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3. Theoretical Framework

3.6 The Impact of the SDGs

importância123, tendo declarado em 1 88 que depois do 25 de Abril, “Estou a realizar ideias completamente novas. As que me ocorriam anteriormente ficaram para trás. O contexto não é o mesmo, já não sou o mesmo, o mundo mudou.”124 Para o diretor, Non, ou a vã glória de mandar, seria em certa

medida o contrário de Os Lusíadas

é o momento em que se desmonta a festa. A mesma coisa mas no sentido inverso. É uma absoluta mudança de mentalidade cujo eco ressoou por todo o lado na Europa [...] Trata-se de morrer para renascer. Percebe-se porque é que não gosto de filmes triunfalistas?125

E, de certo, seria isso que a narrativa de Non propõe de forma alegórica.

1.3.1 – Aspectos de Non, ou a vã glória de mandar

Nesta produção anterior a Um Filme Falado, Non, ou a vã glória de mandar, o rei Dom Sebastião é retratado de forma bem mais aprofundada126,

pela reflexão e a reconstituição do evento de Alcácer Quibir, com o seu desaparecimento (de novo a morte não é estabelecida127), pela crítica reiterada a sua “sede de poder” e de mandar, e o desastre consequente para a pequena nação lusa128. A produção de 1990 aborda episódios da história de Portugal, o mais longo e complexo envolvendo o jovem rei Dom Sebastião, quem é retratado na véspera e durante a batalha de Alcácer Quibir, sendo objeto de várias referências129 de personagens contemporâneas ao monarca e de personagens-soldados do século XX. Em Non, ou a vã glória de mandar, o jovem rei aparece em situações que o fazem parecer ora como ensimesmado,

123 Para Portugal e para Manoel de Oliveira, quem a partir daí passa, como já mencionei, a

produzir com uma surpreendente regularidade para a sua idade avançada.

124 ANDRADE, op. cit., p. 41. 125 MACHADO, A., op. cit., p. 216.

126 Em Um Filme Falado alguns minutos bastam para as referências a D. Sebastião e à batalha,

mas em Non... todo o episódio consome mais de 22 minutos do filme.

127 Diálogos de Non

...: “Furriel 2: Havia morrido?

Alferes Cabrita: os mouros apresentaram um cadáver como se fosse o de D. Sebastião, mas nada havia por onde pudesse ser reconhecido.

Furriel: Teria então fugido ou ficado prisioneiro?”

128Oliveira Marques menciona que “D. Sebastião foi morto e com ele a nata da aristocracia e

do exército do País (uns 7000). Os restantes foram feitos prisioneiros. Menos de cem pessoas conseguiram escapar. Calcula-se que a aventura custou ao todo mais de 1 000 000 de cruzados, cerca da metade das receitas anuais do Estado”, MARQUES, op. cit., p. 285.

ora como autoritário, e ainda de forma mitológica ou quase como um espectro, em especial na enigmática sequência final, que envolve elementos oníricos.130

O cineasta retornaria mais tarde, ainda que de forma superficial ao ponto chave de Non, ou a vã glória de mandar em um dos planos sequência de Um Filme Falado, quando o navio entra no Mar Vermelho, a historiadora explica à menina sobre quem são os árabes e as guerras que aconteceram ao longo da história. Maria Joana indaga porque eram tão maus os homens e Rosa Maria volta à questão do poder: “São como eram, não são propriamente maus. São gente como nós. É a ambição do poder que leva os homens à guerra. É assim a sua natureza.”

Em Non, no episódio que trata de Dom Sebastião os soldados, por sua vez, lamentam a crueldade da guerra, e a certa altura um deles canta melancolicamente, num entardecer na véspera de uma batalha desastrosa para a tropa fictícia e que evoca Alcácer uibir, “Soldado que vais pra guerra ao deixar a tua terra ou o cantinho do teu lar. Ah não chores porque és um homem, não chores porque és homem e é feio um homem chorar.”

O documento Jornada de África del Rey D. Sebastião Escrita por um Homem Africano131 (manuscrito cuja data estimada poderia ser 1644) coloca o resultado da aventura de forma similar: “Este foi o fim lastimoso da jornada de África onde morreram três Reis [...], suposto que não novo exemplo da inconstante condição das cousas humanas em uma guerra guiada de uma parte de um desordenado e ambicioso desejo de Glória [...]”. Essa fonte se apresenta quase como uma peça de propaganda da sucessão de Felipe II ao trono de Portugal, reiterando a imprudência de D. Sebastião em contraponto com a prudência do monarca castelhano.

Filizola indica que “non significa o difícil aprendizado pela negativa”132. A

palavra non foi retirada do Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma, pregado na Capela Real, no Ano de 1670, pelo padre Antônio Vieira e abre o

130 Na conclusão de Non, o alferes Cabrita, ferido por tiros em combate na África, agoniza e o

rei surge em seus pesadelos vestido para a guerra, com uma espada virada para baixo (como uma cruz). No sonho o rei segura firmemente o fio da espada, o sangue escorre e o alferes é vítima uma grave hemorragia, antecedendo a sua morte, datada de 25 de abril de 1974.

131 Jornada de África del Rey D. Sebastião Escrita por um Homem Africano. Prólogo de Julio da

Conceição Pedro. Lisboa: Livro Aberto 2004, p. 35.

filme: “Terrível palavra é um Non”.133 Já a segunda parte do título, explicou

Oliveira, “é inspirada nuns versos de Camões, dos Lusíadas [...] Camões diz ‘óh glória de mandar óh vã cobiça!’. Com estes dois elementos constituí o título do filme. Parece-me, portanto, que o próprio título adquire um sentido histórico.”134

Valensi considera o filme, que entre outros temas evoca o passado, como mantendo uma interrogação sobre o destino de Portugal: “O título do filme e as últimas imagens não deixam dúvida quanto à resposta que Manoel de Oliveira traz, e sobre a sua ‘lição’ de história: história anti-heróica, pessimista, marcada pela saudade.”135 Como observa Johnson,

[...] o foco aqui não está nas vitórias portuguesas, mas ao contrário em suas derrotas: os lusitanos pelos romanos (139 a.C.), o Rei Afonso V pelas mãos dos castelhanos na Batalha de Toro (1476), o fracasso em unificar a Península Ibérica sob o comando português pelo casamento do príncipe Afonso e a infanta Dona Isabel (1490), e a maior perda de todas, a batalha de Alcácer Quibir (1578), quando o jovem e obsessivo rei Sebastião desapareceu no norte da África numa cruzada fracassada por expansão imperial, resultando em sessenta anos de dominação espanhola.136

A partir de Viriato chegando a Dom Sebastião (dois trágicos líderes assassinados), portanto, Non, ou a vã glória de mandar, trata quase em todos os seus episódios das derrotas sofridas por Portugal.

Aqui muitos personagens veem Dom Sebastião negativamente. Soldados do século XX e do século XVI condenam e ridicularizam o monarca,

133Ao final da representação de Alcácer uibir um personagem diz trecho do Sermão: “Terrível

palavra é um Non. Não tem direito nem avesso. Por qualquer lado que o tomeis sempre soa e diz o mesmo. Lede-o do princípio para o fim ou do fim para o princípio, sempre Non [...] Por qualquer parte que o tomeis sempre é serpente, sempre morde, sempre fere, sempre leva o veneno consigo. Mata a esperança, que é o último remédio que a natureza deixou a todos os males [...] Por mais que o confeiteis, um Non sempre amarga. Por mais que o doreis sempre é de ferro. [...] Quereis saber qual é a dureza de um não? A mais dura coisa que tem na vida é chegar a pedir; e depois de chegar a pedir ouvir um não: vede o que será?” MACHADO, A., op.cit., p. 215-216 e FILIZONA, In: JUNQUEIRA, Ibidem, p.161.

134 BARDE; PARSI. In: FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN, CINEMATECA

PORTUGUESA; MANDRAGOA FILMES, op. cit., p. 5.

135 VALENSI, Lucette. Fábulas da Memória. A batalha de Alcácer Quibir e o mito do

sebastianismo. Trad. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994, p.211.

136 JOHNSON, Randal. Contemporary Film Directors: Manoel de Oliveira. Illinois: University of

Illinois Press, 2007, p. 63-64. Do original [...] o foco aqui não está nas vitórias portuguesas, mas ao contrário em suas derrotas: os lusitanos pelos romanos (139 a.C.), o Rei Afonso V pelas mãos dos castelhanos na Batalha de Toro (1476), o fracasso em unificar a Península Ibérica sob o comando português pelo casamento do príncipe Afonso e a infanta Dona Isabel (1490), e a maior perda de todas, a batalha de Alcácer Quibir (1578), quando o jovem e obsessivo rei Sebastião desapareceu no norte da África numa cruzada fracassada por expansão imperial, resultando em sessenta anos de dominação espanhola”. [tradução nossa]

além de nobres presentes à batalha e até um cavaleiro espanhol137 que se dirige ao rei, chamando a sua atenção para sua segurança e para a falta de ação:

Cavaleiro castelhano (para D. Sebastião): Estamos muy preocupados mejor

será retirarse a lugar seguro (o rei o ignora). Porque esperais majestad? Sois vos el comandante. Porque esperais? Atacad señor! ¿Para que queréis la caballeria? No véis que vamos a morir aqui todos!

Em um dos planos sequência que se passam no século XX e se menciona o passado, Dom Sebastião é chamado de obstinado (“grande responsável pelo desastre”, de Alcácer uibir), impetuoso, estava “obcecado pela guerra da África”. E como narra o personagem historiador, alferes Cabrita:

Não escutava os conselhos dos mais prudentes e sabedores. Rejeitou mesmo uma desaprovação do conselho de estado, dizendo: “Não venho a pedir seus conselhos venho a dizer que tomem as necessárias providências para dar cumprimento a minha vontade”. (carrega no tom)

Destaco a situação dos soldados do século XX apresentados no filme. Estes se veem envolvidos no conflito de caráter colonial localizado na África. A narrativa (e situação em que se encontram) protagonizada por estes combatentes lusos encontra paralelos com a outra aventura africana, a de Dom Sebastião, apontada como um grande malogro. Alguns desses homens parecem antecipar outro mau resultado, por meio da rememoração de eventos relativos à experiência passada quatro séculos antes. Quase como se o monarca estivesse diretamente relacionado com os problemas do Portugal contemporâneo. Como interpreta Filizola

O sacrifício da jornada da África, como expiação de erros do passado e do presente não ensina o futuro. A Guerra Colonial é um segundo holocausto, mas duplamente mais terrível, pois acontece como um retorno infeliz de ambições desmedidas e atraso no processo histórico da descolonização.138 A respeito deste aspecto, da Costa analisa que

137

“[...] põe-se nosso o nosso exército em marcha. Para esta decisão do nosso monarca foi decisiva a intervenção do capitão espanhol Francisco de Abdana, proclamando que D. Sebastião se perderia se desde logo não desse batalha.” PEREIRA, José Costa (coord.); MARTINS, José Frederico Ferreira. Dicionário Ilustrado da História de Portugal. Lisboa: Publicações Alfa, 1986, v. 1, p. 32.

A África, palco da nossa derradeira aventura trágica, como o fôra da nossa primeira aventura épica, seria o verdadeiro teatro de operações lugar do papel que o lusíada por si próprio se tinha inventado e donde finalmente se bania, cumprindo um ciclo de derrotas, um ciclo em que o destino sempre disse não a Portugal ou aos seus sonhos mais grandiloquentes. Fruste, a história narrada, imensos o espaço e o tempo que a rodeiam.139

No filme, Dom Sebastião é reprovado por seus comandados que aparecem na encenação da noite precedente ao 4 de agosto:

Nobre velho (revoltado, para religioso): Já mandou executar um soldado por

um pecadilho. Este homem está louco e arrasta-nos a todos para a perdição. Predemo-lo?

Religioso: Para prender já é tarde senhor. Nobre velho: Melhor é tarde do que nunca.

Religioso (com espanto): Haveremos de prender o nosso rei? E os validos e

lisonjeiros que o cercam e que não são menos loucos. Deixariam eles?

Aqui o velho nobre se refere ao novo grupo político que passa a fazer parte das relações de Dom Sebastião, mudanças no cenário de influências, o que desagradava os quadros até então no poder.140 Na análise detalhada podemos ver até que ponto Oliveira se valeu de fontes141 da historiografia na elaboração do roteiro, como ele mesmo aponta diversas vezes e abordamos mais adiante, ressaltando as novas influências142 sobre o rei e as consequências.143

E um pouco depois ainda nesta sequência:

Nobre: Ele só faz o que tem em sua ideia