Part I: Theoretical foundation
Step 1 Build the team
5 Engineer-to-order
5.2 Characteristics of ETO companies
O processo de substituição dos frequentadores do Paulicéia, como dito pelo Sr. Generoso, passando dos pioneiros construtores aos pioneiros moradores, reforça essa proximidade com alguma boêmia, particularmente no sentido de que a boêmia é mais que um fenômeno isolado do século XIX, de migração de proletários e intelectuais para os novos centros urbanos. A boêmia remete ao próprio processo
civilizatório de controle de pulsões e ao mesmo tempo de criação de utopias. (ELIAS, apud ZOLBERG, 1985). O movimento romântico, de onde brotou a boêmia, encontra nos bares um excelente espaço de socialização de suas propostas.
Todavia, não se podem tomar os bares pesquisados para se pensar uma cultura de boêmia, seja em seu sentido histórico ou sociológico. À ambiência desses bares faltam o beber solitário, a música, os saraus, a figura do indivíduo doentio que os românticos, precursores da boêmia perscrutaram. Os bares pesquisados se estabeleceram como lugar de ajuntamento, antes que no isolamento do indivíduo que as boêmias representam. Talvez em algum sentido se possa pensar em novas formas de boêmia se desenvolvendo. Ademais, é fundamental a relação entre boêmia e bar para a afirmação deste como espaço de lazer e ocupação do tempo livre. (GONZALEZ, 1986).
Construir vida social em Brasília, nos inícios da cidade se apresentava senão como utopia, no mínimo um desafio. Embora o projeto original desse ênfase aos espaços de lazer como lugar de sociabilidade e produção de ajuntamentos, os equipamentos e setores destinados ao lazer eram insatisfatórios, quando não inexistentes. Sr. Generoso, sua família e sua verve de negociante apostaram no bar como empresa de trabalho para o lazer. Espalhando mesas e cadeiras sob as árvores, Sr. Generoso espera, desde 1970, para “uma cerveja geladinha”, seus “utopistas” pioneiros moradores de Brasília, seus “ilustres frequentadores”96.
O surgimento, crescimento e cristalização dos bares em Brasília é, em grande parte, resultado dos esforços de seus proprietários e das condições encontradas para o estabelecimento do negócio. Nesses anos de funcionamento, Sr.
Generoso vem realizando uma série de “ajustes e acordos” para manter-se no mercado, às vezes até contra sua vontade, contra suas pulsões. Marcela Benet (2012) na reportagem que produziu para a revista Meia Um informa que:
A grande inovação (do Paulicéia) foi há 25 anos, quando passou a servir a comida, no horário do almoço, no sistema self-service. Um esquema que realmente não agrada muito ao proprietário, mas que não prejudica a boa fama do lugar. Deve ser a maneira como os donos encontraram para se manter no mercado há tanto tempo.
96 Embora Sr. Generoso se encontre nesse estabelecimento desde 1966, somente a partir dos anos 1970 é que o negócio passa a ser administrado por ele. A partir desse momento, o bar muda o nome, passando de bar do Raul, para bar Paulicéia.
Afinal, não é fácil manter um bar aberto durante 46 anos, e sempre lotado. (BENET, 2012: 56).
Planaltino, proprietário do Paixão, adquiriu seu bar em situação inusitada.
Quando o antigo proprietário do Paixão, Sêo César, faleceu, o negócio do bar pareceu que estaria encerrado. Esse antigo proprietário administrava o bar sozinho. Quando faleceu, sua esposa comunicou a Planaltino, que à época era funcionário do
Paixão, o fechamento do comércio. Planaltino, contudo, se interessou por continuar
os negócios e propôs parceria com a viúva. A parceria foi estabelecida. Planaltino, de funcionário, passa a sócio-proprietário. Mas em menos de seis meses, sua sócia, a esposa do falecido Sêo César, lhe comunica que não há mais interesse em continuar no negócio.
Planaltino conhecia os filhos de Sêo César, conhecia a família de seu
antigo empregador. Os três filhos de Sêo César estudaram e foram preparados, pelo pai e pela mãe, para serem outras coisas na vida: uma formara-se psicóloga, outra médica e o outro, advogado. Os três moravam fora da cidade. A viúva de Sêo César, considerando a situação de Planaltino e do bar Paixão, abriu mão da sociedade. Com aprovação da família, passou os negócios do Paixão para Planaltino de forma bastante “amigável”, com facilidades para o comprador. A família do falecido Sêo
Cesar, segundo Planaltino, não precisava do bar. Eles possuíam novas perspectivas
de vida e fonte de renda que não incluíam o estabelecimento.
Em vida, Sêo César, proprietário dedicado ao seu negócio, estabeleceu uma interação lúdica não somente com os frequentadores de seu bar, mas com toda a cidade de Brasília. A atividade que exerceu com suas “faixas cáusticas”, abordando o universo da política e da cultura, apresenta um proprietário lúcido, enérgico, mas sobretudo brincalhão. Prefaciando o livro Brasil enfaixado: o humor
cáustico de Cesar Abreu (s/d.), o jornalista Ari Cunha assim descreve esse
negociante:
Comerciante, desabrido, talvez seja quem mais tenha recebido fiscais em seu estabelecimento. Ele paga tudo em ordem, mas não abre mão do direito que lhe assiste, pelo menos em protestar. Não toca fogo na rua, mas na testada de sua casa, quem for podre que se quebre. Poucos acompanham a mundialização dos costumes, o comportamento da sociedade, ou a marcha contra a corrupção. Hoje, sua casa virou atração, e muita gente prefere dar uma voltinha pela 216 Comercial Norte, pelo menos para saber o que há de novidade, e onde a coisa está pegando.
De repente, um dono de armazém ficou famoso na cidade, pela maneira como trata as autoridades. Com ele não tem conversa. Escreveu não leu, tome pau. Mas Cesar não tem fígado inflamado. Ele é cruel na expressão de suas opiniões, mas não deixa de manter fair-play, o humor, embora cáustico como uma lata de soda. (CUNHA, s/d: 5-6).
O comportamento de Sêo Cesar mostra como o bar, em muitos casos, participa da vida política e cultural de uma cidade. Como informa o jornalista Ari Cunha, a relação desse bar com a lei, com a fiscalização sempre foi tensa, conflituosa. Com a ordem social da vizinhança e da cidade contudo, uma interação de fair-play, sem “fígado inflamado”. Assim, “sua casa virou atração, e muita gente prefere dar uma voltinha pela 216 Comercial Norte, pelo menos para saber o que há de novidade, e onde a coisa está pegando”. No caso do bar Paixão, a rua vira casa, e seu proprietário, o ator em cena trazendo as novidades.
O bar Paixão não exibe mais as “faixas cáusticas”, mas Planaltino, novo proprietário, mantém vivo o humor no trato com seus frequentadores, funcionários e vizinhança. A seu modo, ele conserva parte do trabalho e da memória do antigo proprietário. Com Sêo Cesar ele aprendeu a ser austero, porém bem-humorado. Em conversas, muitas vezes Planaltino se referiu ao ensinamento das tarefas do bar para seus funcionários, usando a “metodologia” que Sêo Cesar lhe aplicou. Tem dado certo, o Paixão mantém-se como espaço de lazer e sociabilidade na Comercial da 216 Norte há 21 anos; sob nova direção já são sete anos97.
97 Planaltino, atual proprietário do Paixão, conserva parte das faixas produzidas pelo Sêo Cesar preservadas em sua residência; também possui alguns números dos três livretos publicados por César Abreu com as “faixas cáusticas”. Ainda segundo Planaltino, a viúva de Sêo César guarda um enorme acervo dessas “faixas cáusticas” em sua residência, contudo, conforme ele, a viúva reluta em apresentar esse material, devido a “questões sentimentais”.
2.4.2 Funcionários