Outro aspecto a ser considerado é o ponto de vista de enunciação, ou seja, a posição assumida pelo eu-poético ao representar o negro. Partiremos da concepção de sujeito
iluminista30, formulada por Stuart Hall (1999). Consideremos primeiramente que o sujeito
humano é antes de tudo uma estrutura discursiva. Em certa medida, o sujeito iluminista possui apoio na tradição e nas estruturas, o que aponta para sólidas localizações como indivíduos sociais, ou seja, um “sentido estável” das identidades. Como resultado, o sujeito revela-se humanamente centrado em si, unificado, “dotado de capacidade de razão e consciência, cujo
‘centro’ consistia um núcleo interior que emergia pela primeira vez quando o sujeito nascia e com ele se desenvolvia, ainda que permanecendo essencialmente o mesmo – contínuo ou ‘idêntico’ – ao longo [de sua] existência” (Hall, 1999, p. 11). As palavras de Hall permitem- nos inferir que Castro Alves, por um lado, foi consciência possível para a época, ou seja, avançadíssima para um momento em que o negro aparecia em nossas letras majoritariamente de forma negativa; por outro lado, podemos perceber que há uma certa distância do poeta ao representar o negro. Por mais que mereça méritos por humanizar o cativo, o poeta ainda recai na fixidez do um escrever o outro, postura bastante recorrente na tradição literária brasileira. “Quase todos os poemas referem-se ao negro na terceira pessoa” (Bernd, s/d, p. 58): o negro desdobra-se em “escravo”, “cativo”, entre outras denominações que fixam a alteridade enquanto somente alteridade. O poeta baiano representa o negro a partir de sua experiência, a partir da casa-grande. Falta-lhe, obviamente, a condição subjetiva afro-descendente para que fizesse literatura afro-brasileira. Por outro lado, não havia um horizonte de recepção dos textos que fosse negro, isto é, os textos sobre os negros eram lidos na sua maioria por/para brancos. A linguagem, por sua vez, ainda é a do dominador, ou seja, não predominam torções, sincretismos e negociações lingüísticas próprias do repertório lexical dos então escravos. O ponto de vista é externo ao negro. Pensamos, pois, que Alves merece todos os méritos por tudo o que fez em favor dos descendentes de África; o autor não realizou, porém, literatura afro-brasileira. Aos nossos olhos, o negro visto de fora para dentro figura ainda como objeto
literário. Este julgamento é ratificado por parte da crítica literária. A diferença é que a fortuna crítica encontrada pouco detalha e exemplifica as razões pelas quais Alves é criticado.
Oswaldo de Camargo, por exemplo, afirma que Castro Alves representa o negro “à distância” (Camargo, 1987, p. 219-220). Opinião, em certa medida, partilhada também por Domício Proença Filho. Este afirma que, para representar o cativo, Alves vale-se de
visão distanciada em textos em que o negro ou o descendente de escravos reconhecido como tal é personagem, ou em que aspectos ligados à existência do negro na realidade histórico-cultural do Brasil se tornam assunto ou tema. Envolve, entretanto, procedimentos que, com poucas exceções, indicam ideologias, atitudes e estereótipos da estética branca dominante (Proença Filho, 2004, p. 165).
Outro que tece crítica ao poeta condoreiro é Mário de Andrade: “Castro Alves jamais ergue os escravos até sua altura, nem abaixa até seus irmãos inferiores. A África não é uma grandeza diferente, é uma infelicidade” (Andrade, s/d, p. 111). Sentimos falta, entretanto, de mais fôlego e exemplos por parte do ensaio do ícone Modernista.
Num tom mais radical do que Mário de Andrade e em certo sentido anacrônico - pois pouco destaca os méritos do escritor baiano em meados do séeculo XIX - Raymond Sayers declara:
esse ciclo negróide seria a expressão de um romantismo de mistificação, que encobria os aspectos reais do problema sob a roupagem de um sentimentalismo doentio, sadomasoquista, em que a piedade que despertava era outra metade, o pólo oposto de um sadismo negrocida e sem precedentes (Sayers, 1958, p. 221).
Somos da opinião de que Alves colocou seu leitor em contato antes com uma vibração social em grande medida a serviço da liberdade e da dignidade da condição humana, com a denúncia dramática da escravidão negra, mesmo apresentando suas idiossincrasias. O leitor é convidado, por exemplo, a descer à senzala e conhecer o terrível drama do ser humano que lá se encerra. Cremos que este fragmento do poema “Tragédia no lar” seja um bom exemplo:
Na senzala, úmida, estreita, brilha a chama da candeia no sapé se esgueira o vento. E a luz da fogueira ateia. (...)
Vinde ver como rasgam-se as entranhas De uma raça de novos Prometeus, Ai, vamos ver guilhotinadas almas Da senzala nos vivos mausoléus (...)
A porta da fazenda foi aberta Entraram no salão
Por que tremes mulher? A noite é calma, Um bulício remoto agita a palma Do vasto coqueiral.
(...)
Leitor, se não tens desprezo de vir descer às senzalas (...)
_ Dá-me teu filho! repetiu fremente O senhor de sobr’olho carregado. _Impossível!...
_Que dizes, miserável?!
_Perdão, senhor! Perdão! Meu filho dorme... Inda há pouco o embalei, pobre inocente, Que nem sequer pressente
Que ides...
_ Sim, que o vou vender!
_Vender? !... Vender meu filho?! (Alves, op. cit., p. 134)
O poeta apresenta ao leitor a vida do cativo, negro ou mestiço, sujeito à crueldade dos senhores. Entretanto, o eu-poético é, em certa medida, um voyeur. Enuncia de fora, ou seja, mostrando quais, segundo sua visão, teriam sido as reações da escrava. Não há um “eu”, um “nós” que identifique o poeta com o escravo, até porque as condições existenciais eram distintas e fixadas; as posições no estamento social, rígidas. Não há marcas que elevem o escravo à altura do poeta. Nessa mesma linha de raciocínio, situemos novamente “O navio negreiro”, datado de 1968, quase 20 anos depois da promulgação da Lei Eusébio de Queirós, que proibiu o tráfico de escravos para o Brasil. A proibição não vingou de todo e isso fez Castro Alves se empenhar na luta contra o horror a que eram submetidos os negros na cruel travessia oceânica. É preciso lembrar que por vezes menos da metade dos escravos embarcados em navios negreiros completava a viagem com vida31. Recorde-se também que a
câmera poética, na parte 1, está distante e que se aproxima do tombadilho do navio no decorrer do poema narrativo, embora não se introjete na pele do escravo, para que ele mesmo, a partir de sua condição, fizesse uso da palavra. Fora preciso que a literatura de tese condoreira enunciasse o/pelo escravo, de maneira distante, ou melhor, que os poemas concedessem voz ao personagem cativo. Mas ele tinha por traz de si uma consciência criadora branca, uma experiência branca, uma subjetividade branca e exterior. Cuti, após reconhcer os méritos do autor baiano, já na década de 1980, apontava como ponto negativo de Alves o discurso de
fora: “não é preciso elaborar exegese na obra de Castro Alves para que se perceba tratar de um branco falando de negro para outro branco – considerando evidentemente os textos onde o escravo é o tema” (Cuti, In Alves et al, 1987, p. 152). Reflexão semelhante à de Cuti também
31 cf. ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul, séculos XVI e XVII. São
se encontra em Luís Santa Cruz. Segundo ele, “o grande poeta revolucionário do negro brasileiro seria um branco” (Cruz, In Camargo, 1987, p. 46). Foi todavia como poeta branco que Alves utilizou a temática da escravidão. Poeta social das senzalas e dos navios negreiros, celebrou a ambos com sua linguagem de homem branco, de influências francesas, com ritmo hugoano, de maneira alguma afro-brasileiro.