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Os estudos realizados me conduziram a iniciar outra seção que trata das práticas matemáticas. Para iniciá-la, recorro a Denise Silva Vilela que trata desse assunto, em uma perspectiva sociofilosófica em um artigo publicado em 2009, resultado de sua tese de doutorado, que tratou dos usos e jogos de linguagem no campo da Educação Matemática. Apesar do enfoque sociofilosófico dado pela autora, diferente do que faço, atenho-me às suas falas que buscam a compreensão de uma concepção do que são práticas matemáticas. Após ter encontrado uma série de adjetivos para a matemática tais como: matemática escolar, matemática acadêmica, matemática popular e outras tantas, a autora buscou interpretá-las para conceber uma elaboração teórica sobre o que são práticas matemáticas. Ela cita uma definição de Antônio Miguel (2003) para entender a matemática como uma prática social, o que pode ser entendido como

toda ação ou conjunto intencional e organizado de ações físico-afetivo-intelectuais realizadas, em um tempo e espaço determinados, por um conjunto de indivíduos, sobre o mundo material e/ou humano e/ou institucional e/ou cultural, ações essas que, por serem sempre, em certa medida e por um certo período de tempo, valorizadas por determinados segmentos sociais, adquirem uma certa estabilidade e realizam-se com certa regularidade. (MIGUEL, apud VILELA, 2009, p. 192-193)

As várias adjetivações que a pesquisadora encontra para se referir aos diferentes conceitos matemáticos se tornam uma evidência de seus diferentes usos e são indícios da existência de diferentes práticas. Essas diferentes práticas além de terem regras próprias são “reconhecidas como produtoras de conhecimento” (IBIDEM, p. 208). Vilela se fundamenta em Bourdieu para compreender diferentes matemáticas como práticas sociais,

em que as práticas matemáticas são pensadas com suas regras específicas e algumas semelhanças, condicionadas pelo contexto em que ocorrem. A matemática científica,

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inclusive, tem suas especificidades, dentre as quais se destacam simbologia, procedimento dedutivo, divulgação da linguagem em revistas especializadas, o que favorece a continuidade de gerações trabalhando em temas que vão se desenvolvendo. Neste referencial teórico não apenas o foco são as práticas como também, ao considerar as práticas, não faz sentido pensar num significado único. Numa visão de conjunto das práticas, o significado, na matemática da rua, por exemplo, não é um fragmento da matemática escolar ou uma matemática imperfeita em relação àquela que dita a definição do campo, pois tais julgamentos se fazem no interior de uma prática matemática específica. (VILELA, p. 209)

Ao concluir, Vilela concebe as práticas matemáticas compostas de uma intencionalidade consciente, com alcances e limitações, passíveis de serem compreendidas como realizações humanas.

Assim como Vilela (2009), também concebo as práticas matemáticas passíveis de serem compreendidas como realizações humanas. Mas, busco no historiador Roger Chartier (2009) subsídios para entendê-las como práticas culturais e não somente sociais. Para ele, existe uma dificuldade em se traçar uma fronteira exata entre a história cultural e outras histórias, sejam elas da arte, da literatura, das ciências etc. Entretanto, o autor questiona que: “devemos, por isso, mudar de perspectiva e considerar que toda história, qualquer que seja, econômica ou social, demográfica ou política, é cultural, na medida em que todos os gestos, todas as condutas, todos os fenômenos objetivamente mensuráveis sempre são o resultado das significações que os indivíduos atribuem às coisas, às palavras e às ações?” (CHARTIER, 2009, p. 33).

Então, esta tentativa na qual me empenhei, de analisar narrativas sobre o saber matemático de outro povo, encontra solo fértil para se desenvolver dentro de um contexto que privilegia uma dimensão cultural do conhecimento. Ou seja, entendo as práticas matemáticas do povo Krenák como uma prática cultural, pois fundamentada nesse autor posso pensá-las como produção cultural inscrita em um campo e relacionadas com outras práticas da mesma cultura.

Chartier (2009) busca uma definição de cultura para pensar como as práticas refletem a relação das pessoas com o mundo e a encontra em Clifford Geertz que escreve o seguinte:

O conceito de cultura que eu defendo [...] denota um padrão de significados transmitido historicamente, incorporado em símbolos, um sistema de concepções herdadas expressas em formas simbólicas, por meio das quais os homens

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comunicam, perpetuam e desenvolvem seu conhecimento e suas atividades em relação à vida. (GEERTZ, 1973 apud CHARTIER, 2009, p.35)

E ainda, o que constitui a cultura de um povo é a sua linguagem e suas ações simbólicas. Alinhada a esse pensamento, posso anunciar que assim como a linguagem e outros tantos fenômenos, a prática matemática do povo Krenák é uma prática cultural e que os seus significados estão relacionados com as práticas próprias da comunidade que a constitui. Parafraseando Chartier (2009, p. 40) digo que a produção matemática desse povo é um processo que implica diferentes momentos e diferentes intervenções, pois se referem a uma grande gama de relações que ocorrem em um determinado espaço e tempo.

Além de assinalar pontos interessantes que entrelaçam os estudos sobre essa língua e o estudo de uma matemática contida nessas línguas, trabalhos como o de Diana Green, de Palácio e Ferreira me auxiliam a erguer estacas na delimitação do meu objeto de estudo. Uma dessas estacas é a tentativa de compreender uma forma ainda que superficial parte da língua Krenák, seu sistema de contagem, termos quantificadores e práticas matemáticas. A outra é a escolha de uma perspectiva, uma ferramenta para operar com essas informações coletadas. Tomo, a partir dessa seção, a etnomatemática como a principal ferramenta teórica para iniciar uma discussão sobre essas práticas matemáticas culturalmente diversas.

3.4 Informações sobre a educação matemática, a etnomatemática e estudos já