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Chattering, Redundancy and Correlation assessment

Chapter 2 Theoretical background

2.2. The alarm system

2.2.4. Chattering, Redundancy and Correlation assessment

Embebida neste caldo histórico transformador, surgiria em 1933 uma obra que serviria como marco delimitador na maneira de pensar o Brasil.42 Casa-grande &

Senzala, de Gilberto Freyre (1900-1987), pode ser considerada a síntese de ideias

dispersas que, como vimos no capítulo anterior, procuravam pensar o Brasil a partir de sua peculiar formação racial. Ao mesmo tempo em que contribui com abordagens inovadoras que lançam um olhar diverso sobre o fenômeno da miscigenação, também introduz as teses culturalistas de Franz Boas (1858-1942) — que serviriam como uma espécie de salto evolutivo na maneira de se interpretar as relações sociais e raciais.43

Nesta obra, Freyre enfatizava a peculiar relação racial consolidada no Brasil desde os primeiros anos de ocupação e colonização de seu território. Esta singularidade se devia ao caráter plástico do povo português, que, segundo o autor, já carregava em si o sangue negro, proveniente de séculos de domínio mouro na Península Ibérica. Possuíam, ainda, uma flexibilidade e capacidade de adaptação que não se via em outros povos, como os anglo-saxões, que onde estiveram enquanto dominadores de outras etnias procuraram reproduzir uma espécie de cópia de suas sociedades originárias. Os

42 “Escrito três anos depois das alterações políticas de 1930, Casa-grande & Senzala se insere num quadro em que o debate sobre a formação nacional compõe um cenário político em que a centralização administrativa altera o lugar não apenas das regiões, como dos grupos que exercem o poder local e regional. Naquele momento, o desenho de políticas gerais demanda uma definição do público a que serão aplicadas. Neste cenário, o livro responde a questões como: quem é o povo brasileiro? Podemos falar de uma unidade nacional? Podemos pressupor a existência de uma cultura brasileira? Esse perfil corresponde às exigências da civilização ocidental e, portanto, o Brasil pode figurar no concerto das nações?” (BASTOS, 1999, p. 217).

43 “Foi o estudo de Antropologia sob a orientação do professor Franz Boas que primeiro me revelou o negro e o mulato no seu justo valor – separados dos traços de raça os efeitos do ambiente ou da experiência cultural. Aprendi a considerar fundamental a diferença entre raça e cultura; a discriminar entre os efeitos de relações puramente genéticas e os de influências sociais, de herança cultural e de meio. Neste critério de diferenciação fundamental entre raça e cultura assenta todo o plano deste ensaio. Também no da diferenciação entre hereditariedade de raça e hereditariedade de família” (FREYRE, 2000, p. 45).

portugueses, ao contrário, já experimentados ao contato com os chamados povos de cor através de suas incursões no continente africano e asiático, possuíam a capacidade de

mesclarem-se a essas populações para melhor aclimatizarem-se e sobreviverem ao novo

ambiente, num processo de miscigenação que era a um só tempo biológico e cultural.44 A colonização, desde o início, se viu diante do conflito entre subordinação hierárquica presente no caráter escravocrata de exploração econômica e o amálgama racial e cultural presente nesta peculiar maneira de lidar com as relações sociais muito próprias dos portugueses, que segundo Freyre (2000) possibilitou à colonização contemporizar contradições que possuíam características potencialmente explosivas e que, ao contrário do que se poderia prever, se consolidaram a partir de um improvável

equilíbrio de contrários.45

O que se sente em todo esse desadoro de antagonismos são as duas culturas, a europeia e a africana, a católica e a maometana, a dinâmica e a fatalista encontrando-se no português, fazendo dele, de sua vida, de sua moral, de sua economia, de sua arte um regime de influências que se alternam, se equilibram ou se hostilizam. Tomando em conta tais antagonismos de cultura, a flexibilidade, a indecisão, o equilíbrio ou a desarmonia deles resultantes, é que bem se compreende o especialíssimo caráter que tomou a colonização do Brasil, a formação sui generis da sociedade brasileira, igualmente equilibrada nos seus começos e ainda hoje sobre antagonismos (p. 82).

Em um período marcadamente definido por dogmas religiosos, o autor nos chama atenção para, sob o olhar lusitano, o fato de as crenças e a fé dos povos estrangeiros estarem acima de suas condições étnicas. Em outras palavras, para o português, já bastante acostumado a uma certa prática religiosa não ortodoxa (FREYRE, 2000, p. 95), o contato com povos de crenças diversas fazia com que as autoridades responsáveis pela observação da moral cristã tomassem para si a tarefa de fiscalizar a confissão religiosa de todos aqueles que chegassem em terras sob domínio luso, em detrimento de sua origem étnica. Assim, como afirma Freyre (2000), o “[...] Brasil formou-se, despreocupados os seus colonizadores da unidade ou pureza de raça. Durante quase todo o século XVI, a colônia esteve escancarada a estrangeiros, só importando às autoridades coloniais que fossem de fé ou religião Católica” (p. 97).

44 “A singular predisposição do português para a colonização híbrida e escravocrata dos trópicos, explica- a em grande parte o seu passado étnico, ou antes, cultural, de povo indefinido entre a Europa e a África” ((FREYRE, 2000. p. 80).

45 Cristiana Bastos acrescenta que “Em outros termos, as possibilidades de a sociedade brasileira, em sua estrutura, extremar-se entre senhores e escravos foi contrariada pelos efeitos sociais da miscigenação, agindo esta no sentido de “democratização social” no Brasil” (BASTOS, 1999, p. 219).

Para além desse aspecto, a flexibilidade do português também se fazia sentir em sua singular relação sexual com povos de outras etnias. Isso se deve, segundo Freyre (2000), ao período de domínio mouro na península Ibérica, que proporcionou a miscigenação biológica e sociocultural entre o povo luso e árabes africanos. Assim, mesmo após a expulsão dos mouros da península, ficaria gravado no inconsciente coletivo e nas histórias populares as lendas como a da “moura encantada”, o que, na acepção do autor, explicaria uma suposta preferência do português por “mulheres morenas”, que facilitaria o intercurso sexual e social daqueles com os povos indígenas e, posteriormente, com os africanos, imprescindível para o processo de colonização do vasto território América portuguesa. Assim, em consonância com os interesses e necessidades da Coroa portuguesa, as autoridades religiosas passaram a legitimar e controlar as relações sexuais entre o homem luso e a mulher indígena, não se opondo de maneira radical à formação de famílias híbridas, que viriam a ser a base para a conquista e consolidação da hegemonia portuguesa deste quinhão do continente americano.46

Foi fora esta mesma unidade familiar responsável pela base de colonização empreendida no Brasil que se desenvolveu o que seria, segundo o autor, uma de suas maiores contradições econômicas e sociais: o latifúndio monocultor e escravocrata. Era sob a égide deste microssistema social que se concentravam todos os fatores necessários à vida na colônia.47 Um meio de produção voltado para a exportação de produtos

primários e especializado na plantação de um único item agrícola, o que fazia com que houvesse um verdadeiro desequilíbrio na distribuição de víveres essenciais necessários à subsistência de boa parte da população. Estaria aí, segundo Freyre, uma das explicações para o fato de haver forte presença de indivíduos doentes e com má formação física ou mesmo com limitações mentais. O autor nos chama atenção para interpretarmos estas mazelas como consequências cujas causas seriam sociais, ou, antes, econômicas.48 Isso porque era corrente, tanto no período em estudo quanto na contemporaneidade de Freyre, a explicação de tais fatores como provenientes da miscigenação dos lusos com raças

46 “Nossa verdadeira formação social se processa em 1532 em diante, tendo a família rural ou semi-rural por unidade, quer através de gente casada vinda do reino, quer das famílias aqui constituídas pela união de colonos com mulheres caboclas ou com moças órfãs ou mesmo à toa, mandadas vir de Portugal pelos padres casamenteiros” (FREYRE, 2000, p. 96).

47 “Vivo e absorvente órgão da formação social brasileira, a família colonial reuniu, sobre a base econômica da riqueza agrícola e do trabalho escravo, uma variedade de funções sociais e econômicas” (id. ibid.). 48 Aqui também se faz necessário enfatizar que tanto o negro como o branco, enquanto tipos sociais, são produzidos historicamente, e não a partir de pressupostos biológicos. Sobre isso nos alerta Cardoso (2013): “O senhor em si não seria parte permanente, natural, constitutiva da nação. Foi produzido por um sistema, o escravocrata, tanto quanto o negro, que se tornou escravo por força do processo social de dominação e não por ser portador de uma condição natural de inferioridade” (p. 104).

inferiores, o que produziria indivíduos doentes e improdutivos. Ao contrário, enfatiza o

autor

Muito da inferioridade física do brasileiro, em geral atribuída toda à raça, ou vaga e mulçunamente ao clima, deriva-se do mau aproveitamento dos nossos recursos naturais de nutrição. Os quais sem serem dos mais ricos, teriam dado para um regime alimentar mais variado e sadio que os seguidos pelos primeiros colonos e por seus descendentes, dentro da organização latifundiária e escravocrata (FREYRE, 2000, p. 105).

Plasticidade do caráter lusitano após anos de contatos com povos de outras etnias, religiosidade heterogênea, sexualidade diversificada, economia latifundiária monocultora: eis alguns dos elementos presentes nos primeiros anos de colonização do Brasil que, na acepção do autor, podem explicá-lo para além dos condicionantes raciais. Considera-se até hoje que esta foi uma inovadora abordagem à questão da miscigenação e da raça no Brasil, que tradicionalmente punha à frente determinantes biológicos, precisamente por colocar ênfase nas questões socioculturais – de uma forma claramente inspirada em autores como Franz Boas. Esse olhar diferenciado talvez tenha contribuído para que o autor pudesse reconhecer nos antagonismos presentes na sociedade brasileira um potencial cultural de convivência entre extremos.49 Era, portanto, uma sociedade baseada na perversidade da escravização de milhões de indivíduos que ao mesmo tempo poderia preservar relações de cumplicidade como as encontradas entre sádicos e masoquistas; no mandonismo político e conservador que separa doutores e analfabetos, ao mesmo tempo em que transforma uns em padrinhos protetores e outros em protegidos dependentes; e na imposição de uma tradição religiosa cristã sobre as demais, de origem africana e indígena, ao mesmo tempo em que promove um sincretismo que atinge tanto os católicos quanto as demais confissões religiosas.

Talvez em parte alguma se esteja verificando com igual liberalidade o encontro, a intercomunicação e até a fusão harmoniosa de tradições diversas, ou, antes, antagônicas de cultura, como no Brasil. É verdade que o vácuo entre extremos ainda é enorme; e deficiente a muitos respeitos a intercomunicação as duas tradições de cultura. Mas não se pode acusar de rígido, nem de falta de mobilidade vertical – como diria Sorokin – o regime brasileiro, em vários sentidos sociais um dos mais democráticos, flexíveis e plásticos (FREYRE, 2000, p. 123).

49 “Em vez de dura e seca, rangendo do esforço de adaptar-se a condições inteiramente estranhas, a cultura europeia se pôs em contato com a indígena, amaciada pelo óleo da mediação africana” (FREYRE, 2000, p. 124).

A este caráter “democratizante” da sociedade brasileira deve-se, segundo o autor, para além do caráter português, a pouca resistência encontrada na América portuguesa por parte de seus habitantes originais: os indígenas. Para Freyre, o estágio

cultural em que se encontravam estes povos, culturalmente pobres e primitivos na técnica, contribuiu para um contato menos conflituoso com os colonizadores. Ao

contrário do que ocorrera na América espanhola — em que civilizações indígenas mais avançadascomo os astecas e os incas imprimiram maior resistência ao domínio estrangeiro, tendo como consequências verdadeiras guerras de extermínio — na América portuguesa a plasticidade lusitana pôde amalgamar-se à cultura indígena de maneira híbrida, absorvendo desta os elementos necessários à sua adaptação aos trópicos.

Híbrida desde o início, a sociedade brasileira é de todas da América a que se constituiu mais harmoniosamente quanto às relações de raça: dentro de um ambiente quase de reciprocidade cultural que resultou no máximo de aproveitamento dos valores e experiências dos povos atrasados pelo adiantado; no máximo de contemporização da cultura adventícia pela nativa, da do conquistador com a do conquistado. Organizou-se uma sociedade cristã na superestrutura, com a mulher indígena recém batizada, por esposa e mãe de família; e servindo-se em sua economia e vida doméstica de muitas das tradições, experiências e utensílios da gente autóctone (FREYRE, 2000, p. 163).

Desde o início esta sociedade híbrida fora fruto da necessidade e da flexibilidade do colonizador, que devido à escassez de mulheres brancas, como dito acima, esteve em contato sexual com a população indígena, formando um tipo de família que nascia com um elemento cultural que influenciaria as primeiras gerações luso- brasileiras e que teria seus desdobramentos ao longo dos séculos: a mulher indígena. É dela que herdamos, segundo Freyre (2000), hábitos como o banho diário, a rede de dormir, os utensílios e as receitas culinárias, as crenças religiosas e os contos da floresta. Do homem indígena se valeu o colonizador para as tarefas de defesa e desbravamento do interior territorial, por causa do seu caráter nômade, voltado à caça e tradicionalmente guerreiro. Deste, segundo o autor, pouco se pode aproveitar para o desenvolvimento econômico da agricultura, atividade originalmente desenvolvida pelas mulheres. Mais à frente, esta característica serviria como motivação para a substituição da mão de obra indígena pela africana. Substituição da mulher indígena, inadaptada para a cozinha, e do homem indígena, inadaptado para o trabalho no campo (FREYRE, 2000, p. 167).

No entanto, Freyre (2000) nos alerta para as consequências negativas destes contatos iniciais para a cultura indígena. O autor não deixa de frisar o fato de que estes

povos originários, ao serem dominados por povos de culturas mais avançadas, perderem muito de sua autonomia e de seu potencial criador. Esse fenômeno sempre ocorreria “[...] ao juntar-se uma cultura, já adiantada, com outra atrasada” (FREYRE, 2000, p. 56). Além disso, o autor identifica o missionário católico, mais do que colonizador povoador, como a causa desta verdadeira “degradação moral”. Porém, apesar deste processo de dominação e destruição da cultura indígena, o autor procura identificar, na contemporaneidade, a sobrevivência ou a influência de alguns elementos culturais destes povos. Para Freyre (2000), além das características já citadas acima, pode-se notar tal influência inclusive como causa de conflitos e movimentos tidos como revolucionários ao longo dos séculos, que seriam de caráter “[...] antes de choques de cultura desiguais, ou antagônicas, do que cívico ou político” (p. 209). Assim, o autor refere-se, em acordo com Sílvio Romero, que os movimentos populares como a Balaiada, a Sabinada, a Cabanada e afins deveriam ser interpretados como sendo originários de povos com forte influência do espírito guerreiro indígena (caboclos, mamelucos), bem como fruto de concepções de propriedade, bens materiais, valores morais, ou mesmo sobre a condição da vida humana muito próprias destes povos (p. 210).

Desta feita, apesar de reconhecer o caráter degradante deste contato desigual de culturas,

Ainda assim o Brasil é dos países onde mais se tem salvo da cultura e dos valores nativos. O imperialismo português – o religioso dos padres, o econômico dos colonos – se desde o primeiro contato com a cultura indígena feriu-a de morte, não foi para abatê-la de repente, com a mesma fúria dos ingleses na América do Norte. Deu-lhe tempo de perpetuar-se em várias sobrevivências úteis ( p. 225-226).

Freyre (2000) contrapõe as características culturais e biológicas dos africanos vindos para o Brasil às da população indígena. Aqueles seriam, em muitos aspectos, superiores tanto aos habitantes originais das Américas quanto aos portugueses colonizadores. Com relação à comparação com os africanos, o autor enfatiza o uso de técnicas, ferramentas e engenharias que seriam mais avançadas que as utilizadas pelos colonizadores brancos. Para além disso, o negro africano seria biológica e psiquicamente predisposto à adaptação aos trópicos, por “Sua maior fertilidade nas regiões quentes. Seu gosto de sol. Sua energia sempre fresca e nova quando em contato com a floresta tropical” (p. 346).

Essa característica adaptativa teria seu desdobramento social a partir da formação de populações regionalmente diversas quanto ao caráter psicológico e ao humor, como se poderia perceber na introversão e na tristeza indígena, presente em piauienses, pernambucanos, paraibanos, em contraponto a extroversão, alegria e sociabilidade dos baianos, majoritariamente descendentes de africanos.50 Fora esta característica de extroversão do africano, que o teria transformado no “[...] maior e mais plástico colaborador do branco na obra de colonização agrária” e da “ação europeizante de negros quilombolas” (FREYRE, 2000, p. 348). Influência esta que seria fruto de determinados grupos sociais africanos, em especial os provenientes de regiões dominadas pelo islamismo, possuidores de conhecimentos científicos muitas vezes superiores aos da maioria dos colonizadores portugueses. Como exemplo, pode-se citar o alto índice de alfabetização encontrada em alguns escravizados, como se constatou no interior de senzalas, quilombos e mesmo em revoltas documentadas pelos próprios escravizados.51 “A formação brasileira foi beneficiada pelo melhor da cultura negra da África, absorvendo elementos por assim dizer de elite que faltaram na mesma proporção ao sul dos Estados Unidos” (FREYRE, 2000, p. 358).

Apesar destas características e influências culturais que contribuíram para o processo de colonização do território brasileiro, o referido estudioso atenta para o fato de que estes grupos sociais vindos do continente africano, a despeito de seu desenvolvimento social, psíquico e cultural, deveriam ser interpretados a partir de um pressuposto determinante: a condição de escravizados.52 Essa abordagem é de importância crucial

quando da necessidade de contrapor teorias que atribuíam à raça todas as atitudes negativas identificadas no comportamento dos africanos. Portanto, enfatiza Freyre (2000, p. 377), “Sempre que consideramos a influência do negro sobre a vida íntima do brasileiro, é a ação do escravo, e não a do negro por si, que apreciamos”.

50 “Lowie parece nos colocar a questão em seus verdadeiros termos. Como Franz Boas. Ele considera o fenômeno das diferenças mentais entre grupos humanos mais do ponto de vista da história cultural e do ambiente de cada um do que da hereditariedade ou do meio geográfico puro” (FREYRE, 2000. p. 356) 51 “O Abade Étiene revela-nos sobre o movimento malê da Bahia em 1835 aspectos que quase identificam esta suposta revolta de escravos com um desabafo ou erupção de cultura adiantada, oprimida por outra, menos nobre... É que nas senzalas da Bahia de 1835 havia talvez maior número de gente sabendo ler e escrever do que no alto das casas-grandes” (id., p. 357)

52 “O negro no Brasil, nas suas relações com cultura e com o tipo de sociedade que vem se desenvolvendo, deve ser considerado principalmente sob o critério da História social e econômica. Da antropologia cultural. Daí ser impossível – insistamos neste ponto – separá-lo da condição degradante de escravos, dentro da qual abaram-se nele muitas de suas melhores tendências criadoras e normais para acentuarem-se outras, artificiais e mórbidas... O negro foi patogênico, mas a serviço do branco; como parte irresponsável de um sistema articulado por outros” (id., p. 376-377).

No entanto, a despeito da degradação por que passaram os escravizados, a força da influência da cultura africana se faz sentir na vida sexual, religiosa e mesmo na linguagem da sociedade brasileira. Quanto a este último aspecto, “A força, ou antes, a potencialidade da cultura brasileira parece-nos residir toda na riqueza dos antagonismos equilibrados; o caso dos pronomes que sirva de exemplo” (FREYRE, 2000, p. 390). Esta influência esta que se deve ao contato íntimo entre brancos das casas grandes e negros das senzalas, havendo aí a distinção entre “[...] os escravos de trabalho agrícola e os do serviço doméstico – estes beneficiados por uma assistência moral e religiosa que muitas vezes faltava aos do eito” (id., p. 502).

Assim, a convivência entre escravizados e senhores no seio das casas grandes proporcionaria um ambiente de – a despeito da violência aí identificada – amalgamento de relações raciais e culturais que contribuiriam para o referido equilíbrio de

antagonismos53, que foi parcialmente quebrado na transição do modelo patriarcal rural

para a urbanização da sociedade brasileira,54 um processo em que a casa grande e a senzala foram substituídas pelo sobrado e pelo mocambo, abrindo espaço para um novo