Nesta investigação longitudinal na qual se pensaram temáticas como a participação e as notícias, o desafio de manter estes jovens interessados foi elevado (Brites 2015), aspeto fundamental sob ponto de vista da sus- tentação da pesquisa (Kitzinger 2004). Por um lado, conseguir que os menos interessados nestes assuntos se fossem mantendo ligados a uma investigação que poderiam considerar «trabalhosa/aborrecida». Por outro lado, levar a que os que evidenciavam níveis de participação elevados e interesse nas notícias se mantivessem a par de um projeto que, a dada al- tura, poderia deixar se ser suficientemente aliciante no contexto das suas atividades em termos de participação e de consumo de notícias.
O facto de estes jovens observarem que a pesquisa gerou um ambiente favorável a exprimirem as suas opiniões de forma livre e de sentirem que essas opiniões contaram em termos de evolução da pesquisa foi apontado por eles próprios como fator de favorecimento da sua manutenção na investigação. Tal aconteceu considerando duas dimensões relevantes no decorrer da pesquisa. Por um lado, os espaços de reflexão que se consti- tuíram sobretudo nas segundas entrevistas, sobre o decorrer da investi- gação e sobre o que eles pensavam em relação a isso mesmo. Por outro, as entrevistas que eles efetuaram a outros intervenientes, entrando aqui uma dupla dimensão de entrevista e grupo focal, como catapulta para a participação na pesquisa.
Relativamente à primeira dimensão, no início da segunda fase de en- trevistas foi feito um resumo da fase anterior, tanto na forma como no número de entrevistas, receção e temas que se destacaram e que foram aí abordados. Esclarecemos igualmente que as questões da segunda fase manteriam os temas da primeira, mas também incidiriam em novos, como os ambientes de casa. Foi proporcionada a reflexão sobre a inves- tigação e de que forma a primeira entrevista os tinha interpelado. Apro- veitou-se ainda para pedir que mostrassem se tinham recolhido material durante a campanha presidencial de 2011. Nos casos positivos, procede- mos à discussão acerca das respetivas motivações e reflexões acerca do material selecionado. Expressámos ainda que o desenho das entrevistas da segunda fase tinha sido condicionado pelos resultados da primeira, no que concerne à ênfase evidenciada pelos contextos familiares. Isso constituíra um facto inesperado, pois tínhamos considerado que os con- textos de sociabilidade entre pares seriam mais relevantes, o que nem sempre se verificara.
Um facto decisivo foi termos feito questão de ir comunicando aos jo- vens como estava a decorrer a investigação. Alguns deles, depois da fase de recolha de dados, enviaram e-mails a indicar que a entrevista os fizera pensar sobre assuntos sobre os quais não refletem todos os dias. Nos gru- pos focais, até pela informalidade inicial e final, houve momentos em que as perguntas foram mais insistentes sobre a investigação e, em alguns casos, deixaram de ser apenas centradas na pesquisa.
Como já indicámos, um dos fatores de sucesso, pelo menos da quan- tidade de jovens envolvidos nas diferentes fases, terá sido o facto de po- derem falar sem serem julgados, de simplesmente poderem dar a sua opi- nião. Eles próprios percecionaram e verbalizaram que, no dia a dia, nem sempre lhes é possível manifestar a sua opinião de forma aberta e sentir que estão a ser escutados. Tornou-se evidente o sentimento de que há uma escassez de espaços de participação nas diferentes estruturas quoti- dianas. As entrevistas e os grupos focais permitiram essa estrutura aberta de comunicação.
A reflexão inerente à participação no estudo oscilou entre duas esferas: na pessoal, centrada na forma como a investigação se refletiu neles mes- mos, e nas indicações/questões/referências que foram apontando relati- vamente à própria pesquisa. Sempre que praticável foi pedido aos infor- mantes que dessem opinião sobre a pesquisa e se esta tinha alterado hábitos e opiniões. Durante todo este processo, aludiram ao assunto so- bretudo quando questionados sobre se a primeira entrevista e os temas abordados teriam levado a que pensassem mais do que o habitual no que tínhamos falado. Holstein e Gubrium (1995) apontam para uma dis- cussão sobre «entrevista ativa» em que há uma construção social da mesma através do diálogo entre o entrevistado e o entrevistador, que re- sulta também dos seus contextos e interações.
Algumas considerações incluíram ou refletiram contextos familiares em que os jovens comentaram a pesquisa e o que tinham dito:
– Sim, eu lembrei-me bastantes vezes, por exemplo quando a minha mãe tirava as notícias da televisão, eu lembrava-me, ah, eu na entrevista falei em ver as notícias na internet. Posso começar a fazer isso mais vezes e assim a minha mãe não se chateia tanto [Marta, entrevista 2].
– Sim, aliás, se estivesse a ver o telejornal e aparecesse alguma coisa que se relacionasse com o que falámos, eu dizia aos meus pais, isto tem a ver com a entrevista que fiz, falámos disto. E no jornal da escola a minha parti- cipação também aumentou [Marisa, entrevista 2].
A entrevista, nos discursos que proporcionou, foi encarada como um desafio para passarem a encarar a informação de forma mais crítica, ou também em quantidade. Sendo este um processo explorativo, levou a pensar que poderia ser feita uma aposta em projetos desta natureza que promovessem a participação cívica e a literacia.
– Lembrei-me várias vezes, acho que disse umas coisas um pouco erradas. Refleti numas conversas sobre essas coisas.
– Pensaste mais nas tuas atividades de consumo de notícias ou como ati- vista?
– Um pouco nas duas, comecei a tomar mais atenção às notícias, quer dizer, eu já tomava, mas agora mais. No ativismo continua igual, mas é en- graçado que nas notícias realmente comecei a tomar mais atenção depois daquela conversa toda! Aliás, costumo comentar notícias na net [Tânia, en- trevista 2].
– Curiosamente, a seguir à entrevista fiquei muito mais atenta ao que se passa. Chego a casa, e com isto da crise, a primeira coisa que faço é pôr na SICNotícias para ver o que se passa. Por acaso houve um período ainda mais especial em que estive sempre atenta ao que se passa. Mas essa do jornalismo, lembro-me muitas vezes da entrevista [Fátima, entrevista 2].
– Sim, acho que comecei a ver as coisas de maneira diferente, com mais atenção do que via anteriormente. Foi mais a prestar mais atenção às notí- cias.
– Em quantidade ou de forma mais crítica?
– Em quantidade, mas [ri-se] também de forma mais crítica, tento avaliar o conteúdo da notícia quando a estou a ver [Paula, entrevista 2].
Entre os informantes mais centrados na participação ativa e no con- sumo ativo e intenso de informação, a entrevista 1 serviu para pensarem sobre os seus próprios procedimentos. Isso foi percetível nas respostas durante a entrevista 2, mas também em alguns e-mails trocados com parte dos jovens. Consideraram a reflexão importante, não devido à dificul- dade, mas sim pela invulgaridade dos temas, que nem sempre tem espaço na sua própria agenda social.
– Lembro-me que a entrevista não tinha perguntas difíceis, mas tinha perguntas que nós não fazemos todos os dias. Não se está sempre a pensar nisso, o facto de ter de pensar nisso para responder fez com que fosse fa- zendo conexões e ligações com os assuntos que fui experimentando depois da entrevista. Liguei uma coisa à outra.
– Isso é importante?
– É como ir a uma entrevista de trabalho. Obriga-nos a pensar sobre de- terminados contextos e situações. Logo, obriga e é positivo porque apren- demos muito sobre nós [Joaquim, entrevista 2].
A Carla destacou a centralidade da entrevista para pensar de forma mais consciente sobre alguns assuntos que constituem reflexão quotidiana.
– Sim, por uma razão muito simples, nunca tinha reparado até que forma ou até que ponto eu tinha uma relação tão forte com aquilo que via a quan- tidade de vezes que tinha acesso a essa informação. E nem reparava, essa era uma atitude involuntária, não pensava bem, acerca do que estava a fazer. Efetivamente, depois da entrevista passei a ter mais noção de que vejo, acedo pela internet e faço um determinado número de coisas que por serem invo- luntárias nem tinha bem a noção [de que as fazia] [Carla, entrevista 2].
Mas nem todos tinham uma memória ativa sobre a primeira entrevista. Por exemplo, o Simão, sempre entusiasmado com as suas aptidões pes- soais, reafirmou a sua capacidade interventiva:
– Não vi grande diferença. A entrevista serviu para mostrar o interesse que eu tinha e não para aumentar. Passei a ter mais consciência do que faço [Simão, entrevista 2].
Considerando agora as reflexões sobre a investigação em si mesma, houve dois domínios a destacar. Por um lado, um grupo de jovens que foi partilhando reflexões, quer durante os dois anos que durou o trabalho de campo, quer posteriormente. Por outro, o interesse pela investigação também numa perspetiva de saber se o nosso «interesse» por eles se cir- cunscrevia a obter as informações de que precisávamos para o trabalho. Esta incerteza sobre um certo carácter «interesseiro» da investigação fez- -se sentir mais junto dos jovens escolhidos através do bairro de habitação social.
A Beatriz sempre foi das mais curiosas durante a investigação. Na en- trevista 1 interrogou, de pronto, se estavam a ser feitas entrevistas aos jo- vens mais informados e se, depois de finalizado o trabalho, continuaría- mos a ir ao bairro de habitação social (onde ela morava). No fundo estava a testar o interesse que teríamos no que ela ia dizer, uma vez que se as- sumiu logo como pouco interessada em notícias e em participação cívica, no bairro de habitação social em si mesmo e nas suas vivências particu- lares, mesmo depois do fim da pesquisa. No final da investigação, no
grupo focal 2, reforçou questões sobre os processos da mesma (algumas das quais já tínhamos abordado em sessões anteriores, o que também re- vela o quanto são ambivalentes e precisam de ser reforçadas para se tor- narem mais efetivas) e decidiu começar ela mesma a questionar a pes- quisadora.
Anotamos que a dúvida da Beatriz, bem como também a pergunta do Dino sobre a pertinência da sua participação na pesquisa, são exemplo de questões que outros participantes foram fazendo ao longo da pes- quisa. Tentavam aferir se fazia sentido consultá-los e convidá-los a pensar sobre estes assuntos que não integravam os seus quotidianos. Achavam estranho que – dadas as circunstâncias da sua juventude e, em alguns casos, alguma auto-representação de alheamento cívico – tivéssemos in- teresse em perceber o que pensavam:
– Beatriz: Posso fazer uma pergunta? – Investigadora: Claro.
– Beatriz: É avaliada por isto ou gosta de fazer?
– Investigadora: Gosto de fazer e também sou avaliada. […] – Dino: E nós servimos?!!? Temos servido?
– Investigadora: Às vezes as pessoas têm dito: Eu acho que não disse nada de jeito...
– Beatriz: [interrompendo] Pois...
– Investigadora: ... mas se eu quisesse falar com especialistas...
– Beatriz: [falam em simultâneo] Não falava connosco... e não ia ter tanta piada!
– Investigadora: Exato. Vocês e as outras pessoas que estou a entrevistar são as que eu quero ouvir [Grupo focal 2].
Embora tivéssemos tido ao longo da pesquisa uma preocupação em facilitar a voz aos informantes e de os considerar parceiros de pesquisa, não poderemos deixar de anotar que, parcialmente, na linha de Ana Nunes de Almeida (2009), a relação entre investigador e participante aca- bou por ser hierárquica, no sentido em que a direção da pesquisa ficou a cargo da investigadora, ao contrário da proposta de Kellett (2010).
Por fim, relativamente à segunda dimensão atrás apontada, às minien- trevistas e aos grupos focais participativos, é de realçar a ocasião que ti- veram, e que reconheceram como muito marcante, de poderem agir. Mesmo não sendo este aspeto essencial neste capítulo, não podemos dei- xar de salientar a título de observação que, apesar de termos pedido que fizessem entrevistas a jovens, alguns deles aproveitaram a ocasião para falarem com familiares e adultos, contrariando estereótipos de que os jo- vens estão afastados deles.
Estes grupos focais tiveram dois momentos a salientar, particularmente no contexto deste capítulo. Um deles foi o da apresentação do Dino (Grupo focal 2), que mostrou nervosismo por ter de falar em público (ainda que fossem só quatro pessoas que conhecia) e ter de ler o que es- crevera da minientrevista que fez. O seu nervosismo deu lugar a um sor- riso quando terminou a exposição com ajuda de uma das colegas. A Bea- triz reagiu à ansiedade do Dino quando este tentava apresentar a entrevista e ler as notas escritas numa folha de papel. Perguntou de forma descontraída se poderia ser ela a ler para o ajudar, e assim se processou o relato da entrevista, que se centrava em questões de economia.
No outro momento, uma das raparigas, a Estela, regozijou-se por ter tido a oportunidade, na escola, de falar com os colegas e de os confron - tar com o que considerava ser a falta de interesse deles pela política e de como isso lhe permitira fazer campanha pela participação. Assim, a Estela aproveitou para falar com os colegas sobre alguns dos temas que tínha- mos discutido durante a investigação. Na altura assumira perante o grupo de pesquisa que se sentia desiludida por na escola não encontrar espa - ços de participação e de os colegas não terem, segundo ela, interesse em participar, ler notícias e prestar atenção à política:
– Investigadora: Mas com quantas pessoas falaste, foi na escola, eram ra- pazes ou raparigas?
– Estela: Na escola, foi com os rapazes da minha turma, disseram que são coisas que não lhes dizem respeito nem diretamente nem indiretamente e que se vissem aquela notícia no jornal só se causasse grande polémica é que olhariam para ela. Relativamente às manifestações, disseram-me que não participariam mesmo que tivessem disponibilidade.
[...]
– Investigadora: Parece-me que aproveitaste esta oportunidade para fala- res com os teus colegas de situações que gostarias de falar na escola. Sen- tiste-te intimidada ao falar com eles?
– Estela: Ouvi vários nãos, pessoas que não quiseram falar. Mas a minha opinião, eu tive de a manifestar, dizer: não podes pensar assim. Fiz talvez com que eles fossem para casa falar com os pais sobre aquilo, mesmo que não concordassem à minha frente, sei que aproveitaram alguma coisa do que lhes disse.
– Investigadora: Aproveitaste para fazer algo que gostarias que aconte- cesse na escola...
– Joaquim: Fazer propaganda... [riso] Estou a brincar.
– Estela: Sim, foi um pretexto. Um ou dois meses antes de começar a campanha política para as presidenciais, houve uma discussão política enorme sobre o TGV e lá estive eu a discutir com uma amiga.
[...]
– Investigadora: O que leva a que na tua escola não haja este debate? O exemplo deles é oposto, mas também não é comum.
– Estela: A nossa associação de estudantes não está ligada a nenhum par- tido, de direita, esquerda ou centrista...
– Anita: Está visto!
– Estela: ... não está ligada mas às vezes vão lá pessoas da JSD ou da JCP e depois eu acho que as pessoas não se interessam, a [nome da escola] é co- nhecida como a escola dos marrões e as pessoas estão lá para estudar, não querem falar de mais nada. Nos intervalos eu passo e é só: e o exercício de Físico-Química? As pessoas estão na fila do bar a fazer o exercício de Físico- -Química!!!! [Grupo focal 4].
Um tema que foi surgindo ao longo da exposição da Estela foi a noção de que a escola não proporciona espaços de debate de ideias, sobretudo numa lógica de liberdade de exposição das mesmas. Essa limitação deve- -se, consideraram, também ao facto de a escola tentar fomentar uma apa- rente neutralidade de visões.