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Muitas foram os desafios e dificuldades para a realização deste trabalho. Começaria

até mesmo com as dificuldades iniciais, pré-acadêmicas, como a perturbadora, sofrida e

dissolvente imposição do fenômeno à minha própria experiência, as difíceis

transformações internas para seu acolhimento – paradigmáticas, diria até –, o diálogo com as incrédulas pessoas próximas e, finalmente, a abertura de espaço para um tipo

totalmente distinto de apreensão da realidade. Hoje, no entanto, os mares navegados

mostram-se mais calmos. Certamente, o acolhimento acadêmico para a realização deste

trabalho terminou por conferir ao próprio fenômeno maior espaço nos ambientes por

mim frequentados. Mas o estudo, também, por seu lado, apresentou-me novos colegas

de reflexão – felizmente, altamente gabaritados. Por seu lado, o fenômeno de Sincronicidade, também felizmente, preservou intactas algumas de suas

particularidades que se me apresentaram ao longo do período pré-acadêmico. A antiga

face perturbadora do fenômeno, que, com o tempo, revelou-se confiável, hoje mostra-se

robusta e estável – um porto seguro. O esforço de organização exigido para esta empreitada acadêmico colocou ordem em pensamentos e sensações difusos e fugazes.

A Sincronicidade é um tema difícil. Tratá-lo é, antes de mais nada, dispor-se a

penetrar, como diz Jung, não em terreno já conhecido, mas em lugares marginalizados,

evitados ou mesmo mal-afamados. Se a Psicologia Analítica trava uma luta árdua para

reclamar seu lugar ao lado da Psicanálise na prática clínica da Psicologia profunda, a

situação não é diferente do conceito de Sincronicidade dentro da própria Psicologia

Analítica. O tema vem se impondo apenas tardiamente de modo mais acintosamente

acadêmico entre os próprios junguianos, e isso, certamente em função do espírito do

tempo, ou seja, as tendências atuais do fortalecimento da busca de harmonização,

Sintomaticamente, o tratado sobre esse tema foi uma das últimas publicações de Jung.

Isso, apesar de ser possível identificar os sinais da apreensão sincronística da realidade

por parte de Jung muito antes em sua obra. Em diversos momentos, inclusive, Jung

parece passar ao largo da assunção dessa apreensão sob forma de um conceito explícito.

Parecia em muitos momentos visivelmente perturbado por esse tipo de evento, evitando

lançar-se numa análise conceitual. É apenas em 1930 que o conceito aparece pela

primeira vez – e, isso, de modo bem discreto (PRIMÄS, 1996). Protegido pela proximidade da morte ou então, talvez por essa mesma contingência, sentiu que já não

poderia furtar-se a contribuir com uma abordagem mais direta do tema, aos 75 anos de

idade. Mesmo, percebe-se, afinal, o lugar central que este ocupa em toda a teoria

junguiana, mediando as realidades materiais e espirituais, manifestando, com isso, a

realidade arquetípica e, finalmente, seu fator motivador, o inconsciente coletivo. A

Sincronicidade seria, assim, fundamentalmente, um modus operandi para a expressão

dessa realidade.

As dificuldades encontradas por Jung para tratar dessa temática parecem não ter sido

superadas. Passado meio século dessa tentativa, o fenômeno de Sincronicidade

permanece à sombra, retido nos recônditos mal-afamados da Ciência. Ainda mais difícil

terá sido percebê-los em nós mesmos. Na minha própria experiência, um tanto similar,

neste sentido, à de Jung, o fenômeno se impôs com toda a força, por si mesmo. A

caminho da realização formal deste trabalho, a resistência por parte de conhecidos – leigos, é verdade – foi enorme. O preconceito mostrou sua cara em rostos conhecidos. Este trabalho possui, assim, também, um caráter confessadamente testemunhal. É, em

parte, o esforço de organização de uma experiência particular. Cabe perguntar,

obviamente, qual trabalho não o seria? A dialógica, no caso especifico desse tema,

mas, também, para o próprio tema, que, assim, encontra lugar participativo mais natural.

O trabalho reafirma, assim, para si, uma função arquetípica, de mero veículo.

Depreende-se dessa pessoalidade, também, um viés peculiar na abordagem do

fenômeno sincronístico. As discussões sobre sua sacralidade são amplamente discutidas

na literatura, de modo que não é aí que se dá essa peculiaridade. Porém, para explicá-la,

é necessário, antes, passar por outro ponto. Dessa forma, terminará por apontar seu

próprio e posterior desenvolvimento.

Não se pode estar certo do alcance que Jung teve de seu próprio conceito, haja vista o

que aventamos acima, uma reticência ao formalizar um conceito que subjazia desde

muito em sua obra. Assim, talvez, parte do que sabia ou acalentava a respeito desse

assunto não veio a ser publicado. Murray Stein enxerga o conceito de Sincronicidade

como um elemento conciliador na obra de Jung. Diz ele:

Nesse ensaio sobre Sincronicidade podemos ver Jung usando seu racional ego científico para explorar o mundo da magia e os extraordinários e inexplicáveis fenômenos que ocorrem no inconsciente coletivo...Por suas próprias razões pessoais, mas também por nossa cultura científica como um todo, ele está tentando forjar uma ligação entre dois focos culturais dominantes do Ocidente, ciência e religião. Esta tentando manter essa tensão sem favorecer unilateralmente um ou outro elemento. Sua teoria da sincronicidade é o símbolo que tentará conter esse par de opostos (STEIN, M., 2006, pág. 183).

Essa tentativa de conciliação, no entanto, não parece, inerentemente, tão política quanto

a descrição que dela aparece aqui. A filosofia chinesa, em sua apreensão amplamente

sincronística da vida, não afigura-se política. Ali, as realidades material e espiritual

estão de fato intermeiadas, intrinsica e totalmente indissociáveis. Jung parece, de fato,

Sincronicidade ao público ocidental tem um aspecto mais cauteloso com relação à sua

crença. Profundo conhecedor da principal via de acesso a esse tipo de apreensão

sincronística chinesa da vida, o I Ching, Jung certamente sabia que, ali, o aspecto

numinoso da realidade material, quantificável, não se impõe em detrimento do aspecto

materializável da realidade espiritual. Ali, assim como a realidade material acaba por

traduzir a numinosidade, esta realidade espiritual também manifesta-se de modo

palpável na concretude. A concretude, ao contrário, é ela mesma uma expressão da

realidade numinosa. São, efetivamente, elementos indissociáveis. Jung, de fato,

conseguiu erigir um edifício teórico que desse conta, satisfatoriamente, dessa

indissociabilidade. A conceituação dos arquétipos e suas adjacências – realidade psicóide, inconsciente coletivo, transgressividade, entre outros - são, sem dúvida, a

melhor expressão desse esforço. Porém, se estão mesmo indissociadas essas instâncias,

a realidade material e a espiritual – é de supor-se que compartilhem de leis comuns. O esforço de nossa cultura é o da dedicação ao desenvolver a contraparte material dessa

realidade unitária. O próprio Jung, apesar de seu enorme esforço e êxito em tornar esse

dinamismo mais palatável aos olhos ocidentais, parece ter sentido o peso da tarefa e

deixado a seus sucessores a parte do trabalho por fazer.