Globalização é um processo que pode transformar o mundo num espaço comum, eliminando as diferenças entre as nações e aproximando as culturas para a convivência pacífica. Constitui a “(…) crystallization of the world as a single place” (Alden, Steemkamp e Batra, 1999, p.83), já que tudo o que acontece em qualquer lugar é notícia, tem efeito e influencia qualquer indivíduo em qualquer ponto do planeta.
O termo globalização tem sido usado para descrever o actual processo de reestruturação político-económica mundial. A nova relação do capital com o trabalho envolve processos multidimensionais e transnacionais, dada a relevância e actuação das multinacionais a nível global, que ultrapassam as limitações impostas pelas fronteiras nacionais, limitando o
papel do Estado. A globalização é “(...) um conjunto variado de processos que avançam
graças a uma mistura de apoios políticos e económicos. Está a alterar a vida quotidiana,
(...), ao mesmo tempo que cria novos sistemas e poderes transnacionais (Giddens, 1999, p.38)”. Para Giddens (1998, 1999), Llosa (2001) e Wallerstein (1999, 2000a, 2000b) este é um processo de evolução da Humanidade que pode contribuir para que surja um novo sistema mundial democrático e igualitário.
Os defensores da globalização encaram-na como a forma de proporcionar mais riqueza e informação às populações mais afastadas dos centros de decisão. A globalização pode criar as condições para acabar ou pelo menos amenizar as desigualdades existentes através de uma melhor repartição de riqueza e sobretudo através da igualdade de oportunidades, constituindo um verdadeiro avanço para a democracia e paz mundial. Este processo “(...)
tem associado a igualização através da «interacção global» (...) integrando os actores em processos sociais comuns e universais (Therborn, 1999, p.66)”. Para Therborn, associando
este processo a um movimento educativo e de informação pode-se alcançar a igualdade de direitos através da igualdade de capacidades. Os movimentos no sentido da abertura das fronteiras e da adesão aos mercados mundiais acompanhados das pressões para a extensão da democracia a grande número de países e a defesa dos direitos humanos são contribuições positivas. Mas, para Therborn o saldo apenas será positivo se estas políticas acentuarem a educação, para proporcionar conhecimentos e formação, para fornecer capacidades para cumprir funções, para construir valores e normas que defendam a igualização de direitos. A evolução tecnológica produziu e está a produzir significativas transformações sociais e económicas. A massificação a nível mundial da informação e das comunicações terá como consequência um potencial aumento dos níveis de conhecimento, de riqueza e mesmo de rendimento em todo mundo (Weidenbaum, 2002). O desenvolvimento que ocorre neste período possibilita uma melhoria das condições de vida da generalidade das populações, mas para que se torne efectivo é necessário que se desenvolvam e incentivem sentimentos de solidariedade entre os povos (Therborn, 1999).
A globalização desenvolve movimentos e tendências integradoras, mas tem também associados movimentos de sinal contrário, “(...) a fragmentação (...)” e a “(...)
desintegração dentro e entre as nações (...)” (Gómez, 1999, p.132). Se por um lado
tecnologias porque dispensam grande número de postos de trabalho (Santos, 1998), por outro lado a concentração das forças de produção e capitais em apenas alguns países produz inevitavelmente, no início do processo de globalização maiores assimetrias (Martin e Schuman, 1999). Caso essas desigualdades não sejam corrigidas multiplicarão as tensões sociais, direccionando a sociedade para um caminho que pode conduzir ao colapso (Murteira, 1995; Therborn, 1999; Chomsky, 1999). Estas situações podem alimentar uma cultura de ódios e proporcionar condições para que se construam imagens e ideias carregadas de sentido negativo associadas às diferenças culturais e de desenvolvimento. A impopularidade dos Estados Unidos da América nos países do Médio Oriente, a crise na Palestina e as condições que levaram aos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001 (Chomsky, 2003) são sinais do que se pode estar a criar.
Com os mercados globais temos assistido a um aumento sempre crescente da produção e trocas de mercadorias a nível mundial, acompanhado pelo acelerar da deslocação de pessoas. A emigração, o retorno ou a simples visita dos emigrantes aos seus locais de origem e o grande crescimento do turismo (Belk e Costa, 1998; Calantone et al., 1989), provocam um acelerar da permuta de influências e trazem consigo novas questões para o debate político e social, o multiculturismo e o exacerbar das diferenças no nível de rendimentos. Estes condicionalismos permitem-nos considerar que a teoria neoclássica de consumo está desajustada da realidade actual, do mundo e economia contemporânea, “(...)
the theory cannot deal with the features of globalization that bear on consumers in poor countries.” (James, 2000, p.537). Os contactos entre as culturas que possuem mais meios e
aquelas que são mais pobres têm tendência a aumentar as expectativas de consumo dos indivíduos naturais de regiões mais desfavorecidas, colocando em perigo o próprio processo de globalização. Podem dar origem a reacções negativas com base na desigualdade existente fortalecendo a polarização de classes, alimentando frustrações, o
stress, o materialismo e ameaças ao ambiente em vez de dinamizar a democratização (Ger
e Belk, 1996).
Tal como em outros processos de desenvolvimento, o processo de globalização nunca pode envolver todos os indivíduos. Existem ainda hoje populações que não abandonaram o estado arcaico da sobrevivência. Porém, a exclusão pode resultar não de uma opção de vida, mas do facto de o actual processo de desenvolvimento criar “perdedores” (Stiglitz,
2002b), para os quais a sociedade tem de criar alternativas que permitam a sua reintegração ou sobrevivência, o que só será possível através de políticas específicas de apoio ao desenvolvimento local (Danson, 1998) e à formação dinamizadora (Loble, 2001). Criar alternativas económicas aos mercados mundiais é importante para fomentar as raízes que possibilitem a integração social e a afirmação das identidades próprias. São necessários mercados locais ou específicos para os indivíduos se reverem socialmente, alimentarem a criatividade e a estabilidade económica individual para se conseguir a coesão social (Ekins, 1998). As dificuldades locais que surgem através do processo de globalização e da facilidade de comunicação assumem a relevância de problemas mundiais (Paterson, 1999), constituindo um benefício que tem que ser aproveitado para aproximar as nações.
Os princípios da World Trade Organization defendem a integração económica com a salvaguarda das identidades culturais, dos direitos sociais e de trabalho bem como de políticas ambientais para o mundo, pelo que se existir um empenho efectivo por parte de todos os países o processo de globalização apresenta-se como um benefício para o planeta (Bagwell e Staiger, 2001), “(...) globalization is an unmixed blessing with the potential to
boost productivity and living standards everywhere.” (The Economist, 1997a, p.103). A
globalização é um acontecimento que se repete na história com apenas algumas diferenças (Wolf, 2001) e cujos efeitos em matéria económica e social não são mais prejudiciais do que os que resultam de políticas que se opõem a este processo (The Economist, 1997a; 1997b; 1997c; 1997d; 1997e; 1997f; 1997g; 1997h).
É necessária “(...) uma nova abordagem (...) que permita enfrentar as mudanças à escala
global (...) «para que possa produzir prosperidade e solidariedade social.»” (Giddens,
1999, citando Tony Blair).