Ao longo deste capítulo analisámos o papel dos recursos familiares nos percursos académicos de licenciados na UL e na UNL em 2004/2005. Segundo os nossos apuramentos constatamos que os pais da maioria destes licenciados não atingiram o ensino superior. Ainda assim, o seu nível de instrução é relativamente elevado pois supera o da população nacional com idades semelhantes. Por outro lado, uma clara maioria destes licenciados é oriunda de classes mais capitalizadas, que também aqui assumem um peso francamente mais elevado do que aquele que conhecem junto da população portuguesa. Este quadro familiar realça uma forte tendência para o elitismo escolar e classista no acesso a estas universidades. Ainda assim existe uma percentagem não despiciente de licenciados UL/UNL que contraria o processo de reprodução social, procurando encetar percursos de mobilidade social ascendente alicerçados nos seus recém-obtidos diplomas académicos, um empreendimento que provavelmente, e até esse período, poderá ser bem-aventurado dado que a raridade relativa deste recurso académico na sociedade portuguesa aumenta o seu valor, e também as alterações na composição da estrutura ocupacional que têm ocorrido em
Portugal nas últimas décadas – a crescente “terciarização” da economia e
“servialização” das actividades económicas48– aumentam a sua procura.
As hipóteses de trabalho que colocámos perante esta população de licenciados, foram, em simultâneo, parcialmente confirmadas e progressivamente complexificadas. De facto, ao procurar perceber qual o impacto dos recursos familiares no trajecto académico dos licenciados da UL/UNL, conseguimos encontrar mais do que a relação directa que colocávamos como hipótese de partida. Constatámos que no momento de acesso ao ensino superior se torna visível um duplo processo de selecção social que se concretiza através da importância que os recursos familiares assumem tanto no acesso a estas universidades quanto no ingresso em áreas específicas de formação. Também na classificação final de curso se confirma a importância da capitalização socioeducacional e socioprofissional, no quadro de um efeito que apelidámos de “casulo familiar”. No entanto, observámos igualmente, e em contracorrente com as duas tendências que
48 O movimento de terciarização da economia é, grosso modo, caracterizado por um crescimento
exponencial do pessoal empregado no sector terciário da economia (comércio e serviços) – que requer
maiores qualificações escolares - e o decréscimo acentuado do emprego menos qualificado nos sectores primário e secundário (agricultura e indústria) (Rosa e Chitas 2010, 63). A noção de servialização da economia procura opor-se à noção de industrialização para dar conta da “lógica de serviço” na organização das actividades profissionais contemporâneas, uma transformação que necessita de mão-de- obra altamente qualificada (Almeida 2005, 53).
48 acabámos de explicitar, que a marca indelével da democratização também é visível. Primeiro porque o duplo mecanismo de selecção deixa passar entre as suas engrenagens um número considerável de indivíduos que tentam colmatar os seus deficits familiares e chegar mais longe do que o seu anunciado destino social, acalentando expectativas de mobilidade social. Segundo porque nem todos os descendentes de famílias especialmente capitalizadas conseguem materializar essa vantagem em mais-valias académicas, o que por sua vez abre um espaço maior para um processo democratizador com origem no interior do próprio ensino superior. Finalmente, a dissolução das vincadas distinções entre licenciados de acordo com os seus recursos familiares entre o momento de acesso e o de saída destas universidades pode revelar que a socialização escolar de que foram alvo contribuiu para mitigar as desigualdades originais, assim
como reforça o potencial democratizador do ensino49.
Note-se porém que os licenciados em estudo não reflectem a abertura do sistema
de ensino superior resultante das reformas de 2006. De facto, “Bolonha” e outras
políticas educativas produziram um espectro alargado de mudança nas características socio-demográficas dos alunos e na própria dinâmica interna das instituições académicas que, a nosso ver, devem ser consideradas em futuras análises a populações universitárias que, tal como esta, mobilizem o conceito de democratização do ensino. A expectável subida das médias etárias dos matriculados no ensino superior, motivada por um maior número de reingressos e entradas tardias, desloca inevitavelmente a análise das origens familiares para gerações mais longínquas que, no caso português,
geralmente possuem menores volumes de capital escolar e socioprofissional50. Essa
diferença pode suscitar um acréscimo de democratização do acesso ao ensino superior e, portanto, maiores fluxos de mobilidade intergeracional escolar e social. Por outro lado, se a chegada de alunos ao ensino superior através de “medidas protectoras” não for compensada por um crescimento proporcional do número de vagas, pode resultar num estreitamento das vias de acesso a determinadas áreas científicas de formação e,
49 A propósito de alunos do ensino básico em Portugal (no confronto com os seus agregados familiares)
João Sebastião Portugal e Sónia Correia também observam a presença destes processos sociais distintos que marcam o acesso ao ensino: “[…] é hoje claro que tendências contraditórias se debatem no seio daquilo que se costuma designar por sistema educativo, umas que indiciam uma maior abertura e democratização, outras que parecem desejar o regresso a uma escola de elites ainda mal ultrapassada” (Sebastião e Correia 2007, 35).
50 Uma tese de mestrado recente, onde se aborda os alunos que acederam ao ensino superior na
Universidade do Porto através do contingente de “maiores de 23 anos”, assinala que cerca de um terço destes alunos tem mais de 40 anos e provem de “famílias com fracos recursos económicos e educacionais tendo esta realidade impossibilitado o acesso de muitos ao ensino superior, no final do 12º ano” (Pereira 2009, 74).
49 portanto, num reforço dos mecanismos de sobreselecção. Posto isto, sugerimos que para analisar coortes académicas posteriores a 2006, se deva considerar o regime de acesso e a faixa etária dos indivíduos, especialmente quando se procura abordar as várias dimensões do conceito de democratização do ensino.
As ilações que apresentámos, a partir da análise aos recursos familiares dos licenciados UL/UNL em 2004/2005, sublinham, embora de forma parcial e sem a nitidez que reclamávamos a priori, a importância e heurística do quadro teórico bourdiano, assente nas premissas da reprodução cultural através dos processos educativos. Destacamos assim a relevante contribuição deste entendimento teórico na interpretação dos processos sociais que concorrem no universo em análise. Ainda que conceitos com o de habitus ou o de violência simbólica em contexto escolar nos coloquem sérias reservas e nos levem a propor, tal como outros autores sugerem (Abrantes 2011), uma revisão teórica profunda que entenda o carácter plural da sociologia como uma oportunidade e não como um constrangimento. De facto, o “presumível fatalismo” (idem, 278) que acompanha muitas das críticas à teoria da reprodução pode ser facilmente evitado, mesmo a partir da obra dos seus proponentes. Aliás, as críticas a estas propostas têm essencialmente acrescentado ângulos de análise distintos sem porém refutar as premissas centrais deste modelo.
Acreditamos assim que se deve assumir um entendimento integrador e não exclusivo perante a pluralidade teórica sociológica, e evitar assim cair numa idolatria exacerbada ou numa renúncia visceral de determinados contributos, sem antes avaliar em rigor o seu potencial explicativo face a um determinado objecto de estudo.
Esta investigação aponta para a necessidade de se encarar a escolaridade como o resultado de um processo relacional e dialéctico entre vários agentes que sofrem pressões constantes para “a integração e igualdade, por um lado, e para a selecção e segregação por outro, tanto maiores quanto o sistema educativo é decisivo para a estruturação dos actores e das sociedades” (Abrantes 2011, 279). Um jogo de forças que apesar de implicar que uma posição possidente na estrutura social favoreça a lógica de reprodução, não invalida os movimentos individuais ou colectivos de ruptura ou de inovação. Compreender estes processos e a forma como se relacionam, torna-se imprescindível para analisar os mecanismos sociais entre os indivíduos e a escola.
No capítulo seguinte desta dissertação, assumindo que os processos de democratização e reprodução também se podem constituir como uma forma de
50 interpretar a relação entre os indivíduos e o trabalho, iremos analisar os percursos profissionais dos licenciados UL/UNL após terminarem os seus cursos. Procuraremos responder a várias questões, especificamente, como se colocam estes licenciados no campo profissional? Será que também aí encontramos o mesmo tipo e grau de influência das origens sociais com que nos deparámos no meio académico? Qual o papel que desempenham as recém-adquiridas qualificações académicas no ingresso no mundo do trabalho?
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