Frente às evidências de que ainda se percebe preconceito em função de traços
psicodemográficos, seria natural deduzir que os GP’s que os detêm precisam desenvolver
atitudes e habilidades que os aproximem do grupo dominante. Compreendemos esse fenômeno como a perda de uma identidade em contraponto ao ganho de uma alteridade.
Nesse ponto, observamos através de relatos que existem: introjeções e mimetismos, onde o GP precisa mudar seu comportamento para se conformar ao comportamento ditado e esperado pelo grupo dominante. Assim, apresentamos os seguintes fragmentos de discurso que retratam as mudanças de vestuário e comportamentais:
Eu acho que é mais a questão dela se impor, entendeu? O que ela vai fazer da vida dela é problema dela. Entendeu? Assim como a mulher, tem que saber se impor. Não pode usar decote. […] Você tem que se impor. É a mesma coisa com um homossexual. (E02)
Eu tentava me vestir de uma forma mais neutra. Eu sou uma pessoa que se veste de uma forma mais clássica, mas muito rosinha, esse tipo de coisa eu matava, eu me policiava para não ter esse tipo de comportamento. (E13)
Agora, em muitos momentos eu tive que falar grosso, tive que me impor muito. (E14)
Um pouco, um pouco. Eu já tenho um comportamento, um linguajar um pouco masculino mesmo. Dependendo da forma, eu acabo sendo um pouco grossa. Mas sim, tive que ter um jeito mais masculino, até porque não é qualquer mulher que ia aguentar ali não. Muitas iam sair chorando, iam pedir pra sair. Ninguém aguentou ficar lá muito tempo. A única mulher que trabalhou nesse projeto fui eu. (E14)
Curiosamente, identificamos discursos que revelaram a existência do preconceito de gênero por membros de uma mesma minoria. No caso, GP’s mulheres que explicitamente externaram o preconceito em trabalhar com outros stakeholders mulheres. Nesse ponto, percebemos uma introjeção da lógica androcêntrica, onde um indivíduo perde a identidade de si mesmo para aceitar a do grupo dominante. No caso, o não reconhecimento de si mesmo como a mulher discriminada, mas como aquela que assume a figura do homem que discrimina; o próprio discurso se aproxima àquele utilizado pelos homens, ao discriminar mulheres por seus pretensos lados frágil e emotivo:
Pra você, esses aspectos psicodemográficos ele pesam ou não? Olha só: pesam! Eu não gosto. [pausa] Eu sou preconceituosa. Eu não gosto de trabalhar com mulher. (E02)
Eu trabalhei com duas mulheres que era assim: parecia que estavam de TMP o dia inteiro. […] Então eu tenho um certo preconceito de trabalhar com mulher. Eu acho que mulher é mais temperamental que homem. (E02)
Ainda sobre a introjeção da lógica androcêntrica, percebemos que também se exige de
GP’s mulheres e homossexuais uma mudança comportamental. Alguns trejeitos e modos
precisaram ser arquivados, dando lugar a um jeito masculinizado de realizar as tarefas. Ou ainda, um custo emocional grande em não deixar aflorar sentimentos e comportamentos reais. Assim, trazemos:
Em relação a ser mulher na empresa, ou algo desse tipo, quando eu comecei a trabalhar eu me cobrava muito mais, eu não sentia essa cobrança da empresa, mas eu me sentia por estar trabalhando em um ambiente extremamente masculino. Então eu me cobrava mais não ter o comportamento de mulherzinha, digamos assim. (E13)
Eu acho que para o homem é um pouco mais fácil pelo fato de falar a mesa língua, de não ter problema de interpretação, de ninguém achar nada, de não ter esse problema. Não é a primeira pessoa que me pergunta isso, e eu já vi pessoas falando da dificuldade, gerente que trabalha comigo que foi mal interpretada. […] Fiz uma ginástica maior. Na verdade eu comecei a observar qual seria o melhor jeito de abordar aquele cliente para conseguir o que eu precisava. Conseguir para o projeto andar. Comecei a observar mais, e no fim funcionou. (E13)
Mas eu também já tive as minhas crises femininas também. Toda mulher tem, não adianta. Que eu nem sei se foi crise feminina, eu acho que por eu ser mulher eu acabei agindo desse jeito. […] Porque não adianta, toda mulher precisa desabafar, deixa ela falar. Não dá opinião nenhuma, não precisa nem assimilar o que ela está falando. É só ficar olhando. (E14)
O mimetismo do GP com seus stakeholders, contudo, também foi descortinado pelas revelações do campo. Nele, o profissional precisou identificar a forma comportamental de
seus clientes e mudar seu comportamento e aparência, vestindo uma máscara de representação para ser aceito naquele grupo. Assim:
Eu acho que cada cliente tem uma particularidade, tem um relacionamento diferente. E principalmente, a gente está falando de soft skills. E aí, soft skills sim, é preciso de lidar com clientes de maneiras diferentes. Porque a gestão de projetos são feitas com pessoas, né? Não vou citar a definição do PMI, mas são feitas com pessoas. E pessoas têm approach diferentes. Tem pessoas que precisam de um comportamento diferente. Eu acho que um bom gerente de projetos é aquele que consegue perceber em que ambiente ele está se metendo, que ecossistema ele está se metendo, e consegue se adaptar a esse ecossistema. (E07)
De forma mais enfática, E07 resume com a seleção lexical “camaleão” a necessidade mimética do GP para com o ambiente que o circunda, ao se relacionar com seus stakeholders:
Camaleão, no sentido de comportar-se diferente com pessoas diferentes. (E07)
Esse jogo de se camuflar em um novo ambiente e grupo é corroborado por E08, em
específico com seleção lexical “cada um você fala de um jeito, às vezes a mesma informação você tem que falar de forma diferente”:
Mas, como a maior parte do tempo é você se relacionar com as pessoas que estão no projeto, com as pessoas que não são da equipe, mas que fazem parte, como os stakeholders. Porque pra cada um você fala de um jeito, às vezes a mesma informação você tem que falar de forma diferente. Então acho que é importante você saber lidar com a mesma situação de ângulos distintos. (E08)
O mesmo se percebe por E13, quando menciona “o conhecer o cliente, a observação, se adequar, é fundamental para mim”:
Eu acho fundamental, na verdade. Já teve projetos que eu fui trabalhar a primeira vez com o cliente, eu não conhecia o cliente. A partir do momento que o segundo projeto apareceu, eu tomei cuidados que na primeira vez eu achei que não era necessário. Não era necessário esse tipo de cuidado. Então, o conhecer o cliente, a observação, se adequar, é fundamental para mim. (E13)
Em especial, recortamos um fragmento da fala de E12, o qual ilustra precisamente tal
processo mimético quando seu grupo destoou dos stakeholders clientes e causou um enorme desconforto e afastamento por conta da forma de se vestir. O sucesso do projeto, entre outros fatores, também se coligava a forma própria de se apresentar e interagir com os clientes, destacado pela seleção lexical “eles ficavam constrangidos de falar, de conversar. Então, a gente pegou e falou: -‘Olha, aboliu o terno. Vai todo mundo agora passar a usar calça jeans’”:
E a gente, até por estar prestando serviço em cliente, a gente sempre andava muito bem arrumado. Os rapazes de terno, pastinha... E uma vez, numa reunião com o presidente do banco, ele pediu pra que a gente não se arrumasse tanto. Porque isso estava constrangendo o pessoal das agências, que eram pessoas simples, humildes. Ai eles viam aquele grupo de consultores chegando lá na agência [rindo] e eles ficavam constrangidos, achando que eram pessoas assim de um... de um outro nível. E eles ficavam constrangidos de falar, de conversar. Então, a gente pegou e falou: - "Olha, aboliu o terno. Vai todo mundo agora passar a usar calça jeans. Não tem porque andar de terno. Só quando for uma reunião com o presidente do banco, uma coisa assim. Mas, no dia a dia aqui do projeto, a gente vai relaxar na vestimenta."
Então isso é uma coisa que eu acho que, que dependendo de onde você está, vai influenciar. (E12)
O mimetismo deve incluir, além do comportamental e da aparência, o vocabulário e as regras básicas do negócio e do ambiente em que o GP está sendo inserido para conduzir seu trabalho. Isso nos é revelado pelos segmentos lexicais “e começar a entender de armas, de fuzil, de guardar bala”, “tinha que falar grosso, a vestimenta tinha que ser de outra forma” e “às vezes até a forma que você senta, que você se coloca, tinha que ter esse cuidado”, contido
nas falas abaixo de E14:
Eu fiz um projeto que foi na ORGÃO_PUBLICO, no complexo X, ali no Jacarezinho [perigosa área favelizada na zona norte do Rio de Janeiro]. […] E a gente estava fazendo a gestão da obra, e era assim: reunião, eles tiravam o fuzil e falavam: -“Esse projeto tem que dar certo!” E a única coisa que eu falava: -“Mas vai dar. Não se preocupa não.” Porque, pedindo desse jeito, fica tranquilo que vai dar certo [rindo]. […] E começar a entender de armas, de fuzil, de guardar bala. Foi uma experiência incrível. Espero não ter que participar de novo. Valeu a experiência, foi legal. Mas você ter que lidar com um linguajar que não é nem um pouco feminino, nem um pouco mesmo. Você tem que andar com bota. Era uma sensação estranha... (E14)
Tinha que falar grosso, a vestimenta tinha que ser de outra forma, jamais podia usar um vestido lá, tinha que ser calça, blusa, manda comprida. Às vezes até a forma que você senta, que você se coloca, tinha que ter esse cuidado. (E14)
Então, aqui, a empresa que eu estou agora é mais flexível com os prazos, as entregas. O cronograma é bem esticado. Então o nível de exigência é um pouco menor. Só que eu cheguei com a cultura da outra empresa, o sangue estava na veia pulando, de prazo, aquela coisa da cobrança. Então eu cheguei aqui implantando um esquema meu, que eu já trazia ao longo do tempo. Então, eu não fui muito político. Eu não tive uma relação afetiva, eu tive uma relação de cumprimento de meta. E isso acabou me afastando um pouco da minha equipe por conta disso. Até que, orientado por uma pessoa mais experiente, e realmente vendo que eu estava exagerando um pouco, eu tive que mudar, me adaptar pra poder estar dentro da cultura da empresa. (E16)
O mimetismo voltado aos traços pessoalizantes também foi percebido como forma de integração e progressão. Em um relato de um GP homossexual (E17), recortado no segmento
lexical “Isso inclui falar de futebol, falar de mulher, de todas as coisas que não é o seu dia a dia normal, você tem que trabalhar”, percebemos a necessidade de se extrapolar o universo pessoal para se estabelecer vínculos pessoais com o cliente:
Isso inclui falar de futebol, falar de mulher, de todas as coisas que não é o seu dia a dia normal, você tem que trabalhar. Você tem que sair, olhar o grupo que você está, ver qual a homogeneidade desse grupo, e se tiver coisas que são completamente fora do seu padrão de vida, você tem que buscar um pouco dessas coisas pra que você torne essa equipe coesa para obter sucesso no projeto. (E17)
Agindo assim, o meu sucesso profissional está por agir dessa maneira. Por ter sempre esse insight de ver o grupo, ver como se comporta esse grupo, e passar a atuar junto com eles, e nunca contra eles. (E17)
Inferimos portanto que uma característica fundamental ao GP é se mimetizar ao ambiente e contexto em que seu projeto acontece, sendo a aparência física um importante fator para seu sucesso e consequente progressão.
Até aqui, abordamos visões recordadas das experiências do GP’s voltadas para si, enquanto seus próprios traços psicodemográficos. Entendemos como válido para essa pesquisa, entender como uma dada psicodemografia observa e se comporta frente a outras psicodemografias. Abordamos isso na próxima subseção.