O romance das personagens Eleonora e Jenifer ocorre paralelamente à história principal, de Maria do Carmo e Lindalva/Isabel. Eleonora é sobrinha de Maria do Carmo, filha de Sebastião e Janice (Mara Manzan). Sebastião encarna o estereótipo do nordestino conservador, que mantém a família com mão de ferro e rejeita os filhos ao menor sinal de que eles não vão agir como ele considera certo. Eleonora é notadamente sua preferida, mas Sebastião ainda não está consciente da orientação sexual da filha.
No início da novela, Eleonora é apresentada ao público como uma filha exemplar, orgulho dos pais, médica, séria e trabalhadora. Apenas no capítulo do dia 13 de agosto surgiu o primeiro indício de que Eleonora não se
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enquadrava com perfeição no papel de gênero esperado das mulheres. Ao visitar uma vizinha (Rita, interpretada por Adriana Lessa), Eleonora chega na hora em que a amiga está apanhando do marido (Cigano, interpretado por Ronnie Marruda). Eleonora dá um chute nos testículos do agressor e o expulsa da própria casa. Ao longo da novela, muitas vezes a inadequação de Eleonora ao papel do gênero feminino é apontada por outros personagens, inclusive pelo sogro, Giovani Improtta, pai de Jenifer, sua futura companheira, que a trata como “Seu Léo”.
Jenifer é filha de Giovani Improtta. Órfã de mãe, foi criada junto com o irmão, João Manoel (Heitor Martinez), pelo pai e pela avó, Flaviana (Yoná Magalhães). Estudante de fisioterapia, é mostrada desde o início da telenovela como uma moça caseira e estudiosa, que prefere se dedicar aos estudos e que “não tem tempo para namorar”.
Eleonora e Jenifer se conhecem tentando proteger os irmãos – Regininha e João Manoel – da fúria conservadora de Sebastião, que não pode saber que a filha mais nova será a madrinha da bateria da Escola de Samba Unidos da Vila São Miguel, cuja existência é importante para toda a comunidade do fictício distrito localizado na Baixada Fluminense. João Manoel será, mais à frente, o principal personagem encarregado de dar voz ao discurso machista e homofóbico.
Bárbara Borges é Jenifer Improtta
Eleonora e Jenifer se aproximam e demonstram sentir empatia imediata uma pela outra. Olhares em close sugerem que Eleonora ficou bastante impressionada com a futura cunhada. Jenifer parece mais inconsciente, mas mostra disposição de estar próxima à nova amiga desde o primeiro contato. As moças começam a sair juntas para programas como comer pizza, tomar sorvete ou ir ao cinema. Jenifer preza cada vez mais a amiga e verbaliza isso diversas vezes, mas parece não perceber a extensão do afeto que as une. As amigas com freqüência se cumprimentam com “selinhos” (beijos rápidos nos lábios).
A situação chama atenção das pessoas e a repressão social entra em ação. Surgem as perguntas sobre namorados, feitas por parentes, e um grupo de rapazes da região – que aparece na novela quase como uma gangue - reage fortemente à presença das duas, com frases agressivas e irônicas. Eleonora percebe as reações, mas parece não dar grande importância a elas. Jenifer não tem idéia do que o relacionamento das duas representa
socialmente e o quanto a intimidade que têm perturba as outras pessoas, mesmo antes de romper a barreira do contato sexual.
Até que um dia, depois de ver a filha adormecida no chão da sala ao lado da amiga, o pai de Jenifer, Giovani, decide intervir e alertar a moça para a natureza do sentimento que a médica nutre por ela. Giovani acredita que não se trata de uma atração recíproca. Jenifer fica desorientada com a revelação e, quando o irmão confirma que as duas estão sendo chamadas de “sapatão” nas ruas, tem uma crise nervosa. Sai desesperada à procura de Eleonora no Hospital onde a médica trabalha e ambas têm uma conversa em que Eleonora tem intenções amorosas em relação à Jenifer. Jenifer demonstra surpresa e embaraço com a revelação e vai embora chorando e garantindo nunca mais querer ver Eleonora.
Seguem-se vários capítulos em que a tristeza toma conta das duas personagens. Jenifer chora. Eleonora também. As famílias percebem a situação e os parentes começam a se envolver. Só Sebastião não parece ter noção do motivo da tristeza da filha. Essa fase da novela, em que Jenifer não aceita o afeto que a liga a Eleonora, persistiu do capítulo do dia 11 até o do dia 25 de novembro.
Nesse período, Jenifer inicia um relacionamento amoroso com outro personagem, o deputado Thomas Jefferson (Mário Frias), amigo do pai dela, como uma forma de reafirmar sua heterossexualidade. Mas o envolvimento não passa de alguns beijos e o deputado cobra uma intimidade maior com a namorada. Jefferson acaba por dizer que ouviu boatos sobre a amizade entre Jenifer e Eleonora. A simples menção a isso leva Jenifer à nova crise nervosa e a expulsar o namorado de casa. Jefferson conclui que suas suspeitas são verdadeiras e desiste da estudante.
Depois da discussão com o deputado, Jenifer se embebeda e vai para a frente da casa da médica. Janice, mãe de Eleonora, intervém, pedindo que Jenifer converse com a filha, mas a moça foge. Léo, como é chamada Eleonora, decide ir à casa da amiga e exigir que a situação seja esclarecida. Depois de muito relutar – e após receber conselhos do pai – Jenifer aceita conversar.
Dormindo juntas pela primeira vez A pedido de Jenifer, Eleonora a leva para um
discutem a situação. Jenifer diz não entender o que está acontecendo e Eleonora afirma que as duas vão ter que “descobrir juntas”. Elas se abraçam e a cena seguinte mostra as duas dormindo nuas em uma cama de casal, mas sem se tocar.
Na manhã seguinte, as namoradas acordam e debatem sua nova condição. Essa cena tem duas versões. Uma foi ao ar na televisão e é mais curta. A outra é 32 segundos mais longa e esteve disponível por alguns dias no site Globo Media Center. Na parte cortada pela televisão, Eleonora dá um selinho em Jenifer. Vestindo apenas roupa de baixo, Eleonora pergunta se Jenifer gostaria de tomar banho com ela. Jenifer responde “vou adorar”, levanta-se e as duas caminham juntas em direção a uma porta39.
Cena cortada na televisão, mas que foi ao ar na Internet
Consumado o namoro, Jenifer parece muito mais decidida. Os encontros tornam-se freqüentes e as noites são passadas juntas, longe de casa. Não demora para que haja reações familiares. Chamada para conversar, Jenifer defende o relacionamento frente ao pai, que se desorienta, mas aceita. Até então, as observações mais homofóbicas vêm do irmão, João Manoel, cujo namoro com Regininha foi a causa do primeiro contato entre as duas.
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Em reportagem publicada no jornal carioca O Dia, Rúbia Mazzini, afirma que Aguinaldo Silva, em entrevista, atribuiu os cortes a questões técnicas. “Como o capítulo estava muito grande e não havia
novidade nessa cena, ela até era um pouco repetitiva (grifo meu), foi cortada na edição. Não houve
censura, cenas de outros personagens também ficaram de fora”, teria dito Aguinaldo, de acordo com a reportagem. O autor disse ainda à repórter que as personagens já haviam se beijado na boca antes de formarem um casal. Para Aguinaldo, o fato de a cena estar na Internet é a prova de que não houve censura.
Na casa de Eleonora a situação se complica. A médica é expulsa de casa pelo pai, Sebastião, quando este percebe o que está acontecendo. Sebastião tem uma reação extremamente homofóbica, conservadora e heterocentrista, mas acaba voltando atrás quando vai ao hospital e vê a filha salvando uma vida. Sebastião decide que o fato de Eleonora salvar vidas é “mais importante do que qualquer outra coisa” e pede para a filha continuar morando na casa dele. Mas Eleonora acha que é hora de mudar-se. O casal então opta por viver junto.
Na noite de Ano Novo, Jenifer vai ao hospital onde Eleonora está de plantão para brindar o réveillon. Quando leva a namorada até a porta, Eleonora encontra um bebê abandonado na lixeira. Léo, que já havia externado o desejo de adotar uma criança, passa a cuidar do menino e decide iniciar um processo de adoção. As famílias se envolvem e apóiam a iniciativa de Léo, que acaba sendo encampada também por Jenifer, embora, legalmente, o menino vá ter vínculos legais apenas com a médica.
Giovani cede um apartamento para as moças, que passam a morar juntas. A Justiça acaba concedendo a guarda de Renato - nome que Eleonora dá à criança - à médica, que passa a criá-lo junto com Jenifer. Embora não seja mostrada a cena, o casal conta aos outros personagens ter ido a um cartório regularizar a união, na forma de uma parceria civil. A novela termina com o casal vivendo junto e com um filho.