Após uma retrospectiva sobre: a importância no entendimento da fadiga muscular para a melhora do desempenho do homem nas suas diversas atividades; o desenvolvimento de protocolos de indução da fadiga muscular como modelo experimental; as ferramentas de processamento dos sinais EMG; a importância do treinamento para o desenvolvimento da resistência muscular como forma de prevenção e reabilitação deste fenômeno; o presente capítulo apresentará na forma de artigos o projeto desenvolvido cujos objetivos foram:
• Avaliar biomecanicamente a condição muscular e identificar um índice, que serviria de base para guiar atividades, posturas e até mesmo exercícios para melhorar a capacidade física.
• Identificar o EMGLF e compará-lo quando obtido por diferentes percentuais
• Verificar os comportamentos da FM e Fmed do músculo longuíssimo do tórax em duas porcentagens de carga durante exercício isométrico fatigante.
• Determinar o EMGLF obtido por meio da FM e compará-lo ao obtido por
meio da RMS para os músculos eretores da espinha durante teste de contração isométrica realizada até a exaustão com cargas de 30%, 40%, 50% e 60% da contração isométrica voluntária máxima.
• Quantificar e comparar a atividade EMG do músculo longissimus thoracis em teste isométrico realizado até a exaustão a diferentes níveis de contração.
• Analisar o nível de reprodutibilidade por meio do coeficiente de correlação intra-classe e variabilidade por meio do coeficiente de variação dos componentes de amplitude e freqüência do sinal EMG desses músculos durante contrações isométricas voluntárias máximas.
• Analisar os comportamentos das bandas de freqüências do sinal EMG dos músculos longuíssimo do tórax direito e esquerdo em diferentes porcentagens de carga durante exercício isométrico fatigante.
• Analisar os comportamentos da RMS, FM Fmed do sinal EMG do músculo longuíssimo do tórax em diferentes porcentagens de carga durante exercício isométrico fatigante.
• Comparar o limiar de fadiga eletromiográfico do músculo longuíssimo do tórax obtido durante exercício isométrico fatigante com o limiar obtido durante os primeiros 30 segundos do teste.
• Analisar o efeito de um protocolo de treinamento de resistência de curta duração sobre os comportamentos da RMS, da FM e do EMGLF do músculo
longuíssimo do tórax obtidos durante exercício isométrico fatigante.
Destes 10 artigos os de número 1, 2 e 3 já foram publicados, sendo que para esta apresentação suas configurações foram discretamente alteradas para se adequarem ao regimento interno do Programa de Pós Graduação em Ciências da Motricidade. O artigo 1 foi publicado no periódico “Electromyography and Clinical Neurophysiology”, o artigo 2 no periódico “Revista Brasileira de Ciência e Movimento”, e o artigo 3 no periódico “Fisioterapia em Movimento”.
O artigo 4 foi submetido à publicação no “Journal of Occupational Rehabilitation” e ainda apresenta-se em análise.
3.1 Artigo 1
LIMIAR DE FADIGA ELETROMIOGRÁFICO DO MÚSCULO ERETOR DA ESPINHA INDUZIDO POR UM TESTE DE RESISTÊNCIA MUSCULAR EM HOMENS SAUDÁVEIS
RESUMO
Objetivo: Identificar o limiar de fadiga eletromiográfico do músculo eretor da espinha. Revisão: Estudos prévios têm investigado o desenvolvimento da fadiga do músculo eretor da espinha, mas nenhum identificou o limiar de fadiga eletromiográfico. Métodos: Oito voluntários do gênero masculino com idade entre 19 e 24 anos participaram deste estudo, no qual eletrodos de superfície foram usados, bem como um módulo de aquisição de sinais biológicos (Lynx) com uma freqüência de amostragem de 1000Hz, um ganho de 1000 vezes, um filtro de passa alta de 20Hz e um filtro de passa baixa de 500Hz. O teste consistiu de repetidas contrações isométricas do tronco em uma posição de 45º de flexão do quadril, com 30%, 40% 50% e 60% da contração isométrica voluntária máxima. Resultados: uma correlação positiva do valor da RMS (root mean square) em função do tempo foi encontrada para a maioria dos voluntários com as cargas de 40% (N=6), 50% (N=7) e 60% (N=8). Conclusão: Foi concluído por este estudo que o protocolo proposto evidencia, por meio dos sinais eletromiográficos, o desenvolvimento da fadiga do músculo eretor da espinha com as cargas de 40%, 505 e 60%. O protocolo também permite a obtenção do limiar de fadiga
eletromiográfico e sua possível aplicabilidade no diagnóstico deste fenômeno durante atividades repetidas.
INTRODUÇÃO
A possibilidade em prevenir lesões lombares relacionadas a sobrecarga oferecida por esportes, atividades da vida diária e particularmente no trabalho, pode ocorrer a partir do desenvolvimento de testes que permitam identificar padrões de atividade muscular e que sejam características de um estado de fadiga, o qual é uma das causas evidentes das lesões músculo- esqueléticas da coluna, pois ela se instala pela repetitividade da tarefa e pela sobrecarga.
A fadiga muscular é um processo contínuo e tem sido estudada pela forma progressiva e contínua da atividade voluntária que leva a um aumento da amplitude e duração dos potenciais devido aos processos de recrutamento por somação das unidades motoras (BASMAJIAN; DeLUCA, 1985).
Em contrações isométricas ocorre um aumento da atividade EMG a medida em que aumenta a tensão muscular (MATSUMOTO; ITO; MORITANI 1991), porém esta mudança depende da carga (MORITANI; TAKAISHI; MATSUMOTO, 1993), do comprimento muscular (BAZZY et al., 1986), da amplitude de movimento (WEIR et al., 1996) e da temperatura muscular (PETROFSKY; LIND, 1980).
Quando um músculo exibe fadiga localizada após a realização de contrações repetidas, observa-se uma elevação na amplitude da EMG à medida que o músculo se fadiga para manter o nível de tensão no músculo. Este aumento está relacionado ao recrutamento de novas unidades motoras e a uma maior taxa
de disparo das unidades motoras ativas para compensar a queda da força de contração das fibras fadigadas (GONÇALVES, 2000).
Estudos de resistência utilizando a eletromiografia e que envolve contrações isométricas de músculos eretores da espinha até a exaustão revelam uma próxima correlação entre a medida objetiva da fadiga muscular e a medida subjetiva, baseada na escala de BORG (DEDERING, 1999).
A identificação do limiar de fadiga eletromiográfico é uma metodologia que faz uma correlação entre o coeficiente de inclinação da RMS obtido pelo tempo de exaustão e a sua respectiva carga. Esta correlação resulta uma reta de regressão linear, onde o ponto em que esta reta encosta no eixo y – o intercepto – representa a carga em que a pessoa pode sustentar sem sofrer de fadiga neuromuscular, ou limiar de fadiga eletromiográfico (DeVRIES et al., 1982; MATSUMOTO; ITO; MORITANI 1991; MORITANI; TAKAISHI; MATSUMOTO, 1993; PAVLAT et al., 1995).
Estudos que verificaram a reprodutibilidade do limiar de fadiga eletromiográfico não encontraram diferenças entre os resultados iniciais e os resultados de testes posteriores (DeVRIES et al., 1990; PAVLAT et al. 1993).
O objetivo deste estudo, portanto, foi avaliar biomecanicamente a condição muscular e identificar um índice, que serviria de base para guiar atividades, posturas e até mesmo exercícios para melhorar a capacidade física. Para este fim a eletromiografia foi utilizada para avaliar o desenvolvimento da fadiga do músculo eretor da espinha durante exercícios isométricos, com a finalidade de identificar o limiar de fadiga.
MÉTODOS Voluntários
Oito homens estudantes saudáveis participaram deste experimento. Suas médias de idade, altura e peso eram de 22±2 anos, 1.78±0.05m e 78±5Kg respectivamente. Todos os voluntários assinaram um termo de consentimento anteriormente ao experimento. Nenhum voluntário possuía história de problemas lombares.
Instrumentação
Para o experimento os voluntários se posicionam em pé, com o quadril apoiado em um suporte horizontal, com os joelhos estendidos e com o tronco apoiado. Na posição e 45º, o tronco realizou as contrações isométricas.
Para gravar os dados eletronicamente, eletrodos de superfície (MEDITRACE) foram posicionados bilateralmente nas costas dos voluntários depois de limpeza e abrasão da pele. Os sinais EMG foram gravados do músculo eretor da espinha (processo espinhoso L1), de acordo com procedimento de Kumar (1997).
Procedimento
O experimento consistiu de testes de resistência envolvendo contrações isométricas do músculo eretor da espinha na posição de 45 graus de flexão do quadril, com quatro porcentagens da contração isométrica voluntária
máxima (30%, 40%, 50% e 60%). Uma célula de carga (Kratos®-MM100Kgf), acoplada a um indicador digital (Kratos®-IK-14A) foi utilizado para promover retorno visual aos voluntários, permitindo a eles manterem o controle da carga durante o teste (Figura 1).
Figura 1 – Equipamento M. A. ISOSTATION 2000, utilizado para as contrações isométricas.
Análise de dados
Um módulo de aquisição de sinais biológicos (Lynx) foi utilizado, com quatro canais conectando os eletrodos. Os sinais EMG foram adquiridos com uma freqüência de 1000Hz, com filtros de 20 e 500Hz. Os sinais foram amplificados 1000 vezes. A conversão dos sinais analógicos para digitais foram feitos por um conversor A/D com uma amplitude de entrada de -5 a +5 Volts (CAD 1026-Lynx).
Um software específico (Aqdados-Lynx) foi utilizado para capturar os sinais. A
RMS (root mean square) foi calculada e correlacionada com o número de dados gravados durante o teste.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Tabela 1 – RMS versus tempo durante o teste isométrico com cargas de 30%, 40%, 50% e 60% da contração isométrica voluntária máxima e o limiar de fadiga eletromiográfico do músculo eretor da espinha (N=8). VOLUNTÁRIO % CARGA r (RMS x Tempo) p EMGLF p
30% -0,442 0,320 40% 0,740 0,056 50% 0,739 0,057 1 60% 0,228 0,663 41,91 0,707 30% 0,417 0,177 40% 0,848 < 0,01 50% 0,728 0,063 2 60% 0,862 < 0,05 30,82 0,088 30% -0,293 0,208 40% 0,198 0,460 50% 0,684 < 0,01 3 60% 0,709 < 0,01 35,94 0,138 30% -0,934 < 0,01 40% 0,689 < 0,01 50% 0,754 < 0,01 4 60% 0,726 0,064 39,97 0,078 30% 0,523 < 0,05 40% 0,136 0,556 50% 0,369 0,214 5 60% 0,862 < 0,05 38,07 0,267 30% -0,158 0,440 40% 0,857 < 0,01 50% 0,042 0,116 6 60% 0,803 < 0,01 34,37 0,275 30% 0,152 0,497 40% -0,291 0,241 50% 0,374 0,168 7 60% 0,575 0,176 38,65 0,170 30% -0,040 0,850 40% -0,494 < 0,05 50% -0,520 < 0,05 8 60% 0,410 0,238 46,69 0,691
A tabela acima demonstra uma correlação positiva do valor de RMS em função do tempo para maioria dos voluntários quando cargas de 40%, (N=6),
50% (N=7) e 60% (N=8) foram utilizadas, evidenciando uma tendência à fadiga, o que está de acordo com estudos de Bigland-Ritchie (1981) e Wittekopf et al. (1975), os quais encontraram que quando o músculo apresenta fadiga localizada depois de contrações repetidas, o sinal eletromiográfico aumenta. Este fenômeno foi particularmente bem ilustrado por Viitasalo et al. (1985), os quais reportaram um aumento na atividade elétrica proporcional à duração do exercício, resultando em fadiga muscular, uma vez que o músculo necessita de um aumento no número de unidades motoras para compensar a redução da força efetiva por fibra.
Quando carga de 30% da carga máxima foi utilizada, por outro lado, o sinal eletromiográfico sofreu um decréscimo para a maioria dos voluntários (N=5), um fato que foi atribuído à baixa porcentagem de carga, a qual foi insuficiente para causar a fadiga muscular.
Uma análise do limiar de fadiga eletromiográfico (EMGLF) do músculo
eretor da espinha revelou que as retas de regressão linear apresentaram comportamento predominantemente positivo, o que permitiu que o EMGLF fosse
determinado, como proposto por DeVries et al. (1982), Matsumoto, Ito e Moritani (1991), Moritani, Takaishi e Matsumoto (1993) e Pavlat et al. (1995).
CONCLUSÕES
Os resultados deste estudo permitiram concluir que o protocolo proposto evidenciou, por meio do sinal eletromiográfico, o desenvolvimento da fadiga do músculo eretor da espinha com cargas de 40%, 50% e 60%. Este protocolo também permitiu determinar o limiar de fadiga eletromiográfico e sua aplicabilidade no diagnóstico deste fenômeno durante atividades repetidas.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BASMAJIAN, J. V.; DeLUCA, C. J. Muscle alive: Their functions revealed by electromyography. Baltimore, Willians e Wilkins, p.561, 1985.
BAZZY, A. R.; KORTEN, J. B.; HADDAD, G. G. Increase in electromyogram low- frequency power in nonfatigued contracting skeletal muscle. Journal Applied Physiology, Washington, v. 61, n. 3, p. 1012-1017, 1986.
BIGLAND-RITCHIE, B.; WOODS, J. J. Changes in muscle contractile properties and neural control during human muscular fatigue. Muscle Nerve, New York, v. 7, n. 9, p. 691–699, 1984.
DEDERING, A.; NEMETH, G.; HARMS-RINGDAHL, K. Correlation between electrmyographic spectral changes and subjective assessment of lumbar muscle fatigue in subjects without pain from the lower back. Clinical Biomechanics, Bristol, v. 14, n. 2, p.103-111, 1999.
DeVRIES, H. A. et al. The relation between critical power and neuromuscular fatigue as estimative from electromyographic data. Ergonomics, London, v. 25, p. 783-791, 1982.
DeVRIES, H. A. et al. Factors affecting the estimation of physical working capacity at the fatigue threshold. Ergonomics, London, v. 33, n. 1, p. 25-33, 1990.
GONÇALVES, M. Limiar de fadiga eletromiográfica. In DENADAI, B. S. e col. Limiar de fadiga eletromiográfica. Avaliação Aeróbia: detreminação indireta da resposta do lactato sanguíneo. (pp. 129-154), Rio Claro, 2000.
KUMAR, S. The effect of sustained spinal ;oad on load intra-abddominal pressure and EMG characteristics of trunk muscles. Ergonomics, London, v. 40, n. 12, p. 1312-1334, 1997.
MATSUMOTO, T.; ITO, K.; MORITANI, T. The relationship between anaerobic threshold and electromyographic fatigue threshold in college women. European Journal Applied Physiology, Berlin, v. 63, n. 1, p. 1-5, 1991.
MORITANI, T.; TAKAISHI, T.; MATSUMOTO, T. Determination of maximal power output at neuromuscular fatigue threshold. Journal Applied Physiology, Washington, v. 74, n. 4, p. 1729-1734, 1993.
PAVLAT, D. J. et al. An examination of the electromyographic fatigue threshold test. European Journal Applied Physiology, Berlin, v. 67, n. 4, p .305-308, 1993.
PAVLAT, D. J. et al. Electromyographic responses at the neuromuscular fatigue threshold. Journal Sports Medicine Physical Fitness, Torino, v. 35, n. 1, p. 31- 37, 1995.
PETROFSKY, J.; LIND, A. L. The influence of temperature on the amplitude and frequency components of the EMG during brief and sustained isometric contractions. European Journal Applied Physiology, Berlin, v. 44, n. 2, p. 189- 200, 1980.
VIITASALO, J. T. et al. Electromyographic activity related to aerobic and anaerobic threshold in ergometer bicycling. Acta Physiologica Scandinavica, Stockholm, v. 124, n. 2, p. 287-293, 1985.
WIER, P. J. et al. The effects of joint angle on electromyographic indices of fatigue. European Journal Applied Physiology, Berlin, v. 73, p. 387-392, 1996.
WITTEKOPF, T. G. et al. Use of electromyography for quantification of local muscular fatigue following a known strenght-endurance load. Biomechanics V-A International Series on Biomechanics, Universsity Park Press, Baltimore,1-A: p. 185-193, 1975.
3.2 Artigo 2
ESTUDO SOBRE O EFEITO DA COMBINAÇÃO DE CARGAS NA DETERMINAÇÃO DO LIMIAR DE FADIGA ELETROMIOGRÁFICO DOS MÚSCULOS ERETORES DA ESPINHA
RESUMO
O objetivo deste estudo foi analisar o efeito da combinação de diferentes percentuais de cargas na determinação do limiar de fadiga eletromiográfico (EMGLF) dos músculos eretores da espinha (ER). Participaram deste estudo oito
voluntários do sexo masculino. Os eletrodos foram posicionados sobre o músculo ER bilateralmente (L1). O voluntário executou contrações isométricas até a exaustão com 30%, 40%, 50% e 60% da contração isométrica voluntária máxima. O EMGLF-C4 é aquele obtido com a utilização das quatro cargas; o EMGLF-C3/4/5,
combinando cargas de 30, 40 e 50%; o EMGLF-C3/4/6, combinando cargas de 30,
40 e 60%; o EMGLF-C3/5/6, combinando cargas de 30, 50 e 60%, e o EMGLF-
C4/5/6 combinando cargas de 40, 50 e 60%. Para a comparação entre as combinações de carga utilizou-se o teste de Friedman (p<0.05), e para a comparação entre os lados utilizou-se o teste de Wilcoxon (p<0.05). Observou-se que ao comparar o EMGLF-C4 com as outras combinações de cargas, não há
diferenças significativas no ER do lado direito, já no ER do lado esquerdo esta semelhança não ocorre somente com o EMGLF-C4/5/6. Concluiu-se que as
combinações propostas para determinação do EMGLF apresentam índices
combinação de cargas entre 40%, 50% e 60% não apresenta semelhança, permitindo com isso otimizar o presente protocolo quanto ao percentual de carga utilizado e o número de percentuais.
INTRODUÇÃO
O levantamento manual de carga continua sendo uma preocupação em todos os níveis das atividades da vida diária e principalmente naquelas ocupacionais. Muitas são as variações que interferem no desempenho do mesmo (GONÇALVES, 1998) e que dificultam ainda mais organizar regras definitivas. Observa-se então um esforço de muitos autores para desenvolverem particularmente protocolos de testes que permitam observar o processo de fadiga muscular localizada, visando avaliar o comportamento dos músculos nesta atividade extremamente exigente.
A fadiga muscular é considerada um processo contínuo, na qual este fenômeno tem sido estudado pela forma progressiva e contínua da atividade voluntária que leva a um aumento da amplitude e duração dos potenciais devido aos processos de recrutamento por somação das unidades motoras (BASMAJIAN; DeLUCA, 1985).
Em contrações isométricas ocorre um aumento da atividade eletromiográfica a medida em que aumenta a tensão muscular (MATSUMOTO et al., 1991), porém esta mudança depende da carga (MORITANI; TAKAISHI; MATSUMOTO, 1993), do comprimento muscular (BIGLAND-RITCHIE et al., 1981), da amplitude de movimento articular (WIER et al., 1996) e da temperatura muscular (PETROFSKY; LIND, 1980).
Quando um músculo exibe fadiga localizada após a realização de contrações repetidas, observa-se uma elevação na amplitude do eletromiograma à medida que o músculo se fadiga numa tentativa de manutenção do nível de
tensão no músculo; as unidades motoras ativas disparam em velocidades crescentes para compensar a queda da força de contração das fibras fadigadas (GONÇALVES, 2000).
Para se obter o limiar de fadiga eletromiográfico (EMGLF) utiliza-se
uma metodologia na qual faz-se uma correlação do valor da RMS (root mean square) em função do tempo em cada carga, e em seguida um gráfico na qual os coeficientes de inclinação são colocados com as respectivas cargas, e obtém-se uma reta de regressão. Nesta reta o local onde ela toca o eixo y, intercepto, é a carga na qual o indivíduo poderia ficar sem entrar em fadiga neuromuscular, ou seja, o limiar de fadiga eletromiográfico (DeVRIES et al., 1982; MATSUMOTO; ITO; MORITANI, 1991; MORITANI; TAKAISHI; MATSUMOTO, 1993; PAVLAT et al., 1995).
DeVries et al. (1982) verificaram a reprodutibilidade da obtenção do limiar de fadiga eletromiográfico, em cicloergômetro, e não encontraram diferenças significativas entre o teste e re-teste, além de verificarem uma alta correlação entre os mesmos (r=0.81).
Sabendo-se da importância em desenvolver protocolos biomecânicos para análise da fadiga muscular o presente estudo tem como objetivo identificar o EMGLF e compará-lo quando obtido por diferentes percentuais de carga com
METODOLOGIA
Participaram deste estudo oito voluntários do sexo masculino com idade entre 19 e 24 anos e sem antecedentes de doenças músculo-esqueléticas, todos universitários e de massa e altura semelhantes. Antecipadamente ao experimento os voluntários foram orientados sobre as atividades a serem realizadas e assinaram um termo de consentimento em submeter-se ás mesmas.
Para a captação dos sinais eletromiográficos foram utilizados eletrodos de superfície monopolares passivos de Ag/AgCl (MEDITRACE®), de 3cm de diâmetro, sendo que a área de captação era de 1cm de diâmetro. Os eletrodos foram posicionados em pares (com distância inter-eletrodos de 3cm) sobre o músculo eretor da espinha, seguindo o sentido das fibras, no nível da vértebra L1 bilateralmente, localizada através da palpação das últimas costelas, seguindo em direção a T12, permitindo assim localizar a vértebra L1 (KUMAR, 1997).
Para diminuir as possíveis interferências na passagem do estímulo foi realizado anteriormente a colocação dos eletrodos, uma tricotomia e limpeza da pele com álcool, sobre os músculos estudados. Nos participantes foi colocado um fio terra no punho, garantindo assim a qualidade do sinal. Foi utilizado um módulo de aquisição de sinais biológicos (Lynx®) de quatro canais no qual foram conectados os eletrodos, sendo a freqüência de amostragem de 1000Hz, o ganho em 1000 vezes, o filtro de passa alta em 20Hz e o filtro de passa baixa em 500Hz. A conversão dos sinais analógicos para digitais foi realizada por uma placa A/D com faixa de entrada de -5 à +5 Volts (CAD 1026-Lynx). Para a aquisição dos
sinais utilizou-se um software específico (Aqdados-Lynx), e para análise dos dados utilizou-se uma rotina específica em MatLab (psd2).
Utilizou-se também uma célula de carga (Kratos®-MM100Kgf) acoplada a um indicador digital (Kratos®-IK-14A) dando um retorno visual aos voluntários para que estes pudessem controlar a carga que estava sendo tracionada durante o teste. As porcentagens utilizadas no estudo foram determinadas através de testes de contração isométrica voluntária máxima (100%), as quais foram realizadas três dias antes ao início da coleta dos registros eletromiográficos, colaborando desta forma, para a familiarização dos voluntários ao ambiente da coleta. Nestes dias o voluntário realizou uma contração isométrica voluntária máxima de cinco segundos, por três vezes, existindo um intervalo de cinco minutos entre elas. Depois de realizados os testes de contração isométrica voluntária máxima, utilizou-se a média dos nove valores obtidos.
Para o teste de exaustão, bem como para o teste de contração isométrica voluntária máxima, o indivíduo foi posicionado em pé no aparelho M. A. ISOSTATION 2001 (Figura 1). O teste de exaustão consistiu na execução de contrações isométricas do músculo eretor da espinha na posição de 45 graus de flexão do quadril, com quatro porcentagens da contração isométrica voluntária máxima (30%, 40%, 50% e 60%), e ocorreu em dois dias com intervalo mínimo de 36 horas e máximo de 60 horas, e em cada dia foram realizadas contrações isométricas com duas porcentagens de carga com intervalo de uma hora entre elas.
Figura 1 – Equipamento M.A. ISOSTATION 2001.
O EMGLF-C4 foi obtido através da utilização das quatro cargas e em
seguida foram obtidos o EMGLF-C3/4/5, combinando as cargas de 30, 40 e 50%, o
EMGLF-C3/4/6, combinando as cargas de 30, 40 e 60%, EMGLF-C3/5/6,
combinando as cargas de 30, 50 e 60%, e o EMGLF-C4/5/6 combinando as cargas
de 40 50 e 60%.
Para a comparação entre as combinações de carga utilizou-se o teste de Friedman (p<0,05), e para a comparação entre os lados utilizou-se o teste de Wilcoxon (p<0,05).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Verifica-se, através dos resultados obtidos, que ocorreu uma correlação positiva do valor da RMS em função do tempo para a maioria dos voluntários nas cargas de 40% (N=6), 50% (N=7) e 60% (N=8), no músculo eretor da espinha do lado direito, e para a maioria dos voluntários nas cargas de 40%