É este o economista e professor universitário que nos deixou uma he- rança institucional e intelectual que merece ser revisitada, conforme bem testemunha este livro que agora se edita. Justifica-se, por isso, o interesse de conhecer melhor o acervo documental que acumulou e guardou.
Anexo 3
22 As outras áreas eram Microeconomia, Macroeconomia, Teoria do Crescimento, Eco-
nomia Internacional, Economia Monetária, Economia Pública, Planeamento Econó- mico, Programação Matemática, Econometria, e Disciplinas não Agrupadas.
23«Discurso do Ministro das Finanças por ocasião da assinatura do Protocolo entre o
Ministério das Finanças e a Universidade Nova de Lisboa», Política Económica Global: Os
Primeiros Seis Meses, Ministério das Finanças, Maio 1992, pp. 49-57 e https://sites.
google.com/site/cggnova/.
24Adérito Sedas Nunes, «A crise social e a reforma da empresa», Revista do Gabinete de
Entre os papéis do seu espólio, depositado na BAN, encontram-se muitos rascunhos escritos pelo seu punho. Aproveitava as costas limpas de papel já dactilografado. Revistos com canetas de várias cores, acres- centava explicações ou novos aspetos, provando quão exigente ele era para consigo próprio no aperfeiçoamento dos seus escritos.
Coligiu muitas séries estatísticas da economia portuguesa, usando papel quadriculado e grande minúcia caligráfica. São os dados sobre a agricultura, a indústria, os transportes e serviços, os fluxos turísticos, a produção, os preços, as taxas de juro, e as taxas de câmbio os que mais mereceram a sua atenção. Para a construção e parametrização dos seus modelos dinâmicos as suas fontes incluíam relatórios anuais do Banco de Portugal e outros bancos, bem como relatórios da OCDE e do - cumentação do FMI, muitos dos quais com a chancela de «Confidencial» ou «Cir culação Restrita».25Gráficos em grande abundância, feitos à mão
sobre papel milimétrico, mostram a evolução das variáveis. Em disquetes, cópias de regressões computacionais, e muitos prints em papel fanfold atestam os seus esforços interpretativos, numa época anterior aos com- putadores pessoais, em que a Faculdade possuía um terminal UNIVAC de cartões perfurados, que estava ligado ao «supercomputador» do INE, depois substituído por um VAX da Digital de grandes dimensões cujo uso era partilhado entre todos (para efeitos de elaboração de teses acadé- micas e investigação em geral).26
Também escreveu e policopiou abundantes textos para os alunos, com muitos exercícios e as respetivas soluções.27
O nível do seu prestígio e a sua capacidade de concessão de proteção na vida académica podem medir-se pelo número de publicações que lhe eram oferecidas, todas elas com submissas dedicatórias pessoais, que dão um valioso carácter de repositório da literatura económica portuguesa da época, ao seu espólio pessoal.28
25Outras fontes: Associação Portuguesa Para as Relações Internacionais, APRI, e Ga-
binete de Investigações Sociais, GIS. Espólio Alfredo de Sousa.
26Oito disquetes de cópias estão disponíveis no seu espólio. 27Ver [22], [25], [41], [46] no anexo 1.3.5.,
28Outras publicações que constam no espólio que foi retirado do seu gabinete de tra-
balho no Palácio Henrique Mendonça, são: James Bates, Profits in theory and practice. Mi- meografado. Jacques Freyssinet, L’introduction du progrès technique dans les modèles dynamiques
de repartition du révenue national, 2082-2134. Claude Germain, «Repply to Mrs. Robinson
on the choice of technique», Economic Journal, junho 1970: 420-443; Harry G. Johnson, «Directives à l’intention des gouvernements au sujet des societies multinationales», Revue
de la Société d’Études et d’Expansion, 243, 1970: 888-894; P. S. Johnson, «Firm size and tech-
Nascido em 1931, Alfredo de Sousa licenciou-se no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF), da Universidade Técnica de Lisboa, em 1958, com a melhor média do curso como consta do Anexo 1. Guardava seguramente boas memórias desse tempo, pois existe no seu espólio pessoal o livro de curso com os nomes e as caricaturas de todos os seus colegas. Guardou-o durante 36 anos. Organizado por ordem alfabética, o livro de curso revela uma turma de 46 nomes, 7 dos quais são femininos.29
Também guardou folhetos e propaganda estudantil de inícios dos anos 70, contra o regime político português e contra o ensino da época, in- cluindo a sua própria cadeira de TPDE no ISCEF. Os protestos dos gru- pos políticos estudantis eram contra o recrutamento para a guerra colo- nial e alguns contra «o entulho cultural da sebenta Alfredina».30Estes acontecimentos ocorreram 25 anos antes da sua morte, e preservou-os por todo esse tempo.
Epílogo
Vinte e três anos depois da sua morte poderá dizer-se que terá sido um professor idealista e incompreendido.31Alfredo de Sousa acreditava na ciên-
cia económica como área científica de intervenção sobre a realidade econó- mica para efeitos da promoção do crescimento económico e do bem-estar das sociedades, sem o derrotismo das teorias da dependência económica.
Tendo uma formação académica muito vasta, respeitadora do papel das outras ciências sociais como auxiliares da ciência económica, tinha, como economista, uma visão otimista sobre o mundo. Acreditava nos benefícios do progresso material, através da promoção de uma prosperi- dade que assegurasse cada vez melhores condições materiais de existência a toda a humanidade.
Anexo 3
growth theory author(s): Source», The Economic Journal, 80 (318) (1970), 257-281; James R. Melvin e R. F. Harrod, «Harrod after twenty-one years: A comment, Economic Journal 80 (319), September, 737-41; Richard R. Nelson, «Aggregate production functions and me- dium range growth projections», The American Economic Review, LIV (5): 575-606; Dome- nico Mario Nuti, «Capitalism, socialism and steady growth», The Economic Journal, 80 (317) (1970), 32-57; A. A. Walters, «Production and cost functions: An econometric sur- vey», Econometrica, 31 (1, 2): 1-65. W. Y. Oi, «The neoclassical foundations of progress functions», The Economic Journal, 77: 579-594.
29Livro de Finalistas do ISCEF, 1958.
30Ver Joseph Love, «Modeling internal colonialism: History and prospect», World De-
velopment, 17 (6): 905-922.
31No seu espólio encontra-se o livro Citas del Presidente Mao Tse Tung. Pequim: Edicio-
Por vezes é difícil estabelecer-se um laço entre a biografia de alguém e a sua época, porque é difícil a qualquer pessoa deixar a sua marca na so- ciedade em que viveu, e muito mais ainda mudar qualquer coisa no mundo. Não é o caso com Alfredo de Sousa. Além de deputado da As- sembleia Nacional Constituinte, que revela a sua cidadania,32legou uma
grande contribuição para o ensino da Economia em Portugal. No seu es- pólio há muita documentação do ISCEF, da Universidade Nova de Lis- boa, da Universidade Católica da Madeira, Funchal, e da Universidade Livre (Rua da Junqueira, n.º 194).
O acidente de viação de 3 de novembro de 1994 pôs fim à sua vida. O seu funeral, com velório no Salão Nobre da FEUNL, foi um aconte- cimento social em Lisboa. Políticos e banqueiros, estudantes e docentes apinharam a igreja de Campolide. O cardeal D. José Policarpo, ex-reitor da Universidade Católica, presidiu e evocou o legado de Alfredo de Sousa.
Em pequenos círculos académicos era bem-humorado, folgazão e bre- jeiro. Distribuía regularmente entre os docentes da FEUNL uma ou outra pagela, como a que aqui se reproduz, mas poucos professores foram ja- mais tão temidos pelos estudantes como ele era.
O PERIGO DA DEFORMAÇÃO DA INFORMAÇÃO NO QUARTEL
O Capitão ao 1.º Sargento:
Havendo amanhã um eclipse do Sol, mando que a Companhia es- teja formada, em uniforme de campanha, no campo de exercícios, onde darei explicações acerca do fenómeno, que não acontece todos os dias. No caso de chover a Companhia fica dentro do Quartel.
O 1.º Sargento ao 2.º Sargento:
Por ordem do Capitão, amanhã haverá um eclipse de Sol em uni- forme de campanha. A Companhia esteja toda formada no campo de exercícios onde o Capitão dará explicações sobre o fenómeno, o que não acontece todos as dias. Se chover, o fenómeno será dentro do quartel.
O 2.º Sargento ao Cabo:
Amanhã o Capitão fará um eclipse do Sol no campo de exercícios. Se chover, o que não acontece todos os dias, nada se poderá fazer; por isso, em uniforme de campanha o Capitão dará explicações dentro do Quartel.
O Cabo aos Soldados:
Amanhã para receber o eclipse do Sol que dará as explicações neces- sárias sobre o nosso Capitão, o fenómeno sairá de uniforme de campa- nha para o campo de exercícios, salvo se chover dentro do Quartel o que não acontece todos os dias.
Entre Soldados:
Amanhã o Sol em uniforme de campanha fará eclipsar o nosso Ca- pitão no campo de exercícios. Se chover o Sol fica dentro do Quartel o que não acontece todos os dias.