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O desenho abaixo foi feito pela aluna VA, do 5º ano, sobre a aula do dia 29 de outubro de 2014, e refere-se ao "Jogo do Presente" realizado pelas meninas no quintal que é acoplado à sala. No centro inferior da imagem há o desenho da porta de ligação entre sala e quintal. No registro de VA, as alunas estão dispostas no ambiente como pedi: em uma roda, e uma aluna de cada vez se deslocaria ao encontro da outra, para presenteá-la. As meninas sorriem e suas bocas e narizes estão pintados de vermelho.

129 FIGURA 11 – Boca-nariz-vermelho

FIGURA 12 – Detalhe da menina de boca e nariz vermelho

Essas meninas desenhadas pela aluna VA remetem-me à minha infância. Eu adorava batom vermelho, sempre o passava para ir à escola ou passear. Analisar esse desenho de VA remete-me também a minha travessura de ter pintado todo meu rosto de batom vermelho, como narrado na apresentação biográfica, na introdução desta dissertação.

VA não pintou somente a boca das colegas, mas também o nariz, fazendo uma bolinha vermelha. Todas as meninas desenhadas têm suas bocas e narizes pintados de vermelho.

Qual a relação desse desenho com o jogo que estava sendo realizado? Será que uma delas imaginou ter ganhado um batom vermelho? Será que, enquanto improvisavam,

130 surgiu algo relacionado ao palhaço? Ou será que o nariz vermelho existe no desenho como registro por alguma menina ter coçado-o, até que ficasse vermelho? Alergia? Choro? Ou faz relação com o que VA escreve de sua experiência com o jogo: ter ganhado frutas, dentre elas uma melancia? (ver transcrição de seu texto abaixo).

A premissa da sociologia da infância é o do adulto perceber e ouvir a criança. Lembrar-se de si quando criança contribui na ação de compreender e ouvir a criança, partindo da realidade dela. Assim, permito-me lançar outra possibilidade aos narizes vermelhos de VA (inspirada na memória de minha própria infância): VA, ao colorir a boca, pode ter esbarrado sua caneta vermelha no nariz e ter decidido pintá-lo todo, ao invés de tentar "apagar o borrão" e, ter feito o mesmo para o nariz das demais meninas desenhadas. Essa outra possibilidade de interpretação foi-me inspirada pela minha travessura na infância de pintar todo o meu rosto de batom vermelho: lembro-me bem que meu objetivo inicial era somente passar o batom nos lábios. Mas, ao borrá-lo um pouco, preferi aumentar a boca a limpar o borrão. E uma sequência de borrões culminou no meu rosto completamente tampado de vermelho, pois aí o "acidente" se transformara em brincadeira. Será que o motivo de VA ter colorido, dessa maneira, as bocas e narizes de suas meninas desenhadas se assemelha a esse fato feito por mim em minha infância? Nunca vi VA nas aulas de batom vermelho, em verdade, batom nenhum.

Além do registro visual, VA também escreveu no diário:

A aula de teatro foi muito legal. As meninas fizeram coisas legais. O jogo que foi dado na aula foi: qual é o seu presente. Na minha vez eu fiz um ramster gigante que eu ganhei de presente. A SA adivinhou uma parte. Ela falou ramster, mas só que ela não falou gigante. E uma outra mímica que eu fiz foi que eu ganhei um melão, um morango e uma melancia, tudo gigante. Algumas pessoas acertaram os nomes das frutas, só que não falaram a palavra gigante. Eu queria agradecer, porque no dia as pessoas brincaram e conversaram menos. A brincadeira foi separada: meninas para um lado e meninos para o outro. Uma hora a nossa professora Hortência ficou com os meninos, que foi a maioria do tempo, e com as meninas ficou só um pouco. (Sic) (VA, Diário de Bordo das crianças do 5º ano, dia 29/10/14)

Procuro perceber como opera a imaginação da criança. A aluna imaginou ter ganhado vários presentes, de animal (como o ramster) a diferentes frutas. Porém, não era um ramster ou uma fruta qualquer, mas sim gigantes. O fato de a colega não ter adivinhado e não ter falado a palavra "gigante" foi relevante para VA. Para ela, a informação de seus presentes imaginados serem gigantes era essencial. Neste ponto percebo uma possível falha minha

131 como professora, eu poderia ter orientado a VA como mostrar às demais quão grandes eram seus presentes imaginados. Não o fiz porque não acompanhei as alunas todo o tempo no quintal, não sei como VA mostrou seus presentes, como se comunicou corporalmente. Naquele momento, minhas ações de ver e ouvir dirigiam-se aos meninos na sala de aula.

Analisando as observações etnográficas e os registros das crianças, percebo nesse jogo um momento de exercício da imaginação e de criação a partir das ideias do próprio aluno. Pela interpretação dos relatos, posso dizer que esse jogo de Impro foi realizado com prazer pelos alunos (em sua maioria) e que foram trabalhados o estímulo à imaginação e a aceitação e valorização de suas próprias ideias.

No desenho não vemos uma associação com os presentes imaginados, o ramster ou as frutas. Mas vemos, de maneira muito clara, serem somente meninas realizando o jogo naquele espaço do quintal. A aluna VA escreve que as meninas fizerem coisas legais, e as desenha sorrindo com suas bocas vermelhas. Surpreendi-me com esse registro no diário, pois, na cotidianidade de nossas aulas, não a percebia tão interessada e participativa quanto a leitura do diário me permitiu ver. Ela parece ter gostado da separação por gênero para realizarem o jogo. Infiro que esse "Jogo do Presente" foi uma atividade feliz desenvolvida com as crianças. Ainda acrescido ao fato da divisão entre meninos e meninas para sua realização – uma ação atípica em nossa aula, que parece ter gerado certa euforia pela experiência, principalmente por parte das alunas.