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Changing Nw and capillary pressure while holding Diffusion coefficient

4.4 Tests for different values of D

4.4.3 Changing Nw and capillary pressure while holding Diffusion coefficient

Mosca e Pareto são, por via de regra, tratados de maneira conjunta pelos trabalhos referidos à teoria das elites. Os dois podem simples- mente ser colocados lado a lado, procedendo-se a um arrolamento de suas idéias, ou, de modo mais complexo, comparados e avaliados de forma sistemática, apontando-se semelhanças e diferenças entre suas teses básicas, indicando-se o alcance de cada uma.

Isso pode ser percebido até mesmo nos trabalhos centrados sobre apenas um dos dois autores. Assim, por exemplo, tanto James Meisel quanto Ettore Albertoni, dois dos mais assíduos e reconhe- cidos comentadores de Mosca, dedicam páginas a Pareto em seus textos.40 O mesmo ocorre com Arthur Livingston, editor america- no de Mosca e também de Pareto, em sua introdução ao próprio

The ruling class (Livingston, s.d.:xxxvi-xxxix).

Pelo lado dos comentadores de Pareto também é evidente o tratamento conjunto. Uma boa amostra é a introdução de S. E. Finer a Vilfredo Pareto. Sociological writings e o longo capítulo de

Raymond Aron dedicado ao autor italiano em As etapas do pensa- mento sociológico.41

Há portanto um forte entrelaçamento entre os dois pensa- dores, obrigando a que não se possa falar de um sem que ao menos se faça referência ao outro. Uma das razões para tanto, a mais ób- via, é a de que ambos estão localizados nas origens da teoria das elites. Se isso é óbvio, contudo, o é como efeito de imposição, resul- tado da disputa que Mosca e Pareto travaram em torno da prima- zia na elaboração da tese elitista. Foi essa disputa que, em grande parte, forçou o encadeamento entre os dois e, mais ainda, contri- buiu para a sua consolidação como fundadores da referida teoria.

A notoriedade de Pareto precedeu o seu Traité de sociologie générale, publicado em 1916, cerca de sete anos antes de sua mor-

te. Foi a partir da economia política, campo no qual se inscrevia a maior parte de seus trabalhos, que ele se impôs, se projetou, inclu- sive internacionalmente, como um dos expoentes do marginalis- mo, ao lado de nomes como os de William Stanley Jevons, Karl Menger e Léon Marie Esprit Walras. Mas suas teses sociológicas bá- sicas, relativas às elites e à sua circulação, vinham sendo formula- das mesmo em seus textos de cunho econômico, o que lhes em- prestava maior capacidade de reverberação e difusão.

Se Pareto era um autor bastante lido e conhecido, o mesmo não se pode dizer em relação a Mosca. Embora se tivesse iniciado na atividade acadêmica mais jovem, bem antes de Pareto, tanto no magistério quanto na publicação de textos, como autor Mosca era pouco difundido. Foi como político, principalmente, que ele se afir- mou, sendo suas posições conhecidas por suas intervenções na Câ- mara dos Deputados e depois no Senado, como também por seus artigos de jornal.

Esse fato foi notado por alguns de seus contemporâneos, como o escritor Giuseppe Prezzolini, que, em suas memórias, faz referência à pouca fama alcançada por Mosca na Itália (Prezzolini, 1983:258). Igualmente Mario Delle Piane, autor de uma bibliografia comentada do pensador, datada de meados dos anos 40, e do ver- bete a ele dedicado na International Encyclopedia of the Social Sciences, observa que as teses de Mosca sobre a classe dirigente

haviam obtido, no momento em que foram formuladas, pouco su- cesso e escassa difusão (Delle Piane, 1968:505). Arthur Livingston, mencionando esses mesmos aspectos, os atribui às características mentais de Mosca, moldadas pelo ambiente siciliano em que havia crescido, que determinavam um estilo de comportamento mais plácido, mais comedido, mais introvertido, evitando a pirotecnia, a exposição excessiva, a fama pública (Livingston, s.d.:xiv).

Contudo, é interessante observar, não era exatamente esse o estilo que Mosca adotava quando se tratava de demarcar sua ante- rioridade, de reivindicar sua originalidade na formulação da tese elitista diante de Pareto. Este, a despeito de ter publicado poste- riormente, alcançava maior repercussão e notoriedade, associan- do seu nome àquela que se buscava afirmar como uma novidade sociológica e, além disso, não atribuindo crédito a Mosca. Em uma aula magna proferida na Universidade de Turim em 1902, imedia- tamente após a publicação de Les systèmes socialistes, de Pareto,

do que, embora ainda em grande parte aceita na ciência política, a classificação tradicional das formas de governo como monarquia, aristocracia e democracia, originada em Aristóteles, vinha sendo posta em xeque, particularmente na Itália. Em uma alusão a seu livro Teorica dei governi e governo parlamentare — publicado em

1884, mas concluído um ano antes —, Mosca referiu-se a uma nova doutrina que vinha sendo desenvolvida desde 1883 (Mosca, 1949a:10). Essa teoria era conhecida há algum tempo, informando inclu- sive formulações mais recentes de outros autores, mesmo de fora da Itália:

No ano passado, um outro escritor italiano, o Rensi, em um trabalho no qual propugnava a democracia direta e comba- tia o princípio da representação política, baseava explicitamen- te sua tese na concepção científica já exposta na Itália.42 Essa concepção foi também adotada por Pareto na sua recentíssima obra sobre os sistemas socialistas, embora, ao contrário de Ren- si, e com estranho esquecimento, o nosso caríssimo professor da Universidade de Lausanne não tenha mencionado o escritor ita- liano que foi o primeiro a ter condições de formular a doutrina ora ardorosamente defendida por Pareto (Mosca, 1949a:11).43

Pareto respondeu à invectiva de Mosca em 1907, na primeira edição italiana do seu Manuel d’économie politique. Ali, em uma

nota, ele afirmou:

O prof. Mosca se queixa e fica muito aborrecido se não é citado quando se relembra o fato de que na sociedade é sempre um pequeno número que governa, e parece acreditar que foi ele quem descobriu isso. Para contentá-lo, transcrevo aqui os títulos das suas obras, das quais conheço apenas a última: Teorica dei governi e governo parlamentare, 1884; Le costituzioni moderne, 1887; e Elementi di scienza politica, 1896.

Na realidade, porém, o princípio que afirma que é a minoria que governa é conhecido há muito tempo. Trata-se de lugar- comum presente não apenas em obras científicas, mas até mesmo em produções exclusivamente literárias (apud Mosca, 1949b:116).

Pareto, como se vê, procura desqualificar o pleito de Mosca, negando, mais do que seu caráter de novidade, de originalidade, também o de cientificidade, remetendo-o a uma espécie de senso

comum, de intuição generalizada. E foi justamente por esse ponto que Mosca iniciou sua tréplica, no artigo “Piccola polemica”, publi- cado também em 1907, diferenciando pensamento científico de in- tuição popular e argumentando que o fato de o primeiro trabalhar com elementos da segunda não era suficiente para invalidá-lo (Mosca, 1949b:116-7).

Mosca também procurou desvincular Pareto da ciência, refe- rindo-se a ele repetidas vezes por seu título nobiliárquico de mar- quês, e não pelo acadêmico de professor, e deslegitimá-lo acusan- do-o de plágio:

É certo que o plágio nas ciências sociais não é tão fácil de constatar como nos trabalhos literários, uma vez que nas ciên- cias supramencionadas é o conceito, e não a forma, que tem a máxima importância, e um conceito pode sempre se repetir e reproduzir-se com palavras e frases diversas. No processo pelo qual ele se desenvolve e se coloca em evidência, um homem culto e de engenho pode sempre introduzir modificações e co- locar alguma coisa de seu. Mas quem está habituado aos estu- dos de crítica científica sabe perfeitamente o quanto é fácil, no fundo, discernir se um sistema de idéias surgiu espontaneamen- te em um escritor, como produto natural de uma elaboração to- talmente original, ou seja, de uma mentalidade que se forjou por si só e pouco a pouco se foi formando, ou se aquele sistema conserva os traços de uma elaboração precedente, de uma outra mente através da qual ele, ou um sistema muito similar, passou anteriormente (Mosca, 1949b:118-9).

Ainda que não possa ser ignorada, uma vez que assumiu uma dimensão pública, a concorrência entre os dois autores foi minimi- zada por alguns comentadores, sendo circunscrita, aliás, aos limi- tes impostos pelo próprio Pareto. Arthur Livingston, na introdução a The ruling class, depois de comentar a disputa, afirmou que de

uma perspectiva científica ela era irrelevante, visto não haver, em sua opinião, qualquer conexão histórica ou dialética entre as teo- rias da elite, de Pareto, e da classe dirigente, de Mosca (Livingston, s.d.:xxxvi). Também para o sociólogo Carlo Mongardini, a discus- são, nos termos em que era colocada, muito pouco tinha de científi- ca, contribuindo não para aclarar a questão básica em jogo, mas sim para torná-la ainda mais confusa. Segundo ele, o que uma aná- lise mais objetiva e documentada permitia concluir era que, se se- melhanças havia entre as formulações de Mosca e de Pareto, elas

deviam-se ao fato de que ambos partiam de uma raiz comum: as análises de Taine sobre a sociedade francesa.44

Mais recentemente, Ettore Albertoni, caminhando em uma linha próxima a esta, defendeu a idéia de que, em vez de se centrar na competição pela prioridade, deveriam ser enfatizados os afasta- mentos e proximidades das idéias, as influências mútuas de Mosca e de Pareto (Albertoni, 1990:147-51). E da mesma forma James Mei- sel, depois de acentuar que Mosca e Pareto haviam a contragosto se tornado parceiros, procura dissociá-los pela via da análise, da comparação entre suas teorias, buscando principalmente suas di- ferenças. Meisel o justifica com o argumento de que era preciso ir além dos juízos em jogo na concorrência entre os dois autores, que eram prejudiciais para ambos:

Assim a associação intelectual fere ambos os autores: Mosca perdeu o direito autoral à sua idéia, enquanto Pareto teve a sua reputação moral danificada e ele mesmo reduzido a um teórico da elite. Por uma ironia da história intelectual, os dois inimigos terminaram tornando-se, para sempre, gêmeos in- separáveis da escola lançada por Gaetano Mosca quando publi- cou seu primeiro grande trabalho, em 1884 (Meisel, 1965b:15-6).

Se apenas o fato de que, apesar de ignorarem formalmente a concorrência, os comentadores a incorporam, obrigando-se a com- parar e a tratar Mosca e Pareto por um lado de modo conjunto, e, por outro, a partir das percepções e das categorias impostas em larga medida pela própria disputa, já não fosse suficiente para res- saltar a sua relevância, bastaria atentar para os termos em que os dois autores a colocavam, para a sua insistência, para perceber que ela é altamente significativa, tendo por isso mesmo que ser levada na devida conta. Há que se destacar que, mais do que a primazia na formulação de uma tese, o que estava em jogo era a prioridade na descoberta de uma lei científica. Assim, pouco importava que ou- tros, mesmo literatos, em vários períodos já tivessem observado que era sempre uma minoria que governava, referindo-se a um fato tido como perfeitamente natural e evidente. O que se tratava efetivamente era de saber quem teria em primeiro lugar, nessa re- corrência, demonstrado a existência de uma norma, de uma regra universal, atribuindo-lhe o status de questão, e, ainda além, em um

contexto em que começava a prevalecer não o princípio do gover- no de uma minoria, e sim da maioria.