Por tudo exposto, compreendemos que a entrevista com fonoaudiólogos, se configurou como um importante recurso para a obtenção do corpus e entender o fenômeno da interação
na clínica fonoaudiológica sob a sua perspectiva. Além disso, pode produzir informações importantes sobre as ações desenvolvidas na estrutura social.
Os significados representados nos discursos sobre a interação são compartilhados, culturalmente construídos e relevantes para o grupo social/profissional. O contexto de situação – interação fonoaudiólogos/mães - é influenciado pelo contexto cultural; e os discursos apontam para isso.
Mostram o exercício profissional abalizado pela transmissão de conhecimentos científicos e competências, discursadas como estratégias de persuasão, realizadas nos textos, na tentativa de influenciar as mães e buscando seu comprometimento com o processo terapêutico. Consequentemente, como uma das estratégias discursivas, para alcançar o desenvolvimento de crianças em tratamento.
A prática social da interação expressa crenças, valores éticos, visões de mundo validadas e legitimadas, presentes nos discursos dos falantes, membros da instituição de saúde.
Os sentidos construídos compartilhados pelo grupo de fonoaudiólogos são naturalizados e indicam que a interação com as mães objetiva obter informações relacionadas aos casos clínicos, ao processo terapêutico e oferecer orientações pertinentes a cada caso.
Sob o ponto de vista linguístico textual, os discursos mostram uma organização que prioriza questões relacionadas à terapia em si, ao que se pode esperar da estimulação a ser realizada pelas mães para o desenvolvimento da criança. O propósito é produzir o efeito de valorização da prática e a negociação com o ouvinte das experiências representadas.
Na busca por obter a compreensão do contexto social e entender as condições de produção da língua, apesar de a prática discursiva da interação atender às demandas clínicas, observamos mudanças significantes, no que diz respeito ao uso da língua e à prática em si, que visam a alcançar os objetivos terapêuticos, mas ao mesmo tempo, atender a uma demanda social crescente de procura pelos serviços, disponíveis a todos os cidadãos.
As análises dos discursos materializados nas escolhas sistêmicas dos falantes, mesmo com foco em algumas, dentre as várias possibilidades, mostram a relação entre a léxico- gramática, semântica discursiva e a atividade social, que é pressuposto teórico da Linguística Sistêmico-Funcional, contribuindo para a produção de significados social e culturalmente legitimados; e confirmando assim, a relação texto/contexto.
Os discursos foram construídos a partir de uma questão norteadora, que incentivou os profissionais a expressar suas opiniões, crenças, práticas e revelarem sentimentos em relação
a pessoas, ao sistema institucional, seus papéis, as situações enfrentadas, dilemas e as inúmeras questões que redefinem a sua atuação. Levou-os, também, a responder nossa pergunta de pesquisa sobre os significados linguísticos e discursivos que representam a interação.
Outro destaque nos discursos proferidos é o de que continua ser a criança o foco de atenção profissional, mas a mãe, em algumas situações, também é o alvo do profissional, uma vez que a sua importância foi debatida por ser ela quem convive boa parte de tempo com a criança e quem a leva às consultas, na maioria das vezes.
Por essa razão, o modo como a língua representa a interação e o uso dos recursos estabelecidos em orações materiais, demonstra o cumprimento do papel profissional desse grupo de fonoaudiólogos,como parte do processo de constituição e legitimação social.
Por outro lado, o profissional, como questionador e observador, cujo papel é o de transmitir conhecimentos e difundi-los, é o responsável pela saúde no espaço social e sua percepção revela que não há tempo suficiente para desempenhar essa função da maneira como entende ser adequada.
Consideramos, respondido, portanto, nosso questionamento inicial, que emergiu dos Processos da TRANSITIVIDADE e dos recursos sistêmicos da AVALIATIVIDADE, como mecanismos para os indivíduos expressarem suas construções simbólicas a respeito das experiências cotidianas, dos sentimentos, pontos de vista e julgamentos sobre coisas e pessoas.
Julgamos respondidos também os objetivos específicos, que nos moveram para realçar esse estudo, amparados pelo arcabouço teórico-metodológico, contribuição significativa para a compreensão do fenômeno.
Com relação à existência de estratégias utilizadas pelos profissionais para alcançarem seus propósitos terapêuticos, concluímos que, os entrevistados empreendem algumas, em nível discursivo, que possibilitam a construção de significados experienciais, tais como: representar sua atuação profissional como positiva, por intermédio de Processos mentais cognitivos, que também evidenciaram o valor social da interação; de sentimentos emotivos positivos de segurança; de significados interpessoais avaliativos que provocam reações de impacto, positivas no ouvinte/leitor de modo que concorde com suas proposições.
Constatamos também nos textos um importante recurso, que valoriza a interação com as mães e serve de instrumento para instruções e orientação de atividades a serem
desenvolvidas, fora do ambiente clínico, que é o uso de caderno. Como estratégia, estimula a participação mais ativa no processo terapêutico da criança.
A interação, na perspectiva profissional, é vista como essencial para a construção de uma parceria, que resulte em maior participação das mães no processo terapêutico. Essa confirmação se dá por meio de realizações linguísticas como os Processos da TRANSITIVIDADE, recurso utilizado para a representação simbólica do mundo físico.
A importância dos Processos, categoria do sistema de TRANSITIVIDADE, para a construção de diferentes sentidos sobre a interação é comprovada por representar as experiências cotidianas do grupo de fonoaudiólogos, e, também, por retratar o contexto social e clínico institucional.
No que diz respeito às relações estabelecidas entre profissionais e mães, as evidências sugerem a existência de um ponto de conflito, pois as mães cada vez mais demandam atenção dos profissionais e necessitam abordar assuntos de ordem pessoal ou familiar na interação.
Para os entrevistados, essas questões mais subjetivas não fazem parte do cotidiano clínico e necessitam ser debatidas com profissionais especializados, como F1 deixa claro em seu texto e F5 ao mostrar que não é favorável a sempre conversar com as mães.
Há, porém, fonoaudiólogos que demonstram dar uma abertura às mães para a discussão de assuntos ‘corriqueiros’, como pontua F2, pois essa seria uma maneira de atender aos propósitos terapêuticos e contribuir para a compreensão do contexto de vida da criança.
Em seu discurso, F2 aponta, por intermédio do conteúdo experiencial, uma relação diferenciada de cooperação e revela a importância dada aos assuntos do cotidiano, além dos relacionados à terapia.
As diferentes especialidades fonoaudiológicas lidam com aspectos mais objetivos relativos ao diagnóstico, ao tratamento e aos exercícios na terapia e, por isso, a facilidade profissional em lidar com a objetividade desses procedimentos. Daí advém o fato de os relatos apontarem para uma a interação com as mães que se configura por ser informativa, como ressaltam todos os textos. Dessa maneira, o papel e a identidade profissional, consolidam seu
status na relação.
É fato a existência da dificuldade dos fonoaudiólogos, constatada em seus discursos, em lidar com aspectos subjetivos dos indivíduos. Por essa razão, enfatizamos a necessidade de os profissionais, diante das mudanças sociais evidenciadas, se adequarem, na clínica fonoaudiológica, e buscarem uma relação diferenciada e humanizada com as mães no processo terapêutico.
A alta demanda do setor público de saúde é uma questão que impõe às instituições de saúde uma reorganização estrutural para o cumprimento de resoluções dos órgãos de saúde e dos profissionais.
Como os discursos são produzidos a partir de demandas sociais, os entrevistados representam de modo simbólico a interação, bem como suas necessidades profissionais.
Dessa maneira, o potencial linguístico da rede sistêmica da AVALIATIVIDADE, por intermédio de mecanismos como a apreciação do valor social da interação e a relevância do momento, de julgamentos positivos de sua capacidade profissional e opiniões sobre o sistema institucional, pode oferecer ao ouvinte/leitor a representação de mundo mental e social dos fonoaudiólogos; e esse é um padrão que se repete em todos os textos.
Por isso, concluímos a importância, também, da AVALIATIVIDADE e seus subsistemas em proporcionar a compreensão das avaliações dos produtores textuais sobre nosso objeto de estudo.
A maioria das avaliações, representadas e realizadas linguisticamente como positivas, revela também alguns aspectos negativos, como o pouco tempo para a interação, a grande demanda pelo serviço especializado originando uma atenção voltada ao paciente, em primeiro lugar.
A afirmativa pode ser constatada nas produções textuais nas quais os fonoaudiólogos se posicionam em relação aos juízos de valor, expressos sobre o ‘sistema institucional’, o que leva à implicação da necessidade de mudanças.
Assim, nosso foco foram os discursos dos atores sociais envolvidos na dada prática social e discursiva, a fim de evidenciar se os mesmos sentidos construídos nos discursos são compartilhados por todos os entrevistados.
O discurso científico, que confere credibilidade ao profissional e a língua em uso impressa nos textos, revela discursos historicamente aceitos na esfera social, na qual o produtor se posiciona e faz escolhas com um determinado fim, como no caso em questão.
No entanto, a tendência à informalidade na interação por meio de um discurso conversacional como prática, visa, tão somente, no nosso ponto de vista, à aceitação do discurso profissional para que efetivamente possa haver uma mudança de postura das mães e, consequentemente, contribuir para o desenvolvimento da criança.
Nessa perspectiva, a língua é caracterizada como escolha e, apesar de levarmos em conta que, cada qual dos envolvidos reconhece o papel diferenciado na troca, as mudanças
históricas, as políticas e as ideológicas, o discurso institucional ainda parece manter, mesmo de modo velado, a assimetria de poder e relações desiguais.
Naturalmente, as convenções existentes na interação são aceitas e, por isso, mantidas, uma vez que o fonoaudiólogo é detentor de um saber científico que o outro não possui, cabendo às mães a cooperação para o sucesso do tratamento.
Nesse caso, podemos dizer que o poder é exercido de diferentes maneiras, como no discurso profissional, utilizado para ofertar informações e orientações durante a interação, como linguagem científica rotineira de um ‘fazer’ profissional com procedimentos padronizados e assim por diante.
Podemos inferir que há uma tendência nas instituições de saúde, incluindo a Fonoaudiologia, de práticas discursivas tanto de democratização quanto de ‘tecnologização’ do discurso, proferidas por profissionais para promover o convencimento dos indivíduos a acatar as orientações e realizar mudanças para a obtenção de melhores resultados em seus tratamentos e, consequentemente, melhor prognóstico.
A sociedade é algo como uma formação dinâmica, na qual as relações são construídas por poder exercido de várias maneiras (FAIRCLOUGH, 1989, p. 03). O exemplo disso é a relação entre profissionais e mães socialmente estabelecida e mantida, apesar das mudanças sociais relatadas, que imprimem novas posturas.
No seu aspecto contextual, a ACD provê recursos para examinarmos os usos da língua na vida social e revelar, nos discursos, as construções simbólicas de manutenção das relações sociais, que nesse caso, são naturalizadas.
Ao utilizarmos a ACD, objetivamos problematizar a atuação fonoaudiológica enquanto clínica e descrever os discursos, a partir de aspectos subjetivos que permeiam a prática e possibilitando uma reflexão crítica, com ênfase na análise textual e semântica dos textos produzidos.
A análise dos textos, sob essa perspectiva, envolve simultaneamente o significado (a)
representacional ou representação das atividades profissionais na interação e as formas institucionais de realização linguística; (b) acional ou modo de questionamento das relações sociais e (c) identificacional ou modo como fonoaudiólogos constroem e ou negociam identidades nos discursos.
Os significados correspondem respectivamente à: metafunção experiencial de representação das experiências cotidianas dos fonoaudiólogos; função universal interpessoal como negociação das experiências representadas subjetivamente, construção de identidades
por meio de avaliações, juízos de valor e posicionamentos; à metafunção textual como organização dos textos para produzir efeitos no contexto de situação apresentado para valorizar a negociação das experiências representadas e a construção de identidades na negociação.
Destacamos a contribuição da ACD para a compreensão dos significados construídos e legitimados sobre as atividades, as experiências representadas subjetivamente, as relações naturalizadas, mas de certa forma, desestabilizadas pela adequação do espaço simbólico clínico fonoaudiológico e a necessidade de negociação das identificações/identidades, até o momento, mantidas.
A interação com as mães, como prática discursiva, reproduz as representações simbólicas construídas pelo grupo de fonoaudiólogos. Entretanto, a clínica fonoaudiológica pode vir a ser um espaço de negociações, para que os sujeitos se adequem às necessidades sociais e para o estabelecimento de novos laços de envolvimento.
Assim, os discursos dos profissionais contribuem em um nível micro social, para a reorganização da interação, redistribuição de papéis e, em um nível mais amplo, para o empreendimento de ações que resultem em outro tipo de relação com as mães, para a melhoria na prestação do serviço e a valorização profissional.