5. Survey of International Building Codes
5.1 Building codes for commercial buildings worldwide
5.1.2 China
Eu digo não ao não. Eu digo. É proibido proibir. É proibido proibir. É proibido proibir. É proibido proibir.
(Trecho da música “É proibido proibir” de Caetano Veloso, de 1968)
A música “É proibido proibir” de Caetano Veloso foi um dos hinos da liberação sexual e corporal no Brasil. A ideia de uma nova era, explicitamente abordada pelo cantor, dizia respeito às restrições que eram algo do passado, e que a ordem a partir daquele momento era a permissividade. Porém, ao analisar com mais atenção o processo de liberação no Brasil, nota-se que ela mesma teve seus limites. Afinal, imaginar que, através da liberação, antigos interditos acerca da sexualidade humana Ocidental seriam discutidos, redefinidos e/ou permitidos seria uma imprecisão, uma vez que o homem se
define por uma conduta sexual submetida a regras, a restrições definidas149, ou
seja, as próprias interdições são importantes para que o ser humano se defina como tal, e que também se sinta pertencendo ao grupo. Sem dúvida, doravante a liberação sexual e corporal, antigas restrições foram abaladas, como é o caso da virgindade feminina, da nudez, da masturbação e da educação sexual dos jovens. Algumas interdições foram discutidas, como a pedofilia, a homossexualidade e o próprio sangue menstrual. Porém, algumas antigas interdições não foram ao menos mencionadas ou discutidas no contexto de liberação sexual, como é o caso do incesto e da necrofilia. Através da análise das revistas Claudia e Nova, pode-se ter uma ideia de como foram feitas tais discussões.
As questões relativas à educação sexual de crianças e jovens apareceriam nas revistas analisadas, sobretudo Claudia, que tratava de leitoras que eram mães. O primeiro artigo que abordou tal tema apareceu em junho de 1962: A hora das revelações: as crianças devem aprender tudo sozinhas ou
receber uma instrução sexual?
Até há alguns anos, nas sociedades consideradas civilizadas, tudo o que se referisse ao sexo assunto proibido, era tabu [...] Finalmente,
hoje em dia, vencidos os excessos, estamos chegando a posição de um bom senso e equilíbrio [...] Habitue-se à ideia de que, dentro de certos limites, o interêsse sexual é normal na criança150.
O artigo anuncia que se viviam novos tempos, e que esses tempos eram melhores do que o passado, uma vez que se discutia, de forma mais equilibrada, a questão sexual. A utilização de expressões, como “sociedades civilizadas”, assim como o artigo anterior que utiliza a palavra “moderna”, demonstra uma característica, de que esta sociedade que se quer mais liberal, via-se como mais “moderna” e até “civilizada” do que as passadas. Como assuntos relacionados à sexualidade eram de grande importância, seriam eles também, um sinal de modernidade. Falar abertamente sobre sexo seria um sinal dos novos tempos, uma postura mais moderna perante a sociedade, como mãe e como mulher. Uma mãe moderna, e, portanto, liberada deveria assumir uma postura mais aberta em relação ao sexo perante seus filhos. A “naturalização” do sexo seria uma necessidade e um dever postos pelos novos tempos. Uma mãe deveria falar abertamente sobre sexo com seus filhos, respeitando apenas sua maturidade a cada idade. Além de garantir a segurança e a própria vida de seu filho e de cuidar do seu bem estar, a partir da liberação, seria função da mãe educar seus filhos a respeito das questões sexuais.
Através das décadas pesquisadas, as revistas, sobretudo Claudia, abordaram diversas vezes, a importância de se tratar a questão da sexualidade com os filhos. O pequeno volume de artigos sobre esse assunto em Nova demonstra como esta revista tinha um público bem determinado: mulheres que, apesar de possuírem, ou não filhos, queriam ler apenas a respeito de sua própria sexualidade. Porém, Claudia, que ainda se mantinha dividida entre os novos e os antigos padrões, discutia a questão sexual nas crianças e nos jovens, em vários momentos. Podemos citar o artigo de setembro de 1968: O
que dizer a seu filho sobre sexo.
Tôdas as manifestações de carinho da mãe pela criança recém- nascida, seus beijos, suas carícias, já constituem, em si, a educação
150 “A hora das revelações: as crianças devem aprender tudo sôzinhas ou receber uma intrução sexual”, revista Claudia, junho de 1962.
sexual [...] As mães, desde o início, fazem desabrochar ou dão condições favoráveis para o desenvolvimento sexual da criança. Elas nada podem negar a seus filhos. Elas têm obrigação de dar todas as explicações bem dadas. Se negarem a prestar êsses esclarecimentos poderão, a certa altura, colocar seus filhos numa situação perigosa [...] Qualquer noção errada pode prejudicar irremediavelmente a educação sexual de seu filho151.
A naturalização dos temas ligados à sexualidade permite a inserção de tais questões aos jovens e às crianças. Porém, a leitura do trecho acima, revela como o artigo colocou uma grande responsabilidade na mãe para a educação sexual de seu filho. Apesar das novas possibilidades às mulheres, Claudia ainda tratava a maternidade como uma função feminina, e ainda, que caberia à mãe a educação sexual de seu filho. A maternidade ultrapassava, assim, os cuidados e a garantia do bem-estar dos filhos, mas o estímulo ao contato corporal desde o início de sua vida. Esse contato, segundo o artigo, seria crucial para o desenvolvimento de um adulto que lidasse de forma saudável e natural com o corpo, e assim com a sexualidade. Utilizando uma abordagem forte e imperativa, a revista dizia às leitoras que seria de responsabilidade da mãe, caso seus filhos se tornassem adultos frígidos. O artigo ainda trouxe a ideia de que se não fosse ensinado corretamente às crianças os efeitos seriam perigosos, como não conhecer a própria sexualidade, ou ainda, não lidar de forma “natural” com seu corpo, seriam nefastos. Essa obrigatoriedade de a mãe abordar questões relacionadas ao sexo com os filhos traria também a responsabilidade de esta mulher conhecer seu próprio corpo e sua sexualidade. Assim, as leitoras de Claudia não seriam estimuladas a terem uma educação sexual apenas para que elas tivessem uma vida sexual mais ativa, mas também para bem ensinar seus filhos.
A obrigatoriedade da educação sexual entre mães e filhos proposta por
Claudia, apareceu ao longo dos anos analisados. Em 1979, a revista trouxe a
questão novamente, ao dizer que, a partir dessa data, o sexo seria ensinado nas escolas152.
151 “O que dizer a seu filho sobre sexo”, por Sabá Gervásio, revista Claudia, setembro de 1968.
152 A história da educação sexual no Brasil, tem início em 1930 no Colégio Batista do Rio de Janeiro, e durou até meados de 1954, quando o professor responsável foi demitido e processado. Na década de 1960, grande parte das escolas públicas e até algumas católicas implementaram planos de educação
Pela primeira vez o sexo vai ser ensinado em escolas [...] Claudia ouviu vários especialistas que apontam a forma como você deve tratar o assunto ‘sexo’ com o seu filho. E nós completamos: sexo não é só reprodução, mas também uma fonte de prazer e de amor! [...] E você deve estar preparada para abrir ao seu filho este maravilhoso livro do sexo e do amor [...] Não só restringindo o sexo à função reprodutora, mas também como um sadio instrumento de prazer, amor e felicidade153.
A forma pela qual a revista Claudia indica às leitoras que são mães, como lidar a respeito da sexualidade de seus filhos, mostra como a revista assumia uma postura de ensinar e de conscientizar as mulheres de seus novos papéis a partir da proposta de liberação. O artigo acima demonstra mais uma etapa no processo de naturalização da sexualidade, uma vez que esta vai ser ensinada nas escolas. O texto ainda traz informações para que as mães aceitem com naturalidade tal acontecimento, e ainda estimulem seus filhos a lidarem da mesma forma. Nota-se que para o artigo, o sexo assumiria características além de sua função procriadora, sendo também um sinônimo de prazer, amor e alegria. Muitos artigos e também publicidades veiculadas nas revistas analisadas, abordariam o sexo através destas características. O que poderia significar que nesta época com a liberação sexual e corporal, o sexo passaria a ser um símbolo de uma fonte de prazer, de alegria e de amor. Estes conceitos serão analisados nos demais capítulos.
Neste mesmo artigo citado, outra característica também chama a atenção através do relato de Cynira Estocco Fausto da escola Vera Cruz.
Temos hoje uma iniciação sexual precoce – consumo de pílulas por meninas de 13 ou 14 anos, um aumento explosivo de doenças venéreas entre menores [...] A gente sente que a brincadeira de ‘passar a mão’ é uma necessidade de contato, de descoberta do corpo do outro, assim como o bebê faz a exploração do seu corpo e
sexual, principalmente nos grandes centros. No início dos anos 1970, tais projetos foram finalizados devido à repressão política, e só foram retomados a partir de 1977, momento em que se localiza o referido artigo da revista Claudia. Mais informações em “Revendo a história da educação sexual no Brasil” de Mary N. D. Figueiró.
do outro. O problema é que parte somente da vontade dos meninos. As meninas reprimem esta necessidade154.
Professora na escola paulistana Vera Cruz desde 1972, Cynira Estocco Fausto trouxe um relato surpreendente a respeito da sexualidade dos jovens no final da década de 1970. Apontou a ocorrência de doenças venéreas e também de jovens tomando pílula anticoncepcional, o que nos leva a pensar que a iniciação sexual dos jovens, no final dos anos 70, acontecia, ainda, na adolescência.
A professora disse sobre a normalidade de existir, entre os jovens, brincadeiras de cunho sexual. Trata-se, mais uma vez, de uma abordagem acerca da naturalização, não apenas das práticas sexuais, mas também de seus praticantes. Antes da liberação sexual e corporal, a maior parte das práticas sexuais deveria ser praticada por casais oficialmente formados, e tinham como finalidade a procriação. O relato acima rompe com essa ideia previamente ligada à sexualidade, uma vez que vê, com naturalidade, brincadeiras de cunho sexual aos jovens. Os últimos trechos analisados do artigo de Claudia tratavam da importância da normatização sexual iniciada no começo da vida de uma pessoa - por isso, a importância de conscientizar aqueles que lidavam com as crianças e com os jovens, as mães e as escolas, para que pudessem educá-las seguindo tais princípios.
Outro ponto relatado pela professora Cynira Estocco Fausto foi a diferença na forma de lidar com o corpo e a sexualidade entre os meninos e as meninas. Apesar de a professora estar falando a respeito de jovens adolescentes, talvez essa questão estivesse colocada ainda nas mulheres mais velhas. Afinal, tanto a revista Claudia quanto a revista Nova, eram abordados intensamente tais temas, talvez porque ainda não fossem tratados e vividos da forma “natural” como era esperado.
Refletir sobre a naturalização do corpo e das práticas sexuais das crianças e dos adolescentes, implica uma discussão polêmica. Como a liberação sexual e corporal foi um movimento desenvolvido ao longo das décadas entre 1960 e 1980, sem ter um caminho claro para onde se estava indo, as questões sobre o que iria se liberar ou naturalizar a respeito do sexo
foram diversas. Afinal, se a ideia era liberar e naturalizar a sexualidade e o corpo, até onde poderia chegar tais liberações? Ou ainda, quais novos limites seriam impostos? Tais questões não foram respondidas rapidamente, como, por exemplo, até onde iria a liberação corporal e sexual em crianças e em jovens. Se a liberação provocava a discussão e até o rompimento de antigos tabus em relação ao sexo, quais deles seriam liberados, e quais não? A masturbação, a homossexualidade e até a pedofilia seriam exemplos desses casos.
Na esteira da grande liberalização de costumes de antes e depois de 1968 havia proliferado [...] toda uma literatura permissiva. Uma literatura militante, que fazia parte de um irreversível movimento de liberalização e possibilitava, antes de mais nada, derrubar a censura à homossexualidade, ou o antigo ostracismo antifeminista. Duas lutas exemplares [...] cuja legitimidade não pode haver a menor dúvida. O mesmo já não se pode dizer da pedofilia que, de um só golpe, viu-se desculpabilizada, celebrada e teorizada155.
Alguns exemplos dessa desculpabilização da pedofilia podem ser identificados nos Estados Unidos e até no Brasil. O primeiro deles aconteceria ainda, nos anos de 1950, de forma fictícia através do livro de Vladimir Nabokov intitulado Lolita, publicado em 1955. O livro dividiu opiniões e críticas, e mesmo assim, foi levado às telas, em 1962, pelo diretor de cinema Stanley Kubrick. Mas, ao longo das décadas que levaram à liberação sexual, outros fatos chamaram atenção desta possível liberação da pedofilia. Nos Estados Unidos, a atriz Brooke Shields, em 1978, com apenas 12 anos, foi a estrela de um filme onde aparecia nua em algumas cenas. O filme chamado Pretty Baby contava a história de uma menina (interpretada por Brooke Shields) que morava em um bordel. Apesar de receber fortes críticas, e inclusive de ser acusado de pornografia infantil, o filme foi lançado normalmente, levando a jovem atriz a um grande sucesso. Em 1980, lançou o filme Lagoa Azul, que contava a história de duas crianças náufragas em uma ilha, que também teria forte insinuação sexual. No Brasil, temos um exemplo dessa desculpabilização da pedofilia, quando a assistente da apresentadora de programa infantil Xuxa,
Luciana Vendramini, com apenas 16 anos, saiu na capa e nas páginas da revista Playboy em 1987, completamente nua. Nota-se que a proposta de liberação de corpos e das práticas corporais foi sendo desenvolvida ao longo das décadas estudadas. Seria apenas na década de 1990, com toda a criação de um novo imaginário acerca do sexo, que não mais envolvia alegria e prazer, mas doença e morte, que a questão da pedofilia voltou a ser um tabu dentro da sexualidade.
Nos últimos anos da década de 1970, Claudia apresentou várias propagandas a respeito de enciclopédias sobre sexo. Muitas delas eram produzidas pela própria editora Abril, e poderiam ser enviadas às leitoras via correios. Esse foi o exemplo de a Enciclopédia da Vida Sexual, uma coleção de livros direcionada às crianças e aos adolescentes.
A você e sua família uma enciclopédia sobre sexo que merece o nome que tem: Enciclopédia da Vida Sexual. Esta coleção responde a uma enorme quantidade de perguntas que vão surgindo naturalmente, seja nas crianças, nos adolescentes ou nos adultos156.
Esta coleção de livros era um meio de ensinar crianças, jovens e adultos acerca da sexualidade. A editora Abril percebeu a existência de um público para tais livros e de um interesse geral pelo assunto. Essa publicidade veiculada através da revista Claudia reafirmava que a educação sexual infantil era uma responsabilidade feminina. Apesar da busca pela naturalização do sexo, o envio dos livros pelos correios era uma forma de manter o anonimato. Provavelmente, preocupar-se em educar a família sobre as práticas sexuais ainda seria motivo de timidez para muitas das leitoras de Claudia.
A masturbação, tanto a masculina quanto a feminina, foi considerada um grande interdito, em grande parte da história da sexualidade Ocidental. Considerada como o pecado de Onã157, a masturbação foi interditada ao longo da história por razões morais e médicas. Devido ao cuidado com o qual os poucos artigos lidaram com tal assunto nas revistas Claudia e Nova, a prática
156 Propaganda Enciclopédia da Vida Sexual, revista Claudia, fevereiro de 1978.
157 Onã é um personagem bíblico do Antigo Testamento. Conta-se que ao ter relações sexuais com Tamar, Onã teria desperdiçado seu esperma na terra, e por isso não inseminou sua esposa, o que teria aborrecido Deus.
de prazer solitário ainda era um assunto delicado mesmo nas décadas de 1961 e 1985 e todo movimento de liberação sexual.
Em uma época em que a sexualidade se encontra liberada, uma prática quase universal terá pouco sucesso ao tentar se limpar de sua carga de vergonha158.
A masturbação feminina foi abordada na revista Claudia, de forma cautelosa, através de uma coluna chamada Sexologia, que vigorou ao longo do ano de 1980. Nota-se tal cautela quando a revista escreve na chamada do artigo como Auto-erotismo, e apenas ao longo do texto, em letras miúdas, utiliza-se a palavra masturbação. Em um tom bem científico, buscava-se quebrar antigos tabus e impedimentos morais sobre tal prática sexual.
Infelizmente, ainda existe este estigma que envolve a masturbação, embora a situação tenha mudado e melhorado um pouco de um tempo para cá. A masturbação sempre foi considerada como um hábito pecaminoso (principalmente), doentio e triste [...] A masturbação em si é uma prática sexual como outra qualquer. Ocorre que nossa sociedade lhe dá várias conotações. Não é necessariamente sintoma de algum tipo de frustração [...] O conhecido Relatório de Shere Hite, que fez um amplo estudo a respeito do assunto, constatou (descobriu) que as mulheres se utilizam de seis maneiras diferentes para se masturbar [...] Em geral, as mulheres temem que o companheiro fique chocado, que interprete sua conduta como um atestado da incompetência da masculinidade dele. Mas isso nem sempre é realidade. A partir de um diálogo franco, a masturbação pode se transformar em um prazer a dois, num enriquecimento do relacionamento159.
Segundo o artigo, a prática solitária teria início ainda na infância dos meninos e das meninas, e que seguiria durante a puberdade e fase adulta. Através de uma ideia de que a sexualidade deveria ser algo igual para homens e mulheres, a revista Claudia abordou a questão com igualdade, indo de
158 « À une époque où la sexualité se veut libérée, une pratique quasi universelle ne parvient que difficilement à se débarrasser de sa charge honteuse ». BEDIN, Véronique; JOURNET, Nicolas. Le sexe
d’hier à aujoud’hui, p. 94. (Tradução nossa)
encontro à ideia de que a liberação sexual teria aproximado a sexualidade de homens e mulheres.
Os estudos e as pesquisas sobre a sexualidade durante a segunda metade do século XX mostraram a trajetória e o percurso das mulheres e dos homens, assim como suas práticas, que tendem a se aproximar160
Apesar da forma permissiva com a qual a Claudia abordou a questão e a igualdade de tais práticas entre homens e mulheres, a revista colocou que seria um temor feminino que a masturbação significasse a incompetência do homem em dar prazer à mulher. Interessante a postura de Claudia quando relatou que
nem sempre isso é realidade, ou seja, que muitas vezes o homem era, de fato,
incapaz de dar prazer à mulher. Outro ponto importante é a relação direta entre masculinidade e a capacidade de o homem dar prazer à mulher, que pode ser apontada como um dos ônus da própria liberação sexual aos homens.
... o “dever do orgasmo”, sucedendo o “direito”, que faz pesar uma dupla coerção: sobre a mulher, intimada a experimentá-lo sob pena de ser taxada de frigidez, e sobre o homem, intimado a proporcioná- lo à sua parceira161.
Como vemos no documento acima, tenta-se tirar o estigma da masturbação como algo errado e pecaminoso, através da ideia de que a sexualidade é algo “bom” e “natural”. O artigo ainda relata que, para muitos, a prática é vista como “errada”, o que denotaria uma visão ultrapassada e até antiquada. Ao abordar o relatório Hite, tenta-se dar um tom mais científico ao assunto, além de demonstrar, através dos altos números de praticantes do prazer solitário, certa naturalidade. Ainda com o relatório Hite, o artigo de
Claudia, de forma educativa e até sugestiva, apontou as principais formas
utilizadas pelas mulheres ao se masturbar. Por fim, o artigo recomendava às leitoras incrementarem suas relações com os parceiros através de tal prática.
160 « Les études et les enquêtes sur la sexualité au cours de la seconde moitié du XXe siècle, montrent que les trajectoires et les parcours des femmes et des hommes, ainsi que leurs pratiques, tendent à se rapprocher » BOZON, Michel. Op. cit, p. 63. (Tradução nossa)
161 CORBIN, Alain; COURTINE, Jean-Jacques; VIGARELLO, Georges. História da virilidade – vol. 3, p. 57.
Nota-se que Claudia utilizou a palavra companheiro e não marido para se referir ao casal, o que já denota uma transformação na própria revista que, no início da década de 1980 passava a cogitar o sexo fora do casamento, aproximando-se da revista Nova.
A virgindade feminina foi, ao longo da história, investida de uma grande carga simbólica, moral e até religiosa, como um bom exemplo da interação entre a natureza e a cultura, quando atribuída tais cargas ao rompimento do