ruim da colheita. Se alegórica ou não, tal passagem é sintomática para entendermos a existência de um sentimento de prenúncio religioso no século XI, sobretudo daqueles que buscavam inspiração para uma experiência de vida monacal.
3 RIBADENEIRA. P. Pe. Vida de San Bernardo. IN: SÃO BERNARDO DE CLARAVAL, Obras Completas de San Bernardo. op. cit. Vol. I, 1990, p. 8-9.
No entanto, devemos considerar que a eloqüência de Bernardo e mesmo a sua insistência são o que levaram muitos de seus irmãos a lhe seguirem. Posteriormente, será pela ascese-mística5 que o Abade convencerá os homens a seguirem-no.
Segundo as fontes, dois dos irmãos de Bernardo eram casados, tinham famílias e não pensavam, no início, numa vida monástica. Só o fazem pelas intervenções insistentes de Bernardo. Intervenções apresentadas pelos hagiógrafos como divinas. No entanto, uma análise mais apurada mostra-nos que os argumentos, apresentados por Bernardo, nem sempre estão em conformidade com a vontade do outro. Para levar seus irmãos ao claustro, impôs sobre as mulheres censuras e ameaças, para que estas liberassem os seus respectivos maridos, deixando-os livres para seguirem a Bernardo6. É possível ver aqui tanto a questão divina quanto uma certa imposição do Abade de Claraval para conseguir seus intentos. Imposição que o faz ter, muitas vezes, sucesso na empreitada. Nas Epístolas posteriores, aquelas direcionadas aos homens do Século, Bernardo arma-se com a retórica, aprendida com os religiosos, e da prerrogativa de sua ascendência na condução de uma política religiosa e, mesmo, de uma exegese cristã.
5 A escolha da expressão ascese-mistica advém por ter sido Bernardo um asceta, que buscou viver
rigidamente, segundo os preceitos da regra de São Bento; depois, a escolha da palavra mística advém pelo modo como viveu Bernardo de Claraval. Mística, está relacionada com o modo de vida de uma determinada personalidade e,segundo Graef, podemos definir vida mística como “a vida mística não é senão a vida da graça vivida no grau mais sublime. De fato, há apenas um princípio da vida sobrenatural, a graça santificante, que é, presentemente, como que o princípio da vida eterna (quaedam ichoatio vitae aeternae) e é por este princípio que todas as almas hão de viver, quer se trate de crianças recém-batizadas, quer dos pecadores arrependidos, quer dos Santos, praticando as virtudes em grau heróico”. GRAEF, H.C., Os Místicos. Trad. Arthur A. Pereira. Ofm. Coimbra: Armênio Amado, 1958, p. 09. De fato, Bernardo chegou à santidade pela mística, pelo desprezo ao corpo e à ornamentação, que vimos no capítulo passado, que o coloca como aquele que buscava a transcendência, em vez da permanência no plano terreno. É ainda, segundo Graef, uma realidade da vida contemplativa sobre a ativa.
6 Fato significativo desta batalha é o que acontece com Gerardo seu irmão. Gerardo pertencia à ordem dos milites -cavaleiro como seu pai e, também era casado, o que impossibilitava a sua entrada para a vida religiosa. Como que, por acaso, ou pela vontade cristã, ou ainda, provocada por esta, Gerardo sofre um grave ferimento, apresentando logo depois uma cura sobrenatural. Se por intermediação do Abade ou não, o que acontece é que, logo depois, Gerardo toma o hábito, seguindo a Bernardo.
Com o grupo completo, com a entrada de Gerardo, começa-se o período de renúncia material e corporal por uma experiência espiritual, fazendo com que os mesmo se dirijam a Cister. Aqui começa o período da provação da fé de todos pela vida monástica. Cister é a casa de Bernardo e dos monges que o seguiram por mais ou menos três anos, até ser nomeado Abade de outra casa.
Em 1115, com o processo de expansão da nova Ordem, Bernardo é, então, encarregado de fundar uma nova Abadia. Surge assim, na região Clairvaux ('vale-claro'), a Abadia de Claraval. Como era costume entre as fundações de então, Bernardo escolheu um lugar afastado, onde pudesse desenvolver toda uma vocação do viver segundo as concepções dos Padres do deserto. Faltava-lhes garantir a tranqüilidade e a indisponibilidade da terra para que não fosse requisitada por outros. Nestes casos, cabia a autoridade local, o bispo que,segundo o costume de então, deveria benzer o local, assinalar ao redor com cruzes e rezar pelos novos moradores. Assim, excomungava quem lhes perturbasse a paz, ou exigisse deles algum bem, ao mesmo tempo em que lhes garantia a disponibilidade do local e a tranqüilidade na nova moradia.
Segundo Riché, a decisão da escolha do lugar da nova abadia cabia ao abade da Ordem. Estevão Harding, abade de Cister, opta por uma região afastada, insalubre e de difícil acesso aos homens, "[...] 'um lugar de horror e de vastas solidões', isolado do mundo por colinas cobertas de bosques [...]”, constituindo-se na morada ideal para a nova abadia. Para cumprir esta empreitada, os monges que acompanham Bernardo derrubam a floresta e "[...] providencia-se a construção de alguns casebres de madeira, a cela do abade e uma capela de
alvenaria7”, demarcando internamente seu território. Criava-se, assim, o claustro, tão importante para a vida religiosa monacal.
Essa realidade de separação que coloca os homens do claustro fora do contato com os outros homens era, para estes novos grupos monacais, um aspecto importante, visto que refletia um afastamento do contato com o mundo, fuga mundi, levando-os a valorizarem a floresta como sinônimo do deserto, vinculando-os ao modo de vida dos primeiros monges surgidos no Ocidente.
Aqui não podemos ver somente a fuga mundi como separação espiritual. Ela era também renovação do modelo econômico existente até então em Cluny. Renovação, como nos apresenta George Duby, no trato da produção agrícola; pela rejeição às atitudes senhoriais, a utilização dos servos; pela incorporação do trabalho dos monges, na institucionalização dos conversi que aravam a terra. Estes monges eram oriundos de camponeses, dedicados à arte de produzir, sem jamais chegarem ao scriptorum. Com este acúmulo de poder, com as melhorias nas técnicas da produção, tornam-se acumuladores de denarii. Para o mesmo autor ainda, a idéia dos mosteiros cistercienses frente aos cluniacenses era que os primeiros construíam suas casas no deserto –desertium8, tendo o sentido de nada possuírem, enquanto os cluniacenses estavam no auge de seu enriquecimento no século XII.
Como vimos, o deserto-floresta era parte importante da mentalidade do homem dos séculos XI-XII e, posteriormente, do XIII9. Bernardo era descendente de homens da cavalaria. E a cavalaria - os milites - tinha na floresta o seu símbolo, sua força, o modelo de bravura e de
7 RICHÉ, P. Vida de São Bernardo. Trad. Attilio Cancian. São Paulo: Ed. Loyola, 1991, p. 19
8 DUBY, G. Guerreiros e Camponeses: Os primórdios do Crescimento Europeu do século VII ao XII. Lisboa:
Estampa, 1980, p. 235-236.
9 Há toda uma literatura que trabalha a questão da floresta nos séculos XII-XIII. Entre suas referências,
encontramos, para o século XII as aventuras de Tristão e Isolda, do Rei Arthur e seus cavaleiros, dos vários eremitas que vagueavam pelas florestas, já para o século XIII, dos monges que optam por viver isolados no meio da floresta.
virtudes para o homem do período10. Era a reação folclórica que valorizava, por exemplo, ao rei Artur e seus cavaleiros. Mas é mais: é o espaço infinito que pode conter o amor sagrado, o fogo místico, principalmente, de renovação que tanto buscavam os monges do século XI em diante, sobretudo da busca por um modelo despojado, que os remetia aos primeiros cristãos.
Contudo, Bernardo precisou mudar de hierarquia, deixar de ser um simples monge e tornar-se abade. Para esta mudança, Bernardo foi "[...] ordenado padre e investido em sua nova função pelo bispo de Châlons-sur-Marne, Guilherme de Champeaux, o ilustre e ancião mestre de São Vítor11”.
Bernardo faz algumas opções religiosas no seu abaciado em Claraval, juntamente, com o que determinava a nova ordem de Cister. São mudanças significativas que, num contexto geral, alteram a conduta de vida monástica até então existente, posteriormente, até da secular. Vemos a proibição de pinturas, a necessidade do trabalho manual para os religiosos, a valorização da vida mais espiritual do que a administrativa, o horário, a disciplina, os serviços religiosos, o regime da alimentação, que deveriam ser idênticos em todas as casas, como forma de proibir possíveis relaxamentos na Ordem12. São aspectos que aparecem na Carta Caritatis, documento desenvolvido nos primeiros anos da Ordem de Cister, e que lhe dá a unidade.
No entanto, devemos salientar que essas mudanças não são exclusivas dos cistercienses. Sabe-se que mudanças semelhantes ocorriam entre outras ordens, que também buscavam renovar espiritualmente as suas abadias nos séculos XI-XII, diferentemente do que acontecia na Ordem de Cluny. Essas alterações religiosas provinham de mudanças mais
10 Franco Cardini nos dirá que de um modelo de junção entre os séculos X-XI, surgirá a opção pela vida
religiosa entre a cavalaria. Serão os milites da eclésia. Milites que terão em Bernardo de Claraval um suporte, se não total, pois para Bernardo a vida perfeita se fazia entre os muros do mosteiro, a virtude dos cavaleiros estava em seguirem agora uma Regra originária na Igreja. CARDINI, F. O Guerreiro e o Cavaleiro. IN: LE GOFF, J. et. al. O Homem Medieval. op. cit. p. 59-60.
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profundas. Eram conseqüências de alterações que a Igreja levara também para a sociedade e que modificara os padrões pré-existentes na sociedade medieval.
Desde o ano mil, a Igreja difundia uma moral que colocava em perfeita harmonia a existência de "ordens13" na sociedade, possibilitando ter, sobre sua tutela, todos os segmentos da sociedade. Sociedade não mais feudal, mas feudo-clerical, tendo em vista a senhorização da Igreja14.
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REVISTA ARTE HISTÓRIA. San Bernardo y el Cister. Espanha, Fev.2004. Disponível em: <http://www.artehistoria.com/historia/contextos/1068.htm>. Acesso em: 16.02.2004.
13 Vocábulo complicado, cuja etimologia advém de expressões romana, ligada à cultura greco-latina, cuja
grafia inicial define-se por Ordo. Na sua etimologia, aplicava-se a definir a administração senatorial (Ordem, Cúria, Senado), por fim, referia-se também às definições do cosmo e sua definição dentro de um contexto. Interessa-nos aqui o sentido aplicado à Igreja, sobretudo, aquele que a define como um sacramento, um despojar-se de sua vontade por outra superior, de acatar uma ordem. Nossa busca com Bernardo de Claraval e Francisco de Assis com o termo Ordem, responde a esta grafia e também à divisão que encontramos em sua sociedade. Divisão que nos é apresentada por George Duby, em Oratores, Bellatores e Laboratores. Duby, não estava falando sozinho, antes deste Georges Duzmézil aponta a existência de uma divisão na sociedade indo-européia, se não no mesmo moldes, mas com separação entre os segmentos. Nota-se, contudo, nos séculos XI-XIII, se não em todas as regiões da Europa, pelo menos, na França e Itália uma certa supremacia dos Oratores sobre os demais. A partir do século XI, os monges imporão seu modelo aos homens, levando-os a definirem o padrão de vida pelo determinismo eclesiástico. Contudo, novos modelos se mesclam entre estes. Os monges-cavaleiros é um deste. Pertencendo a duas camadas, estes mesclam o homo religiosus com o homo secuelae, trazendo para a sociedade do século XII uma nova visão da divisão social. Na viragem do século XII, a primazia monacal começa a ser questionada. Aqui podemos dizer que a Ordem de Cister terá um papel fundamental, sobretudo com Bernardo de Claraval, que definirá para a ORDO CLERICORUM o trabalho de evangelização e de direção espiritual, com muito pouca participação nas questões temporais. Surgem com os novos modelos monásticos ordens que adotam a idéia dos Pauperes Crhisti, e não mais da opulência religiosa. Aproveitando-se desta, os poderes locais se indispõem com a eclésia e exigem maiores liberdades. Algumas cidades aproveitam e assumem a sua condição de negociadores, os mercadores de seu oficio e o clero secular da direção da vida espiritual. Cf. LE GOFF et. al. O Homem Medieval, op. cit, p. 15; DUBY, G. As Três Ordens ou o Imaginário do Feudalismo. op. cit. p. 234; IOGNA-PRAT. Ordem. IN: LE GOFF; SCHMITT, J. Dicionário Temático do Ocidente Medieval, op. cit. 310.
14 Hilário Franco Júnior, ratificando a idéia da sociedade dividida nos três segmentos apresentados por
Georges Duzémil e Georges Duby, inova ao propor que o segmento clerical, além de homem da Igreja, era também grande detentor de terra na Europa. Pois estes deixavam de ser apenas homens religiosos para acrescerem a concepção de uma feudalização em suas terras, tendo sido vista pelo autor a utilização na labuta diária de mão de obra servil e camponesa. Segundo o mesmo, estes lhe serviam não como fiéis, mas como exigiam os senhores possuidores de um dominium, e não conforme propõe a Bíblia. Nestes termos, o autor em questão, utiliza-se da concepção feudo-clerical para entender a sociedade dos séculos XII-XIII, dividida em favor dos grupos dominantes. Termo que ratificamos com os cluniacenses. Já com os cistercienses, a realidade é a de um grupo que expande a sua produção contando com mão-de-obra de homens conversi, com os monges do scriptorum e quase muito pouco com camponeses prestadores de serviços. Com os franciscanos, a realidade exclui praticamente a existência de trabalhos em terras próprias. Sobretudo nos primeiros anos com Francisco de Assis. FRANCO JR. H. Peregrinos, Monges e Guerreiros: Feudo- Clericalismo e Religiosidade em Castela Medieval. São Paulo: Hucitec, 1990.
No entanto, a riqueza não excluía a Igreja de uma reforma. Pouco antes, tínhamos visto a Reforma Gregoriana. Reforma que, como nos apontam os historiadores e eclesiásticos, tentará a moralização do clero, separando os religiosos e laicos, buscando impor-se à frente da cristandade, tornando-se, dessa forma, universal frente aos poderes estabelecidos. Nesta luta, a Igreja buscava conquistar sua independência diante do mundo secular e do poder temporal dos Imperadores do Sacro Império Romano Germânico15.
Não é nossa intenção aqui estudar a Reforma Gregoriana, mas devemos situá-la, pois a transformação, implantada na sociedade a partir do século XI, afeta o modelo monástico no qual Bernardo inicia sua opção de vida e, mais, os escritos do Abade.
Gregório VII (1073-1085), como sabemos, faz parte de um grupo de homens que, desde o início do século XI, tentavam normatizar a Igreja. Homens que haviam percebido o perigo que a Igreja corria, sobretudo frente à opressão dos vários senhores locais, reis e
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Nancy Itimura, na análise que faz do poder espiritual de São Bernardo de Claraval, volta à luta travada entre Império e Igreja, sob a chefia de Gregório VII (1075-1085), referindo a mesma com a luta das teorias teocráticas. Segundo a autora, trata-se de saber a quem cabia o poder para controlar o mundo. Esta discussão se faz necessária por encontrar, entre os defensores deste ou daquele modo, um posicionamento mais ou menos a favor das determinações papais. Para a causa da Igreja, encontramos João de Salisbury (1115-1180), eclesiástico e defensor da teoria papal, com participação do povo. Para João de Salisbury (que viveu no período de Bernardo e com quem este trocava correspondência), o povo deveria participar dos assuntos do tempo e cabia à Igreja controlar o corpo (ou seja, o rei), pois esta era espírito (fé). Outro é Hugo de São Victor (1096-1141), que também participou com seus escritos das discussões teocráticas. Mais uma vez trata-se do problema entre quem dirige: a alma ou o corpo, ou como melhor entendemos: o poder espiritual. Como dissemos, Bernardo participará ativamente da idéia gregoriana no desenvolvimento da Igreja sobre os outros meios, porém com uma diferenciação: a Eclésia deveria cuidar da alma e não do corpo. Ou seja, transforma o que até então era o norte religioso. Bernardo quer uma cúria que cuide dos assuntos econômicos, mas mais do que isto, exorta o papa a estar atento aos problemas da fé e não às questões temporais. Estas deveriam ser cuidadas pelos reis e imperadores nos seus respectivos lugares. Cf. ITIMURA, N.. São Bernardo e Sua Concepção Sobre o Poder Espiritual. 1980. 1 vol. Dissertação de Mestrado apresentada ao Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas –USP, São Paulo, 1980, p. 11-18.; JOHNSON, P. História do Cristianismo. op. cit. p. 227-239; ARNALDI, G. Igreja e Papado. IN: LE GOFF, J. & SCHMITT, J. C. Dicionário Temático do Ocidente Medieval op. cit., p. 578-582; LORTZ, J. Storia della Chiesa: considerate in prospettiva di storia delle idée. op. cit. p. 428-444.
imperadores que, interessados nas terras eclesiásticas e funcionários, interferiam nas nomeações e mesmo nas resoluções dos problemas eclesiásticos16.
Opondo-se a essa união, acontece o que Girolamo Arnaldi denominou “de divórcio litigioso entre o sacerdotium (sacerdócio) e o imperium (império), divórcio consumado pelo papa com o nome de libertas ecclesiae (libertação da Igreja) contra ingerências externas no