O primeiro contributo que este estudo pretende trazer está relacionado com o desafio, segundo Cohen e Olsen (2013) e Melián-González e Bulchand-Gidumal (2016), de alcançar uma melhor compreensão sobre como as TI podem melhorar o DO na indústria da hotelaria. Embora exista um grande número de publicações específicas sobre a relação TI e DO, ainda há pouca literatura que demonstre de forma empírica como as TI, em complementaridade com os demais recursos organizacionais internos, podem trazer vantagem competitiva sustentável para as empresas da indústria da hospitalidade e, principalmente, para a hotelaria.
Além disso, o modelo discutido lança luz sobre o papel da CO nessa relação. Dawson et al. (2011), Chen et al. (2012) e Kandampully et al. (2016) discorrem sobre importância da CO nessa indústria, no entanto não foram encontrados estudos que trabalhassem o efeito da CO na relação entre TI e DO na indústria da hotelaria. Segundo os estudos de Kandampully et al. (2016) as empresas da indústria da hotelaria devem ser capazes de desenvolver uma CO que estimule a criatividade de seus colaboradores, essa criatividade deve ser capturada por meio das TI, e é por meio do ajuste, entre a CO e a TI, que a empresa será capaz de inovar numa base contínua para superar a sua concorrência. No entanto, faltam estudos empíricos que trabalhem a relação entre as TI e a CO nessa indústria, e em como essa relação impacta o DO (Kandampully et al., 2016).
7 Se levarmos em consideração a literatura, não somente sobre a indústria da hospitalidade/hotelaria, mas também sobre estratégia e gestão, fica visível que os construtos trabalhados no modelo em estudo, individualmente considerados, foram exaustivamente pesquisados nos últimos 30 anos. No entanto, ainda há um considerável espaço para a investigação da relação entre eles, principalmente se considerarmos a exploração desses construtos em conjunto. Há evidências teóricas de que CO tem influência direta sobre as TI (Leidner & Kayworth, 2006) e a AO (Sanz-Valle et al., 2011), separadamente, mas não foram encontrados estudos centrados sobre o efeito da CO na relação entre as TI e a AO, e o impacto que a dinâmica de relacionamento entre os três construtos tem sobre o DO. Nesse estudo pretende-se preencher essa lacuna teórica, aumentando a complexidade dos modelos estudados por Tippins e Sohi (2003) e Real et al. (2006) sobre a identificação de quais os recursos organizacionais internos relacionados com as TI são capazes de gerar efeitos positivos no DO. O segundo contributo do estudo está na validação de escalas, baseadas na teoria revisada, que sejam capazes de refletir a complexidade teórica e prática dos construtos em estudo (Heritage, Pollock, & Roberts, 2014), devidamente adaptadas às especificidades da indústria da hotelaria. Esses instrumentos, de forma separada, podem ser utilizados em estudos futuros que tenham como objetivo medir e relacionar os construtos aqui apresentados a outros construtos, contribuindo metodologicamente para novos estudos nessa indústria.
Em relação, especificamente ao instrumento de medida da TI, é importante salientar que alguns trabalhos têm sido feitos com o objetivo de verificar o efeito que os objetos de TI (hardware, software, aplicações…) possuem no DO (Kandampully et al., 2016; Ozturk, 2016; Chen, Yen, Dunk, & Widjaja, 2016; Piccoli, Lui, & Grün, 2017) nessa indústria. No entanto, para entender a influência que as TI têm sobre as variáveis organizacionais é necessário considerar mais do que apenas objetos de TI (Real et al., 2006; Bulchand-Gidumal & Melián-González, 2011). Também é importante entender como esses objetos de TI são utilizadas para gerenciar as informações dentro da empresa e se os atores organizacionais os dominam como ferramentas de trabalho (Tippins & Sohi, 2003). Nesse sentido, é fundamental ter uma ferramenta de avaliação da TI adaptada à indústria da hotelaria, capaz de refletir essa complexidade.
Além disso, os instrumentos validados podem ser utilizados por gestores da indústria da hotelaria como um instrumento de auditoria, pois permite identificar as dimensões, de cada um dos construtos em estudo, que necessitam de atenção especial e traçar estratégias para corrigi-
las ou melhorá-las, ou seja, a informação gerada servirá de base para subsidiar a tomada de decisão.
O terceiro contributo está na avaliação da influência das características organizacionais dos hotéis em cada um dos construtos medidos nesse estudo. Desde meados da década de 1960, quando surgem os primeiros estudos da abordagem contingencial, os pesquisadores reconhecem a existência de uma série de fatores que afetam a estrutura organizacional, o comportamento organizacional e os resultados (Motta, 1976; Carvalho, 2011). Na indústria da hotelaria alguns autores analisaram os fatores contingenciais como localização, internacionalização (Parte-esteban & Ferrer, 2014), categoria, afiliação, tipo de cliente (Alonso- Almeida, Celemín-Pedroche, Rubio-Andrada, & Rodríguez-Antón, 2016), dimensão e tempo de existência (Bremser, Alonso-almeida, & Göhlich, 2014), no intuito de fornecer uma imagem mais completa dos fatores que, de alguma forma, influenciam o comportamento organizacional. Neste estudo pretende-se trazer mais informações sobre como as características organizacionais, ou fatores contingenciais, e as características dos recursos humanos que trabalham nos hotéis, influenciam cada um dos construtos em estudo, na indústria da hotelaria, tendo em vista a necessidade de mais estudos para que se compreenda se esses fatores podem ser considerados uma das razões das diferenças no desempenho entre os diferentes hotéis. O quarto contributo está em ampliar a compreensão sobre as relações entre os construtos em estudo, principalmente sobre as relações entre as TI e os construtos considerados recursos complementares (Barney, 1991), a CO (Kandampully et al., 2016) e a AO (Tippins & Sohi, 2003), contribuindo assim para os estudos sobre a perspetiva da RBV. Nessa perspetiva as TI são consideradas uma commodity, que só terão valor se forem protegidas pela presença de recursos organizacionais exclusivo, de forma que concorrentes não poderão se beneficiar da imitação. O presente estudo tentará contribuir para aumentar a complexidade dos modelos de estudo sob a égide da RBV, aproximando-os da realidade organizacional vivida pelas empresas da indústria da hotelaria, e afastando os pesquisadores da busca por relações simplistas de causa e efeito (Carvalho, 2011).
Acredita-se que seria ingénuo apontar para uma grande precisão na determinação das relações, entretanto, considera-se que este estudo contribuirá para a teoria em torno dos construtos, e irá fornecer provas concretas sobre a relação entre TI e DO, na presença dos construtos CO e AO.
9 Uma outra contribuição ligada a compreensão sobre as relações entre os construtos em estudo, está relacionada a utilização de metodologia hipotético-dedutiva baseada no teste de modelos de equações estruturais. A literatura sobre a relação entre as TI e o DO na indústria da hotelaria encontra-se voltada para estudos de caso descritivos ou tratam da relação somente entre as duas variáveis (Kandampully et al., 2016). Ao tratarmos a relação por meio do modelo de equações estruturais (MEE), na qual se propõe testar simultaneamente um conjunto de relações que prediz uma variável dependente, neste caso o desempenho dos hotéis, validando empiricamente um modelo, o estudo supera o estágio de simples criação indutiva de insights conceituais, proporcionando evolução dos estudos nessa indústria (Olsen, 2004; Carvalho, 2011), questão que foi apontada por Chen et al. (2012) ao revisar a literatura sobre CO nessa indústria. Os autores afirmam que menos de 2% dos estudos trabalham com modelos de equações estruturais, e que são necessários mais estudos que relacione a CO e as TI nessa indústria (Chen et al., 2012).
Em termos práticos, a análise global do modelo apresentado poderia permitir aos gestores extrair muitas conclusões interessantes sobre como a organização pode tirar melhor proveito das TI adotadas e criar vantagens competitivas sustentáveis. Os resultados podem alertá -los para o fato de que prestar atenção aos recursos exclusivos da organização, que por meio da complementaridade, podem aumentar o valor das TI, como é o caso da AO (Tippins & Sohi, 2003; Real et al., 2006), pode levar a um melhor DO. Além disso, deve prestar atenção a CO, pois além de ter influência direta nas TI e na AO, separadamente, ela poderá melhorar a relação entre essas variáveis, levando a um melhor DO.
O quinto contributo está relacionado com necessidade de mais estudos que envolvam a realidade brasileira e portuguesa, pois há carência de estudos acadêmicos que busquem investigar os dois países (Oliveira, 2014). Além disso, Bavik (2016) afirma que há uma ausência de investigações sobre a indústria da hospitalidade no hemisfério sul, pois a grande maioria dos estudos é operacionalizada num cenário anglo-americano (Bellou, 2010). Bellou (2010) aponta que a globalização alargou a necessidade de estudar e compreender importantes fenômenos organizacionais em outros países, simplesmente porque as variações são suscetíveis de existir. E argumenta que mais dados de diversos contextos nacionais são necessários, antes de construir com segurança modelos teóricos gerais.
Por fim, o estudo em questão é igualmente relevante pelo fato de abordar a visão não só dos gestores, mas também dos colaboradores das empresas da hotelaria. Estudos anteriores abordaram apenas a visão dos gestores seniores (Tajeddini, 2011; Fraj, Matute, & Melero, 2015; Alonso-Almeida et al., 2016), o que é considerada uma limitação, pois embora esses executivos sejam considerados como fontes confiáveis de informação, tendo em conta a sua experiência e conhecimentos, suas opiniões podem não necessariamente ser totalmente objetivas (Alonso- Almeida et al., 2016). Estudos que trabalhem a visão dos colaboradores do front office, responsáveis por entregar o principal produto dessa indústria, a hospitalidade, são necessários para melhor compreender, não somente as relações entre os construtos, mas os construtos em si.