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CHAPTER THREE The Discourse of Class

O ego, segundo o sufismo, é uma parte material da sua existência e não a consciência em si. Existem sete níveis de consciência dentro da doutrina Sufi. Entretanto, esta divisão está mais para um imenso dégradé, existindo, assim, diversos subníveis. O menos evoluído dos níveis é o que veremos primeiramente:

1. Nafs ammara (O Eu que induz ao mal): a maior parte da humanidade está neste nível. Desconectada do resto do mundo, busca apenas a satisfação de seus desejos. Nos níveis mais elevados de Nafs ammara, o mal está na mentira (tanto para satisfazer o ego, como para levar vantagens) e na fraude, por exemplo. Esses pequenos defeitos são justificados por nossa mente. Nos níveis mais baixos, encontramos os assassinos, os estupradores, os assaltantes.

Para sair desta roda de sofrimento e de ignorância, o aspirante deve estar apto a receber a misericórdia de Deus e, para isso, a pessoa deve se olhar de fora, ter algo como um "grilo falante", que lhe diga que isto não é correto por mais benefícios aparentes que lhe traga. É acender a centelha divina que está dentro de todo mundo. Podemos receber esse "empurrãozinho" Divino (para que o indivíduo possa se aperfeiçoar), quando, por exemplo, sente-se um gratificante bem-estar ao se fazer alguma coisa boa a alguém. Mas, isso é só a ponta do iceberg, que a pessoa deve descobrir por ela mesma, sem recompensas.

225 SHAH, Os sufis, p. 328. Aniquilação não tem nenhuma semelhança com automortificação, pois, no

sufismo, o cuidado físico apropriado do corpo é essencial. Aniquilação, aqui, é no sentido de aniquilar as vontades egóicas e realizar a vontade de Deus.

Enfim, no Nafs ammara não há consciência de certo ou errado, de bem ou mal, no seu sentido mais universal. Apenas no fim deste nível é que há a percepção do erro que uma pessoa pode estar realizando. Vale lembrar que cada estágio tem suas nuances e se comunica com os demais.

2. Nafs lawwama (O Eu acusador): a consciência interior do certo e do errado. A pessoa nesse nível assume como verdade interior o que aprendeu, seja através das tradições familiares ou grupais ou das religiões. O problema é que há um censor interno tão rigoroso que pode levar a pessoa à depressão ou aos julgamentos muito rigorosos de si mesma. O que normalmente surge desse encontro consigo mesmo é o remorso. É preciso ter muito cuidado para que a pessoa não desmorone ao se ver como realmente é. Outros, para poder se sustentar, preferem voltar o Eu acusador para os outros e não para si mesmo. Então, esta pessoa passa a ser uma perseguidora ou uma inquiridora, achando-se uma defensora do certo ou da Verdade. Tal fato configura-se como uma fachada, já que há a projeção do problema que está dentro dela mesma. Se ela não se perdoar primeiro, se não compatibilizar o pensamento de outrora com o de hoje, não perdoará os outros.

3. Nafs mulhima (O Eu inspirado): o conjunto formado pela ética e pela ação é o que caracteriza a pessoa nesse nível. O indivíduo passa a ter mais sonhos e mais visões e a achar que as coisas que não são válidas para os outros podem ser válidas para ele. O risco nesse nível é a pessoa confundir paixão com inspiração, porque o coração ainda está dominado pelo ego. Pessoas em Nafs mulhima podem tornar-se líderes religiosos e, mesmo com a melhor das intenções, podem achar que inventaram ou descobriram um novo caminho para Deus e que são enviados do Alto para a humanidade. Podem, assim, acabar inflando ainda mais o próprio ego, por se acharem os donos da verdade.

Do terceiro nível para cima é recomendável o acompanhamento do Mestre Espiritual, ou seja, a companhia de alguém que já tenha trilhado este caminho, pois há sempre o risco do ego assumir um comando ainda maior do coração. O Mestre é um guia, que aponta o caminho possível para se obter as experiências necessárias sem grandes tropeços. Mas, é preciso que os passos sejam válidos para todos, que sejam éticos, públicos e transparentes. Se até aqui o caminho sufi assemelha-se a algumas escolas de psicologia ocidental, daqui em diante estaremos falando de um caminho profundamente espiritual.

4. Nafs mutmaina (O Eu tranqüilo): neste nível a pessoa já aquietou o ego e possui um bem-estar interior mais constante. Já começa a vislumbrar o efeito da integração de todas as coisas.

5. Nafs radiya (O Eu que está satisfeito com Allah): neste nível a pessoa está liberta da influência do ego no coração. A partir daí não há a possibilidade de regressão. Ela olha o mundo e consegue compreendê-lo como um sistema perfeito, sem falhas. Mas, isto não significa que a pessoa não tenha falhas, que não fique triste ou condoída com o problema dos outros. Não há arrogância. Se a pessoa não morrer neste nível de consciência, fatalmente atingirá o próximo.

6. Rafs mardiya (Aquele com quem Allah está satisfeito): são os considerados amigos de Allah. Jesus, além de ser considerado (pelos muçulmanos) um Profeta, é também reconhecido como um amigo de Allah.

7. Nafs saffiya (O Eu perfeito): o momento em que o ego dissolve-se na consciência divina, no qual, simbolicamente, amado e amante confundem-se226.

Esta descrição dos estágios dos Nafs, embora aparentemente simplória é extremamente complexa. Faz-se necessária para compreendermos que, segundo a doutrina sufi, somos seres condicionados. Idéias fixas, preconceitos ou, às vezes, respostas automáticas ocorridas através do treinamento dos outros (família, cultura, religião etc.) determinam nossa forma de ser e de compreender a vida. O homem não é tão livre como se julga. Rumi tem muito cuidado, pois observa que a mente é uma rede muito delicada227. Ensinaram ao homem que ele pode compreender tudo

por um único processo: a lógica. Esses ensinamentos minaram-no228, pois Deus não

está na ideia Dele ser piedoso ou ter qualquer outra qualidade, Ele está além de qualquer controvérsia, porque a divindade é uma questão de experiência pessoal.