3. Results/discussion
3.2 Characteristics of aqueous exposure
Dessa forma, para apreender os Complexos Familiares, o primeiro deles que Lacan explicita é o Complexo de Desmame, considerado o mais primitivo do psiquismo humano. Sua atribuição é a de fixar a experiência da relação de amamentação, uma dependência conseqüente das necessidades de sobrevivência do bebê que “representa a forma primordial da imago materna, fundando os sentimentos mais arcaicos e estáveis que unem o indivíduo à sua família.” (1938/2003, p. 36).
Considerando as características modais do discurso freiriano, pensei em estabelecer como Primeira Modalização da Linguagem de Freire aquela fala oriunda das primeiras simbolizações de mundo na relação com os não-eus pessoais, relacionando-as aos interesses afetivos de processos identificatórios do sujeito Freire com o seu círculo de convivência próximo – desde o acolhimento dos pais; a juventude, a luta de Edeltrudes para educá-lo sozinha; as lembranças deixadas por professoras que Freire afirma que o respeitaram na sua maneira de relacionar coisas, palavras e o mundo simbolizados pela escrita; os irmãos e amigos, com quem partilhou suas experiências adolescentes de solidariedade, exigidas pela vida difícil. Todo esse processo demonstra claramente a presença do núcleo familiar e aponta o Freire “falante”, que lia o mundo protegido de sua malvadez.
[...] pois os meus não-eus pessoais foram meus pais, minha irmã, meus irmãos, minha avó, minhas tias e Dadá, uma bem-amada mãe negra que, menina ainda, se juntara à família nos fins do século passado. Foi com esses diferentes não-eus que me constituí como eu. Eu fazedor de coisas, eu pensante, eu falante.(FREIRE, 2003e, p. 24, grifos meus).
Baseando no contexto desse escrito e em demais textos da obra, abstraí o elenco de modais, de pertença ao grupo, estar com os próximos, os quais estabelecem uma conexão amistosa que remete minhas observações à ligação ao seio materno –o lugar da proteção, da união mãe-filho referidos na primeira modalização.
Como modais, destacam-se: amorosidade / amor / desamados / amados /; nós/ juntos/; encontro/ desencontro/; amigos / amizade / diálogo/ humanização/; com / comunhão.
O complexo de desmame e seus sinais poderão ser percebidos na aproximação com a primeira modalização da linguagem que marca Freire intensamente em sua trajetória. Posso caracterizar esse assinalamento perceptível na relação com outro que evidencia sua manifestação na permanente aproximação do educador com os educandos, com a professorinha, com os amigos. Percebe-se sempre uma “par-ceria” que é um par e lembra o acolhimento, a conexão. Por isso, as falas dos demais em sua vida representam um forte indicador para a constituição de seus atos dialógicos, de falar o mundo com:
Conhecer, que é sempre um processo, supõe uma situação dialógica. Não há estritamente falando um “eu penso”, mas um nós pensamos”. Não é o “eu penso” o que constitui o “nós pensamos”, mas, pelo contrário, é o “nós pensamos” que me faz possível pensar. (FREIRE, 2002b, p. 101, grifos meus)
O complexo de desmame, quero reforçar, estabelece a relação de vínculos afetivos da imago materna, a ligação com o seio e volta ao corpo único mãe-filho. Pode-se perceber sua manifestação nas reações do sujeito quando busca a unidade com os mais próximos, o fortalecimento dos laços amistosos, a busca de uma relação ideal, a ênfase na comunhão entre pessoas de um grupo.
Freire busca elementos teóricos para legitimar essas idéias-força a partir do personalismo de Mounier, em que é enfatizada a valorização da alteridade:
Pela experiência interior, a pessoa surge-nos como uma presença voltada para o mundo e para as outras pessoas [...] não existe senão para os outros,
não se encontra senão nos outros [...] A experiência primitiva da pessoa é a experiência da segunda pessoa. (MOUNIER, 1973, p. 63).
A presença do outro, próximo àquele com quem se tece uma relação de acolhimento sugere pensar complexos, imagos e crenças e a relação com a família, em conseqüência dos processos psíquicos estabelecidos desde a fase infantil ao adulto que os vivencia. Dentre os três tipos de Complexos Familiares, o Complexo de desmame recupera uma representação da imago do seio materno, que liga mãe com filho corporeamente e domina toda a vida do sujeito.
A partir do discurso de Freire, percebo essa manifestação pela busca de um espaço do encontro, do nós, idéia presente nos seus escritos: “os homens se libertam em comunhão”. Por outro lado, a idéia de par institui também o diálogo de afeto com a professorinha, a interação educacional acolhedora e as amizades que prezou e cita em sua narrativa biográfica, compondo representações ideais que lembram a imagem do acolhimento.
No texto inicial de À sombra desta mangueira (2003e), no subtítulo Solidão- comunhão, sinaliza para alguns modais da relação de ligação que sempre acompanha Freire entre o só e o com, no qual, o com é dominante e sintonizado com a idéia do Complexo de Desmame. Percebe-se o quanto esse com foi marcante na construção da teoria que Freire pensou, especialmente, no que se refere à relação eu-outro.
Vir, com a insistência com que o faço, experimentar a solidão enfatiza em mim a necessidade da comunhão. Enquanto adverbialmente só é que percebo a substantividade de estar com. É interessante pensar agora o quanto sempre me foi importante, indispensável mesmo, estar com. Estar só tem sido ao longo de minha vida uma forma de estar com. Nunca me recolho como quem tem medo de companhia, como quem se basta a si mesmo, ou como quem se acha uma estranheza no mundo. (2003e, p. 17, grifos nossos).
Vale aqui retomar Lacan para ressaltar que o Complexo de Desmame passa a uma etapa sublimada no sujeito e continua a desempenhar um papel psíquico na sua vida. Após sua sublimação72 na infância, virão novas relações que se introduzirão pelo grupo social, interagindo com novos complexos do psiquismo (LACAN, 2003, p. 41).
72 Cf. (CHEMAMA, 1995, p. 207) O conceito de sublimação pode ser entendido a partir da pulsão. “O objetivo
da pulsão é a satisfação. A capacidade de sublimação que envolve a mudança do objeto permite, portanto, a passagem para uma satisfação diferente da sexual. Satisfação que não é menos “aparentada psiquicamente” com
Assim sendo e se transposto ao caso de Freire, é num circuito imaginário que Freire tece a relação dele com o outro e marca a emblemática procura da comunhão para unir homens e mulheres a seus objetivos de luta por cidadania.
Seguindo o eixo desse pensamento, as pessoas com quem Freire estabelece vínculos são os outros da semelhança com quem ele procura fazer o laço, o elo que se estabelece numa lógica da fraternidade “Não posso ser, se os outros não são; sobretudo não posso ser, se proíbo que os outros sejam.” (2003e, p. 44). Vê-se aí o forte desejo de ligação na adesão ao FRA-TERNO que poderia ser entendido em dois semantemas imagéticos, ou seja, o FRA trazendo a idéia do FRÁgil, pois importa lembrar que a ligação se rompe (há um exílio) em dado momento entre mãe e filho (não perenidade / desmame). Nita comenta essa passagem em uma fala de Freire da Pedagogia da indignação (2000)73: “[...] o primeiro exílio teria sido o tempo de sua gestação no útero da sua mãe.”. Ao mesmo tempo, TER-NO como ter no acolhedor seio da mãe a ternura do aconchego materno. Freire lembra que, quando criança, em uma dada ocasião em que os pais tiveram um pequeno desentendimento conjugal, “A segurança me voltou, na medida em que, necessitado dela, procurava encontrá-la não em si mesma, mas nas relações entre mamãe e papai.” (FREIRE, 2003e, p. 24, grifo meu).