1.4 Brown-rot fungi
1.4.3 Chelator mediated Fenton (CMF)
O modo enunciativo é uma categoria de discurso que organiza a maneira pela qual o sujeito age na encenação do ato de comunicação, ou seja, está relacionada ao mundo criado pela publicidade e não aos sujeitos do mundo externo. Diante disso, a organização enunciativa pressupõe que o enunciador, EUe, nunca se revele como publicitário. Em alguns casos, ele se identifica com a “sociedade” produtora do bem de consumo, mas apenas como uma estratégia para fazer crer que EUc e EUe sejam um único sujeito, ou seja, no discurso criado, o enunciador identifica-se com a empresa. O enunciador tem, então, estatuto de apresentador de um produto, sobre o qual ele diz certo número de qualidades. O autor também denomina este enunciador do discurso publicitário de anunciador.
O destinatário (TUd) do texto enunciativo não é designado como consumidor, mas como um sujeito suscetível de ser atingido por tudo que é dito a respeito do produto anunciado. O autor o denomina como um utilizador eventual do produto. Ainda no texto enunciativo, o terceiro elemento é denominado ELEx e não é apresentado em sua forma original, que seria o ELEo. Isto ocorre porque o produto em si não é citado, mas é apresentado como uma marca, uma qualidade, ou uma vantagem. O autor também indica que muitos publicitários não exprimem as
qualificações do produto, querendo assinalar que a marca em si já é suficientemente conhecida, o que ele chama de efeito de notoriedade. Neste sentido, o autor constata a presença constante, de maneira mais ou menos explícita, de quatro componentes no texto: produto (P), a marca (M), qualidades do produto (q) e vantagens que o produto oferece (R) e constrói uma fórmula, descrita da seguinte maneira:
Equação 1 - Elementos presentes no texto publicitário.
P(M) × q ⇒ R
Fonte: Charaudeau (1983).
Ainda na organização enunciativa, o autor aponta para a presença de componentes que remetem á posição do locutor em relação ao interlocutor, em relação a si mesmo e em relação aos outros. Estes são denominados, respectivamente, comportamento alocutivo, elocutivo e delocutivo. A presença desses comportamentos pode ser evidenciada através de “marcas” que apontam as formas de linguagem que o locutor se apropria para referir-se a si mesmo (EU) e a seu interlocutor (TU) e os outros. Peruzzolo (2004) também afirma que existem marcas no texto que têm muito a revelar no modo como o sujeito se liga ao seu discurso. O tempo verbal é uma delas. Por exemplo, ao usar uma linguagem na terceira pessoa, o sujeito dá a ilusão de estar longe, sem nada ter a ver com o que é dito.
O comportamento alocutivo utiliza-se da fala direta ao TUd, o sujeito assume a responsabilidade de falar no mesmo instante em que solicita a participação do destinatário, incitando-o a algo, ao usar o tempo verbal imperativo, por exemplo. Neste comportamento, o efeito é transformar definitivamente o leitor do anúncio em um potencial consumidor, identificando-se com uma imagem ideal de destinatário, em que será o beneficiário ao comprar o produto ou serviço oferecido. O enunciador se apresenta como um conselheiro, e propõe um contrato de confiança ao destinatário. Este comportamento é característico do tipo alocutivo, que marca a presença do destinatário no texto, o que não acontece no tipo delocutivo, onde este se encontra oculto.
Já o uso de pronomes como “nosso” demonstra que o enunciador se apresenta em nome do anunciante, revelando-se responsável pelo que afirma sobre as qualidades desta marca. O uso deste pronome e os verbos em primeira pessoa induzem a união entre a voz delegada e a voz que delega, situando-as no mesmo universo de referência, para que, ao lerem o texto, os sujeitos representados sejam capazes de se identificar como grupo privilegiado e testemunhas do anunciante, levando à compra do produto. Também se confere credibilidade ao que é dito, pois traz o leitor do anúncio, possível consumidor, para junto de si, colocando-o ao lado da empresa.
O anunciador também pode se dirigir diretamente ao destinatário, buscando criar um vínculo entre a empresa e o possível consumidor. Neste comportamento percebe-se que o enunciador convoca o leitor a aceitar a proposta da empresa. Esses trechos também situam o destinatário como responsável pela fala. O enunciador aparece como agente das ações descritas e se determina como benfeitor, para incitar o destinatário, mesmo que não seja solicitado explicitamente, a se considerar como beneficiário das vantagens que o produto oferece. Tal estratégia busca ocultar o intuito comercial presente no discurso.
Assim, o comportamento alocutivo busca influenciar o interlocutor atribuindo papéis linguageiros a si e ao interlocutor, que podem ser de superioridade ou de inferioridade, no caso de impor uma ação ou de necessitar algo do interlocutor.
Já no comportamento elocutivo, o sujeito falante enuncia seu ponto de vista sobre o mundo, sem que o interlocutor seja solicitado nessa tomada de decisão. Charaudeau afirma que, neste comportamento elocutivo, o sujeito falante pode enunciar seu ponto de vista de várias formas: através de seu conhecimento, sua avaliação, motivação, engajamento e decisão referentes ao objeto que está sendo anunciado.
Por fim, o comportamento delocutivo apresenta um sujeito falante apagado, ele “desaparece” do ato de enunciação e deixa o discurso falar por si. Através da impessoalidade, este tipo de comportamento mostra marcas de distanciamento no momento em que o enunciador deixa de ser o sujeito empírico e assume o papel de narrador dos fatos. Neste tipo enunciativo, o anunciador EUe – está em segundo plano, e se faz passar por um apresentador que anuncia algo. O destinatário TUd – o leitor do anúncio – também não é solicitado explicitamente, sendo apenas um espectador-testemunha. O efeito deste tipo enunciativo é fazer com que o sujeito
interpretante do anúncio comece a se identificar com o possível comprador da marca, despertando uma carência em relação à mesma. Nas frases deste tipo enunciativo percebe-se que o anunciador pode estar apenas contando um fato extraordinário sobre a empresa, e anunciando algo de bom que a empresa irá realizar.
Também neste comportamento não se encontram vestígios de um falar direto a um parceiro qualquer, mas a um destinatário específico que não é solicitado explicitamente pelo enunciador, que não o designa como consumidor, mas deixa a entender que o considera um sujeito suscetível a tudo o que é dito sobre a empresa, e lhe atribui o papel de “utilizador eventual”. A enunciação se processa dentro dessas condições de produção, quando o enunciador, interagindo com o sujeito para quem o discurso está voltado obtém do processo um produto discursivo.