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A escola sociológica francesa encontrou aqui, tal como ocorreu nas páginas do BCH, um espaço de ação reduzido. Em se tratando de uma revista visando o treinamento de futuros pesquisadores, nem todos antiquisants, grande parte de seus textos trazia a público edições de manuscritos inéditos, bem como apresentações de objetos e de inscrições epigráficas encontradas em escavações ou em acervos de museus/coleções locais. Por certo, tal ciência poderia se infiltrar em artigos mais alentados, de síntese, visando fornecer novas chaves analíticas para tratar de um ou outro tema relacionado aos estudos latinos. O intrigante, no caso específico dos MAH, é a completa ausência de referências aos trabalhos dos integrantes da equipe do AS. Tal fato é ainda mais intrigante uma vez que os durkheimianos citaram e resenharam, como foi visto no subcapítulo 1.1, contribuições publicadas na revista da EFR.

Uma explicação para tal fenômeno reside no plano secundário que a referida publicação dedicava aos campos de investigação mais caros aos sociólogos, a saber, a religião,

22 A presente tese não tem condições de discutir tais contextos particulares com a devida atenção.

Remeto, para uma primeira visão geral das particularidades dos sistemas de ensino francês, britânico e alemão, às discussões publicadas em The Rise of Modern Educational System (MÜLLER; RINGER; SIMON, 1989), bem como à entrevista que realizei com Jean Bollack (veja-se o anexo da presente tese).

103 o direito e, em menor escala, a economia. Não que possíveis pontes não existissem. Por exemplo, um número significativo de trabalhos sobre cultos pagãos e cristãos na Antiguidade foi publicado nos MAH, mas os autores aos quais se fazia então menção eram, salvo raras exceções, Ernest Renan, Salomon Reinach e Franz Cumont23. Tratavam-se de figuras bem conhecidas dos antiquisants franceses, mas que estavam longe de representar a totalidade de correntes trabalhando sobre a religião. As abordagens mais comuns no que tange à religião antiga eram duas: ou a descrição/transcrição, acompanhada de comentários, de inscrições ou lugares de culto antigos; ou a história institucional da Igreja Católica, tal como praticada por ninguém menos que o diretor da escola, Louis Duchesne. O mesmo silêncio se impôs ainda quanto às demais dimensões da vida social caras aos sociólogos, a jurídica e a econômica. No caso específico dos juristas, a maior parte dos textos de maior fôlego sobre o direito romano vieram da pena de Adhémar Esmein e foram publicados muito antes do lançamento do AS24. Já quanto aos pesquisadores interessados na história econômica do mundo antigo, os diálogos ocasionais se travaram mais com os historiadores e sociólogos alemães25.

Outra possível explicação para a ausência de diálogo vem da falta de engajamento dos próprios durkheimianos. É bem verdade que nenhum latinista participou da equipe que animou a primeira série do AS. O jurista Paul Huvelin foi quem mais se aproximou desse domínio com seus trabalhos sobre as relações entre direito e religião na Roma Antiga, mas sem sensibilizar os colaboradores dos MAH, algo que ele havia conseguido no contexto do BCH e da EFR. Ter-se-ia assim de esperar pela segunda séria da revista dos sociólogos para que um dos latinistas provenientes dos antigos quadros da EFR, André Piganiol, cerrasse fileiras com eles.

As duas explicações não são, porém, excludentes. O problema todo remete, mais uma vez, à posição estrutural do latim no sistema de ensino francês. Tudo se passa como se a abertura menor dos estudos latinos às novidades científicas inibisse, ao menos até a Primeira Guerra Mundial, o aparecimento de vanguardas organizadas na área. Os diálogos com a sociologia marcaram assim os escritos de um ou outro latinista isolado, em particular Gustave Bloch e Camille Jullian. Nesses casos, porém, os diálogos positivos e negativos ocorreram mais tarde, transparecendo apenas em um ou outro de seus escritos26.

23 Veja-se, por exemplo, MAH, 1902: 23-68; 1909: 239-268 e 1920: 63-143. 24 Cf. os textos citados na nota 16.

25 No âmbito dos MAH, por exemplo, Max Weber, em função de seus trabalhos sobre a propriedade

rural em Roma, foi citado já em 1905 por Jérôme Carcopino. Veja-se MAH, 1905: 33. Nas páginas do AS, Weber teve seu nome mencionado pela primeira vez apenas um ano mais tarde (AS, 1906: 471).

26 Quanto às relações, pontuadas de episódios conflituosos, entre Jullian e os sociólogos durkheimianos,

104

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Dois pesquisadores ligados ao AS tiveram suas trajetórias marcadas pela passagem na EFR – e, consequentemente, pela contribuição aos MAH. Ainda assim, o que só reforça o que acaba de ser afirmado, nenhum deles possuía a formação ou seguiu carreira de latinista.

Em ordem cronológica, o primeiro sociólogo a estagiar em Roma foi Georges Bourgin. Nascido na Nevers de 1879, ele ingressou na EFR por intermédio da École des Chartes. Bourgin permaneceu em Roma apenas um ano, chegando no segundo semestre de 1903 e partindo em meados de 1904. Sua contribuição ao AS teve início no ano seguinte ao de seu retorno à França, ainda que os primeiros contatos com os sociólogos tenham sido certamente anteriores a essa data. Seu irmão mais velho, Hubert Bourgin, já integrava a equipe do AS desde 1901. Ele também pode ter tido contato com Marcel Mauss e Henri Hubert nas salas de aula e nos corredores da EPHE, por ele frequentados no momento em que os dois sociólogos aí iniciavam suas atividades docentes (1901-1903).

Suas atividades em Roma se concentraram em pesquisas junto à biblioteca do Vaticano, mapeando manuscritos que vão do início do século XV ao início do XIX. Na revista da escola, até 1920, ele publicou um total de oito artigos, todos apresentando ao público letrado textos raros seguidos de comentários. O primeiro deles, Un document sur la Bibliothèque de Sainte-Croix de Jérusalem en 1810 (MAH, 1904: 13-16), é típico nessa direção. Trata-se da transcrição de um manuscrito italiano datado do início do século XIX no qual se discrimina em detalhes o acervo de uma importante biblioteca católica em Jerusalém, incorporada pelo Vaticano em 1875. Embora alguns de seus artigos tratem dos quadros da Igreja Católica (MAH, 1904: 277-319), ou ainda da história regional de Midi francês (MAH, 1904: 35-64), a maior parte deles evoca episódios ocorridos na França e na Itália durante o Império napoleônico. Em Pour deux sonnets (1813), por exemplo, Bourgin apresenta ao público poemas satíricos compostos por um prelado expulso de Roma por ter se recusado a pregar sermões exigidos por autoridades francesas (BCH, 1908: 337-339). E os exemplos nessa direção poderiam ser ainda multiplicados27. Se houve alguma influência da sociologia nesses textos, ela não é explicitada pelo autor.

O retorno rápido de Georges Bourgin à França se deveu a um posto vacante nos Archives Nationales, o qual lhe foi ofertado ainda em 1904. Uma vez instalado em Paris, ele iniciou sua colaboração com o grupo do AS, do qual não mais se distanciou. Bourgin também esteve ligado, como seu irmão e muitos de seus colegas sociólogos, às correntes socialistas próximas de Jean Jaurès, Léon Blum e Lucien Herr (FRANÇOIS, 1959).

105 O outro durkheimiano que frequentou a EFR o oà e oàefetivo àfoi Jean Marx. Nascido em Paris, cinco anos depois de Georges Bourgin, ele seguiu o mesmo caminho de seu precursor em Roma: a EPHE e a École des Chartes (1909-1912). Foi na primeira instituição que ele travou contato com Mauss, Hubert e um antigo aluno de Meillet muito próximo aos sociólogos, Joseph Vendryes. As cartas que Marx enviou aos sociólogos, conservadas nos Fonds Mauss-Hubert e Meillet do Institut Mémoires de l’Édition Contemporaine (IMEC), mostram o quanto ele já estava próximo deles antes mesmo de partir para a Itália. Em julho de 1912, ele endereçou uma carta a Mauss para lhe pedir dicas de Londres, onde realizaria um estágio com recursos da EPHE na British Library28. Sua contribuição ao AS teve início logo depois do retorno da Inglaterra, como testemunha a carta de 29 de agosto do mesmo ano, na qual questiona Hubert sobre os livros que lhe serão endereçados para a preparação de resenhas29. Por fim, em outubro de 1912, poucos dias antes de partir para a Itália, Marx aceitou trabalhar com Hubert em paralelo às suas atividades na EFR acerca de um ciclo mitológico celta. Em suas palavras:

Eu refleti bastante sobre nossa conversa ocorrida no mês de julho e eu reconheço estar muito tentado pela perspectiva de um trabalho ao vosso lado e sob vossa direção. Mas, por outro lado, será praticamente impossível para mim assumir como tema de um trabalho de Roma um tema pré-histórico, e eu não poderei trabalhar sobre esse domínio, por agora, que paralelamente. É verdade que não há talvez urgência no caso, pois eu estarei retido no exterior ao menos por dois anos. Em todo caso, eu não saberia vos dizer o quanto fiquei sensibilizado com vossa confiança e com vossa simpatia: permita-me dizer que eu vos sou muito grato. Eu espero continuar meu trabalho sobre Finn na Itália, ao lado de minhas tarefas de medievalista propriamente dito. Eu estou levando para lá livros e algo para exercitar o irlandês. Talvez eu tenha o prazer de vos encontrar em Roma nesse inverno ou nessa primavera. Em todo caso, caso não tenhais retornado a Paris até o fim do mês, eu vos encontrarei sem dúvida quando eu mesmo retornar à França, sem dúvida no final de janeiro30.

Em sua estada em Roma, interrompida em 1915 pela Primeira Guerra Mundial, Jean Marx trabalhou sobretudo com arquivos relativos ao medievo italiano. Na revista da EFR ele publicou apenas dois artigos. O primeiro deles, Les Registres de Bannis à Pérouse au XIIIe Siècle, dis uteà detalhesài te essa tesàdaàvidaàp ivadaàdeàu aàg a deà idadeàdaàIt liaà e t al àaàpa ti à dos registros de ostracismo de uma comuna italiana (MAH, 1914: 369-381). O segundo texto,

28 Cf. as cartas datadas de 10 de julho e de 14 de julho de 1912, pertencentes aos arquivos do IMEC-

Caen, Fonds Mauss-Hubert (MAS 8.71).

29 Veja-se a referida carta nos arquivos IMEC-Caen, Fonds Mauss-Hubert (MAS 50). Vale lembrar que a

maior parte das resenhas destinadas a Marx dizia respeito à religião grega, tal como mostra a tabela 1.1.12, apresentada no subcapítulo 1.1 da presente tese.

30 Carta data de 10 de outubro, certamente postada em 1912. Cf., nos arquivos IMEC-Caen, Fonds

106 Quat e Docu e ts elatifs à Guillau e D’Estouteville, reproduz registros escritos em latim que es la e e àaàpassage àdoà a dealàGuillau eàd Estouteville,àa e is oàdeà‘oue ,à aà‘o aàdeà metade do século XV. Ainda que naquele artigo se discuta aspectos da sociedade medieval italiana, nenhuma alusão explícita à sociologia é feita.

Note-se ainda que o vínculo com a EFR e o período em Roma não fez com que Jean Marx perdesse o contato com os sociólogos. Poupado das trincheiras, ele permaneceu na Itália até o final da Guerra atuando junto ao serviço diplomático francês. Como a esposa (alemã) e o filho de Henri Hubert aí permaneceram durante o conflito, Marx pode visitá-los e enviou relatos desses encontros ao seu orientador31. Mesmo defendendo na sequência uma tese sobre a organização do estado pontificial nos séculos XII e XIII, Marx dedicou boa parte de sua produção intelectual ao estudo das mitologias celta e germânica. Anos depois, já como especialista nesses temas, ele pôde substituir Hubert na EPHE, primeiro como suplente (1924- 1927) e, após a morte deste, como professor efetivo. Em paralelo às suas atividades docentes, ele ainda ocupou um posto permanente no Ministère des Affaires Étrangères.

Embora não se tratasse de antiquisants, a presença de Jean Marx e de Georges Bourgin nas páginas dos MAH ilustram a dificuldade de se realizar nos quadros da EFR um trabalho em sintonia com a agenda dos sociólogos durkheimianos. Ambos já mantinham, direta ou indiretamente, contato com o grupo em torno do AS e, no entanto, não puderam transferir essas relações e os interesses que elas supõem para o solo italiano (ao menos não de maneira direta, como ilustra o caso de Marx). É bem verdade que os temas de suas pesquisas romanas os ajudaram pouco quanto a isso.

Uma acolhida completamente diferente foi reservada aos sociólogos no seio da Associatio pou l’E cou agement des Études Grecques en France e de sua revista, a Revue des Études Grecques. É isso se será discutido no próximo subcapítulo.

31 É o que testemunham as cartas de Marx endereçadas a Hubert e datadas de 20 de abril e de 9 de

107 Na realidade, nós não podemos nos enganar quanto à necessidade do progresso. No geral, no domínio da ciência ou da crítica, a imobilidade não é possível. Elas vivem apenas graças a uma renovação perpétua de sua matéria e de suas formas, sendo necessário que os órgãos com os quais elas se comunicam com o público estejam em condições de segui-las. A Associação, no campo específico que escolheu, não escapa a esta lei. Ela arriscaria manter-se aquém de sua tarefa se mantivesse intactos seus primeiros esforços. Quais não são hoje, de fato, a atividade e a abrangência dos estudos e dos trabalhos que se relacionam à Grécia? E qual é hoje o significado da palavra

helenismo, a qual resume em si os objetivos múltiplos de nossas

ocupações?

O helenismo é a tradição piedosa e viva do passado, é o espírito da Grécia Antiga preservado por sua literatura e por suas artes, animando a Grécia Moderna, garantindo a ela seu lugar no mundo e iluminando todas as nações civilizadas; é o laço de reconhecimento que as une a ela; é o sentimento que suscita esforços cada vez mais ativos, seja para descobrir e compreender os restos da antiguidade helênica, seja para propagar o conhecimento de sua língua, de sua história e de suaà ivilização.

Jules Girard

(A Nos Lecteurs, em REG, 1888, p. 3-4)

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REVUE