Ao final de todas as entrevistas, foram registradas contribuições e sugestões que os bacharéis professores propuseram para a formação de bacharéis professores para a área de Comunicação Social.
Entre as respostas, foram identificados trechos das que se referiam, especificamente, ao questionamento e podem ser ressaltados como contribuições:
a) “podia ter umas aulas, assim, lá na pedagogia, alguma coisa assim sobre didática, sobre projeto didático, sobre avaliação de disciplina, psicologia do aluno” (TatianaU);
b) “evitar a endogenia que há no caso da UnB” (PabloU);
c) “não se pode subestimar a importância da teoria em detrimento da prática, como fazem, principalmente, as instituições de ensino superior privadas” (EdgarU);
d) valorizar a “atividade docente (e aqui não me refiro apenas à questão salarial) e por uma formação específica (incluindo, nos currículos dos cursos de pós-graduação, disciplinas ligadas à atividade pedagógica)” (MarceloC);
e) “não perder de vista os melhores valores e práticas da educação emancipadora, humanista e democrática, comprometida com o interesse público” (SílvioC);
f) investir “em programas de iniciação científica e maior participação de professores e alunos em congressos e eventos da área, tanto nacionais quanto internacionais” (ViníciusC).
Se pudesse condensá-las em algumas orientações, seria, primeiramente, necessária uma parceria entre os gestores institucionais, propiciando e promovendo ações com o corpo docente, e por parte dele, o empenho em participar e envolver-se com elas.
As sugestões dos professores entrevistados podem ser divididas em três fases da carreira docente: antes do início, na contratação para o exercício e durante a atividade docente.
a) Antes de iniciar a atividade docente, durante a formação acadêmica do futuro professor, incluir disciplinas relacionadas à atividade pedagógica nos currículos dos currículos dos cursos de pós-graduação;
b) Para contratação do professor, realizar o processo seletivo por meio de edital público, contendo critérios avaliativos que destaquem o mérito acadêmico e evitem o cerceamento da diversidade de formação e de procedência. Além da contratação definitiva, promover intercâmbio de professores com outras IES;
c) No período de atividade docente, as sugestões dos professores foram relacionadas a:
promover a formação continuada dos professores na área de pedagogia universitária;
valorizar a atividade docente com planos de carreira e salários justos;
investir em programas de iniciação científica;
incentivar a ampla participação de professores e alunos em eventos nacionais e internacionais da área.
Além dessas, as contribuições de SilvioC e EdgarU referem-se a atitudes que, de acordo com o referencial teórico apresentado nesta tese, são fundamentais para que os bacharéis professores pratiquem atividades pedagógicas que possam ser consideradas práxis e devem servir de alicerce para todas as atividades desenvolvidas nas IES:
- os professores devem ter consciência, a partir da reflexão crítica, da formação que se pretende desenvolver junto ao corpo discente;
- os professores devem participar da elaboração e do aprimoramento dos projetos pedagógicos dos cursos.
Além das sugestões mencionadas nas falas dos professores, no decorrer da análise, pela triangulação dos procedimentos, surgiram reflexões que, apesar de não constarem dos objetivos da pesquisa, considero relevante apresentar como complemento, no sentido de discutir a minha experiência na sua totalidade. São elas: os comentários que giram em torno da questão da especificidade regional da localização das IES na capital federal, as diferenças entre o sistema público e o sistema privado e as diferentes tipologias das instituições de educação superior brasileiras.
A realidade regional do Distrito Federal é destacada no PPC do curso de Comunicação Social do UniCEUB quando cita como um dos segmentos que o profissional da área pode encontrar, na região da capital federal, o” Governo, em
seus diversos âmbitos, auxiliando na avaliação das necessidades sociais e formulando planos integrados de comunicação e relações públicas”.
Baseio-me nas considerações do professor PabloU quando, durante a entrevista, perguntei se ele poderia contribuir com a formação dos futuros bacharéis professores da área, para contemplar a análise das adequações do quadro 2de acordo com Pérez Gomez (2001), que permite retirar as seguintes categorias de análise, distinguindo o sistema público do sistema privado: lema, sistema de escolarização, ideologia, ideia de igualdade e concepção docente.
Brasília é muito particular. É interessante como o contexto cria o cenário para um determinado olhar sobre a universidade e da universidade como ela olha o mundo [...] Para quem estudou em outro lugar, quem vem de fora, passa por diferentes universidades, tem contato com outras universidades, isso é nítido. Professores que são de dedicação exclusiva que trabalham mais em assessoria do que em dedicação exclusiva. Você não vê o pessoal em outras universidades estudando para concurso. A ideia de concurso tão presente, de concurso público. A biblioteca está cheia, mas não por estudantes. Vem um dia, domingo ou sábado e caminha pelas mesas, são pouquíssimos que você vê que são textos... a maioria está estudando para concurso... então, o tema concurso está muito presente. Não só pelos órgãos públicos, mas no sentido privado, no momento em que tem ONU, OEA, PNUD, públicas... mas tem UNESCO. Os estudantes que chegam na pós-graduação aqui são estudantes que, pouquíssimos, estão pensando na carreira acadêmica. Estão pensando em trabalho porque já estão trabalhando com assessoria política ou em passar em concurso, ter o título de doutor e mestre para passar em concurso. Quando eu fiz o mestrado e doutorado... em nenhum momento surge, entre os colegas de mestrado e doutorado, quando eu estava estudando, a questão do concurso. Ou eram professores ou eram pessoas que estavam estudando e pesquisando para ser professor. Isso era a matriz e não a matriz do concurso. Então, é você dando aula de pesquisa para sujeitos que não querem seguir a pesquisa. Então, é esquizofrênico. Paradoxal e esquizofrênico. Uma ruptura. [...] O fato de estar em Brasília é uma situação e que não deve ser desconhecida e também não deve ser diabolizada, mas deve ser entendida e analisada e não pode ser escondida. Deve ser uma questão de compreensão. Olha é isto que a gente tem. Pode ser que na comunicação aconteça isso mais forte do que em outras áreas, por exemplo, como filosofia. Concurso para filósofo é difícil. (PabloU).
Em síntese, para esse professor que leciona na UnB, o fato de a IES estar situada em Brasília faz que:
2º os alunos desejem fazer concursos, tendo os professores como referência;
3º consequentemente, as atividades desenvolvidas no curso sejam influenciadas por esta tendência.
Elaboro a comparação mediante a definição da prática pedagógica de professores da UnB como representante do sistema público e da prática pedagógica no UniCEUB como do sistema privado.
A categoria concepção docente, segundo Pérez Gomez, destaca que, no sistema público, os professores são funcionários públicos e, no privado, são profissionais contratados, é condizente com a realidade percebida.
Os lemas “o ensino em liberdade e o ensino da liberdade” e “a liberdade de ensino e a liberdade de escolha de escola”, respectivamente, das públicas e das privadas, não puderam ser percebidos e confirmados.
Em relação às demais categorias, sistema de escolarização, ideologia e ideia de igualdade, considero insuficientes as informações da pesquisa, para desenvolver a comparação adequada dos sistemas. A impossibilidade de análise resulta, principalmente, da necessidade de orientação metodológica para o objetivo da pesquisa realizada, que não almejou estabelecer diferenças e ou comparações entre as IES dos sistemas público e do privado, por estas serem mantidas e administradas por pessoas físicas ou jurídicas de direito privado e por aquelas serem subordinadas à União. Não posso ignorar, porém, que há indícios de diferenças e semelhanças às apresentadas por Perez Gomez e que poderiam ser alvo de estudos posteriores.
Além disso, ressalto a tipologia das IES brasileiras que as classifica em universidades, centros universitários, centros federais de educação tecnológica, faculdades integradas, faculdades, faculdades tecnológicas, institutos ou escolas superiores, e retomo a definição legal na LDB (BRASIL, 1996) das instituições envolvidas nesta pesquisa: universidade e centro universitário.
Na minha percepção, considero dois aspectos que devem ser analisados nesses dois tipos de IES:
- as duas têm autonomia, e os centros foram criados por esse motivo (como premiação da qualidade do ensino verificada pela avaliação);
- uma, no caso, a pública, deve, obrigatoriamente, desenvolver pesquisa porque é universidade.
Apesar de os dois PPC citarem a pesquisa e, em seus documentos, a importância da formação para a pesquisa, as orientações dos professores pelos questionários aplicados (Tabela 7) demonstram que:
- os quatro professores entrevistados do UniCEUB lecionam em turmas na graduação e na especialização que totalizam 505 alunos em turmas e, apenas o professor ViníciusC orienta 1 aluno na iniciação científica;
- os quatro professores entrevistados na UnB lecionam em turmas na graduação, na especialização e no mestrado, totalizando 374 alunos em turmas, 18 orientações de TCC, 4 orientações de mestrado e 4 orientações de doutorado.
As duas IES apresentam programas de iniciação científica, contudo os professores pesquisados da UnB não participam, e, no UniCEUB, apenas um orienta aluno de iniciação científica. Posso afirmar que as informações apresentadas demonstram a diferença de envolvimento em pesquisas pelas orientações em andamento nas duas IES. Neste caso, na universidade, os professores entrevistados orientam mais alunos que no centro universitário.
Destaco, finalmente, que não foi citado o envolvimento em atividades extensionistas. O UniCEUB cita a importância da extensão no PPC, mas nenhum dos professores entre os entrevistados nas duas IES desenvolve atividade de extensão.
Como já se percebe, a extensão, apesar de estar presente nos discursos e nos documentos que norteiam a educação superior, é pouco valorizada nas IES pesquisadas, com relação à área de Comunicação Social, ficando à deriva. Talvez seja esse o espaço apropriado para sediar as sugestões para formação de professores... Mas, é preciso programar a próxima viagem...